| EFEITOS
DA DEPRESSÃO
E DOS
ANTIDEPRESSIVOS
SOBRE A FUNÇÃO SEXUAL*
(cont.)
Tratamento
da disfunção sexual induzida por antidepressivos
Estratégias gerais
Assumindo-se que há razões
que nos levam a crer que a disfunção sexual
existente seja provocada por antidepressivos
prescritos (por exemplo, a depressão subjacente
melhorou e a função sexual era adequada antes
da depressão), vários estratégias devem ser
consideradas para diminuição desses efeitos
colaterais (ver Tabela 2).
A primeira série de estratégias é geral
e aplica-se independentemente do antidepressivo
descrito: reduzindo a dose, esperando que
ocorra tolerância potencial aos efeitos colaterais
e mudando para um outro antidepressivo (Gitlin,
1994). Nenhuma destas opções foi avaliada
sistematicamente em uma série de casos ou
em estudos controlados.
Reduzir a dose é a primeira estratégia
lógica, assumindo-se que, para alguns pacientes,
o limiar para a perda do efeito colateral
ocorra em uma dose mais elevada do que a perda
do efeito terapêutico.
É provável que este enfoque seja mais
bem-sucedido com os ISRSs do que com outras
classes de antidepressivos, porque os ISRSs
mostram uma curva de dose-resposta plana nas
doses comumente prescritas (Beasley, Bosomworth
e Wernicke, 1990). Devido à longa vida-média
da fluoxetina (Lemberger e cols., 1985), podem
ser necessárias algumas semanas para avaliar
a eficácia e os efeitos colaterais de uma
dose menor. Consistente com esta noção, um
recente estudo descobriu que somente 13% dos
pacientes com efeitos colaterais sexuais da
fluoxetina estavam acentuadamente melhores
duas semanas após descontinuação da droga
(Walker e cols., 1983). Para sertralina e
paroxetina, os efeitos de redução da dose
devem ser evidentes dentro de 1 a 7 dias devido
a menor vida-média destas medicações.
De forma anedótica, o desenvolvimento
de tolerância aos efeitos colaterais sexuais
é inconsistente, porém foi descrito para ambos,
inibidores da MAO e ISRSs (Numberg e Levine,
1987; Reimherr e cols., 1993). Entretanto,
alguns pacientes pensam que os efeitos colaterais
sexuais diminuem, mas não, necessariamente,
desaparecem durante muitos meses de utilização
de ISRSs (por exemplo, a anorgasmia pode melhorar
para tempo retardado para orgasmo [observação
clínica pessoal]).
A mudança para um antidepressivo diferente
é a estratégia geral mais bem documentada
para tratar efeitos colaterais sexuais induzidos
por antidepressivos. Devido à sua ausência
de função serotoninérgica e à evidência de
que causa menos disfunção sexual do que outros
antidepressivos, o bupropionato tem sido postulado
como a opção mais apropriada se ocorrem efeitos
colaterais sexuais a partir de outro agente.
Dois estudos abertos demonstraram que a mudança
para o bupropionato a partir da fluoxetina
(Walker e cols., 1993) ou de uma variedade
de antidepressivos (Gardner e Johnstone, 1985)
resultaram em melhora acentuada da função
sexual em mais de 80% dos pacientes tratados.
Relatos de casos prévios têm documentado remissão
dos efeitos colaterais sexuais quando a desipramina
foi substituída pela clomipramina ou imipramina
(Quirk e Einarson, 1982; Sovner, 1983), ou
quando a imipramina foi substituída pela amoxapina
(Shen, 1982). A vantagem de trocar de um ISRS para outro a fim de diminuir
os efeitos sexuais é desconhecida.
Apesar dos méritos potenciais da troca de
um antidepressivo para outro (especialmente
o bupropionato) devido a efeitos colaterais
sexuais, minha própria experiência clínica
é menos animadora. Muitos pacientes obtendo
benefícios a partir dos agentes serotoninérgicos,
especialmente pacientes com sensibilidade
à rejeição e reatividade de humor acentuada,
não parecem responder tão bem aos agentes
não serotoninérgicos. Nestes casos, reiniciar
o antidepressivo serotoninérgico e utilizar
os antídotos que irei descrever agora poderão
ser uma ótima estratégia.
Se esperar, reduzir a dose e mudar
para um antidepressivo diferente não for possível
ou for ineficaz, há um número de antídotos
específicos. Infelizmente, nenhum foi testado
de maneira controlada, com exceção de dois
estudos de casos isolados nos quais a ciproheptadina
foi comparada com a droga de referência definidramina
(Steele e Howell, 1986) e a ioimbina comparada
ao placebo (Price e Grunhaus, 1990); do contrário,
somente relatos de casos e séries de casos
abertos foram publicados até o momento.
