Depressão - Novos Remédios (Mídia)

As últimas armas contra a depressão incluem novos remédios, terapias e tratamentos.

Aida Veiga

        Depois de um ano, 89% dos pacientes apresentaram alguma resposta à duloxetina e 82% ficaram livres de todos os sintomas da depressão.

        Em oito semanas, 50% dos sintomas da doença desaparecem com o uso da duloxetina, enquanto com os outros antidepressivos a melhora varia entre 25% e 40%.

Ação Rápida

        Por funcionar logo, o Cymbalta ajuda o paciente a tolerar os efeitos da depressão e a não desistir do tratamento.
Cymbalta – age na primeira semana
Effexor – na segunda semana
Prozac, Aropax e Lexapro – na terceira semana
Ixel – na quarta semana

        Quando o Prozac surgiu, no fim da década de 80, parecia que a cura para a depressão havia sido descoberta. Passados alguns anos, viu-se que uma multidão de médicos e pacientes permanecia insatisfeita com os resultados da chamada “pílula da felicidade”. A indústria farmacêutica, então, investiu numa nova família de antidepressivos, os de dupla ação – versões aperfeiçoadas dos tricíclicos dos anos 50 e 60, com menos efeitos colaterais. Os psiquiatras, pro sua vez, já começam a valorizar outro tipo de terapia, a cognitiva, centrada na resolução de problemas específicos. Paralelamente, surgem estudos científicos comprovando a eficácia de tratamentos alternativos como acunpultura, meditação e exercícios físicos. Pela primeira vez, os deprimidos têm a seu dispor um leque de alternativas. “Quando mais possibilidades, maiores as chances de cura”, disse a ÉPOCA Jerrold Rosenbaum, professor de Psiquiatria em Harvard Medical School e chefe do Departamento de Psiquiatria do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos. “As pesquisas mostram que nenhum tratamento é eficaz para todo mundo. Na depressão, a abordagem sempre tem de ser individual.”

         Na semana passada, durante o congresso da Associação Americana de Psiquiatria, em Nova York, foi lançado o Cymbalta (cujo princípio ativo se chama duloxetina). Desenvolvido pelo laboratório Eli Lilly, o mesmo que criou o Prozac, o remédio não é tão inovador quanto seu antecessor, mas tem três grandes qualidades: apresenta poucos efeitos colaterais, começa a agir já na primeira semana de uso e, por atuar em dois neurotransmissores – a serotonina e a noradrenalina -, ataca tanto os sintomas emocionais da doença quanto os físicos. Em um estudo feito com 8.500 homens e mulheres no mundo todo, 89% responderam bem à droga. Ao fim de um ano, 82% estavam livres de qualquer sintoma da depressão. Quase 400 pessoas participaram da pesquisa no Brasil, onde o resultado foi um pouco mais modesto, porém igualmente promissor: 82% responderam à droga e 72% disseram-se curados após 52 semanas de medicamento.

         A paulista Gisele Roberta de Souza, de 22 anos, foi uma delas. Aos 20 anos, ela mergulhou em depressão depois de romper um longo namoro e mudar para o interior. Ao procurar ajuda, foi convidada a participar do estudo. Em poucas semanas, já não vivia tão ensimesmadas e dormia melhor. “Achei que fosse ficar dependente do remédio, mas isso não aconteceu”, conta. “Ninguém descobriu a pólvora, mas o Cymbalta parece ser eficaz, agir mais rápido e ser mais tolerado do que os demais”, afirma Helena Calil, professora de Psicofarmacologia da Universidade Federal de São Paulo, que participou de estudos que tentaram o Prozac e o Cymbalta.


         Um dos diferenciais da nova droga é a ação nos sintomas físicos que acompanham a depressão: dores lombares, no pescoço, no ombro e na cabeça; tensão e dores no peito; alterações de sono e apetite, desconforto gástrico. “Como não agiam na noradrenalina, remédios como o Prozac deixavam a desejar nesse aspecto”, comenta Florence Kerr-Corrêa, professora de Psiquiatria da Universidade do Estado de São Paulo, outra participante do estudo. Tradicionalmente, o tratamento da depressão visa ao alívio dos sintomas emocionais – a tristeza profunda, o sentimento de culpa e inutilidade, a perda de interesse e prazer, ansiedade e irritabilidade (especialmente nos homens).

         No entanto, estudos mostram que, entre os pacientes que ficaram com sintomas residuais após o tratamento, 94% reclamavam de dores físicas.


