| A.
ESCOLHA DO LOCAL DE TRATAMENTO OU DA MORADIA
Pacientes com esquizofrenia podem
receber tratamento em uma variedade de locais. A escolha
de um deles pode ser orientada por inúmeros fatores,
resumidos na Tabela 6. Em geral, os pacientes devem
ser tratados no ambiente menos restritivo com probabilidade
de ser seguro e que permita o tratamento efetivo.
B.
LOCAIS DE TRATAMENTO COMUNS
1. Hospitais
O tratamento hospitalar tem a vantagem
de fornecer um ambiente seguro, estruturado e supervisionado
e reduzir o estresse tanto dos pacientes como dos membros
da família. Ele permite que o psiquiatra monitore
rigorosamente o nível de sintomas do paciente,
seu nível de funcionamento e suas reações
ao tratamento, bem como os efeitos colaterais do tratamento.
A
hospitalização a em geral indicada para
indivíduos considerados séria ameaça
de dano a si mesmos ou a outros ou que, por estarem
gravemente desorganizados ou sob a influência
de delírios ou alucinações, são
incapazes de cuidar de si mesmos e necessitam de constante
supervisão ou apoio. Outras possíveis
indicações para hospitalização
incluem problemas médicos ou psiquiátricos
gerais que tornem o tratamento ambulatorial inseguro
ou ineficaz (p. ex., se a condição psiquiátrica
de um paciente continua a deteriorar-se a despeito de
tratamento ideal na comunidade). Pacientes que não
podem ser adequadamente tratados em ambientes não-hospitalares
devem ser hospitalizados voluntariamente, se possível.
Se os pacientes se recusarem, eles podem ser hospitalizados
involuntariamente, caso suas condições
satisfizerem os critérios para internação
involuntária da jurisdição local.
Tratamentos
alternativos devem ser considerados quando há
dúvidas quanto à necessidade de internação
ou quando o paciente não necessita de hospitalização
formal, mas requer serviços intensivos que podem
ser fornecidos por um ambiente ambulatorial típico
(560). Os locais alternativos podem incluir tratamento
alternativo na comunidade, hospital-dia ou parcial,
tratamento domiciliar, terapia de crise familiar, tratamento
residencial da crise, ou tratamento assertivo na comunidade
(ver Parte B, Seção VC.1.a). Uma metanálise
recente demonstrou que tais alternativas à hospitalização
para pacientes muito doentes podem ser menos ou mais
efetivas do que a hospitalização em termos
de redução de perda para acompanhamento,
redução da carga familiar e aumento da
satisfação do paciente e da família,
sem grandes diferenças de custo (561). Esses
programas de intervenção na crise geralmente
fornecem medicação e uma equipe multidisciplinar
que esta disponível fora dos horários
tradicionais de consultório.Outros estudos demonstraram
que a intervenção na crise pode estar
associada a redução de sintomas, preservação
do funcionamento do papel e redução das
taxas de reinternação hospitalar (181,
562 a 570).
Os
pacientes podem ser mudados de um nível de cuidado
para outro com base nos fatores resumidos na Tabela
6, com uma avaliação continua de sua disposição
e capacidade de beneficiarem-se de um nível diferente
de cuidado. A escolha da residência deve ser orientada
pela disponibilidade de moradia e de programas de apoio
psiquiátrico associado, bem como pelas preferências
e recursos do paciente e da família.
Tendo
em vista que o objetivo principal da hospitalização
a facilitar a resolução rápida
de sintomas agudos através do fornecimento de
um ambiente terapêutico seguro, não estressante,
o ambiente hospitalar deve ser organizado para que seja
possível alcançar esse objetivo. Em consideração
aos sintomas graves e ao prejuízo cognitivo na
esquizofrenia aguda, o ambiente hospitalar deve ser
altamente estruturado; os membros da equipe devem ser
claramente identificáveis e usar crachás
com ou sem uniformes; calendários e relógios
devem estar em evidência; e os programas da enfermaria
devem ser afixados para fornecer uma estrutura externa
bem definida para os pacientes que, com freqüência,
tem testes de realidade desorganizados e prejudicados
(571).