O antídoto mais comumente preconizado
é a ciproheptadina, um anti-histamínico com
propriedades anti-serotoninérgicas comercializado
para o tratamento de distúrbios alérgicos
(Cohen, 1992; de Castro, 1985; Goldbloom e
Kennedy, 1991; McCormick, Ohm e Brotman, 1990;
Riley e Riley, 1986; Sovner, 1984; Steele
e Howell, 1986; Zajecka e cols., 1991). São
as propriedades anti-serotoninérgicas da ciproheptadina
que, presumivelmente, medeiam a sua capacidade
pró-orgasmo, porque a difenidramina, um outro
anti-histamínico com perfil biológico e de
efeitos colaterais similares exceto quanto
aos efeitos anti-serotoninérgicos, foi ineficaz
em reverter os efeitos colaterais sexuais
em um estudo de caso único duplo-cego (Goodman
e Gilmann, 1990; Steele e Howell, 1986). Notou-se
que a ciproheptadina reverte a anorgasmia
causada por uma variedade de antidepressivos,
incluindo antidepressivos tricíclicos, inibidores
da MAO e ISRS5. A ciproheptadina é efetiva
em tratar tanto homens como mulheres com anorgasmia.
Não há relatos sobre sua eficácia (ou falha)
em tratar outros efeitos colaterais sexuais,
como libido diminuída ou disfunção erétil.
A ciproheptadina (2-16 mg/dia) pode
ser efetiva quando utilizada conforme necessário,
assim como quando administrada regularmente.
Prescrita para uso quando necessário, ela
deverá ser tomada 1 a 2 horas antes do efeito
esperado. Portanto, para a maioria dos pacientes,
torna-se mais razoável iniciar sua utilização
conforme necessário, mudando para administração
diária somente se o esquema de dosagem original
mostrar-se ineficaz.
Os efeitos colaterais mais comuns associados
com a ciproheptadina quando prescrita para
reverter efeitos colaterais sexuais são a
sedação e a perda dos efeitos positivos do
antidepressivo. A sedação poderá ser grave
o suficiente para limitar o uso da medicação.
Nove casos foram relatados nos quais a ciproheptadina
foi associada com reversão dos efeitos benéficos
do antidepressivo; em sete desses casos, os
pacientes tornaram-se deprimidos novamente
(Feder, 1991; Kartz e Rosenthal, 1994; Price
e Grunhaus, 1990; Zubieta e Demitrack, 1992),
enquanto que os outros dois pacientes mostraram
recorrência de seu comportamento bulímico
(Goldbloom e Kennedy, 1991). Essas reversões
terapêuticas ocorrem dentro de horas até dias
após o início da ciproheptadina. A reversão
do efeito antidepressivo parece, por si só,
ser reversível dentro de dias após interrupção
da medicação. Por apresentarem tendência de
se tornar, compreensivelmente, assustados
por uma recidiva súbita, os pacientes para
os quais a ciproheptadina for prescrita deverão
ser alertados sobre esse possível efeito colateral.
A ioimbina é um bloqueador alfa-2 pré-sináptico
que foi relatada como revertendo os efeitos
colaterais sexuais induzidos por antidepressivos
em três relatos com 14 pacientes (Hollander
e McCarley, 1992; Jacobson, 1992; Price e
Grunhaus, 1990). Tanto os efeitos centrais
(libido aumentada) como os efeitos periféricos
(fluxo venoso diminuído a partir do corpo
cavernoso em homens) foram propostos como
possíveis mecanismos de ação (Nelson, 1988).
Ao contrário da ciproheptadina, a ioimbina
pode apresentar amplo espectro de efeitos
positivos na reversão da disfunção sexual;
foi relatado que ela reverte a libido diminuída
- disfunção erétil, assim como anorgasmia
(Hollander e McCarley, 1992; Jacobson, 1992).
Em duas séries de casos, 13 de 15 pacientes
com efeitos colaterais sexuais por fluoxetina
ou clomipramina apresentaram respostas positivas
a ioimbina.
Como a ciproheptadina, a ioimbina também
foi descrita como efetiva quando administrada,
conforme necessário, 2 a 4 horas antes do
sexo, ou quando prescrita em um esquema de
três vezes ao dia. Doses únicas efetivas variam
entre 2,7 mg e 16,2 mg. A dose usual, quando
administrada em base regular (conforme utilizado
na prática urológica), é de 5,4 mg três vezes
ao dia (Morales e cols., 1987; Nelson, 1988;
Reid e cols., 1987). Os efeitos colaterais
comuns da ioimbina incluem náusea, ansiedade,
insônia, urgência miccional, e sudorese (Hollander,
McCarley, 1992; Jacobson, 1992). No relato
de um caso, uma dose excessiva de ioimbina
(15 mg) causou ejaculação prematura, que desapareceu
com a redução da dose para 10 mg (Hollander
e McCarley, 1992). Não há relatos descrevendo
a eficácia ou os riscos da ioimbina para os
efeitos colaterais ao risco de um episódio
hipertensivo.
