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SISTEMAS
DE CRENÇAS
Mente,
Significado e Transtorno Mental:
a
Natureza da Explanação Causal na
Psicologia
e Psiquiatria.
Primeiramente gostaria de explicar o porquê do
meu interesse por este livro escrito por um psicólogo
e por um psiquiatra.
Em
2001, freqüentava, como ouvinte, o curso de mestrado
em Filosofia da Mente com a intenção de passar uma proposta
neurofilosófica. Contudo, me inscrevi, ao mesmo tempo,
na prova para admissão naquele mestrado e na Residência
Médica de Psiquiatria. Por ter sido aprovado na Residência
adiei o mestrado por dois anos. Nesta ocasião, ao ler
um folder da Oxford University
Press, encontrei um comentário de David Papineau sobre
o livro de Derek
Bolton (D.B.) e Jonathan Hill (J.H.). Uma obra que tenta
aplicar Filosofia da Mente na Psiquiatria. Adquiri o
livro por se tratar de um tema pelo qual muito me interesso.
Os autores Derek Bolton e Jonathan Hill, respectivamente
psicólogo e psiquiatra, ambos ingleses, se interessaram
por Filosofia da Mente e por aplicá-la numa reflexão
sobre doença mental separadamente. Este encontro entre
os dois profissionais promoveu a publicação do livro
Mente, Significado e Transtorno Mental. Os quatro primeiros
capítulos foram escritos por D.B. Os capítulos cinco
e sete foram escritos principalmente por J.H. e os de
número seis, oito e nove escritos por ambos.
A reflexão encontrada nestes ensaios aborda não
só a Filosofia da Mente, mas também a Filosofia da Ciência.
Diversos níveis de organização do ser vivo, do biológico
ao psicológico, são mostrados. As faixas de funcionamento
do normal ao anormal, indo ao psicopatológico para explicação
dos estados mentais.
O primeiro capítulo apresenta a proposta dos
autores. Nesta introdução, D.B. mostra a dicotomia que
existe nas esferas da causalidade em oposição às esferas
do sentido nas explicações de estados mentais. Há explicações
biológicas e científicas dos estados mentais que se
opõem às explicações humanísticas do mundo do sentido,
que aborda o indivíduo inserido numa sociedade e num
contexto histórico. A psicologia popular atribui estados
mentais independentes da psicologia cognitiva, que tanto
avançou com seus modelos de redes neurais e neurocomputacionais.
Ambas confrontam-se, se opõem e se complementam na explicação
de estados mentais, tanto na ordem quanto na desordem
mental.
A Filosofia da Mente, na sua vertente cognitiva,
aborda muito mais estados mentais normais do que desordens
mentais. É necessária uma cooperação interdisciplinar
entre Filosofia da Mente e Psiquiatria para esclarecimento
dos estados mentais tanto na ordem quanto na desordem
mental. Isso leva a uma reflexão completa sobre a mente.
O principal problema desenvolvido por D.B. nos quatro
primeiros capítulos é sobre como fazer a redução da
esfera do sentido na esfera da causalidade. As teorias
sobre o indivíduo, no qual a linguagem é desenvolvida
num contexto social e histórico, acham um sentido nestes
níveis e podem ser reduzidas às explicações biológicas
(redes neurais), psicológicas (sistemas de crenças individuais)
e psiquiátricas (estados mentais anormais). Nestes três
últimos
níveis,
as explicações são reduzidas a uma realidade
mais física do cérebro: neurotransmissores, receptores,
célula neuronal, redes neurais, núcleos e vias nervosas
até áreas e módulos de processamento mental.
Há um mundo de leis naturais na esfera da causalidade
e outro, de regras sociais que o indivíduo segue por
convenção para adquirir linguagem, regras e normas gramaticais
de sintaxe e semântica e, num outro nível, regras e
normas administrativas e sociais que são institucionais
na economia e na sociedade.
O primeiro autor propõe uma "Semântica Funcional"
que, satisfatoriamente, faz uma síntese do sentido com
a causalidade. Dicotomia levantada por Wittengstein
sobre a linguagem e por Karl Jarpers, na psicopatologia.
D.B. responde a problemas e indagações que preocupam
filósofos, clínicos e cientistas há décadas.
D.B. desenvolve toda uma "teoria do conhecimento"
e dentro dessa, toda uma "teoria da mente"
nos aspectos fenomenológicos e epistemológicos para
tornar possível esta síntese. Nesse esforço, filósofos
contemporâneos como Fodor, Milikan, Dennet etc. são
citados com outros mais antigos como Hume, Wittengstein,
Jarpers etc. Questões clássicas são respondidas com
conhecimentos científicos atuais, mas outras questões
novas surgem, ensaio após ensaio, então entra J.H no
capítulo cinco.
