SISTEMAS DE CRENÇAS

 

Resenha elaborada por Carlos Manuel Cristóvão

(R2- Residência de Psiquiatria da UNOESTE)

 

SISTEMAS DE CRENÇAS

 

Mente, Significado e Transtorno Mental:

a Natureza da Explanação Causal na

Psicologia e Psiquiatria.

 

       Primeiramente gostaria de explicar o porquê do meu interesse por este livro escrito por um psicólogo e por um psiquiatra.

Em 2001, freqüentava, como ouvinte, o curso de mestrado em Filosofia da Mente com a intenção de passar uma proposta neurofilosófica. Contudo, me inscrevi, ao mesmo tempo, na prova para admissão naquele mestrado e na Residência Médica de Psiquiatria. Por ter sido aprovado na Residência adiei o mestrado por dois anos. Nesta ocasião, ao ler um folder da Oxford University Press, encontrei um comentário de David Papineau sobre o livro de Derek Bolton (D.B.) e Jonathan Hill (J.H.). Uma obra que tenta aplicar Filosofia da Mente na Psiquiatria. Adquiri o livro por se tratar de um tema pelo qual muito me interesso.

       Os autores Derek Bolton e Jonathan Hill, respectivamente psicólogo e psiquiatra, ambos ingleses, se interessaram por Filosofia da Mente e por aplicá-la numa reflexão sobre doença mental separadamente. Este encontro entre os dois profissionais promoveu a publicação do livro Mente, Significado e Transtorno Mental. Os quatro primeiros capítulos foram escritos por D.B. Os capítulos cinco e sete foram escritos principalmente por J.H. e os de número seis, oito e nove escritos por ambos.

       A reflexão encontrada nestes ensaios aborda não só a Filosofia da Mente, mas também a Filosofia da Ciência. Diversos níveis de organização do ser vivo, do biológico ao psicológico, são mostrados. As faixas de funcionamento do normal ao anormal, indo ao psicopatológico para explicação dos estados mentais.

       O primeiro capítulo apresenta a proposta dos autores. Nesta introdução, D.B. mostra a dicotomia que existe nas esferas da causalidade em oposição às esferas do sentido nas explicações de estados mentais. Há explicações biológicas e científicas dos estados mentais que se opõem às explicações humanísticas do mundo do sentido, que aborda o indivíduo inserido numa sociedade e num contexto histórico. A psicologia popular atribui estados mentais independentes da psicologia cognitiva, que tanto avançou com seus modelos de redes neurais e neurocomputacionais. Ambas confrontam-se, se opõem e se complementam na explicação de estados mentais, tanto na ordem quanto na desordem mental.

       A Filosofia da Mente, na sua vertente cognitiva, aborda muito mais estados mentais normais do que desordens mentais. É necessária uma cooperação interdisciplinar entre Filosofia da Mente e Psiquiatria para esclarecimento dos estados mentais tanto na ordem quanto na desordem mental. Isso leva a uma reflexão completa sobre a mente. O principal problema desenvolvido por D.B. nos quatro primeiros capítulos é sobre como fazer a redução da esfera do sentido na esfera da causalidade. As teorias sobre o indivíduo, no qual a linguagem é desenvolvida num contexto social e histórico, acham um sentido nestes níveis e podem ser reduzidas às explicações biológicas (redes neurais), psicológicas (sistemas de crenças individuais) e psiquiátricas (estados mentais anormais). Nestes três últimos  níveis,  as explicações são reduzidas a uma realidade mais física do cérebro: neurotransmissores, receptores, célula neuronal, redes neurais, núcleos e vias nervosas até áreas e módulos de processamento mental.

       Há um mundo de leis naturais na esfera da causalidade e outro, de regras sociais que o indivíduo segue por convenção para adquirir linguagem, regras e normas gramaticais de sintaxe e semântica e, num outro nível, regras e normas administrativas e sociais que são institucionais na economia e na sociedade.

       O primeiro autor propõe uma "Semântica Funcional" que, satisfatoriamente, faz uma síntese do sentido com a causalidade. Dicotomia levantada por Wittengstein sobre a linguagem e por Karl Jarpers, na psicopatologia. D.B. responde a problemas e indagações que preocupam filósofos, clínicos e cientistas há décadas.

       D.B. desenvolve toda uma "teoria do conhecimento" e dentro dessa, toda uma "teoria da mente" nos aspectos fenomenológicos e epistemológicos para tornar possível esta síntese. Nesse esforço, filósofos contemporâneos como Fodor, Milikan, Dennet etc. são citados com outros mais antigos como Hume, Wittengstein, Jarpers etc. Questões clássicas são respondidas com conhecimentos científicos atuais, mas outras questões novas surgem, ensaio após ensaio, então entra J.H no capítulo cinco.

