O
que deseja o paciente do médico
está implícito no modo deste se
aproximar. Uns querem
milagres, atenção, carinho, apoio. Outros
querem uma solução técnica para
a sua disfunção mas que ela venha
de uma pessoa em que confiam e de
quem esperam um tratamento compreensivo
e bondoso. Por estes
aspectos positivos pode-se pensar
que haverá colaboração na atitude
do paciente para com o médico mas
é preciso considerar variações individuais
e ter presentes os que fogem a esta
regra. Na verdade o nível
de cooperação será inversamente
proporcional ao de regressão. Há
pacientes que temem ver as suas
fantasias confirmadas ou anuladas
e escondem, consciente ou inconscientemente,
o que levaria o médico às conclusões
que receiam. Outros temem
uma indicação de cirurgia e farão
o que pensam poder induzir o médico
a não recomendar esse tipo de tratamento. Quem
teme um processo maligno pode deixar
fora de seu relato, consciente ou
inconscientemente, sinais e sintomas
que o amedrontam. Também é preciso
considerar um grupo de pacientes
que conseguiu através da formação
de sintoma um tipo de estabilidade
e que defenderá inconscientemente
a sua “doença” para preservar o
seu equilíbrio.
O
MÉDICO: Como
o paciente, o médico estará sujeito
às mesmas contingências e limitações
peculiares aos seres humanos. Se
ele não tem uma doença, e isso se
verá adiante que não é inteiramente
válido, certamente tem uma personalidade
que reage ao paciente e ao que este
lhe apresenta. É pois,
da maior importância o estudo das
linhas mestras da organização da
personalidade do médico para que
se possa compreender a sua participação
na relação que estabelece com o
paciente.
Como
fiz ao considerar o paciente, vou
considerar que os tipo de personalidade
entre os médicos variam amplamente.
Para delimita-las apontarei os extremos.
De um lado o profissional emocionalmente
bem integrado, ciente de suas capacidades
e limitações, capaz de aceitar o
paciente como ele se apresenta,
com um mínimo de rechaço e intolerância,
bem equipado de conhecimentos científicos
e com possibilidades de usar de
modo prático esse fundo de informações.
É certo que juntamente com esses
aspectos positivos encontraremos
áreas que reagem com angústia, depressão
e, por conseqüência com certo rechaço
a alguns aspectos do paciente.
Estas porém, estão mais ou menos
contrabalançadas pelas primeiras. Levando
em conta que o adulto está integrado
de partes adultas e infantis, masculinas
e femininas, interessa destacar
que o tipo de personalidade que
estou descrevendo pode aceitar e
usar todos esses aspectos num todo
único e harmônico. Para uma
divisão ulterior que será feita,
fica destacado que este tipo de
médico se preocupa mais com tratar
os seus pacientes que se curarão
em função do tratamento. Um
exemplo deste tipo de médico é o
clássico “médico de família”,
tolerante e bonachão capaz de aceitar
e entender a natureza humana como
ela é sem exigir que os pacientes
se adaptem aos modelos éticos e
estéticos de moda.
No
outro extremo, vamos achar o médico
cuja personalidade está dominada
por ideais de perfeição e narcisismo
o que levam a rechaçar como doente
as partes de si mesmo consideradas
como infantis, femininas e imaturas. A
dificuldade que sente em tolerar
o que sente em si como “doente”
é a mesma que sente com o
paciente e que o leva a atitudes
de rechaço e intolerância com ele.
Ainda bem equipado com conhecimentos
médico-científicos, falta-lhe a
possibilidade de usá-los pela angústia
e depressão que lhe provoca o paciente,
dificultando o contato com o mesmo. Está
dominado pela necessidade compulsiva
de curar e se frustra quando o tratar
não redunda logo em curar. Esta
frustração modifica gravemente
as suas relações com o enfermo a
ponto de deixar o médico inteiramente
à mercê de respostas do paciente. Este
tipo de médico popularizou o dito
“o que atrapalha a Medicina são
os pacientes” e mostra como são
valorizados desmedidamente os conhecimentos
intelectuais sobre a disfunção e
o repúdio pelo aspecto racional,
pela regressão do enfermo, que não
encaixam na idéia que esses profissionais
fazem do que é ser o doente. Essa
divisão que faz do enfermo corresponde
a divisão que o médico faz de si
mesmo, tratando as suas capacidades
intelectuais e técnicas como os
únicos elementos valiosos de sua
personalidade e negando ou desprezando
os aspectos emocionais de si mesmo,
como faz com o enfermo.
