| EFEITOS
DA DEPRESSÃO
E DOS
ANTIDEPRESSIVOS
SOBRE A FUNÇÃO SEXUAL*
Michael
J. Gitli
Introdução
Com os antidepressivos serotoninérgicos dominando
o tratamento dos distúrbios depressivos, os
efeitos colaterais sexuais induzidos pelos
antidepressivos emergiram como uma questão
clínica fundamental. De maneira surpreendente,
os efeitos da depressão sobre a sexualidade
são menos bem estabelecidos e mais variáveis
do que se pensava inicialmente. É provável
que antidepressivos com fortes efeitos serotoninérgicos
— inibidores seletivos da recaptação
da serotonina, clomipramina e inibidores da
monoaminoxidase — estejam associados com taxas
mais elevadas de efeitos colaterais sexuais,
comparados com outras classes de antidepressivo.
Dificuldades de orgasmo e ejaculação são proeminentes
com essas medicações, apesar de alterações
na libido, excitação e função erétil também
serem comuns. O tratamento desses efeitos
colaterais inclui tanto estratégias gerais
quanto antídotos específicos, como ciproheptadina,
ioimbina, agonistas da dopamina e buspirona
(Bulletin of the Menninger Clinic, 59(2):232-248).
Resumo
Os efeitos da depressão na sexualidade, os
efeitos dos diferentes antidepressivos na
função sexual, o tratamento ótimo da disfunção
sexual induzida pelos antidepressivos, e a
biologia da sexualidade são todos campos em
seus inícios. Entretanto, com a recente elevação
da consciência sobre estes tópicos, maiores
informações deverão vir ao longo dos próximos
anos. Por enquanto, os clínicos devem ser
abertos e específicos quanto ao questionarem
pacientes sobre efeitos colaterais sexuais
quando antidepressivos forem prescritos. Devido
serem as estratégias descritas nesse trabalho
para tratamento dos efeitos colaterais sexuais
de eficácia comparativa desconhecida, o tratamento
deverá ser abordado no espírito de aplicações
erro-e-tentativa, mais do que um algoritmo
de tratamento coerente. Entretanto, se estas
estratégias forem empregadas de maneira consistente,
a maior parte dos pacientes poderá se beneficiar
com o resultado final de uma melhor aderência
e melhora de função sexual.
Efeitos
da Depressão e dos Antidepressivos
Sobre a Função Sexual
Apesar
de os antidepressivos serem conhecidos há
muito tempo por causarem efeitos colaterais
sexuais, com raras exceções este tópico tem
sido ignorado em estudos sistemáticos. Entretanto,
com a recente introdução, aceitação e domínio
dos inibidores seletivos da recaptação da
serotonina (ISRSs) no tratamento dos distúrbios
depressivos, e com o reconhecimento de que
esta classe de antidepressivos está associada
a índices anormalmente elevados de efeitos
colaterais sexuais, o tópico emergiu como
assunto de importantes implicações clínicas.
Como resultado, foi recentemente descrita
uma série de estratégias clínicas que minimizam
ou revertem estes efeitos colaterais. Neste
trabalho, irei revisar o relacionamento entre
depressão e função sexual, os efeitos colaterais
sexuais associados a antidepressivos, e as
estratégias que podem ser clinicamente relevantes
quando estes efeitos colaterais ocorrem.
Função
sexual em pacientes normais e deprimidos
Antes de concluir que um antidepressivo está
afetando a função sexual de um paciente, os
médicos devem considerar outras influências
sobre a função sexual. Estas incluem a função
sexual usual da pessoa, o efeito da depressão,
outros transtornos psiquiátricos (como álcool
ou abuso de substâncias químicas), doenças
clínicas ou outras medicações não psiquiátricas
(Gitlin, 1994).
Pouca atenção sistemática tem sido dada à
função sexual normal devido à impossibilidade
de se obter medidas diretas e devido à hesitação
dos profissionais de saúde em perguntar sobre
sexualidade como parte de suas questões rotineiras
de avaliação. Por exemplo, foi recentemente
estimado que somente 11 a 37% dos médicos
generalistas obtêm, rotineiramente, uma história
sexual de pacientes novos (Seidman e Rieder,
1994).
A depressão, por si só, é, há muito tempo,
associada com sexualidade diminuída. A libido
diminuída era um critério diagnóstico para
depressão maior no DSM-III (mas não no DSM-IV)
(Associação Psiquiátrica Americana, 1980;
Associação Psiquiátrica Americana, 1994).