         E quem fica com esse tipo de problema tem 76% de chance de recaída. “Um levantamento feito ao longo de 23 anos mostrou que os pacientes enfrentam níveis maiores de depressão quando os sintomas físicos persistem”, disse a ÉPOCA Thomas Schlaepfer, professor de Psiquiatria do Hospital Universitário de Bonn, na Alemanha, e do John Hopkins University, nos EUA. “Eles não conseguem trabalhar, ter vida social e acabam tendo recaídas. Daí a importância de combater esses males físicos.” Para alguns profissionais, no entanto, esse aspecto não é tão relevante. “É fundamental tirar o sujeito daquele estado de tristeza e desânimo”, ressalta a professora Helena Calil. “A dor física merece atenção, mas um enfoque exagerado nela parece estratégia de marketing”, critica.

         Com as duas primeiras cartas de aprovação do FDA (Food and Drug Administration, órgão que regula remédios e alimentos nos Estados Unidos) no bolso, o laboratório Eli Lilly espera a liberação para comercialização do medicamento nos EUA até agosto. No Brasil, ele deve chegar apenas no fim do ano. Além do Cymbalta, três outras drogas estão sob a investigação do FDA, todas com princípio e ação semelhantes às já existentes.” A causa da depressão não é insuficiência de serotonina e noradrenalina, mas está comprovado que antidepressivos que atacam esses dois neurotransmissores são o melhor tratamento”, diz Pedro Delgado, professor de Psiquiatria da Universidade de Cleveland.

         A depressão tem origem num comportamento primitivo, surgido no tempo dos homens das cavernas. As reações dos animais selvagens diante dos perigos são lutar ou fugir. A depressão vem de uma terceira opção – diante de um problema insolúvel, recolher-se e colocar o organismo em ponto morto, para guardar energias para uma decisão futura. “O problema é que essa reação, exagerada, vira um doença que a medicina nem sempre consegue curar”, explica Rosenbaum, de Harvard. O grande obstáculo na luta contra a depressão é o desconhecimento do mecanismo que a causa. Os cientistas desistiram de procurar um único gene e investigam a possibilidade de a origem da doença estar na mutação de um grupo de genes. Por enquanto, sabe-se que ela tem um componente hereditário e é mais freqüente em mulheres – talvez em função das oscilações hormonais. Algumas pessoas caem em depressão diante de dificuldades na vida; outras nem precisam de um grande trauma pra sucumbir. Descobriu-se também que uma depressão prolongada provoca danos ao cérebro, que vai ficando menor e perde sua plasticidade, ou seja, sua capacidade de se recuperar de lesões.” Ainda desconhecemos os danos que isso acarreta, mas certamente afetará a qualidade de vida ao longo dos anos”, afirma Delgado.


         Um estudo feito na Inglaterra com 1200 deprimidos identificou que 69% deles citaram apenas os sintomas físicos como justificativa para uma primeira consulta. Por um lado, esse dado serve de alerta para que os médicos investiguem um possível quadro de depressão nos pacientes que os procuram com dores físicas. Por outro, pode-se imaginar que, em breve, o novo remédio vai ser indicado por ortopedistas para tratar males que não são necessariamente resultado de uma depressão. O mesmo aconteceu com o Prozac, que virou a solução mágica para todo e qualquer problema.

         A “pílula da felicidade” tomou o posto de tranqüilizantes como Valium e Lexotan, que nos anos 70 e 80 eram tomados indiscriminadamente por quem queria apenas dormir tranqüilo depois de um dia estressante. Engordou? A atual receita de endocrinologistas é uma dieta acompanhada de um comprimido de Prozac, para combater a infelicidade que leva a comer demais. Desde 2001 foram lançadas no Brasil 26 cópias do Projac, em versões genéricas ou similares. Em faturamento, os antidepressivos são o segundo mercado mais importante no país, atrás apenas dos remédios destinados ao aparelho digestivo. O avanço desses medicamentos sobre todos os campos da medicina é tão expressivo que o laboratório Eli Lilly prepara uma estratégia de divulgação do Cymbalta entre médicos de diversas áreas. “Nossos representantes visitarão profissionais de todas as especialidades que hoje também receitam antidepressivos, como oncologistas, ginecologistas e clínicos gerais”, conta Daniela Lins de Araújo, diretora de marketing e vendas.

         Essa movimentação é vista com reserva pelos psiquiatras. Eles não almejam o monopólio do tratamento da depressão, mas lamentam o uso excessivo dos remédios. “Médicos de várias especialidades receitam os comprimidos, mas apenas uma minoria é capaz de fazer o diagnóstico correto e acertar na medicação e na dosagem”, lamenta o psiquiatra Joel Rennó Júnior, coordenador do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher, do Hospital das Clínicas de São Paulo. A verdade é que muitas pessoas não se livram do desespero e da depressão com remédios. E outras tantas conseguem se recuperar sem eles. Todos os estudos que compraram a eficiência deste ou daquele antidepressivo com placebo (pílula de farinha dada ao paciente como se fosse um remédio) apontam uma diferença pequena entre ambos: por volta de 20%. “Existem dois fatores fundamentais no tratamento: a relação de confiança entre médico e paciente e a vontade de ficar bom”, comenta a professora Florence. “Às vezes, isso basta”.

