| Animais
de estimação — sejam eles cães,
gatos, iguanas, aves, roedores, peixes, serpentes —
têm ocupado espaços cada vez mais privilegiados
como integrantes das famílias contemporâneas.
Muitas pessoas se desvelam por seus mascotes com muito
mais empenho que por qualquer membro da própria
espécie. Segundo etólogos, os bichos reconhecem
esse empenho — e assumem seu lugar como parte
do grupo. Mas o que faz com que alguém opte por
trazer um animal para conviver sob o mesmo teto, prover
seu sustento, a manutenção de sua saúde,
retirar fezes espalhadas pelo quintal ou pela casa e,
ainda, ter os móveis e cantos da casa marcados
por urina, unhas ou dentinhos afiados do novo morador?
Certamente há compensações emocionais
e psíquicas para esses contratempos.
O
self do homem contemporâneo, bem distinto do de
caçadores-coletores remanescentes — como
os aborígenes australianos e alguns índios
da Amazônia —, estruturou-se pela interação
com o meio. A existência dos objetos reais do
mundo é percebida por nós de maneira única,
variando conforme o estágio da nossa subjetivação.
Em relação aos animais não poderia
ser diferente. É comum que principalmente gatos
e cães vivam próximo das pessoas, muitas
vezes dentro de casa. Crianças os encontram disponíveis
e fazem “uso psíquico” deles, conferindo-lhes
uma função muito próxima daquela
ocupada pelo objeto transicional — um aliado que
as ajuda a superar a ansiedade provocada pela idéia
de separação da mãe. Sua presença
está tão incorporada à herança
cultural humana que entre as primeiras palavras pronunciadas
por um bebê estão os vocábulos onomatopaicos
que fazem referência direta aos sons feitos por
eles: “au-au”, “miau”, “pocotó”.
RAZÕES
HISTÓRICAS
Herdamos
de nossos antepassados a proximidade afetiva com os
bichos. Hoje, entretanto, lançamos sobre os animais
novas solicitações, reclamando uma coadjuvação
mais complexa, atribuindo sentidos aos seus comportamentos,
tal qual a mãe faz com o bebê — não
raro, o dono “conhece” os diferentes latidos
de seu cão ou a expressão corporal do
seu gato. Sem perceber, as pessoas optam por estabelecer
relações estreitas com seres tão
diversos como maneira de aliviar angústias. Por
conseguinte, surge o animal contemporâneo, tão
diferente de seus ancestrais: mais que como companhia
eles funcionam como provedores de afeto, ajudando a
resgatar ou estimular aspectos lúdicos e cognitivos.
O
fenômeno contemporâneo da proximidade entre
homens e animais está vinculado a uma seqüência
de significações que vem se configurando
ao longo da evolução humana. Afinal, objetos
reais componentes de nosso mundo têm sentidos
alterados sempre que ocorrem transformações
e conquistas psíquicas. Também ocorre
esse processo na relação entre pessoas
e animais. O lugar ocupado por eles no universo os papéis
e os significados atribuídos a eles se transformaram
em decorrência das mudanças do processo
de subjetivação — as formas como
vemos e sentimos o mundo, o que pensamos e desejamos
com base no que vivemos e como nos apropriamos dessas
experiências.
Por
meio da observação de povos contemporâneos
que se dedicam atividades de caça e coleta, podemos
aferir que seres humanos, antes advento da agricultura,
viviam cercados por pequenos animais, especialmente
para entretenimento. Para expIanar parcialmente o mistério
dessa relação recorremos à etologia.
Os autores P. Bernard e A. Demaret fazem referências
às motivações individuais, bem
como a razões próprias da espécie
humana, comuns a todos, para que se mantenha um animal
de estimação junto de si. Uma das motivações
comuns a cada ser humano, transmitida pelo processo
filogenético (referente à evolução
espécie) está vinculada ao nosso passado
tribal: o comportamento do homem contemporâneo
guarda traços herdados dos caçadores-coletores
É
possível destacar, por exemplo a inclinação
humana para alimenta outro, a disposição
para compartilhar e buscar companhia — traços
presentes em crianças pequenas das mais diversas
culturas. Outra característica é a necessidade
de contato físico direto. Os primatas nos legaram
a tendência de cuidar da aparência e acariciar
os membros do grupo - evidente no comportamento do limpar-se
mutuamente e retirar piolhos. Embora o contato físico
entre pessoas nem sempre seja bem-aceito socialmente
e muitas vezes amarras psíquicas tornem difícil
buscá-lo, o animal doméstico costuma oferecer-se
ao afago.