Ainda, um termo genérico como “sexualidade
diminuída” não distingue entre conceitos clínicos
relacionados, como libido diminuída, atividade
sexual diminuída, satisfação sexual reduzida,
alterações na responsividade fisiológica como
excitação física reduzida, disfunção erétil
ou capacidade de orgasmo. Simplesmente fazer
perguntas genéricas (por exemplo: “você está
menos interessado sexualmente”) para pacientes
deprimidos, praticamente induz os tipos de
distorções cognitivas tão comuns na depressão,
e não provê informações suficientes para avaliar,
acuradamente, uma potencial disfunção sexual.
Poucos estudos clínicos têm, sistematicamente,
perguntado aos pacientes deprimidos sobre
os vários componentes da sexualidade; um número
menor ainda de estudos tem mensurado a função
sexual utilizando medidas experimentais. Para
mensuração direta, os únicos dados experimentais
são em homens, porque a função erétil pode
ser medida pela tumescência peniana noturna
(TPN) (Nofzinger e cols., 1993; Roose, Glassman,
Walsh, e Cullen, 1982; Thase e cols., 1987;
Thase e cols., 1988). Surpreendentemente,
somente 30% dos homens deprimidos mostram
anormalidades na TPN (Nofzinger e cols., 1993).
Em dois estudos recentes, o problema sexual
mais consistente entre os homens deprimidos
foi satisfação sexual diminuída, com alterações
mais variáveis no interesse sexual. Comparados
com a população-controle, pacientes ambulatoriais
deprimidos não foram sexualmente menos ativos
(Nofzinger e cols., 1993; Thase e cols., 1994).
Adicionalmente, um subgrupo de homens deprimidos
relatou interesse e atividade sexuais aumentados.
A melhora na depressão obtida a partir da
terapia cognitiva-comportamental (TCC) (eliminando,
desse modo, efeitos antidepressivos como uma
variável que cria dúvidas) foi associada somente
de maneira inconsistente com atividade sexual
aumentada, porém foi mais fortemente associada
com satisfação sexual aumentada. Além do mais,
a função erétil (conforme medida pata TPN)
não mostrou alteração após tratamento bem-sucedido
pela TCC. Dessa maneira, nos poucos estudos
publicados até o momento, o relacionamento
entre a função sexual e a depressão está longe
de ser simples.
O achado de função erétil anormal após remissão
da depressão pode indicar que essa variável
seja como que um traço indicador de depressão
e, desta maneira, esteja menos associada com
um estado depressivo ativo do que o previamente
imaginado. Além disso, por não existirem medidas
experimentais comparáveis às da TPN para o
estudo da função sexual das mulheres, o exame
sistemático da função sexual em mulheres deprimidas
permanece inexplorado.
Influências
biológicas sobre a sexualidade
As medicações psicotrópicas — e, especificamente,
os antidepressivos — podem influenciar a função
sexual através de quatro mecanismos diferentes
(Gitlin, 1994): (1) Efeitos inespecíficos
no sistema nervoso central (SNC), como sedação,
que pode levar a uma diminuição global na
função e interesse sexuais; (2) Efeitos específicos
sobre o SNC, como, por exemplo, uma medicação
alterando um neurotransmissor do SNC, pode
aumentar ou reduzir alguns aspectos do funcionamento
sexual; por exemplo, se a dopamina intermedeia
a estimulação sexual no hipotálamo, as medicações
que aumentam o funcionamento dopaminérgico
(por exemplo, L-dopa ou estimulantes) poderiam
aumentar o funcionamento sexual, enquanto
que os bloqueadores dopaminérgicos, como os
antipsicóticos, poderiam diminuir a sexualidade
(Barbeau, 1969; Sullivan e Lukoff, 1990);
(3) Efeitos periféricos específicos com medicações
alterando a ação dos neurotransmissores que
intermedeiam a função sexual em órgãos-alvo
sexuais: por exemplo, alterando o tônus alfa-2
adrenérgico, o qual intermedeia a vasoconstrição
e a detumescência peniana, o que poderia causar
aumento das ereções ou mesmo ereções involuntárias,
como observadas no priapismo (medicações psicotrópicas
com acentuadas propriedades alfabloqueadoras
periféricas, como a trazodona, conteriam risco
relativamente alto para produção deste efeito);
e (4)
Efeitos hormonais com medicações afetando
os níveis dos hormônios conhecidos por modularem
a função sexual; por exemplo, os bloqueadores
dopaminérgicos aumentam a prolactina sérica,
o que provavelmente diminui a sexualidade
em homens.
É provável que muitas medicações psicotrópicas,
entre as quais os antidepressivos, tenham
múltiplos efeitos que possam ser contraditórios.
Desta forma, um antidepressivo poderia aumentar
o interesse sexual através da ativação de
mecanismos no SNC, ainda que diminuindo a
expressão desse interesse pela alteração de
aspectos da função erétil periférica. Para
cada medicação e para cada indivíduo, o resultado
clínico definitivo expressaria as múltiplas
influências competindo entre si quanto aos
aspectos centrais e periféricos.