         Outro aspecto considerado cada vez mais importante é conjugar a parte medicamentosa com a terapia cognitiva. Desenvolvida nos anos 70, ela é mais pontual do que a psicanálise. O terapeuta tenta convencer o deprimido de que seus medos, suas tristezas e suas preocupações não têm fundamento. É rápida, objetiva e treina os pacientes para enfrentar situações que lhes parecem complicadas. “É excelente para aquelas pessoas mais pessimistas ou introvertidas, que sempre cultivaram um pensamento negativo, mesmo antes da doença”, comenta o professor Rosenbaum, de Harvard.

         Os pessimistas só passaram a indicar a terapia cognitiva a partir de estudos científicos comprovando sua eficácia. Afinal, os índices de cura, com ela, pulam de 60% para 80%. Pelo mesmo motivo, médicos ortodoxos começam a investir em tratamentos alternativos para a depressão. Um dos expoentes desta nova safra é David Servan Schereiber, conceituado neuropsiquiatra francês que fez doutorado nos Estados Unidos com grandes nomes da medicina. Baseado em estudos de centros de excelência como Harward, Cambridge e Duke, o francês criou um método alicerçado em sete técnicas, que vão da acupuntura ao controle dos batimentos cardíacos. “O corpo tem um equilíbrio básico que o inclina para a cura”, diz Schreiber. Na luta contra a depressão, toda receita que dá resultado é bem vinda.

OS TRATAMENTOS DA DEPRESSÃO

Século XIX
Era usada a abordagem de apoio, em conversas com o paciente

A partir da década de 1930
Eletroconvulsoterapia, mais conhecida como eletrochoque. Utilizada até hoje, ainda é um método controverso.

1949
O lítio foi introduzido como estabilizador de humor, na forma de carbolítio. Só foi usado com maior freqüência a partir da década de 1970.

1952
Inibidores da monoaminoxidas, como o Parmat (tranilcipromina), são usados a partir da década de 1960.

Fim da década de 1950
Começa a era dos antidepressivos. O primeiro de grande impacto foi a Imipromina, da família dos tricíclicos.

Década de 1980
Antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina. É a era do Prozac.

Década de 1990 até hoje
Antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, chamados de medicamentos de dupla ação.

FAÇA O TESTE E CONFIRA SE VOCÊ É UMA VÍTIMA DA DEPRESSÃO

Obs: Um sinal isolado não basta para o diagnóstico de depressão. A doença se caracteriza por um conjunto de sintomas.

Nas duas últimas semanas, você teve alguns dos problemas abaixo quase todos os dias?

1. Teve dificuldade para iniciar o sono, ou mantê-lo, ou está dormindo excessivamente?

 
Sim
 
Não
 


2. Sentiu-se cansado(a) ou teve pouca energia?

 
Sim
 
Não

3. Apresentou falta de apetite ou fome em excesso?

 
Sim
 
Não

4. Apresentou pouco interesse ou prazer em fazer as coisas, como se vestir bem ou cuidar da higiene pessoal?

 
Sim
 
Não

5. Sentiu-se triste, deprimido(a) ou sem esperança?

 
Sim
 
Não

6. Sentiu-se mal em relação a si próprio(a), fracassado(a), culpado(a)? Ficou ou deixou sua família triste?

 
Sim
 
Não


7. Apresentou problemas para se concentrar em tarefas como ler jornais, cozinhar, cuidar da casa ou ver TV?

 
Sim
 
Não

8. Apresentou "esquecimentos", ou seja, perda de memória para acontecimentos recentes, como por exemplo, o que comeu no café-da-manhã?

 
Sim
 
Não

9. Esteve tão excitado(a) a ponto de ficar agitado(a), movimentando-se muito?

 
Sim
 
Não

10. Esteve mais lento(a), sem movimento, quase em estado de inércia?

 
Sim
 
Não

11. Nos últimos dois anos, sentiu-se freqüentemente triste, com pouco interesse em fazer qualquer coisa?

 
Sim
 
Não


12. Nos últimos dois anos, teve dificuldade em lidar com o trabalho ou com as questões familiares?

 
Sim
 
Não

13. Nas últimas duas semanas, você teve pensamentos de que seria melhor se estivesse morto(a) ou ferir alguém de algum modo?

 
Sim
 
Não

14. Nas últimas duas semanas, você teve períodos de auto-agressão, automutilação ou planejou cometer suicídio?

 
Sim
 
Não

 

Resultado

Se você respondeu SIM a sete ou mais perguntas, entre as quais obrigatoriamente as de número 4 e 5, é bem provável que você esteja com depressão. Nesse caso, procure um psiquiatra.

 

ÉPOCA n° 312 – 10/05/2004