Tabela
6. Fatores que afetam a escolha do local de tratamento
ou de moradia |
| |
Disponibilidade
do local ou da moradia
A condição clínica do paciente
Necessidade de proteção
contra dano a si mesmo ou a outros
Necessidade de estrutura e apoio
externos
Capacidade de cooperar com o
tratamento
Preferências do paciente e da família
Requisitos do plano de tratamento
Necessidade de determinado tratamento
ou determinadaintensidade de tratamento
que pode estar disponível apenasem certos
locais
Necessidade de tratamento específico
para uma condição médicapsiquiátrica
ou outra condição medica geral co-mórbida
Características do local
Graus de apoio, estrutura e contenção
Capacidade de proteger o paciente
de dano a si mesmo ou aoutros
Disponibilidade de diferentes
modalidades de tratamento,incluindo cuidado médico
geral e serviços de reabilitação
Disponibilidade de apoio psicossocial
para facilitar o recebimentode tratamento
e dar informações importantes ao
psiquiatrasobre o estado clinico
do paciente e sobre a resposta aostratamentos
Capacidade de cuidar de pacientes
gravemente agitados oupsicóticos
Horário de funcionamento
Ambiente global e filosofia
de tratamento
Ambiente e circunstâncias atuais do paciente
Funcionamento familiar
Apoios sociais disponíveis |
Para
pacientes agudamente doentes, cujos sintomas psicóticos
respondem rapidamente a medicação antipsicótica,
uma hospitalização breve, seguida por
hospitalização-dia, quando indicado, demonstrou
ser tão ou mais eficaz do que hospitalizações
de longo prazo, sem aumento na taxa de reinternação
e melhor manutenção do funcionamento do
papel e menos carga familiar em um e dois anos de acompanhamento
(571, 572). lnúmeros estudos aleatórios
controlados compararam durações de hospitalização
mais curtas e mais longas. Nos EUA, a duração
média mais curta de estudos de hospitalização
foi de 11 dias, comparada com uma estada média
de 60 dias para o grupo de controle (572), enquanto
na Inglaterra Hirsch e colaboradores (573) compararam
resultados para uma estada média de nove dias
com os resultados para uma estada média de 14
dias. Outros estudos examinaram os efeitos de hospitalizações
mais curtas e mais longas, mas a conclusão de
todos eles foi que a hospitalização mais
longa não conferiu benefício adicional
sobre a mais curta em áreas como melhora dos
sintomas, ajustamento à comunidade e taxa de
reinternação (574 a 584). A hospitalização
breve permite o tratamento efetivo no ambiente menos
restritivo, mas é ideal apenas quando há
um sistema de cuidado da comunidade ativo e os pacientes
aderem ao tratamento de acompanhamento. Isso permite
o tratamento efetivo no ambiente menos restritivo. Portanto,
quando não há mais uma necessidade bem
definida para o paciente permanecer no hospital e o
tratamento na comunidade existe e é acessível,
o psiquiatra deve considerar sua alta. Todavia, se não
existe tratamento adequado e recursos de apoio na comunidade,
os pacientes não podem receber alta até
que tenham alcançado remissão suficiente
que os permita funcionar na comunidade sem tais apoios.
2. Hospitalização
de longo prazo
Antes da introdução da clozapina,
10 a 20% das pessoas com esquizofrenia permaneciam gravemente
psicóticas e prejudicadas funcionalmente a despeito
do tratamento farmacológico e convencional ideal
(585). O grau de diminuição dessa-porcentagem
pela disponibilidade da clozapina e outros agentes a
incerto, mas ainda resta um grupo de pacientes que requerem
hospitalização supervisionada, de longo
prazo, para sua própria segurança e proteção,
bem como para a proteção da família
e da comunidade (586 a 588).
A
organização da enfermaria de longa permanência,
o treinamento e os deveres de seu pessoal, e a qualidade
do cuidado fornecido variam enormemente e determinam
o valor terapêutico da experiência hospitalar
(589, 590). Alguns estudos tem sugerido que pacientes
com esquizofrenia resistente a tratamento que precisam
hospitalização de longo prazo beneficiam-se
mais de programas de tratamento que enfatizam técnicas
comportamentais altamente estruturadas, incluindo economia
de fichas, sistemas de pontos e treinamento de habilidades
que podem melhorar o seu funcionamento (591, 592). Paradoxalmente,
a despeito de sua eficácia demonstrada, a economia
de fichas não a usada com freqüência
em ambientes clínicos (593, 594). Os obstáculos
a sua implementação incluem resistência
do pessoal do hospital, que se apega fortemente aos
métodos tradicionais de custódia, custos
aumentados (pelos reforçadores suportando as
fichas), falta de apoio dos administradores e treinamento
inadequado do corpo clínico.