Os mesmos neurotransmissores que desempenham
papéis fundamentais na regulação do humor
e da cognição também desempenham papéis fundamentais
no interesse e na expressão da função sexual
normal (Bitran e Hull, 1987; Gitlin, 1994;
Sagravas, 1989). Em geral, a dopamina aumenta
o comportamento sexual e, especificamente,
potencializa a ereção.
A serotonina parece desempenhar, predominantemente,
um papel sexualmente inibidor. A norepinefrina
tem efeitos mais conflitantes, em parte por
influências concorrentes sobre a neurotransmissão
central versus periférica.
Antidepressivos
e efeitos colaterais sexuais
Em algum grau, todos os antidepressivos de
todas as classes têm sido associados com efeitos
colaterais sexuais. Entretanto, existe uma
notável escassez de estudos metodologicamente
sólidos examinando este tópico. Desta forma,
apesar do recente renascimento de interesse,
relatos subjetivos de efeitos colaterais ainda
dominam a pesquisa neste campo.
Os efeitos colaterais sexuais dos antidepressivos
podem alterar todas as três fases do ciclo
normal de resposta sexual: interesse sexual
(libido), excitação fisiológica (incluindo
lubrificação na mulher e ereção no homem),
e orgasmo (e ejaculação para o homem). Além
das fases comumente diminuídas do ciclo normal
de resposta sexual, também relatou-se que
os antidepressivos causam efeitos colaterais
menos comuns (ver Tabela 1).
Dos efeitos colaterais relacionados na tabela
1, o mais problemático e perigoso é o priapismo,
uma ereção prolongada e dolorosa na ausência
de estímulo sexual. Mais do que com qualquer
outro antidepressivo, ele é associado com
a trazodona, que tem elevadas propriedades
alfa-1 bloqueadoras sem atividade anticolinérgica.
O priapismo ocorre com a trazodona na freqüência
de 1 para 1.000 a 1 para 10.000 (Thompson,
Ware, e Blashfield, 1990). O priapismo induzido
pela trazodona tende a ocorrer dentro do primeiro
mês de tratamento. O priapismo também foi
relatado associado ao uso da fluoxetina em
51 pacientes de uma população tratada de 10
milhões (Dista, 1994). O priapismo deve ser
considerado uma emergência urológica real
porque poderá resultar em impotência permanente
caso não seja instituído tratamento efetivo
dentro das primeiras 4 a 6 horas. O antidepressivo
deverá ser descontinuado imediatamente, e
o paciente deverá ser encaminhado para a sala
de emergência para irrigação do corpo cavernoso
com soro fisiológico ou metaraminol (um agonista
alfaadrenérgico) para promover constrição
venosa e detumescência (Thompson e cols.,
1990).
Tabela
1 — Potenciais efeitos colaterais sexuais
induzidos por medicação.
Tabela
1 — Potenciais efeitos colaterais sexuais
induzidos por medicação.
|
| Efeitos
colaterais comuns (relatados com todos
os agentes). |
| |
| Libido
diminuída
Excitação diminuída
Disfunção erétil
Disfunção de orgasmo/ejaculação
Tempo retardado para orgasmo
Anorgasmia (incluindo disfunção ejaculatória
para o homem) |
| |
| |
| Efeitos
colaterais incomuns |
| |
| Priapismo
(primariamente com neurolépticos e trazodona)
a
Priapismo clitoridianob
Ejaculação dolorosa (com antidepressivos
tricíclicos) c
Anestesia peniana (fluoxetina)d
Libido aumentada (trazodona)e
Orgasmo espontâneo com bocejo (fluoxetina
e clomipramina)f
|
|
aKogeorgos
e de Alwis, 1986, Thompson e cols., 1990
bPescatori,
Engelman, Davis e Goldstein, 1993.
cAizenberg,
Zemishlany Hermesh e Weizman, 1991; Babon
e cols., 1993; Mitchell e Popkin, 1982
dNeill,
1991.
eGartrell
1986; Sullivan, 1988.
fMcLean,
Forsythe e Kapkin, 1983, Modell, 1989.
Entre os efeitos colaterais menos comuns relacionados
na tabela 1, com exceção do priapismo, somente
ejaculação dolorosa foi relatada em mais do
que alguns poucos relatos esporádicos de caso.
Em dois estudos recentes, um demonstrou incidência
de 22% de ejaculação dolorosa em homens tomando
clomipramina (Monteiro, Noshirvani, Marfs,
e Leiliott, 1987), e outro apresentou incidência
de 18% em homens tomando antidepressivos tricíclicos
(Balon, Yeragani, Pohl e Ramesh, 1993).