Este autor, nas explicações de estados mentais
e respectivos comportamentos relacionados salta, qualitativamente,
da causalidade não-intencional à causalidade intencional
dos estados mentais. Como sistemas biológicos que, aumentando
sua complexidade dinâmica, da físico-química não intencional
nas moléculas no nível celular evoluíram no organismo
para estados dinâmicos intencionais com alças de retroação
que o levaram a ajustar seu comportamento dentro de
uma faixa de funcionamento normal e adaptável.
Um desequilíbrio que leve a um estado não adaptável
desse organismo dentro da causalidade intencional, nos
remete às explicações sobre a causalidade não-intencional:
falta de receptores nas membranas, alterações da condutância
de íons pelos canais que não sofrem alterações de sua
forma alostérica: no caso da doença mental. Existe um
fundamento de causalidade não-intencional de natureza
físico-química. Este forma e é a base de um nível superior
na organização de seres vivos que apresentam causalidade
intencional que surge no nível biológico. Esta causalidade
intencional biológica surge mais complexa e dinamicamente
nos organismos que apresentam estados mentais que culminaram
no homem quando adquiriu linguagem e organizações sociais
mais complexas.
Complexificação da causalidade não-intencional
física para causalidade intencional biológica e desta
para causalidade mental e dentro desta, a causalidade
intencional mental anormal dos estados psicopatológicos,
que escaparam do controle da retroação intencional normal.
J. H. tenta na explicação da causalidade intencional
de natureza psicológica e psiquiátrica resolver o problema
das “causas” e “razões” de um comportamento ou linhas
de conduta no comportamento de seres humanos com estados
mentais mais complexos e/ou complicados, nos casos de
doenças mentais. Existem mecanismos de natureza causal
não-intencional e intencional que explicam determinado
comportamento ou linha de conduta, mas também, razões
que justificam tais comportamentos num plano lógico-racional
da linguagem e estados cognitivo-epistêmicos dos sujeitos
agentes de tais comportamentos.
Já no sexto capítulo, escrito por ambos, D.B.
e J.H., os autores explicam como as regras de linguagem
e sociais são inseridas, epigeneticamente,
nas leis naturais. Leis que são deduzidas da
observação da causalidade não-intencional e intencional
neurobiológicas onde são inscritas epigeneticamente,
no desenvolvimento normal do indivíduo, as regras lingüísticas,
culturais e sociais. Aqui, neste capítulo fica mais
clara a síntese das esferas do mundo do sentido e da
causalidade. Culturas humanísticas e científicas se
complementam, ao contrário de se chocarem e se separarem
em disciplinas estanques, epistemologicamente falando.
Mas como fica a Filosofia da Mente aplicada à
doença mental?
Ao chegar ao capítulo sete, encontrei a parte
que mais me interessava, Transtorno Mental e sua Explanação,
escrito por J.H. Neste capítulo o autor aborda com mais
intensidade a causalidade intencional normal e anormal
em estados mentais psicológicos e psicopatológicos,
respectivamente. Quando ocorre a ruptura da dinâmica
causal intencional de estados mentais funcionais, entramos
na faixa dos disfuncionais. J.H. cita Jaspers, cuja
psicopatologia compreensiva baseava-se na esfera do
sentido, história pessoal, crenças do indivíduo e circunstâncias
vividas pelo paciente à maneira de cima para baixo
(top down). Ao contrário da explicação
causalidade, que de maneira baixo para cima (bottom
up) do nível físico para o químico, desde o bioquímico
para o fisiológico, neuropsicológico e para o psicológico
e psiquiátrico, com aumento de complexidade e abstração
explanatórias.
J. H. cita Davidson, filósofo da ação, que diz
que cada indivíduo gera um quadro de regras e expectativas
e seu papel como base para ação. Desenvolvendo modelos
mentais internos ou esquemas e experiências, cujas novas
evidências vivenciadas pelo sujeito, podem levar a manter
os velhos ou a desenvolver novos modelos e esquemas.
Estes, até que ponto podem ser testados? Até que ponto,
quais experiências vivenciadas pelo sujeito podem apoiá-los
ou desqualificá-los? Até que ponto a pessoa acha necessário
se apegar a estes modelos ou esquemas de maneira a servir
de base para as sua ações e quais as suas utilidades.
Traumas e experiências estressantes podem levar
à ruptura do equilíbrio causal intencional normal e
levar ao anormal, do psicológico ao psicopatológico.
No capítulo oito, escrito por ambos, demonstram
que existe uma Lógica e Epistemologia do transtorno
mental. A Epistemologia pós-empirista mostra que o ego
de uma pessoa normal ou de outra em estado patológico,
funciona como a mente de um cientista. Este tem um sistema
de crenças, hipóteses e expectativas que justificam
a sua ação no mundo, tanto para leigos como para cientistas,
no mundo ou no laboratório.
O
que acontece quando o núcleo básico dos sistemas de
crenças e expectativas é atingido e abalado? Umas pessoas
podem mudá-lo e outras não. As pessoas do segundo grupo
fecham-se em si criando sistemas de pensamentos delirantes
e falsas crenças, apesar de todas as evidências contrárias.