3. Programas residenciais de
crise
O tratamento de pacientes fora de
grandes instituições é um objetivo
fundamental da psiquiatria comunitária, o qual
cria a necessidade de cuidado agudo adequado baseado
na comunidade como parte da série abrangente
de serviços necessários para apoiar pessoas
com doença mental séria na comunidade.
Em muitos sistemas de saúde mental, episódios
de tratamento agudo envolvendo hospitalização
são o único maior elemento de custo na
série de serviços necessários para
fornecer tratamento na comunidade. Serviços residenciais
da crise são casas em bairros, equipadas com
pessoal especializado e organizadas para aceitar e tratar
pacientes com doença mental séria, em
vez de internação psiquiátrica
voluntária. Os programas residenciais de crise
1) fornecem monitoração de curto prazo
e intervenção na crise em um ambiente
residencial, não-hospitalar, como uma alternativa
a tratamento hospitalar; 2) funcionam 24 horas por dia/sete
dias por semana; e 3) apóiam os pacientes mantendo
a continuidade de suas guardas e rede social fora do
hospital durante o episódio de tratamento agudo.
Os modelos residenciais da crise foram estudados como
alternativas à hospitalização para
pacientes com doença mental seria que 1) estão
dispostos a aceitar tratamento voluntário, 2)
não requerem avaliação médica
emergencial para uma condição médica
instável e 3) não requerem desintoxicação
de substância. Os achados de três experiências
controladas aleatórias indicam que o programa
residencial da crise pode ter resultados clínicos
comparáveis aqueles do tratamento hospitalar,
com um custo significativamente menor. Além disso,
modelos residenciais da crise foram integrados com sucesso
a sistemas de saúde mental em projetos de demonstração
em uma ampla série de comunidades nos EUA e no
exterior. Modelos-residenciais da crise de -cuidado
agudo são compatíveis com a prática
de saúde mental da comunidade, que valoriza o
fornecimento do cuidado necessário no ambiente
menos restritivo e mais integrado (596 a 600).
4. Hospital-dia ou hospitalização
parcial
O
hospital-dia pode ser usado como alternativa imediata
ao, tratamento hospitalar para pacientes agudamente
psicóticos ou para continuar a estabilização
após breve estada no hospital. O hospital-dia
deve ser estruturado de maneira semelhante aos serviços
hospitalares regulares, com coordenação
rigorosa e envolvimento de membros da família
e/ou pessoal domiciliar supervisionado. Pernoites breves
em unidades hospitalares devem estar disponíveis
para pacientes que demonstram exacerbação
grave dos sintomas. Como acontece com todas as alternativas
ao tratamento hospitalar para pacientes agudamente doentes,
estes não devem ser considerados de risco para
si mesmos ou para outros, devem ter a capacidade de
cooperar, pelo menos minimamente, no tratamento, ter
uma pessoa significativa disposta a cuidar deles (uma
residência de crise pode realizar a mesma função)
e devem ter acesso a recursos de tratamento da comunidade
adequados. Tratamentos alternativos, como o hospital-dia,
tem as vantagens potenciais de menos ruptura na vida
do paciente, tratamento em ambiente menos restritivo
e mais integrado, e evitação do estigma
ligado a hospitalização psiquiátrica.
Estudos controlados demonstraram
que o hospital-dia é tão ou mais eficaz
que o tratamento hospitalar agudo, dependendo do caso,
em medidas como diminuição dos sintomas
e da taxa de reinternação e melhor preservação
do funcionamento do papel (562, 563, 573, 601 a 609).
Metanálises demonstraram que a hospitalização-dia
estava associada com reduções nos dias
totais de cuidado hospitalar, resolução
mais rápida de sintomas e custos totais diminuídos,
sem aumento na carga para os membros da família.