Poucos estudos compararam a incidência de
efeitos colaterais sexuais em uma população
de pacientes tomando uma variedade de antidepressivos.
Utilizando uma escala de auto-avaliação como
parte de um estudo de tratamento duplo-cego,
Harrison e cols. (1986) descobriram que 30%
dos pacientes tratados com imipramina e 40%
dos pacientes tratados com fenelzina queixaram-se
de efeitos colaterais sexuais, comparados
com a taxa de 6% para o placebo. Utilizando
uma entrevista semi-estruturada, Balon e cols.
(1993) encontraram uma taxa de efeitos colaterais
sexuais de 43% ao avaliarem 60 pacientes sob
sete antidepressivos diferentes. As freqüências
de efeitos colaterais não diferiram significativamente
entre os dois maiores grupos tratados com
imipramina (55%) e fluoxetina (43%).
Os resultados desses dois estudos não demonstram
diferenças significativas nos efeitos colaterais
sexuais entre as classes de antidepressivos.
Porém, ao longo dos estudos, os índices de
efeitos colaterais sexuais parecem maiores
com os ISRSs (Herman e cols., 1990; Jacobsen,
1992; Patterson, 1993; Reimherr e cols., 1990;
SmithKline Beecham, 1993; Zajecka, Fawcett,
Schaft, Jeffriess e Guy, 1991) e clomipramina
(Beaumont, 1977; Monteiro e cols., 1987),
seguidas pelos inibidores da MAO (Harrison
e cols., 1986), tricíclicos (Harrison e cols.,
1986), e, menos comumente, bupropionato (Gardner
e Johnston, 1985). Consistente com essa impressão
geral, o recente estudo experimental demonstrou
que a fluoxetina estava associada com atividade
sexual reduzida apesar de remissão da depressão,
enquanto que a imipramina estava associada
somente com uma tendência de redução (Thase
e cols., 1994).
No mesmo estudo, o bupropionato aumentou o
interesse e a atividade sexuais no período
diurno. De acordo com dados prévios, a incidência
de efeitos colaterais sexuais é de 12 a 18%
com venlafaxina, um antidepressivo recentemente
aprovado pelo F.D.A. nos Estados Unidos. Esta
freqüência é similar àquela observada com
os ISRSs (WyethAyerst, 1994; Zajecka, 1994).
Entretanto, os índices de efeitos colaterais
sexuais para qualquer antidepressivo isoladamente
variam amplamente nos diversos estudos, devido
aos diferentes métodos de determinação dos
efeitos colaterais, diferentes definições
de efeitos colaterais, populações diferentes,
duração do estudo com o antidepressivo, e
doses. Por exemplo, os índices de efeitos
colaterais sexuais da fluoxetina, o antidepressivo
mais bem estudado, variam de 1,8% (Physician’s
Desk Reference, 1994) para 75% (Patterson,
1993). Não há fatores de risco evidentes para
os efeitos colaterais sexuais. E provável
que homens e mulheres sejam igualmente suscetíveis
a esses efeitos colaterais (Gitlin, 1994).
De maneira similar, apesar da maioria dos
casos (e muita experiência clínica anedótica)
focalizar os efeitos dos agentes serotoninérgicos
causando dificuldades de orgasmo — tempo retardado
para o orgasmo ou anorgasmia —, todos os efeitos
colaterais podem ser observados com todas
as classes medicamentosas. Consistente com
este fato, no estudo de Balon et al. (1993),
as dificuldades de orgasmo foram, pelo menos,
tão comuns com a imipramina quanto com a fluoxetina.
Entretanto, comparando somente um antidepressivo
tricíclico com um inibidor da MAO, Harrison
e cols. (1986) descobriram que a fenelzina
produzia maior dificuldade, significativamente,
para se atingir o orgasmo do que a imipramina.
Para tricíclicos, e ISRSs, não há evidência
consistente de que qualquer antidepressivo
dentro de uma das classes esteja associado
com diferentes freqüências de efeitos colaterais
sexuais. A freqüência mais elevada de efeitos
colaterais sexuais observadas com a clomipramina
(comparada com outros antidepressivos tricíclicos)
é, presumivelmente, devido as suas propriedades
mais potentes de bloqueio de recaptação da
serotonina, apesar da sua estrutura tricíclica
(Monteiro e cols., 1987). Entretanto, dentro
da classe de inibidores da MAO, a selegilina
pode ter menos efeitos colaterais que outros
agentes (Mann e cols., 1989). De interesse,
um recente estudo duplo-cego demonstrou que,
comparada à doxepina, a moclobemida, um inibidor
reversível* da MAO disponível na Europa, estava
associado com desejo sexual aumentado (Philipp,
Kohnen e Benkert, 1993). |