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De todas as tiranias da Natureza sobre o corpo, a pior é
a do sono. Nossas outras "necessidades" fisiológicas
- a alimentação, a evacuação, o sexo e a vontade de,
vez que outra, dar um peteleco em alguém - podem ser
resolvidas em pouco tempo e estão sob o nosso relativo
controle. O sono não. O sono nos puxa para a sua masmorra
e nos mantém lá, arbitrariamente, o tempo que quiser,
sem sursis e sem anelação. Passamos um terço
das nossas vidas inconscientes. Ou seja, um terço das
nossas vidas nos é sonegado - e vá pedir compensação
no fim.
Certas
pessoas conseguem encurtar o tempo de sua condenação.
São as tais que nos dizem, com superioridade, que não
precisam de mais que três ou quatro horas de sono por
dia. Muitas destas passam o dia tirando cochilos extemporâneos.
Na verdade não abreviam a sentença; apenas a parcelaram.
A insônia é uma vitória sobre a prepotência do sono,
mas pagamos por ela com as olheiras e a mente embotada
do dia seguinte. O sono é vingativo.
Nunca
entendi as referências simpáticas ao sono, os apelidos
carinhosos como "uma boa soneca". Chamar o
sono de "soneca" é como chamar o verdugo de
"meu querido". Existem os apologistas da sesta,
que chegam a classificá-la de acordo com uma escala
de prazeres. Sesta de pijama, sesta de sábado,
sesta com cachorro, sesta com mocotó etc. Fazem o elogio
do inimigo. Chamam qualquer coisa boa de sono mas esquecem
que todo sonho é monstruoso, mesmo os bons. O sonho
é o pensamento contra a nossa vontade, é uma ocupação
forçada do nosso cérebro para nos iludir ou anarquizar
- além de normalmente serem confessos, mal dirigidos
e cheios de simbolismo arcaico. E não temos defesa contra
o sono ou sonho. Nosso direito fundamental a ser consciente
é desrespeitado todos os dias, sistematicamente.
A
gente devia poder negociar nossa pena. Trocar o resto
da nossa sentença por boas ações. Eu me comprometeria
a só usar meu tempo recuperado do sono para fins nobres,
como ler meus livros. Que se amontoam na mesa da cabeceira,
testemunhas mudas do desperdício, que é pior castigo
que o sono. Sem falar, claro, na humilhação, nas posições
ridículas e nos roncos de suínos.
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