O funcionamento social não diferiu entre os locais
de tratamento (562, 563, 597, 598, 604, 606, 608, 610
a 614). A revisão de Cochrane (609) combinou
dados de nove estudos envolvendo pacientes agudamente
doentes, a maioria dos quais tinha um diagnostico de
esquizofrenia. A revisão revelou que, na estimativa
mais pessimista, o tratamento de hospital-dia foi possível
para 23% (N = 2,268, 95% CI = 21 a 25%) daqueles atualmente
internados para tratamento hospitalar.
5. Tratamento-dia
Em geral, programas de tratamento-dia
são usados para fornecer tratamento de apoio
contínuo para pacientes esquizofrênicos
marginalmente ajustados na parte final da fase de estabilização
e na fase estável da doença. Esses programas,
geralmente de tempo limitado, fornecem estrutura, apoio
e programas de tratamento para ajudar a prevenir recaídas,
além de manter e, aos poucos, melhorar o funcionamento
social. A freqüência a tratamento-dia de
longo prazo pareceu melhorar o envolvimento (615), o
resultado clinico (615) e reduzir as taxas de reinternação
(616, 617). Entretanto, uma revisão de Cochrane
revelou que não havia evidência de que
os centros de tratamento-dia fossem melhores ou piores
do que o tratamento ambulatorial em seus efeitos sobre
qualquer variável de resultado clínico
ou social (609). Houve alguma evidência de que
o tratamento-dia poderia ser mais caro do que o ambulatorial
(156, 618, 619).
Entretanto, o desenvolvimento de
modelos efetivos de reabilitação vocacional
e treinamento de habilidades sociais conforme discutido
na Parte B, Seções VC.1.c e VC.1.e, respectivamente,
torna algumas das pesquisas anteriores sobre tratamento-dia
como um "ambiente" de tratamento menos relevante
do que a pesquisa sobre os tipos de programas que deveriam
ser fornecidos a pacientes com esquizofrenia que estão
na fase estável da doença e necessitando
de serviços de recuperação orientada.
Nesse ponto do desenvolvimento de serviços psicossociais,
a eficácia dos programas-dia provavelmente é
em função da qualidade da programação
que os pacientes recebem enquanto comparecem. Portanto,
ao planejar o tratamento na fase estável da doença,
o medico deve avaliar cuidadosamente a programação
disponível e ajudar o paciente a implementar
um plano baseado em suas preferências e necessidades
e na disponibilidade de serviços focalizados
na recuperação e consistente com as práticas
baseadas nas evidencias.
6. Residência
O advento do tratamento baseado na
comunidade produziu um desafio em relação
ao alojamento de pessoas com doença mental grave
e a sua ligação com tratamento psiquiátrico.
Outras escolhas além de morar com a família
incluem albergues, casas de grupo, comunidades terapêuticas
e locações independentes apoiadas. Cada
vez mais, pessoas com doença mental grave estão
preferindo viver da forma mais independente possível
em moradias próprias, porque compartilhar acomodações
com outros residentes que também tem doença
mental pode parecer como viver em uma instituição
(620). Dois paradigmas fundamentais foram lançados.
No paradigma da residência de transição,
os pacientes vivem em moradias diretamente conectadas
a tratamento psiquiátrico. A aceitação
do tratamento é freqüentemente uma contingência
de usar tais residências. O pressuposto subjacente
é que os pacientes "transitem" pela
residência com níveis decrescentes de supervisão
à medida que suas condições mentais
melhorem. Um segundo paradigma é o da residência
de apoio. Neste paradigma, a residência não
está diretamente ligada a tratamento. O alojamento
a tipicamente em unidades independentes, e serviços
de saúde mental são fornecidos, conforme
necessário, a fim de apoiar o paciente a manter
sua residência. Portanto, em um modelo de residência
de transição, alguém que está
experimentando recaída ou piora de sintomas a
removido para uma residência com um nível
mais alto de supervisão. Em um modelo de residência
de apoio, esse paciente simplesmente receberia serviços
psiquiátricos aumentados em sua casa, para facilitar
a estabilidade da residência.
O tipo de residência de apoio
disponível para pessoas com transtornos mentais
parece depender da disponibilidade de recursos local
(621).
De acordo com Budson (622), os tipos
mais comuns de serviços residenciais usados atualmente
são os seguintes:
*
Casas de passagem. Uma casa de passagem é definida
como um serviço residencial que fornece quarto
e comida e promove a socialização até
que uma residência esteja disponível (623).