       Este autor, nas explicações de estados mentais e respectivos comportamentos relacionados salta, qualitativamente, da causalidade não-intencional à causalidade intencional dos estados mentais. Como sistemas biológicos que, aumentando sua complexidade dinâmica, da físico-química não intencional nas moléculas no nível celular evoluíram no organismo para estados dinâmicos intencionais com alças de retroação que o levaram a ajustar seu comportamento dentro de uma faixa de funcionamento normal e adaptável.

       Um desequilíbrio que leve a um estado não adaptável desse organismo dentro da causalidade intencional, nos remete às explicações sobre a causalidade não-intencional: falta de receptores nas membranas, alterações da condutância de íons pelos canais que não sofrem alterações de sua forma alostérica: no caso da doença mental. Existe um fundamento de causalidade não-intencional de natureza físico-química. Este forma e é a base de um nível superior na organização de seres vivos que apresentam causalidade intencional que surge no nível biológico. Esta causalidade intencional biológica surge mais complexa e dinamicamente nos organismos que apresentam estados mentais que culminaram no homem quando adquiriu linguagem e organizações sociais mais complexas.

       Complexificação da causalidade não-intencional física para causalidade intencional biológica e desta para causalidade mental e dentro desta, a causalidade intencional mental anormal dos estados psicopatológicos, que escaparam do controle da retroação intencional normal.

       J. H. tenta na explicação da causalidade intencional de natureza psicológica e psiquiátrica resolver o problema das “causas” e “razões” de um comportamento ou linhas de conduta no comportamento de seres humanos com estados mentais mais complexos e/ou complicados, nos casos de doenças mentais. Existem mecanismos de natureza causal não-intencional e intencional que explicam determinado comportamento ou linha de conduta, mas também, razões que justificam tais comportamentos num plano lógico-racional da linguagem e estados cognitivo-epistêmicos dos sujeitos agentes de tais comportamentos.

       Já no sexto capítulo, escrito por ambos, D.B. e J.H., os autores explicam como as regras de linguagem e sociais são inseridas, epigeneticamente,  nas leis naturais. Leis que são deduzidas da observação da causalidade não-intencional e intencional neurobiológicas onde são inscritas epigeneticamente, no desenvolvimento normal do indivíduo, as regras lingüísticas, culturais e sociais. Aqui, neste capítulo fica mais clara a síntese das esferas do mundo do sentido e da causalidade. Culturas humanísticas e científicas se complementam, ao contrário de se chocarem e se separarem em disciplinas estanques, epistemologicamente falando.

       Mas como fica a Filosofia da Mente aplicada à doença mental?

       Ao chegar ao capítulo sete, encontrei a parte que mais me interessava, Transtorno Mental e sua Explanação, escrito por J.H. Neste capítulo o autor aborda com mais intensidade a causalidade intencional normal e anormal em estados mentais psicológicos e psicopatológicos, respectivamente. Quando ocorre a ruptura da dinâmica causal intencional de estados mentais funcionais, entramos na faixa dos disfuncionais. J.H. cita Jaspers, cuja psicopatologia compreensiva baseava-se na esfera do sentido, história pessoal, crenças do indivíduo e circunstâncias vividas pelo paciente à maneira de cima para baixo  (top down). Ao contrário da explicação causalidade, que de maneira baixo para cima (bottom up) do nível físico para o químico, desde o bioquímico para o fisiológico, neuropsicológico e para o psicológico e psiquiátrico, com aumento de complexidade e abstração explanatórias.

       J. H. cita Davidson, filósofo da ação, que diz que cada indivíduo gera um quadro de regras e expectativas e seu papel como base para ação. Desenvolvendo modelos mentais internos ou esquemas e experiências, cujas novas evidências vivenciadas pelo sujeito, podem levar a manter os velhos ou a desenvolver novos modelos e esquemas. Estes, até que ponto podem ser testados? Até que ponto, quais experiências vivenciadas pelo sujeito podem apoiá-los ou desqualificá-los? Até que ponto a pessoa acha necessário se apegar a estes modelos ou esquemas de maneira a servir de base para as sua ações e quais as suas utilidades.

       Traumas e experiências estressantes podem levar à ruptura do equilíbrio causal intencional normal e levar ao anormal, do psicológico ao psicopatológico.

       No capítulo oito, escrito por ambos, demonstram que existe uma Lógica e Epistemologia do transtorno mental. A Epistemologia pós-empirista mostra que o ego de uma pessoa normal ou de outra em estado patológico, funciona como a mente de um cientista. Este tem um sistema de crenças, hipóteses e expectativas que justificam a sua ação no mundo, tanto para leigos como para cientistas, no mundo ou no laboratório.