Delírios, ansiedade, depressão e outros estados psicopatológicos,
não são apenas estados cerebrais e mentais, mas abalos
de sistemas de crenças e falta de flexibilidade a realidades
que mudam rapidamente, cujas intencionalidades e faixas
estreitas de funcionamento normal, levam à ruptura do
conhecimento de si e do mundo familiar, social e cultural
nas diversas situações vivenciadas de normais para as
anormais.
Os
sistemas de crenças de um indivíduo são sistemas representacionais
e meta-representacionais em constante desenvolvimento
e mudança. Podem se abrir e se fechar,
permanecer em esquemas rígidos ou flexibilizarem-se
conforme o desenvolvimento, o amadurecimento ou o envelhecimento
do cérebro do indivíduo. Este colocado num meio dinâmico
que muda e o desafia sempre.
No
último capítulo, o nove, os autores discutem idéias
sobre a Filosofia da Mente, na linha de pensamento desenvolvida
pelos mesmos, para serem aplicadas nos casos de esquizofrenia,
transtornos ansiosos e transtornos de personalidade.
Na
esquizofrenia temos a dificuldade de mudar de um dos
quadros de regras de ação para outro à medida que as
situações mudam. Este comportamento está relacionado
com o excesso de dopamina no fenômeno de “inibição tardia”,
quando um indivíduo permanece seguindo um quadro de
regras de comportamento, sendo que novas situações pedem
para o indivíduo mudar de quadro de referência de ação.
A “inibição tardia” pode ser abolida com anfetamina
que libera dopamina, ou pode ser restabelecida por drogas
que bloqueiam a dopamina, tal como o haloperidol.
No
caso da esquizofrenia, o doente mantém um sistema de
crenças delirante e não muda. Criam-se delírios bizarros
de influência, referência e perseguição. O haloperidol
é deliriolítico, o paciente medicado torna mais flexível
o seu sistema de crenças e seu comportamento mais adaptável
à medida que as situações mudam.
Nos
transtornos ansiosos, o núcleo do sistema de crenças
não atende às demandas do meio. Estados de medo instalam-se
e até paralisia ou pânico podem tomar conta do paciente.
As ações do paciente não são adaptáveis, pois seu sistema
de crenças é insuficiente e a ansiedade instala-se.
No
transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), o paciente adquire
um sistema de crenças rígido, que leva a rituais repetitivos
e pensamentos intrusivos. Uma hiperatividade dos núcleos
da base e áreas órbito-frontais cerebrais, são a base
respectivamente, desses dois aspectos psicopatológicos
que é mostrada com aparelhos de neuro-imagem, tomografia
de pósitrons (TEP). A explicação da causalidade não-intencional
e intencional no cérebro, individual, psicológica e
psicopatologicamente torna-se possível.
No
transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), um evento
catastrófico abala de maneira aguda o sistema de crenças
de um indivíduo e as respectivas linhas de conduta e
ação no mundo que as justificam. Por exemplo, uma pessoa
andava de trem e este se descarrilou. Muitas pessoas
morreram e ela sobrevive. Este choque leva a criar um
segundo sistema de crenças no indivíduo, que antes do
evento, acreditava que andar de trem era seguro, que
este mundo era seguro (palco onde se desenrolam suas
ações) por um que acredita que este mundo é inseguro
e o perigo é iminente. Estes dois sistemas entram em
conflito nas memórias e julgamentos do paciente e um
quadro de ansiedade e flashbacks
se instala cronicamente.
Para
terminar esta resenha e comprovar a pertinência das
idéias da Filosofia da Mente e sua aplicação na Psiquiatria,
mostrarei como D.B e J.H o fazem sobre o transtorno
de personalidade. Certos indivíduos têm traços de personalidade
exagerados, maneiras e padrões
de comportamento, de percepção e ação persistentes
que não mudam com o tempo. Tais padrões são persistentes
e podem causar sofrimento nestes indivíduos e então,
tornam-se transtornos de personalidade no Eixo II, do
DSM-IV (Manual Diagnóstico Estatístico da Psiquiatria).
Estariam
estes sistemas de crenças ancorados em sistemas neurobiológicos,
herdados geneticamente, que em casos extremos, submetidos
a estressores psicossociais (Eixo IV) levariam a estados
psicopatológicos (Eixo I) na doença mental?
Recomendo
este livro aos colegas psiquiatras, psicólogos, assistentes
sociais e acadêmicos da área de saúde mental. Acredito
que conhecer mais sobre a Filosofia da Mente, da Ciência
e mais recentemente a da Neurociência é uma necessidade
em nossa formação continuada.
Referência
Bibliográfica
Mind,
Meaning e Mental Disorder: the Nature of Causal Explanation
in Psychology and Psychiatry. Derek Bolton and Jonathan
Hill, Oxford University Press, 1996, London.
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