Ela é usada como um recurso de transição
entre o hospital e a comunidade para pacientes em recuperação.
* Residências de grupo
de longo prazo. Esses serviços tem uma equipe
no local e são usados para indivíduos
com incapacidade funcional crônica. A duração
da estada é indefinida, em comparação
com a duração da estada em uma casa de
passagem, que é geralmente de 6 a 8 meses.
* Apartamentos cooperativos.
Não ha profissionais presentes nos apartamentos
cooperativos, mas visitas regulares da equipe médica
para supervisionar e orientar os residentes.
* Residências da comunidade
de cuidado intensivo ou de crise. Esses serviços
podem ser usados para ajudar a prevenir hospitalização
ou encurtar sua duração. Geralmente há
pessoal de enfermagem e de aconselhamento no local.
* Cuidado adotivo ou familiar
Alguns pacientes são colocados em casas particulares
para cuidado adotivo ou familiar. Há uma preocupação
de que, em algumas situações, apenas uma
função de custódia possa ser fornecida
(624). Uma supervisão rigorosa das famílias
adotivas é necessária para assegurar que
os pacientes estejam vivendo em um ambiente terapêutico.
* Casas de alimentação
e cuidado. Esses serviços são geralmente
casas de cômodos particulares. Como no cuidado
familiar, monitoração e supervisão
rigorosas são necessárias, uma vez que
algumas dessas famílias fornecem ambientes abaixo
do padrão necessário.
* Clinicas de repouso. As clinicas
de repouso são adequadas para alguns pacientes
crônicos geriátricos ou clinicamente incapacitados,
mas tem sido usadas inadequadamente por outros pacientes
crônicos para facilitar a alta, principalmente
de hospitais estaduais. Vários pesquisadores
sugeriram que programas de atividade mais desenvolvidos
e supervisão psiquiátrica são necessários
para prevenir declínios no funcionamento social
e em cuidados próprios.
A
pesquisa sobre os méritos de diferentes programas
e arranjos residenciais é inconclusiva. Por exemplo,
Friedrich e colaboradores (625) examinaram as preferências
de moradia de pessoas com doença mental grave
vivendo em três tipos de residências da
comunidade, entrevistando tanto o paciente como membros
da família. Embora uma maior proporção
de membros da.família do que de pacientes preferisse
moradia com algum apoio, para ambos os grupos, a residência
atual e preferida mostraram-se consistentes. Para pacientes
vivendo independentemente, o isolamento social era percebido
como um problema por pacientes e membros da família.
Os autores concluíram que, embora a residência
de apoio funcione bem para algumas pessoas, existe necessidade
continua de uma serie de opções de moradia
com níveis variáveis de estrutura. Em
comparação, um estudo escandinavo em 10
locais (626) revelou que a moradia independente estava
relacionada a uma melhor qualidade de vida no que diz
respeito a situação de vida e a uma melhor
rede social no que diz respeito a disponibilidade e
à adequação de relações
emocionais.
Programas dedicados, nos quais pessoas
com doença mental grave estão situadas
em um local ou prédio com assistência de
profissionais, tem o potencial para maior benefício,
na medida em que fornecem abrigo seguro para pessoas
que necessitam de estabilidade e apoio. Esse beneficio
potencial, entretanto, pode ser fornecido com o risco
de aumentar a dependência nos profissionais e
prolongar a exclusão da comunidade. Se os benefícios
superam ou não os riscos pode ser apenas uma
questão de opinião na ausência de
uma evidência segura. Portanto, há necessidade
urgente de investigar os efeitos da residência
de apoio sobre pessoas com doença mental grave
em uma experiência aleatória (627).
Newman (628) revisou criticamente
estudos da relação entre atributos da
residência e doença mental séria.
Três estudos não encontraram efeito de
melhor adequação de moradia sobre a satisfação
além daquela fornecida por manejo de caso. Três
estudos revelaram que menos ocupantes na residência
levou a melhores resultados. O achado mais forte da
literatura sobre residência como variável
e como resultado foi que viver em moradia independente
estava associado com maior satisfação
com a moradia e com a vizinhança. Entretanto,
dada a fraqueza metodológica desses estudos,
Newman salientou a necessidade crítica de uma
agenda coerente construída em torno de hipóteses-chave
e de um conjunto uniforme de medidas de moradia como
variável e como resultado.
