UMA
PESQUISA PARA EVIDENCIAR A RELAÇÃO DIRETA
ENTRE A INCIDÊNCIA DE TINNITUS E SUICÍDIO
RESUMO
O
propósito desta pesquisa era determinar se há
fundamento na literatura científica que relacione
os efeitos do tinnitus com casos de suicídio.
Foram examinados bancos de dados MEDLINE e
HealthStar procurando combinar os termos "tinnitus"
e "suicídio" durante o período
de 1966 a 2001 para MEDLINE e de 1975 a 2001
para HealthStar. Foram inclusos relatórios
em outros idiomas desde que pudessem ser bem traduzidos
para o inglês. Um total de três relatórios
publicados, pertinentes a este tópico, foram
retomados. Nenhum destes relatórios demonstrou
uma relação causal entre tinnitus e suicídio.
Com freqüência, pacientes que tentaram suicídio
tinham comprometimentos psiquiátricos significativos
preexistentes, a depressão foi o mais comum.
Conseqüentemente, concluímos que em nenhuma
parte desta literatura há qualquer evidência
que justifique a relação de causa e efeito
entre tinnitus e suicídio.
Palavras-chave:
depressão, suicídio, tinnitus.
É
comum encontrar relatórios anedóticos
na literatura popular sobre pacientes com tinnitus de
forma severa que seja considerado causa de tentativa
ou de suicídio. A característica destas
notícias (e.g., Johnson, 1997; Davis, 2001) e
de outros relatórios anedóticos, que geralmente
são promulgados por indivíduos bem-intencionados,
é a de defender a angústia sofrida pelo
paciente com tinnitus.
Nossa
impressão clínica nos mostrava ser improvável
que tinnitus causasse angústia numa amplitude
que levasse o paciente a cometer suicídio. Nos
parecia provável que condições
de comorbidade — como depressão —
servisse para ampliar a reação de um paciente
com tinnitus. Desta forma, uma pesquisa foi conduzida
na tentativa de demonstrar a relação entre
tinnitus e suicídio. Foi feita uma revisão
das publicações realizadas entre 1966
e 2001 que continham tópicos que relacionavam
tinnitus ao suicídio.
MÉTODOS
Foram
examinados bancos de dados MEDLINE e HeathStar
procurando combinar os termos "tinnitus" e
"suicídio" durante o período
de 1966 a 2001 para MEDLINE e de 1975 a 2001
para HealthStar. Estas combinações
foram usadas como títulos de tópicos e
como palavras-chave. Só foram incluídos
relatórios em outros idiomas se tivessem sido
traduzidos. Uma vez recuperados, estes artigos foram
revisados para evidenciar uma relação
direta entre tinnitus e suicídio. Isto é,
os artigos serviram para totalizar as histórias
clínicas e psicológicas antes do suicídio.
RESULTADOS
Foram
encontrados doze artigos no período de 1966 a
2001. Oito dos doze artigos que relacionaram tinnitus
a auto-envenenamento (e.g., quinino, carbamazepina,
brometo de potássio, salicilatos) foram excluídos
desta análise. Permaneceram quatro artigos que
remetiam diretamente tinnitus ao tópico de suicídio.
Em duas das investigações (i.e. Frankenburg
and Hegarty, 1994; Johnston and Walker, 1996), foram
encontrados três pacientes que haviam tentado
suicídio. Lewis et al (1992) informaram seis
casos de suicídio. Um estudo posterior realizado
por Lewis et al (1994) resumiu os dados de 28 pacientes
com tinnitus que cometeram suicídio. Há
evidências no relatório posterior que os
seis indivíduos também informaram que
em 1992 estavam inclusos nos artigos de 1994 e isso
é apenas um resumo dos três artigos pertinentes.
Lewis
et al (1992) descreveu seis casos de indivíduos
com tinnitus que cometeram suicídio. Os autores
conheceram cinco dos seis pacientes. O sexto indivíduo
era assunto relatado em um jornal local. Quatro destes
indivíduos apresentavam desordens psiquiátricas
para as quais medicamentos haviam sido prescritos. O
problema psicológico mais comum era a depressão
que afetou os seis indivíduos sendo que quatro
deles sofriam de depressão maior como doença
principal. Não foi informada nenhuma providência
unificada para depressão. Cinco indivíduos
tinham sido avaliados por um psiquiatra em função
de outros problemas antes de ser avaliado clinicamente
por causa do tinnitus. Convém observar o caso
de um dos seis indivíduos registrados neste relatório
que havia tentado suicídio mas morreu por ser
estrangulado pelo filho.
