Introdução ao Tratamento dos Transtornos Mentais (Avaliação e Tratamento) 
  

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Maconha

Cannabis sativa, uma variedade de cânhamo, é a fonte da maconha (“marijuana”). As partes da planta variam em potência. A exsudação resinosa das flores da planta feminina (haxixe, charas) é a mais potente, seguida pelas folhas secas e brotos da planta feminina (bhang) e pela massa resinosa das folhinhas da influrescência (ganja). As partes menos potentes são os ramos inferiores e as folhas da planta feminina e todas as partes da planta masculina. O mercúrio pode contaminar o crescimento da maconha em solo vulcânico. A droga costuma ser inalada ao fumar. Os efeitos ocorrem em 10-20 minutos e duram 2-3 horas. Um “baseado”  de boa qualidade contém cerca de 500 mg de maconha (que contém cerca de 5-15 mg de tetrahidrocanabinol com meia-vida de 7 dias). A maconha ensopada em formaldeído e secada (“AMP”) tem produzido efeitos incomuns, incluindo emissões autonômicas e séria perturbação cognitiva transiente.

Com dosagem moderada, a maconha produz duas fases: leve euforia, seguida de sonolência. No estado agudo, o usuário tem uma percepção alterada do tempo, emoções menos inibidas, problemas psicomotores, perturbação da memória imediata e conjuntivas congestionadas. Altas doses produzem efeitos psicomiméticos transientes. Nenhum tratamento específico é necessário, exceto no caso da bad trip ocasional, quando então a pessoa é tratada do mesmo modo que no uso de psicodélicos. A maconha freqüentemente agrava doenças mentais existentes, influi adversamente sobre o desempenho motor e desacelera o processo de aprendizagem das crianças.

Estudos dos efeitos em longo prazo mostraram conclusivamente anormalidades  na árvore pulmonar. Laringite e rinite estão ligadas ao uso prolongado, juntamente com doença pulmonar obstrutiva crônica. Anormalidades eletrocardiográficas são comuns, mas nenhuma doença cardíaca de longo prazo foi ligada ao uso da maconha. O uso crônico tem resultado em depressão dos níveis de testosterona no plasma e contagens reduzidas de esperma. Menstruação anormal e falta de ovulação têm  ocorrido em algumas usuárias. Perturbações cognitivas são prováveis, embora os estudos não sejam conclusivos. A utilização dos serviços médicos para uma variedade de problemas de saúde aumenta nos fumantes crônicos de maconha. A retirada súbita produz insônia, náuseas, mialgia e irritabilidade. Os efeitos psicológicos do uso crônico da maconha ainda são imprecisos. O teste de urina é confiável se as amostras forem cuidadosamente coletadas e testadas. Os períodos de detecção variam de 4-6 dias no usuário agudo e de 20-50 dias no usuário crônico.

 

Estimulantes: Anfetaminas e Cocaína

O abuso de estimulantes é bastante comum, tanto isoladamente quanto em mistura com outras drogas. As anfetaminas, incluindo metedrina (“veloz”) – uma variação é uma forma fumável chamada ice [gelo], que produz uma viagem intensa e prolongada - , metilfenidato e fenmetrazina, têm venda controlada, mas a disponibilidade  nas ruas continua alta. O uso moderado de quaisquer estimulantes produz hiperatividade, um senso de ampliada capacidade física e mental e efeitos simpaticomiméticos. O quadro clínico da intoxicação aguda por estimulantes inclui suores, taquicardia, pressão sangüínea elevada, midríase, hiperatividade e uma síndrome cerebral aguda com confusão e desorientação. A tolerância se desenvolve rapidamente e, à medida que a dosagem é aumentada, ocorrem hipervigilância, ideação paranóide (com ilusões de parasitose), estereotipia, bruxismo, alucinações tácteis de infestação por insetos e psicoses completas, geralmente com ideação persecutória e respostas agressivas. A retirada do estimulante se caracteriza por depressão com sintomas de hiperfagia e hipersomnia.

Pessoas que usam estimulantes cronicamente (p. ex.: anorexígenos) às vezes se tornam sensíveis (“sensibilização”) ao uso futuro de estimulantes. Nesses indivíduos, mesmo pequenas quantidades de estimulantes leves, como cafeína, podem causar sintomas de paranóia e alucinações auditivas.

A cocaína é um estimulante. É um produto da planta chamada coca. Os derivados incluem sementes, folhas, pasta de coca, hidrocloreto de cocaína e a base-livre da cocaína. A pasta de coca é um extrato cru que contém 40-80% de sulfato de cocaína e outras impurezas. Hidrocloreto de cocaína é o sal, a forma mais comumente usada. A base-livre, um derivado mais puro e mais forte chamado crack, é preparada através da simples extração do hidrocloreto de cocaína.