7. Ambientes carcerários
O número de portadores de
esquizofrenia encarcerados em prisões e cadeias
nos EUA cresceu dramaticamente nas duas últimas
décadas, paralelamente ao aumento das prisões
na população em geral (629). Em geral,
as taxas de esquizofrenia em ambientes carcerários
são muito mais altas do que na população
geral (630), com 1,8 a 4,4% das pessoas encarceradas
satisfazendo os critérios diagnósticos
para esquizofrenia (631). Conseqüentemente, a triagem
de detentos e internos recém-chegados por oficiais
carcerários ou membros da equipe de tratamento
de saúde é importante para identificar
pessoas com esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos
que necessitarão de avaliação psiquiátrica
mais profunda e tratamento (632).
Uma vez que o suicídio a comum
em cadeias e penitenciárias (633) e visto que
pessoas recém-encarceradas tem risco aumentado
para suicídio (56), a triagem de pessoas encarceradas
com esquizofrenia deve incluir perguntas sobre pensamentos
suicidas e tentativas de suicídio. A avaliação
periódica a recomendada, pois pessoas com esquizofrenia
podem desenvolver idéias suicidas ou tornar-se
mais sintomáticas, quando na cadeia ou prisão.
Essa piora de sintomas pode resultar de inúmeros
fatores, incluindo estresse relacionado ao encarceramento,
remoção de sistemas de apoio e serviços
de saúde mental inadequados dentro do ambiente
correcional (632).
Para detentos e internos identificados
como tendo esquizofrenia ou outras doenças mentais
sérias, uma variedade de níveis de cuidado
de saúde mental pode existir no sistema correcional,
incluindo cuidado "ambulatorial", residência
especializada e cuidado "hospitalar". De fato,
é constitucionalmente exigido que as instituições
correcionais forneçam tratamento adequado a pessoas
encarceradas com doença mental séria como
esquizofrenia. Padrões mínimos para um
programa de tratamento aceitável foram estabelecidos
em Ruiz v. Estelle (634) e incluem triagem e avaliação;
tratamento além de simples segregação
e supervisão; número adequado de profissionais
da saúde mental competentes; tratamento individualizado;
manutenção de registros médicos
precisos, completos e confidenciais; supervisão
adequada de uso de medicamentos psiquiátricos;
e identificação, tratamento e supervisão
de internos em risco para suicídio. Esses padrões
mínimos foram endossados e ampliados por outras
organizacoes, incluindo a APA (632).
Visto que as cadeias são instalações
usadas para o confinamento de pessoas aguardando julgamento
ou daquelas acusadas de crimes menores, o tratamento
da saúde mental desses internos e freqüentemente
limitado pela curta duração da estada
e pelo tamanho reduzido das instalações.
O tratamento geralmente enfatiza a prescrição
de medicamentos psicotrópicos ou serviços
de intervenção da crise, que podem incluir
transferência para unidades de alojamento especial,
observação especial e psicoterapia breve.
Algumas psicoterapias de prazo mais longo podem estar
disponíveis para internos cujo confinamento antes
do julgamento ou das sentenças são de
mais longa duração. Os serviços
de saúde mental essenciais para uma população
carcerária incluem acesso a leitos psiquiátricos
hospitalares; cobertura de tratamento de saúde
mental disponível sete dias por semana; disponibilidade
de uma gama de medicamentos psicotrópicos prescritos
e monitorados por um psiquiatra; cobertura de enfermagem
adequada em qualquer área da saúde, incluindo
saúde mental; e procedimentos desenvolvidos e
monitorados por psiquiatras e enfermeiros para assegurar
que os psicotrópicos sejam distribuídos
por pessoal qualificado, sempre que possível
(635).
As prisões estão geralmente
sob controle estadual ou federal e são usadas
para confinar pessoas com sentenças mais longas.
Conseqüentemente, os sistemas de saúde mental
das prisões geralmente fornecem um sistema mais
abrangente de tratamento de saúde mental para
pessoas com esquizofrenia do que estaria disponível
em um ambiente carcerário. Particularmente, a
importância de um programa de tratamento crônico
para internos com doença mental séria
tem sido cada vez mais reconhecida como um componente
fundamental dos sistemas de saúde mental de prisões.