O que acontece quando o núcleo básico dos sistemas de crenças e expectativas é atingido e abalado? Umas pessoas podem mudá-lo e outras não. As pessoas do segundo grupo fecham-se em si criando sistemas de pensamentos delirantes e falsas crenças, apesar de todas as evidências contrárias. Delírios, ansiedade, depressão e outros estados psicopatológicos, não são apenas estados cerebrais e mentais, mas abalos de sistemas de crenças e falta de flexibilidade a realidades que mudam rapidamente, cujas intencionalidades e faixas estreitas de funcionamento normal, levam à ruptura do conhecimento de si e do mundo familiar, social e cultural nas diversas situações vivenciadas de normais para as anormais.

Os sistemas de crenças de um indivíduo são sistemas representacionais e meta-representacionais em constante desenvolvimento e mudança. Podem se abrir e se fechar,   permanecer em esquemas rígidos ou flexibilizarem-se conforme o desenvolvimento, o amadurecimento ou o envelhecimento do cérebro do indivíduo. Este colocado num meio dinâmico que muda e o desafia sempre.

No último capítulo, o nove, os autores discutem idéias sobre a Filosofia da Mente, na linha de pensamento desenvolvida pelos mesmos, para serem aplicadas nos casos de esquizofrenia, transtornos ansiosos e transtornos de personalidade.

Na esquizofrenia temos a dificuldade de mudar de um dos quadros de regras de ação para outro à medida que as situações mudam. Este comportamento está relacionado com o excesso de dopamina no fenômeno de “inibição tardia”, quando um indivíduo permanece seguindo um quadro de regras de comportamento, sendo que novas situações pedem para o indivíduo mudar de quadro de referência de ação. A “inibição tardia” pode ser abolida com anfetamina que libera dopamina, ou pode ser restabelecida por drogas que bloqueiam a dopamina, tal como o haloperidol.

No caso da esquizofrenia, o doente mantém um sistema de crenças delirante e não muda. Criam-se delírios bizarros de influência, referência e perseguição. O haloperidol é deliriolítico, o paciente medicado torna mais flexível o seu sistema de crenças e seu comportamento mais adaptável à medida que as situações mudam.

Nos transtornos ansiosos, o núcleo do sistema de crenças não atende às demandas do meio. Estados de medo instalam-se e até paralisia ou pânico podem tomar conta do paciente. As ações do paciente não são adaptáveis, pois seu sistema de crenças é insuficiente e a ansiedade instala-se.

No transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), o paciente adquire um sistema de crenças rígido, que leva a rituais repetitivos e pensamentos intrusivos. Uma hiperatividade dos núcleos da base e áreas órbito-frontais cerebrais, são a base respectivamente, desses dois aspectos psicopatológicos que é mostrada com aparelhos de neuro-imagem, tomografia de pósitrons (TEP). A explicação da causalidade não-intencional e intencional no cérebro, individual, psicológica e psicopatologicamente torna-se possível.

No transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), um evento catastrófico abala de maneira aguda o sistema de crenças de um indivíduo e as respectivas linhas de conduta e ação no mundo que as justificam. Por exemplo, uma pessoa andava de trem e este se descarrilou. Muitas pessoas morreram e ela sobrevive. Este choque leva a criar um segundo sistema de crenças no indivíduo, que antes do evento, acreditava que andar de trem era seguro, que este mundo era seguro (palco onde se desenrolam suas ações) por um que acredita que este mundo é inseguro e o perigo é iminente. Estes dois sistemas entram em conflito nas memórias e julgamentos do paciente e um quadro de ansiedade e flashbacks  se instala cronicamente.

Para terminar esta resenha e comprovar a pertinência das idéias da Filosofia da Mente e sua aplicação na Psiquiatria, mostrarei como D.B e J.H o fazem sobre o transtorno de personalidade. Certos indivíduos têm traços de personalidade exagerados, maneiras e padrões  de comportamento, de percepção e ação persistentes que não mudam com o tempo. Tais padrões são persistentes e podem causar sofrimento nestes indivíduos e então, tornam-se transtornos de personalidade no Eixo II, do DSM-IV (Manual Diagnóstico Estatístico da Psiquiatria).

Estariam estes sistemas de crenças ancorados em sistemas neurobiológicos, herdados geneticamente, que em casos extremos, submetidos a estressores psicossociais (Eixo IV) levariam a estados psicopatológicos (Eixo I) na doença mental?

Recomendo este livro aos colegas psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e acadêmicos da área de saúde mental. Acredito que conhecer mais sobre a Filosofia da Mente, da Ciência e mais recentemente a da Neurociência é uma necessidade em nossa formação continuada.

 


Referência Bibliográfica

Mind, Meaning e Mental Disorder: the Nature of Causal Explanation in Psychology and Psychiatry. Derek Bolton and Jonathan Hill, Oxford University Press, 1996, London.