Há vários modos de uso. A mastigação da folha de coca envolve torrar as folhas e mastigá-las com material alcalino (p. ex.: a cinza de outras folhas queimadas) para amplificar a absorção bucal. A pessoa alcança um efeito leve, com início em 5-10 minutos e durando cerca de 1 hora. O uso intranasal implica simplesmente aspirar a cocaína por meio de um canudinho. A absorção é um tanto retardada pela vasoconstrição (que pode acabar causando necrose dos tecidos e perfuração do septo); a ação tem início em 2-3 minutos, com um efeito moderado (euforia, excitação, aumento da energia) que dura cerca de 30 minutos. A pureza da cocaína é importante determinante do efeito. O uso intravenoso do hidrocloreto de cocaína ou da base-livre é eficaz em 30 segundos e produz um efeito razoavelmente intenso com duração de cerca de 15 minutos. O uso combinado de cocaína e etanol resulta na produção metabólica do cocaetileno pelo fígado. Essa substância intensifica e prolonga  os efeitos da cocaína. Quando fumada, a cocaína de base-livre (cocaína volatilizada devido ao baixo ponto de ebulição) age em poucos segundos e resulta num efeito intenso que dura vários minutos. A intensidade da reação está relacionada com a acentuada solubilidade dos lipídios da base-livre, produzindo a maior parte dos sintomas médicos e psiquiátricos mais graves.

Colapso cardiovascular, arritmias, infarto do miocárdio e ataques isquêmicos transientes têm sido relatados. Podem ocorrer convulsões, derrames, sintomas de enxaqueca, hipertermia e danos pulmonares, e há diversas complicações obstétricas, incluindo aborto espontâneo, rompimento da placenta, efeitos teratogênicos, crescimento fetal desacelerado e nascimento prematuro. A cocaína pode causar ansiedade, flutuações do humor e delírio; seu uso crônico provoca os mesmos problemas que os outros estimulantes.

Os médicos devem estar de sobreaviso para o uso da cocaína em pacientes que apresentam hemorragia nasal inexplicada, dores de cabeça, fadiga, insônia, ansiedade, depressão e rouquidão crônica. A retirada súbita da droga não ameaça a vida, mas costuma produzir ânsia, distúrbios do sono, hiperfagia, lassidão e depressão grave (às vezes com ideação suicida) que  duram dias ou semanas.

O tratamento  é impreciso e difícil. Como o efeito está relacionado com o bloqueio da recaptação da dopamina, o agonista da dopamina, bromocriptina, 1,5 mg por via oral 3 vezes por dia, alivia alguns dos sintomas de ânsia associados à retirada aguda da cocaína. Outros agonistas da dopamina, como apomorfina, levodopa e amantadina, estão sendo estudados para esse propósito. Há evidências preliminares de que carbamazepina, nas doses usuais, reduz a ânsia na retirada (provavelmente devido ao seu efeito sobre a sensibilização) e desipramida, em doses moderadas, tem sido útil para ajudar a manter a abstinência nos primeiros estágios do tratamento. O tratamento é o mesmo que o de qualquer psicose: drogas antipsicóticas em dosagens suficientes para aliviar os sintomas. Quaisquer sintomas médicos (p. ex:. hipertermia, convulsões, hipertensão) são tratados especificamente. Essas abordagens devem ser usadas em conjunto com um programa estruturado, freqüentemente baseado no modelo AA.  A hospitalização pode ser requerida se for percebida a ameaça de violência contra si mesmo ou os outros (geralmente indicada por delusão paranóide).

 

Cafeína

A cafeína, juntamente com a nicotina e o álcool é uma das drogas de uso mais comum em todo o mundo. Cerca de 5 bilhões de toneladas de café (a mais rica fonte de cafeína) são consumidas anualmente no mundo inteiro. Chá, cacau e refrigerantes de cola também contribuem para uma ingestão espantosamente alta de cafeína em grande número de pessoas. Doses baixas e moderadas (30-200 mg/dia) tendem a melhorar alguns aspectos de desempenho (p. ex.: a vigilância). O conteúdo aproximado de cafeína em uma xícara (180 ml) de bebida é o seguinte: café de coador, 80-140 mg; café instantâneo, 60-100 mg; café descafeinado, 1-6 mg; chá preto, 30-80 mg; chá em saquinho, 25-75 mg; chá instantâneo, 30-60 mg; chocolate, 10-50 mg; e refrigerantes de cola (vasilha de 350 ml), 30-65 mg. Uma barra de chocolate de 60 g contém cerca de 20 mg de cafeína. Alguns chás de ervas (p.ex.: morning thunder) contêm cafeína. Os analgésicos com cafeína geralmente contêm cerca de 30 mg por unidade. Os sintomas do cafeinismo (em geral associados à ingestão de mais de 500 mg/dia) incluem ansiedade, agitação, inquietude, insônia, sensação de estar “ligado” e sintomas somáticos ao coração e trato gastrintestinal. Num caso de cafeinismo, é comum estar presente um distúrbio de ansiedade. Também é comum que a cafeína e outros estimulantes precipitem sérios sintomas em pacientes esquizofrênicos e maníaco-depressivos compensados. Pacientes cronicamente deprimidos costumam usar bebidas com cafeína como automedicação. Essa indicação diagnóstica pode ajudar a distinguir alguns importantes distúrbios afetivos. A retirada da cafeína (250 mg/dia) pode produzir dores de cabeça, irritabilidade, letargia e náuseas ocasionais.