A
personalidade do médico indica o
sentido que tem a sua escolha da
Medicina como carreira. Ser
médico sempre foi e creio que continua
sendo uma das escolhas mais estranhas
como vocação pois, implica no desejo
de estar sempre próximo ao sofrimento
e à morte, contingências tão temidas
pelo ser humano. Não
é este o lugar indicado para desenvolver
tema tão sedutor mas basta dizer
que o móvel básico dessa escolha
é antes de tudo uma curiosidade
e um desejo, consciente ou inconsciente,
de saber mais e cuidar melhor daquilo
que sentimos como doente em nós
mesmos - o infantil, o feminino
- no homem, o masculino -
na mulher, o regressivo. Vê-se
portanto, que ao lado da personalidade
que reage o médico tem também uma
doença particular e pessoal. Assim
a escolha profissional está baseada
no desejo do médico de tratar
e curar a si mesmo, o que ele faz
tratando e curando o paciente.
A
história da Medicina é tão antiga
como a civilização. O homem passou
por três etapas definidas na conquista
da natureza de si mesmo. São
as mesmas que a criança passa na
sua trajetória para chegar a adulto
integrado. Inicialmente as criaturas
humanas e as crianças estão dominadas
pelo animismo, doutrina que considera
o universo e o que nele se encontra
como habitado por “almas” boas e
más que “animam” os seres vivos
e inanimados. Os fenômenos
naturais, manifestações dessa animação,
portanto explicando a semelhança
do homem que os observa. Esta
é a base do animismo, cujas técnicas
são a magia e a feitiçaria. A
Medicina primitiva tinha e tem suas
bases no animismo. A
segunda etapa do desenvolvimento
é religiosa. Enquanto no animismo
o poder mágico está estreitamente
ligado ao poder ilimitado do pensamento
- no pensamento as limitações de
causa-efeito, tempo-espaço, vida-morte,
podem ser resolvidas satisfatoriamente
graças à possibilidade de fantasiar
o que não se consegue na realidade
- na fase religiosa esse poder é
atribuído às divindades que podem
ser manejadas graças a certas técnicas
simples como o sacrifício, a promessa,
a oração, etc. A
terceira e última das etapas evolutivas
da humanidade e de cada criança
é a científica. Nela o homem
submete-se finalmente às limitações
da realidade e às contingências
de sua condição humana. Mesmo
nesta fase pode se “vislumbrar a
antiga fé na onipotência, expressa
agora na confiança do homem no poder
de sua inteligência, por meio da
qual talvez um dia possa triunfar
sobre as limitações impostas pela
realidade”. (M.Martins)
O
que nós médicos usamos está pretensamente
baseado em postulados científicos,
pertencendo à terceira etapa evolutiva. Entretanto,
é preciso reconhecer que as nossas
bases científicas podem estar mais
ou menos contaminadas por crenças
animistas e religiosas em função
do nível evolutivo atingido pelo
médico. Ao verificar o tipo
de escolha profissional podemos
deduzir o tipo de medicina que será
praticada e o grau de magia e onipotência
que introduzirá no uso de seus conhecimentos
científicos.
Portanto
à pergunta: Que deseja
o Médico? Cabe igualmente
uma variedade infinita de respostas
e delas tomarei os extremos para
delimitar o campo. O profissional
amadurecido e integrado é geralmente
um indivíduo que orienta o seu pensar,
sentir e agir por postulados científicos. Para
ele o paciente é uma pessoa necessitada,
sofredora e em busca de ajuda. Compete-lhe
compreender da melhor maneira
possível as fontes desse sofrimento
e tratar dentro dos limites de suas
possibilidades.
Tratar
é um imperativo. Curar é objetivo
condicionado às possibilidades reais
dentro de um critério científico. Destacarei
que mesmo neste profissional um
certo grau de princípios mágicos
estão em ação, mas eles interferem
muito pouco no seu trabalho. Face
às situações estressantes que enfrenta
em seu trabalho o médico sofre pequenas
regressões mas é de se esperar que
ele possa identificar a origem e
a presença das mesmas.