Esses programas são conhecidos como unidades
de tratamento residencial, unidades de cuidado intermediário,
unidades de apoio de vida, unidades de necessidades
especiais, unidades de serviços psiquiátricos,
ou ambientes protetores para pacientes com doenças
mentais serias. Os internos dessas unidades geralmente
tiveram significativa dificuldade de funcionamento em
um ambiente da população em geral devido
aos sintomas relacionados com seus transtornos mentais.
Essas unidades são planejadas para alojar de
30 a 50 internos por unidade, permitindo que o preenchimento
das vagas seja feito de uma maneira que aproxime custo-eficácia
(635). Uma abordagem de reabilitação psicossocial
é um modelo de tratamento freqüentemente
usado. Para detentos e internos de curto prazo, esses
tratamentos devem focalizar-se no manejo de sintomas,
no ajustamento ao ambiente carcerário, no planejamento
para futura libertação e na reintegração
a comunidade. Para internos de longo prazo, os focos
primários devem ser manejo dos sintomas, prevenção
de recaídas e ajuste ao encarceramento.
Se pessoas encarceradas com esquizofrenia
recusam o tratamento, processos administrativos podem
permitir tratamento compulsório para garantir
a segurança delas e de outros. Por exemplo, em
todas as jurisdições, o tratamento de
emergência pode ser instituído se a psicose
resultar em paranóia e ameaças a outros
internos, aos funcionários e/ou a própria
pessoa. Algumas jurisdições incluem protocolos
administrativos para tratamento não-emergencial
de internos que se recusam a aceitar medicamentos (p.
ex., protocolos estabelecidos por Washington v. Harper
(636]). Portanto, os médicos que trabalham em
ambientes correcionais devem estar familiarizados com
as leis local e estadual e com a política institucional
sobre tratamento involuntário.
Embora encarcerados, os internos com esquizofrenia
podem apresentar sintomas de retraimento, desorganização
e/ou comportamento disruptivo, que podem estar associados
com infrações disciplinares. Essas infrações,
par sua vez, podem fazer com que o interno com esquizofrenia
seja colocado em um local isolado dentro das unidades,
que são freqüentemente chamadas de "segregação
administrativa" ou "segregação
disciplinar" (637). Tais unidades foram conceitualizadas
como tendo três características principais:
isolamento social, privação sensorial
e confinamento (638). Cada um desses elementos pode
variar significativamente, mas os internos geralmente
passam uma media de 23 horas por dia em uma cela, tem
interação humana limitada e acesso mínimo
ou nenhum a programas, alem de serem mantidos em um
ambiente planejado para exercer o máximo controle
sobre a pessoa. As respostas dos internos a experiência
de segregação diferem, e a literatura
cientifica relevante é escassa (639). Contudo,
médicos da saúde mental trabalhando nesses
serviços relatam que internos sem transtornos
mentais sérios pré-existentes desenvolvem
irritabilidade, ansiedade e outros sintomas disfóricos
quando alojados nessas unidades por longos períodos
de tempo (640). As dificuldades em fornecer acesso adequado
a tratamento de saúde mental são especialmente
problemáticas em qualquer ambiente de segregação
e estão relacionadas a questões logísticas
que freqüentemente incluem espaço de consultório
inadequado e acesso limitado aos internos devido a questões
de segurança (641). Além disso, por causa
de sua estrutura inerentemente punitiva, essas unidades
fornecem pouco apoio, acesso a modalidades de tratamento
relevante ou ambiente terapêutico. Em conseqüência,
pessoas com esquizofrenia geralmente não devem
ser colocadas em isolamento por 23 horas/dia por comportamentos
que resultam diretamente da esquizofrenia, porque tal
intervenção provavelmente exacerbará
mais do que reduzirá os sintomas da doença,
e aumentará mais do que reduzirá comportamentos
disruptivos (632,642).
Antes
de serem liberados de uma instituição
correcional, internos com esquizofrenia devem ser ajudados
a encontrar no comunidade um local que possa lhes oferecer
o tratamento de que necessitam. Além disso, deve-se
atender às necessidades de alojamento e dinheiro
dos internos prestes a serem libertados. Ao deixarem
a instituição correcional, eles devem
receber medicação suficiente que lhes
dê tempo para consultar um médico e obter
um novo suprimento.
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