De 28
pacientes informados por Lewis et al (1994), 10 tinham
uma história de doença psiquiátrica
diagnosticada (depressão maior foi a mais comum)
antes do ataque do tinnitus; outros 8 foram julgados
como depressivos por familiares ou nos primeiros atendimentos
médicos. Assim como no relatório anterior,
não foi informada nenhuma providência unificada
para os casos de depressão nestes indivíduos.
Não havia também nenhuma informação
relativa a quantos destes pacientes estavam sendo tratados
com relação à depressão.
Cerca de 4 pacientes tiveram problemas com uso de álcool.
Um paciente foi descrito pelos autores como não
tendo sintomas psiquiátricos na hora do suicídio.
Ambos
os pacientes descritos por Frankerburg e Hegarty (1994)
tiveram histórias de doença psiquiátrica
significante, embora nenhum dado adicional esteja disponível.
Por fim o caso relatado por Johnston e Walker (1996)
descreveu uma tentativa de suicídio em um paciente
com tinnitus e uma história anterior de depressão.
DISCUSSÃO
O suicídio
foi operacionalmente definido como um ato consciente
de aniquilação auto-induzida que acontece
em uma situação na qual a morte é
sentida como a melhor solução possível
(Shneidman, 1989). Considerando isso, sabe-se que dois
terços dos casos de suicídios geriátricos
podem ser relacionados à depressão (Osgood,
1991). Além da coexistência de doenças
psiquiátricas, geralmente apresentam mais risco
de cometer suicídio pessoas do sexo masculino,
anciãos, sozinhos (separados, divorciados ou
viúvos), socialmente isolados, vivendo em ambiente
urbano, sem colocação fixa e sem apoio
social adequado (Garner et al, 1964; De Leo e Ormskerk,
1991). Deve-se evidenciar que um ancião sozinho
apresenta três vezes mais possibilidades de cometer
suicídio que outros (DeLeo and Ormskerk, 1991).
Aumenta o risco de suicídio se o paciente tem
uma história de doença mental e/ou ameaçou
ou tentou suicídio anteriormente.
No pequeno
número de casos informados, a maioria dos pacientes
com tinnitus que cometeu suicídio tinha comprometimento
psiquiátrico preexistente e potencial probabilidade
com relação ao tinnitus. A doença
psiquiátrica primária era depressão.
Com base na relação do número de
pacientes que cometeram suicídio (número
conhecido pelos autores) e o tamanho de sua população
clínica, Lewis et al (1992) extrapolou a incidência
de casos de suicídio em pacientes com tinnitus
considerando a proporção de 118 a cada
100.000. Se corretos, estes números seriam, de
longe, maiores que a incidência de suicídio
na Inglaterra e no país de Gales cuja estimativa
varia de 8 em cada 100.000 para mulheres e de 12 para
100.000 para homens. Estes problemas são maiores
quando os cálculos são baseados nas estatísticas
coletadas no período de 1 ano (i.e., entre março
de 1990 e abril de 1991), como foi determinado por Lewis
(et al, 1992). Os dados podem não ser inclusivos,
isto é, outros suicídios podem ter ocorrido
sem ter chegado ao conhecimento dos pesquisadores. Também
não se sabe se estes casos eram incomuns ou se
aconteciam de forma constante em anos anteriores. Quer
dizer, é possível que em anos anteriores
a incidência de suicídio no grupo de portadores
de tinnitus era, na verdade, idêntica à
incidência de suicídio na população
normal e que os dados encontrados em março de
1990 eram anormais.
A questão
é: os dados existentes são evidências
diretas que relacionam tinnitus ao suicídio?
Na realidade não há nenhuma evidência
nesta literatura pequena e mal documentada que sugeria
a existência de tal relação. É
provável que a maioria, ou mesmo todos os pacientes
tenham descrito suas condições dentro
de estados psiquiátricos preexistentes o que
poderia ser um desafio às suas habilidades. Lewis
et al (1992) sugeriu que as pessoas deprimidas e com
tinnitus provavelmente procuram mais ajuda médica
por serem menos capazes de enfrentar o desconforto crônico.