Os agentes dopaminérgicos são outra
estratégia recentemente descrita para o tratamento
dos efeitos colaterais sexuais induzidos por
antidepressivos. O seu presumível mecanismo
de ação é a ação direta da dopamina no aumento
da atividade sexual, ou o efeito indireto
da reversão dos efeitos depletores de dopamina
das medicações serotoninérgicas (Balogh, Hendricks
e Kang, 1992; Bitran e Hull, 1987; Segraves,
1989). Efeitos positivos foram anedoticamente
descritos em 11 pacientes tratados com amantadina,
d-anfetamina, pemolina ou bupropionato (Balogh
e cols., 1992; Gitlin, em impressão; Labbate
e Pollack, 1994). Os relatos utilizando amantadina
e bupropionato descreveram a reversão da anorgasmia,
enquanto que os estimulantes reverteram a
libido diminuída e também a disfunção erétil.
A amantadina, um agonista dopaminérgico
leve indicado para o tratamento da doença
de Parkinson, e como agente antiviral, foi
descrita como efetiva em cinco de sete casos
quanto à reversão da anorgasmia pela fluoxetina,
dentro de dias até poucas semanas, nas doses
de 100 mg/dia ou 100 mg duas vezes ao dia
(Balogh e cols., 1992). Os efeitos colaterais
com a amantadina são, geralmente, não significativos.
A d-anfetamina e a pemolina reverteram a libido
diminuída, a disfunção erétil e a anorgasmia
em três homens tratados com ISRSs (dois casos)
e fenelzina (um caso) (Githin, em impressão).
Não foram relatados efeitos colaterais nesses
casos. Entretanto, o uso de estimulantes com
inibidores da MAO é uma combinação potencialmente
perigosa, conferindo um claro risco para um
episódio hipertensivo, e deverá ser prescrita
somente com extrema cautela. Apesar disso,
a combinação dos inibidores da MAO e estimulantes
demonstrou ser efetiva quando prescrita e
monitorizada cuidadosamente (Fawcett, kravitz,
Zajecta e Schaff, 1991; Feighner, Herbstein
e Damlouji, 1985).
No único caso relatado em que o bupropionato
reverteu disfunção sexual, 75 mg/dia foram
utilizados para tratar com sucesso a libido
diminuída, a impotência erétil e o orgasmo
retardado, durante um período de dez dias
(Labbate e Pohlack, 1994). Devido aos ISRSs
poderem aumentar os níveis de bupropionato
(Peskorn, 1992), as doses de bupropionato
prescritas nesta combinação devem ser mantidas
relativamente baixas. Há outros anedóticos
não publicados sobre a eficácia do bupropionato.
O achado de Thase e cols. (1994) de que o
bupropionato aumentou o interesse e atividade
sexuais é consistente com a possibilidade
de que o bupropionato possa ser efetivo na
redução dos efeitos colaterais sexuais induzidos
por antidepressivos.
A estratégia farmacológica mais recentemente
relatada para reversão da disfunção sexual
induzida por antidepressivos é a buspirona,
o agonista parcial da serotonina 1A, que está
indicado para o tratamento da ansiedade. Em
recente série de casos, 11 de 16 pacientes
com libido diminuída e anorgasmia induzidas
por ISRSs responderam à buspirona em doses
de 15 a 60 mg/dia. Pelo menos um paciente
respondeu à buspirona administrada conforme
necessário (Norden, 1995). Paradoxalmente,
irritabilidade aumentada pela buspirona foi
o efeito colateral mais importante.
Finalmente, relatos anteriores indicaram
que o betanecol, um agonista colinérgico,
poderia reverter a disfunção sexual induzida
por tricíclicos e inibidores da MAO (Gross,
1982; Pollack e Rosenbaum, 1987; Segraves,
1987; Sorscher e Dilsaver, 1986; Yager, 1986).
As doses relatadas como bem-sucedidas variaram
de 10 a 40 mg, conforme necessário, ou de
30 a 100 mg/dia. Tanto os distúrbios eréteis
quanto ejaculatórios foram revertidos. Os
efeitos colaterais do betanecol incluem diarréia,
cãibras e sudorese excessiva. Não há relatos
sobre a eficácia potencial de betanecol no
tratamento dos efeitos colaterais sexuais
induzidos pelos ISRSs.
