UM SÍMBOLO MITOLÓGICO E A HISTÓRIA

 

Jornal da APM (Associação Paulista de Medicina)

Suplemento Cultural - Ago/2002 - Coord. Guido A. Palomba

Roberto Godoy - ex-presidente do Conselho Regional de Medicina

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O mito

Asclépios (Esculápio), filho de Apolo e Coronis, foi iniciado na arte de curar pelo centauro Quíron. Aprendeu-a tão bem que conseguia restabelecer a saúde de todos os que o procuravam, chegando mesmo a ressuscitar mortos. Isto gerou a ira de Hades (Plutão) que pediu providências a Zeus (Júpter). Asclépios foi então fulminado por um raio1.

 

 

A história

Não se sabe desde quando os gregos cultuam Asclépios como o deus da medicina, mas é fato que muitos templos foram erigidos em seu louvor por toda a Grécia. Em 420 a.C.foi construído, em Epidauro, um templo que se tornaria o mais importante deles, não só porque, diz uma das lendas, Asclépios nasceu nessa cidade mas também porque foi lá que Hipócrates de Cós (460-377 a.C) atuou como sacerdote e desenvolveu seus estudos3 . Os doentes iam a esse templo e lá dormiam, esperando a cura para seus males, por um processo que foi comparado ao mesmerismo.

Pausânias descreve a estátua criselefantina desse templo em Epidauro3,4 . Nessa Asclépios está sentado em um trono tendo em uma de suas mãos um bastão e a outra repousando sobre a cabeça de uma serpente. A seus pés cochila um cachorro.

Outras obras gregas antigas retratam Asclépios com o bastão e uma serpente. Há uma moeda de Epidauro datada do século IV a.C., que se encontra no Staaliche Munzsammlung em Munique5  (Figura 1); há também, uma estátua de Asclépios originária de Epidauro, de data incerta, que se encontra no Museu Arqueológico Nacional de Atenas6  (Figura 2) e, ainda, uma escultura alto-relevo em mármore datada de 375 a.C., no mesmo museu em Atenas5.

 

              Figura 1

Figura 2

 

Todas as representações de Asclépios contam com uma só serpente que significa prudência, segundo uns1 , ou a capacidade de readquirir a juventude pela troca de pele, segundo outros7 . Na iconografia, Asclépios é representado com um bastão na mão e uma serpente enrolada sobre este último, sendo considerado o símbolo da profissão médica e da farmácia5. Não há como confundir com Hermes (Mercúrio); este sim porta um caduceu com duas serpentes8

Na Grécia, durante o século V a.C., o culto a Asclépios já era seguramente praticado. 

Pérgamo, cidade localizada na Ásia Menor, foi fundada no século IV a.C. por Orantes9. O próprio nome da cidade mostra sua origem, mostra sua origem, significa cidadela. Foi fundada num ponto de encontro fluvial, de forma que um muro tornava muito fácil sua defesa. 

Permaneceu como um mero morro fortificado até 282 a.C. quando Filátero, a quem Lisímaco (um dos sucessores de Alexandre) confiara seu tesouro para guardá-lo nessa fortaleza, apoderou-se dos valores e declarou a independência da cidade10 . Em 263 a.C. Êumenes, sobrinho de Filátero, deu início a uma expansão que tornaria Pérgamo uma das pérolas da época helenista, rivalizando com Alexandria. 

Fica evidente que quando os cidadãos de Pérgamo começaram a erigir seus templos, tanto o culto quanto templo dedicado a Asclépios já eram coisas antigas na Grécia Continental.

 

 

A opinião 

Está claro que cada um pode escolher como símbolo da medicina, ou de qualquer outra atividade, o que melhor lhe aprouver, assim como artistas podem ter concepções próprias. Entretanto, a civilização ocidental inúmeras vezes recorreu aos deuses gregos para procurar seus símbolos e seu patronos e os médicos tem o seu em Asclépios, deus grego da medicina.

Portanto, caso se aceite Asclépios como símbolo da Medicina não há o que discutir , há uma só serpente.

A escultura com duas cobras encontrada numa coluna do Propileu de Pérgamo (ou qualquer outra obra artística que contenha os dois répteis) nos permite apenas uma das seguintes conclusões: ou nada tinha a ver com a arte de curar ou foi feita por um povo que adorava uma outra simbologia, diferente da grega e a da civilização ocidental na qual nos incluímos (nos incluímos?).

 

 


Referências Bibliográficas

 

1. Dicionário Básico de Mitologia. M.A. Vilela (co-ordenação). Rio de Janeiro, Ediouro, 2000, p.47.

2. The Blue Guides - Greece S. Rossiter (m.a.) London, Ernest Benn, 1977, p.282.

3. O Mundo Grego Antigo. M.C. Amouretti & F. Ruzé. Lisboa, dom Quixote, 1993, p.221.

4. www.theoi.com/Kronos/Ascklepios.html (Pausanias 2.26.1-2.28.1).

5. Dizionario iconográfico. I. Chisesi. Milano, RCS Libri, 2000, p.64.

6. www.culture.gr/2/21/211/21104m/e211dm01.html.

7. O livro de Ouro da Mitologia. T. Bulfinch. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001, p.350.

8. Dizionario iconográfico. I. Chisesi. Milano, RCS Libri, 2000, p.210.

9. Guide grec antique. P. Faure & M.J. Gaignerot. Paris, Hachette, 1980, p.184.

10. História da Civilização. W. Durant. S. Paulo, Cia Editora Nacional, 1957, tomo V, p.296.