Contudo, dito isso, os mesmos pesquisadores declararam:
“O audiologista e o otologista devem estar
atentos sobre o possível aumento de casos de
suicídio entre os pacientes que sofrem de tinnitus”.
Nós acreditamos que este relato seja errôneo.
Em sinal do que sabemos, é mais apropriado declarar
que é necessário que “tanto
o audiologista quanto o otologista devam estar atentos
ao possível risco entre os pacientes deprimidos
que sofrem de tinnitus”.
Contrastando
com as sugestões de outros clínicos (Wilson
e Henry, 2000) nós não buscamos determinar
ativamente se nossos pacientes consideraram ou estão
considerando o suicídio como possibilidade. Contudo,
os clínicos deveriam estar atentos às
declarações feitas pelos pacientes quando
sugerem que o suicídio (i.e., ideação
suicida) é uma alternativa “disponível”
na visão dos pacientes.
Os achados
desta revisão sugerem que não seja o tinnitus
que leve ao suicídio mas sim condições
psiquiátricas concomitantes que ampliam o efeito
do tinnitus em pacientes analisados individualmente.
Esta é uma importante distinção
entre o ponto de vista epidemiológico e o ponto
de vista da avaliação e do aconselhamento.
Por exemplo, em nossa prática clínica,
antes do primeiro encontro face a face com o paciente
exigimos que os mesmos preencham uma série de
formulários como o Inventário de Beck
para Depressão (Beck et al, 1961), o Questionário
de Percepção Somática Modificado
(Main, 1983), o Questionário de Reação
Tinnitus (Wilson et al, 1991), o Tinnitus Handicap Inventory
(Newman et al, 1996, 1998). O produto destas avaliações
é, em geral, sentido pelo grau que o tinnitus
imprime na vida do paciente. Sugerimos que pacientes
que apresentam perfil de depressão clínica,
além de demonstrar desabilidades ou desvantagens
significantes deveriam se beneficiar da combinação
da avaliação psicológica/psiquiátrica
e administração não-médica
concomitante (i.e., terapias com novas informações
sobre tinnitus) de tinnitus. Alternativamente, sugerimos
que pacientes que não mostram evidências
de depressão clínica e somatização
mas que demonstram uma reação intensa
para tinnitus e não percebem em si as dificuldades,
deveriam se beneficiar mais só da administração
não-médica sobre tinnitus. Como em qualquer
outra condição, também sobre o
tinnitus não há nenhuma panacéia
para o tratamento. Pacientes que mostram sinais de depressão
clínica, somatização e uma maior
magnitude de reações a tinnitus percebem
em si a dificuldade do tinnitus enquanto que outros
podem apresentar baixa percepção (i.e.,
pacientes que não demonstram depressão
clínica e somatização evidentes
e que podem demonstrar menor magnitude de reações
ao tinnitus ou dificuldade para identificá-lo
em si mesmo). Ao invés disso, a constelação
de dados, inclusive a entrevista dos pacientes e das
instituições clínicas (baseadas
em experiências clínicas prévias),
combinam medidas unificadas que deveriam direcionar
a recomendação para o tratamento.
Há
algumas negligências nesta revisão que
deveriam ser mencionadas. Primeiramente, a revisão
é limitada a esses relatórios publicados
em diários perscrutados e revisados. É
possível que o grupo que relacione tinnitus e
suicídio tenha sido pouco relatado na literatura
científica. Ou seja, é possível
que mais pacientes tenham cometido suicídio como
resultado direto da atuação do tinnitus
e estes casos não tenham sido relatados. Também
é possível que existam outros artigos
sobre este tema e que os autores não tenham usado
os termos tinnitus e suicídio como palavras-chave
no resumo do texto. Contudo, é improvável
que uma publicação significativa relacionada
a este tema tenha omitido tais termos.
OBS.:
Tinido
- [Do latatim tinnitu.] - substantivo masculino.
Otorrino. Ruído de qualidade variável,
podendo assemelhar-se ao de campainha, ou ao de zumbido,
ou ser ensurdecedor, etc., e que pode ser percebido,
eventualmente, por outra pessoa, além do paciente.
Fonte:
Dic. Aurélio Eletrônico. |