Infelizmente, os resultados positivos (especialmente
nos relatos de caso) têm maior probabilidade
de serem publicados do que os resultados negativos,
e o número (ou percentual) de pacientes que
podem responder a cada um destes tratamentos
para os efeitos colaterais sexuais são desconhecidos
Minha própria experiência clínica é, decididamente,
menos positiva do que aquela descrita nesta
série de casos, na qual somente uma minoria
de pacientes parece responder a qualquer medicação.
Além do mais, na ausência de quaisquer comparações
entre estes antídotos potenciais para disfunção
sexual induzida por antidepressivos, é impossível
construir um algoritmo de tratamento coerente
para auxiliar os clínicos a decidirem quais
tratamentos prescrever, em que ordem e para
quais pacientes. Essa dificuldade é acentuada
pela ausência de dados convincentes, ligando
efeitos colaterais individuais e tratamentos
específicos (por exemplo, disfunção erétil
respondendo a um tipo de tratamento e anorgasmia
respondendo a diferentes grupos de agente).
No momento, então, as estratégias mais razoáveis
são: (1) Empregar estratégias gerais antes
de antídotos específicos; (2) Prescrever antídotos
para administração conforme necessária antes
de dosagem regular (exceto, possivelmente,
no caso da buspirona); e (3) Considerar efeitos
colaterais para orientar a ordem de tratamento.
Por exemplo, um paciente sensível à sedação
poderá ser intolerante com a ciproheptadina,
enquanto que um paciente ansioso estará em
maior risco de não tolerar a ioimbina ou estimulantes.
A
utilização terapêutica dos efeitos colaterais
sexuais
A freqüência geralmente mais elevada
de efeitos colaterais sexuais resultantes
do uso aumentado de antidepressivos serotoninérgicos
deu origem à utilização potencial destes efeitos
colaterais para propósitos terapêuticos. Os
efeitos positivos mais consistentes e bem
documentados têm sido no tratamento da ejaculação
precoce e diminuição de comportamentos parafilíacos.
A capacidade de os antidepressivos
serotoninérgicos causarem ejaculação retardada
e anorgasmia fez de seu uso no tratamento
de ejaculação precoce uma exploração natural.
Dois estudos controlados documentaram a eficácia
da clomipramina em dose baixa (10 a 50 mg/dia)
no tratamento de ejaculação precoce (Girgis,
El-Haggar e ElHermouzy, 1982; Segraves, Saran,
Segraves e Maguire 1993). Recentemente, um
estudo bem desenhado, controlado por placebo,
demonstrou extraordinária eficácia da paroxetina
no tratamento da ejaculação precoce (Waldingerj
Hengeveld e Zwinderman, 1994). Com doses diárias
de 20 mg, aumentando para 40 mg após uma semana,
e latência média da ejaculação intravaginal
aumentou de 30 segundos para 10 minutos por
10 semanas, uma diferença altamente significativa.
Não foram observadas alterações no grupo placebo.
Somente um de seis pacientes precisou reduzir
sua dose, secundária à ejaculação retardada
(30 minutos). A melhora começou na primeira
semana de tratamento e aumentou gradualmente
durante a evolução do estudo. Consistentemente
com outros estudos, fadiga e bocejo foram
os principais efeitos colaterais.
Os antidepressivos serotoninérgicos também
foram relatados como bem-sucedidos no tratamento
de parafilias e adições sexuais não-parafilíacas
(Kafka, 1991; Kafka e Prentky, 1992; Perilstein,
Lipper e Friedman, 1991; Zohar, Kaplan e Benjamin,
1994). Dependendo da amostra estudada e da
conceituação do distúrbio pelos investigadores,
as explicações para estas melhoras variam
desde considerar o distúrbio como uma desordem
obsessivo-compulsiva, ligando a parafilia
aos sintomas depressivos como um distúrbio
co-mórbido com o ISRS tratando ambas as desordens,
até como o efeito consistente das medicações
serotoninérgicas diminuindo a atividade sexual
em geral. É digno de nota, entretanto, que
os pacientes em muitos dos casos descritos
relataram uma diminuição na intensidade de
seus impulsos parafilíacos, enquanto mantinham
seus interesses e desempenhos sexuais convencionais
e consensuais.
*Este
trabalho baseia-se em uma apresentação na
16ª Conferência de Inverno em Psiquiatria
de Menninger, ocorrida de 6 a 11 de março
de 1994, em Park City Utah, EUA. O trabalho
e a conferência foram parcialmente apoiados
por uma bolsa educacional, irrestrita da Smith
Kline Beecham Pharmaceuticals. O Dr. Gitlin
é professor de psiquiatria clínico e diretor
do Programa de Distúrbios Afetivos na Faculdade
de Medicina da UCLA, Los Angeles. Califórnia.
Solicitações
para reimpressão podem ser enviadas para Dr.
Gitlin at 300 UCLA Medical Plaza, Suite 2200.
Los Angeles, CA 90024.
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