No
outro extremo está o médico orientado
basicamente por necessidades animistas
e mágicas e cujos conhecimentos
científicos, por mais completos
que sejam, ficam a serviço das suas
necessidades de exibicionismo e
grandiosidade. O paciente
deixa de ser um indivíduo com direitos
próprios que vem necessitado e sofrendo
em busca de ajuda para ser um instrumento
da gratificação narcisística do
médico. A sua necessidade de
afirmação torna a transação com
o paciente uma situação onde o curar
aparece como necessidade compulsiva. O
tratar sem os resultados imediatos
é mais frustrante e sem valor. O
que realmente importa é a satisfação
do médico em diagnosticar corretamente
a doença e curar a disfunção de
um modo relâmpago. O seu trabalho
está mais a serviço de sua megalomania
com a qual se relaciona com
insegurança o que provoca a existência
de uma parte “doente”, rechaço
dentro de si mesmo. O que
faz é mais importante como meio
de provocar a admiração e o amor
de seus semelhantes a sua pessoa
do que como ajuda ao paciente.
O doente é um instrumento
para as demonstrações mágicas do
médico em busca do aplauso que alivia
a sua insegurança e culpa.
A
maneira do médico receber o paciente
será uma conseqüência do que disse
acima. O médico bem integrado
aceitará o paciente como ele se
apresenta e poderá dedicar-lhe sua
atenção e cuidados na medida em
que se apresente despreocupado consigo
mesmo e com a sua doença. Nessas
condições o médico tem possibilidades
de ouvir e perceber tudo o que o
paciente tem a dizer e ir em busca
daquilo que este não pode ou não
quer trazer. O médico está
à disposição do paciente para servi-lo
aceitando todos os oferecimentos
que o paciente lhe faz de suas “doenças
parciais”, sem irritar-se pela falta
de ordem e pela confusão em que
se apresentam as queixas, sem desesperar-se
pelos aspectos aparentemente
irrelevantes das queixas.
O médico aceita seu papel em vários
níveis:
1:
Como técnico dotado de um fundo
de conhecimentos e manobras
capazes de ajudarem o enfermo;
2:
Como pessoa que trata e cuida, mistura
de mãe com paciência, pai capaz
de usar sensatamente a sua
autoridade;
3:
Como pessoa animada
por aspectos que o paciente coloca
nele de juiz, mágico ou divindade,
de acordo com as necessidades que
sente.
O
médico compreende os desejos do
paciente mas não permite que os
mesmos modelem ou modifiquem sua
conduta. Nesta tríplice função
o médico pode receber o paciente
como a pessoa com disfunção que
ele pode diagnosticar ou tratar,
como a personalidade amedrontada
que reage face à disfunção e como
o primitivo atemorizado, em regressão,
que busca introduzir na relação
médico-paciente aspectos animistas
e religiosos. O médico aceita
o paciente em seu tríplice aspecto,
trata-o aproximando-se dele mas
deixando-se modificar muito pouco
ou nada por esse impacto.
No
outro extremo está o modo de receber
o paciente por parte do médico imaturo
e narcisista, mais preocupado consigo
mesmo, com o seu prestígio, as suas
necessidades mágicas independente
de quanto conhecimento científico
possa ter. O paciente
é parte de um esquema determinado
e tudo o que tem a oferecer fora
daquilo que é o desejado e esperado
pelo médico é tratado como importuno,
irrelevante, sem importância
e enseja de parte do médico atitudes
de rechaço e desagrado que complicam
sobremaneira o campo transacional
da relação. Além disso a imaturidade
de parte do médico implica numa
divisão muito extensa de sua personalidade,
como apontei acima. De
um lado os seus aspectos intelectuais
são supervalorizados, assim como
a mágica do conhecimento e da ciência. Do
outro, os seus aspectos emocionais
que dificilmente se adaptam e se
submetem aos primeiros. A
atitude de rechaço do médico com
a sua parte emocional e regressiva,
para ele doente, leva ao rechaço
na parte correspondente do seu paciente.
