Medicamentos
Antidepressivos e Insônia
Temas Teoria e Prática do Psiquiatra
V.32 Jan/Dez 2002 - São Paulo
Saint-Clair BAHLS
Prof. Adjunto do Departamento de Psicologia
da UFPR. Mestre em Psicologia da Adolescência.
Nos
processos dos seus sonhos o homem se exercita para a
vida futura.
Nietsche
Resumo
A
depressão maior é uma patologia com alta
e crescente prevalência na população
geral e costuma se acompanhar de alterações
importantes no sono, especialmente a insônia.
A presença de insônia na quadro de depressão
maior tem implicações clínicas,
terapêuticas e prognosticas, sendo fundamental
um manejo apropriado dessa condição. A
depressão maior, por si só, causa alterações
na arquitetura do sono e os medicamentos antidepressivos
também apresentam efeitos sobre a mesma. Este
artigo revisa os efeitos das principais classes de antidepressivos
sobre a arquitetura do sono, trazendo implicações
para a abordagem clínica dessa patologia.
UNITERMOS:
Depressão Maior, Insônia, Arquitetura do
Sono, Antidepressivos.
Introdução
As
alterações do sono desempenham um importante
papel nos transtornos de humor e, em especial, nos transtornos
depressivos. Vários autores destacam a íntima
relação entre alterações
do sono e depressão maior, e a existência
de história prévia de insônia aumenta
grandemente o risco de depressão maior 1-5 .
Mais de 80% dos pacientes com depressão relatam
queixas de dificuldades no sono e, 40 a 60% dos deprimidos
não medicados apresentam alterações
ao exame polissonográfico 6. Estima-se que 90%
dos pacientes hospitalizados com depressão maior
apresentam alterações do sono, especialmente
insonia4.
No
estudo “Epidemiologic Catchment Area” em
relação q queixas de sono, foram encontrados,
na primeira entrevista, 10,2% e 3,2% de queixas de insônia
e hipersonia respectivamente, sendo que 40,0% daqueles
com insônia e 46,5% daqueles com hipersonia apresentavam
um transtorno psiquiátrico. O risco de desenvolver
um quadro de depressão maior foi muito maior
nas pessoas que tinham insônia do que naquelas
que não apresentavam essa queixa. Os transtornos
depressivos apresentaram uma forte relação
com as queixas de sono, pois 14,0% daqueles com insônia
e 9,9% daqueles com hipersonia preencheram critérios
para depressão maior5.
Importância
do Sono na Depressão
As
alterações do sono podem contribuir para
o diagnóstico diferencial nos transtornos de
humor onde classicamente se encontra insônia terminal
na depressão melancólica e hipersonia
nas depressões da adolescência, atípica,
sazonal e bipolar.
A
insônia costuma prejudicar o desempenho e está
associada ao suicídio. Agargün et al7, em
estudo sobre a prevalência da tendência
suicida em pacientes com depressão maior, com
e sem distúrbios de sono, encontraram os índices
de 25% nos casos sem alterações de sono,
50% nas casos com hipersonia e 70% com insônia.
A
associação de medicação
hipnótica-sedativa no manejo da insônia
nos quadros depressivos costuma trazer riscos adicionais
aos pacientes, tais como: sonolência diurna, insônia
rebote, prejuízo cognitivo e diminuição
dos reflexos. Tal associação é
comum e ocorre tanto devido ao tempo de latência
como da própria ação do medicamento
antidepressivo. Raskati8, no projeto “Texas Medicaid
Drug Utilization Review”, em amplo levantamento
sobre a utilização concomitante de medicamentos
hipnóticos e ansiolíticos com antidepressivos
serotonérgicos encontrou em 30451 pacientes os
seguintes resultados: 41,7% com paroxetina, 35,8% com
sertralina, 33,1% com fluoxetina e 33,3% com clomipramina.
E concluiu que pelo menos um terço dos pacientes
em utilização de ISRS/clomipramina também
necessitaram de medicação hipnótica/ansiolítica.
Essa associação medicamentosa precisar
ser cautelosamente observada, pois a sedação
e a toxicidade comportamental devidas a medicamentos
representam as principais causas de acidentes de trânsito9.
Hindmarch10 cita pesquisa realizada na Inglaterra em
que 28% dos acidentes de carro, dos quais 83% tiveram
vítimas fatais, foram caudados devido a sonolência.
McDonald11, na Escócia, estudando o impacto de
psicotrópico na vida diária, investigou
20305 acidentes de trânsito ocorridos no município
de Tayside, no período de agosto de 1992 a junho
de 1995, e concluiu que o uso de benzodiazepínicos
aumenta significativamente o risco de acidentes, sendo
dose dependente, e que em ¾ dos casos em que
houve vitimas fatais os motoristas estavam fazendo uso
deste tipo de medicação benzodiazepínica.
O autor recomenda que em uso deste tipo de medicação
as pessoas não devem dirigir.
Arquitetura
do Sono na Depressão Maior
As
principais alterações na arquitetura normal
do sono que ocorrem nos quadros depressivos são:
a) diminuição da latência da primeira
fase de sono REM, que chegou a ser considerado um dos
melhores marcadores biológicos da depressão12,
b) diminuição da fase 3-4 (delta) de sono
NREM, c) predominância do sono REM para o início
da noite e d) eficiência do sono diminuída
devido a inúmeros despertares. Muitas dessas
alterações persistem após a recuperação
clínica e as mudanças do sono REM podem
ser consideradas um marcador de vulnerabilidade para
depressão 1,3,4,6,7.