Para
o cachorro, o grupo humano ao qual pertence se toma
sua matilha, ali ele identifica um líder. A parceria
formada desde muito cedo entre cães e humanos
provavelmente tem sido favorecida essa predisposição
comum para num “ambiente tribal”.
Por
meio da observação de outras sociedades
de caçadores-coletores reconstituições
sugeridas por antropólogos, é possível
estudar dois aspectos vida tribal relevantes para compreender
as relações entre homens e animais: a
importância dada às crianças e os
traços específicos da psicologia tribal.
Quanto
ao primeiro fator, inúmeros autores consideram
que a seleção natural provavelmente privilegiou
nas mulheres aspectos psicofisiológicos que as
motivassem a alimentar cada filho durante seus primeiros
três ou quatro anos. Isso nos faz compreender
de onde vem nossa atual tendência a cuidar dos
pequenos. Nos dias atuais, em que o número de
filhos tem diminuído consideravelmente, e tantas
pessoas vivem sós, especialmente nos grandes
centros, animais de estimação, particularmente
os cachorros, podem servir como substitutos das crianças.
Já os gatos são considerados substitutos
para uma companhia tribal no “acampamento”:
são autônomos, asseados e em geral exigem
pouca atenção.
INVEJA
E IDENTIDADE
Para
o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a sociedade
privilegia valores como beleza, higiene e organização.
Apesar de considerada fundamental para a civilização
pela óptica do positivismo, a ordem em excesso
contribui para o mal-estar, implica a falta de liberdade,
especialmente no que diz respeito à busca do
prazer. Para o autor, a autonomia conquistada não
fez com que a espécie humana abandonasse os ideais
valorizados pela modernidade. Segundo ele, em nossos
tempos, mais que nunca, o ser humano os persegue.
Comparando
a modernidade — época em que a atitude
de busca do prazer era considerada como autodestrutiva
— com o período contemporâneo, denominado
por Bauman pós-modernidade, o sociólogo
sublinha que o mal-estar do homem moderno derivava do
sacrifício de sua liberdade, situação
tolerada uma vez que era a maneira de sentir-se de certa
forma seguro. Já para o homem pós-moderno
o desconforto psíquico decorre de sua tênue
segurança, tolerada graças à liberdade
de procura de prazer.
Pensemos
então no homem contemporâneo, que sobrevive
em sociedades onde as relações são
marcadas por efemeridade, incerteza, instabilidade e
insegurança. Os bens são descartáveis
e é propagada a idéia de que tudo pode
ser substituído. Imaginemos que esse homem se
defronte com um cão que dorme tranqüilamente,
para quem não existem preocupações
acerca da sua sobrevivência, realização
de sonhos e a manutenção de papel na sociedade,
ou com um gato, para quem o alimento “cai do céu”
— basta espreitar um passarinho incauto e sua
refeição está garantida. E, ainda
que por alguns segundos, é muito provável
que a pessoa, tomada pelas demandas internas e externas,
considere quão tranqüila deve ser a vida
do bicho — com urna pontinha de inveja da aparente
segurança e da liberdade com que o animal vive
seus instintos sexuais.
De
fato, bichos parecem seguros quanto a própria
“identidade” e não se preocupam com
o julgamento de seus pares. Já o homem preocupa-se
com seu lugar na sociedade, atravessado por desejos
que nem sempre compreende, precisa “agregar valores”
a si mesmo e a quem representa ou acredita ser. Conforme
salienta o psicólogo Erich Fromm, na sociedade
contemporânea é dado enorme valor ao verbo
ter: status, bens, qualificações, competências,
opiniões etc. Com o advento da tecnologia, a
cultura é invadida e revestida pela idéia
de obsoleto, mesmo em relação a seres
humanos, muitas vezes vistos como peças num sistema
que precisa produzir para que em seguida se consuma
o produto.
O
mal-estar experimentado pelo homem deriva de um existir
sem segurança, segundo Bauman. É justamente
esse olhar que nos ajuda a compreender, do ponto de
vista psicanalítico, os motivos pelos quais tantas
pessoas estabelecem relações afetivas
tão intensas com seus animais. O psicanalista
inglês Donald Winnicott apresenta em sua obra
o conceito de espaço potencial, com base na constatação
de que o existir abarca não somente nossa conduta
na realidade externa ou uma experiência interna,
esta experimentada como algo íntimo, próprio
somente do indivíduo - mas abrange também
uma área intermediária entre a realidade
externa e a interna. Winnicott questiona: onde estamos
durante os momentos em que nos divertimos? Envolvidos
numa atividade cultural ou mesmo numa brincadeira, não
parecemos totalmente voltados para o exterior, nem tão
imersos no nosso mundo interno.