Efeito
das Principais Classes de Antidepressivos na Arquitetura
do Sono
ADT:
Aumento da latência REM.
Redução
do tempo total de sono REM.
Efeito
variável sobre a eficiência do sono.
IMAO:
Aumento da latência REM.
Redução
do tempo total de sono REM.
Redução
da eficiência do sono.
ISRS:
Aumento da latência REM.
Redução do tempo total de sono REM.
Redução
da eficiência do sono.
ISNS:
Aumento da latência REM.
Redução
do tempo total de sono REM.
Redução
da eficiência do sono.
Nefazodone:
Não modifica a latência REM.
Não
modifica ou aumenta o tempo total de sono REM.
Aumenta
a eficiência do sono.
Mirtazapina:
Não modifica a latência REM.
Não
modifica ou aumenta o tempo total de sono REM.
Aumenta
a eficiência do sono.
Verifica-se,
portanto, que a maioria dos medicamentos antidepressivos
causa alterações na arquitetura do sono
1,3,6.
Armitage
e col.13, em estudo randomizado duplo-cego sobre a ação
da nefazodona (400 a 500 mg/dia) e da fluoxetina (20
a 40mg/dia) na arquitetura e na qualidade do sono, em
43 pacientes ambulatoriais com depressão maior
demonstraram uma melhora significativa com a nefazodona
comparada com a fluoxetina, pois esta última
torna o sono superficial, abolindo a fase 3-4 NREM,
reduzindo a quantidade total de sono REM e causando
inúmeros despertares ao longo da noite. Porém,
somente 12% dos homens e 38% das mulheres que utilizam
a fluoxetina apresentam queixas subjetivas de prejuízo
na qualidade de sono6.
Em
trabalho sobre a utilização de venlafaxina
em voluntários normais e seu efeito na arquitetura
do sono, Salín-Pascual e col.14 encontraram um
aumento significativo do tempo acordado durante a noite
e uma diminuição dose-dependente do sono
REM, chegando a sua abolição na dose de
150 mg/dia. Concluíram que a venlafaxina tem
uma ação sobre o sono idêntica aos
ADT.
Rush
e col. 2, em estudo duplo-cego, compararam nefazodone
(200 a 500 mg/dia) e fluoxetina (20 a 40 mg/dia) em
pacientes com depressão maior e insônia,
durante 8 semanas, em relação ao número
de despertares a fluoxetina apresentou uma piora progressiva
enquanto a nefazodona apresentou melhora significativa
a partir da segunda semana, e em relação
a eficiência do sono os 2 medicamentos apresentaram
resultados diversos com a fluoxetina piorando progressivamente
e a nefazodona melhorando progressivamente.
Sharpley
e col.15 em estudo duplo-cego, placebo controlado, compararam
a ação de 400 mg/dia de nefazodona com
30 mg/dia de paroxetina sobre o sono de 37 voluntários.
A nefazodona não apresentou diferença
significativa com placebo, e a paroxetina suprimiu o
sono REM, aumentou o número de despertares e
o estágio 1 do sono NREM, e diminuiu o tempo
total de sono.
Winokur
e col.16, em estudo aberto sobre o efeito da mirtazapina
no sono de 6 pacientes com depressão maior, utilizando
as dosagens de 15 mg/dia na primeira semana e de 30
mg/dia na segunda semana de tratamento, encontraram
melhora significativa na dose de 15 mg/dia no tempo
total e na eficiência do sono e ainda uma diminuição
significativa da latência do sono; com 30 mg/dia
encontraram um aumento significativo do tempo total
e da eficiência do sono.
Ruigt e col. 17 utilizando a mirtazapina em voluntários
encontraram uma diminuição da latência
REM e da latência do sono, e um aumento significativo
do sono de ondas lentas.
Observa-se
um nítida diferença entre diversas classes
de antidepressivos e sua ação sobre o
sono. Em relação aos antidepressivos mais
modernos, os ISRS e o INSR apresentam uma ação
negativa sobre a arquitetura do sono, e a nefazodona
e a mirtazapina têm um efeito positivo sobre o
sono. Postula-se que a diferença seja devido
ao bloqueio do receptor da serotonina 5HT2 1-3,6,7 existente
na nefazodona e na mirtazapina, bloqueio esse que se
supõe seja responsável por uma ação
antidepressiva adicional, um efeito ansiolítico,
pela melhora do sono de ondas lentas (fase 3-4 NREM),
pela pouca presença ou ausência de efeitos
adversos extrapiramidais e sobre a função
sexual.
Conclusões
A
maioria dos quadros de depressão maior são
acompanhados de alterações do sono, especialmente
a insônia. E a insônia, por si só,
representa um importante fator de risco para depressão,
além de causar significativo prejuízo
no desempenho. A persistência de alterações
no sono está associada com um risco aumentado
de recaída ou recorrência, assim como,
o alívio precoce da insônia pode melhorar
o prognóstico. Antidepressivos com efeitos adversos
sobre o sono podem reduzir a adesão ao tratamento,
causando dificuldades na evolução do quadro
clínico. O bloqueio do receptor 5HT2 pode melhorar
a qualidade do sono, portanto antidepressivos que apresentem
em seu perfil farmacológico este bloqueio representam
uma importante opção no manejo desses
pacientes 1,3,6.
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