A
capacidade criativa do adulto também está
presente no “gesto criador do bebê que estende
a mão para a boca da mãe, tateia-lhe os
dentes e, simultaneamente, fita-lhe os olhos, vendo-a
criativamente”. Esse lugar psíquico intermediário,
onde nos refugiamos quando brincamos, é chamado
pelo autor de espaço potencial. Segundo o psicanalista,
é primordialmente por meio da apercepção
criativa que o indivíduo desfruta do prazer de
estar vivo. E isso se torna possível durante
atividades lúdicas. O ambiente cultural pode
tanto favorecer quanto dificultar o desenvolvimento
dessa potencialidade. É no brincar, especificamente
nos espaços potenciais, que o ser humano encontra
um refúgio da realidade, da ansiedade e da insegurança.
Nos
nossos dias, é comum que muitas pessoas, ameaçadas
pelo entorpecimento e conseqüente apagamento da
subjetividade, recorram ao convívio com animais
como forma de resgatar aspectos lúdicos - e sobreviver
meio aos conflitos. Nessas relações, é
possível desenvolver um espaço potencial,
onde o self verdadeiro possa emergir de forma espontânea
durante o brincar.
Para
o autor, a experiência criativa relaciona-se à
qualidade viva de alguns animais, bem como à
de seres humanos, embora a experiência não
seja vivida da mesma maneira pelos dois. É inegável
que o cão participa criativamente do jogo com
seu dono, quando, por exemplo, pega sua bolinha e a
morde insistentemente, fitando seu dono num gesto que
o convida a brincar.
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Para
falar das relações objetais –
a diferenciação entre o eu e o outro,
o mundo interno e externo - Winnicott se refere
à gênese dos espaços potenciais,
conceito básico de sua teoria. O autor
introduz a idéia de fenômeno transicional
que pode ser ocupado por gestos – como sugar
os punhos dedos ou a ponta do cobertor –
e pela escolha de objetos denominados na obra
winnicottiana objetos transicionais – como
bichinhos de pelúcia, bonecas, cobertores
ou até os próprios dedos. O investimento
afetivo no objeto permite a passagem psíquica
entre o mundo imaginário e a realidade.
O fenômeno transicional representa um modelo
evolutivo estruturante, que propicia a vivência
da primeira relação simbólica
a criança, que experimentava nos primeiros
meses um estado de fusão com a mãe,
vive com o objeto transicional “a primeira
posse não-eu”.
Ao
falar de “eu” e “não-eu”
o psicanalista inglês se refere à
área intermediária entre a subjetividade
e a percepção objetiva.Para ele,
o objeto transicional se configura como um símbolo
da união do bebê e da mãe
(vista de forma total ou parcial) e, na mente
da criança se localiza no espaço
e no tempo – na fase em que, na ilusão
infantil, os dois estavam fundidos numa relação
simbiótica.
Nos
casos em que parece impossível separar-se
do ursinho querido – ou do paninho de dormir
– subjaz o temor muito intenso da separação
da figura materna. O apego ao objeto pode revelar
a negação dessa ameaça, muitas
vezes inconsciente. O “relacionamento”
entre a criança e o objeto transicional
tem características peculiares: o pequeno
proprietário assume seus direitos sobre
o objeto, e este, por sua vez, deve sobreviver
ao amor e ao ódio infantil (em diversas
ocasiões, o efeito é acariciado
e, em outras, mutilado); é importante que
tenha textura e temperatura agradáveis
ao bebê. Muitas crianças fazem questão
de mantê-lo junto de si – principalmente
nos momentos de tristeza ou insegurança
- recorrem a eles na hora de dormir, incluindo-os
num ritual para aplacar a ansiedade de enfrentar
a experiência solitária de adormecer.
Durante o sono, quando há suspensão
da consciência e os sentidos estão
como que desativados, a criança não
tem certeza de que mãe continuará
próxima quando fechar os olhos –
ou que reencontrará no dia seguindo. O
brinquedo macio, entretanto, está ao alcance
das mãos: pode ser abraçado e acariciado.
Winnicott
lembra que, mesmo passados os primeiros anos,
meninos e meninas podem voltar a ter a necessidade
de buscar objetos transicionais em situações
nas quais se sentirem ameaçados. O esperado,
porém, é que o objeto transicional
seja gradualmente descatexizado, isto é,
deixe de receber o investimento emocional que
a criança lhe destina. Como o espaço
transicional se amplia à medida que a criança
cresce, a tendência é que se desenvolva
em relação a outros relacionamentos,
à arte e às experiências culturais.
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