RELAÇÃO
MÉDICO - PACIENTE:
Até aqui tracei delimitações dos
papéis do paciente e do médico mas
sem tecer detalhes, apenas esboçando
os extremos do que realmente existe.
O encontro ou relação entre ambos
se faz em função de necessidades,
explícitas ou implícitas, de
cada um dos indivíduos que o
transacionaram. Ao falar de ambos
procurei destacar aspectos mais
importantes dessas motivações.
O
encontro está em grande parte modelado
por estas motivações, que
são os dínamos originadores da energia
para o mesmo. O modo
como se processa a relação, guarda
estreita ligação com as motivações
especialmente as inconscientes,
mas obedece a aspectos já
consagrados pelo uso e pelo
costume. Com vistas à
sistematização vou ater-me
aos tradicionalmente reconhecidos
na relação médico-paciente:
1:
O paciente deseja contar o que o
aflige e o médico pretende obter
uma anamnese, ponto de partida do
seu estudo do paciente;
2:
O paciente autoriza o médico a vasculhar
o seu ser, nos aspectos físico e
psíquico, examinando-o em busca
de sinais que lhe permitirão fazer
um diagnóstico. Parte dessa
concordância é a de submeter-se
a exames complementares realizados
por terceiros a serviço do médico;
3:
O paciente espera que algo
seja feito, geralmente pelo médico,
para aliviar seu sofrimento e o
médico pretende usar suas técnicas
e drogas para o mesmo fim,
na medida do possível. Os processos
de diagnóstico e tratamento irão
modificar o panorama da doença do
paciente pela participação do médico.
A
ANAMNESE: O paciente chega
até o médico com um compromisso
ou doença que ele mesmo elaborou,
usando as disfunções percebidas
e a regressão. Neste momento,
o paciente está num estado desorganizado,
o seu compromisso é mal articulado
e o que ele apresenta ao médico
dependerá do tipo de pessoa
que é ou da disfunção que sofre. Se
o homem da febre for uma pessoa
bem estruturada iniciará o relato
de sua doença de modo cronológico,
referindo que até tal dia se sentia
bem e que num momento determinado
percebeu que estava febril e que
em seguida apareceram mal estar,
vertigens, dor de cabeça e inapetência.
O compromisso foi feito com um mínimo
de interferência das fantasias ligadas
à regressão, mas ele certamente
está presente. Outro
homem da febre pode chegar ao médico
dizendo que está com medo de ter
uma doença grave pois tem sintomas
semelhantes aos de um
conhecido que morreu de meningite
ou queixando-se dos transtornos
que representam a doença e assim
por diante. Cada paciente oferece
ao médico o seu conjunto de “doenças
parciais”, e dentre elas o médico
deverá escolher algumas para serem
melhor investigadas. Assim,
como o paciente faz as suas “escolhas”
de “doenças parciais” sem bases
nas relações de causa-efeito, sem
critérios inteiramente subjetivos,
podendo omitir algumas que despreza
por achar que não tem valor ou por
temê-las, o médico também faz uma
opção escolhendo dentre as queixas
as que para ele são mais significativas. Como
se consignou acima essa escolha
pode estar fundamentada em dois
aspectos diferentes: no seu conhecimento
científico e no modo como sua personalidade
reage frente ao relato do enfermo. Aceitar
como válidas ou destacá-las como
importantes ou não, serão atitudes
baseadas em fatores conscientes
e inconscientes, em formulações
científicas ou irracionais de parte
do médico. No encontro estão
duas personalidades com características
próprias, com motivações particulares
e padrões racionais pré-estabelecidos
até um certo ponto, e isso
determinará que elas sejam mutuamente
influenciadas, em graus diversos. Pode-se
portanto, obter quatro combinações
possíveis com tipos extremos de
paciente e de médico acima apresentados,
no que tange ao trabalho de colher
a história clínica.
1.
O encontro do paciente imaturo cujas
doenças têm um destaque predominante
da regressão com o médico
narcisista e imaturo é a combinação
mais grave e com menores possibilidades
de êxito no tratamento.
Ao relato espontâneo do paciente
surgirá um quadro que imediatamente
será modificado pelo interesse e
pela intervenção do médico. Se
o interesse for maior por sintomas
com bases fisiopatológicas definidas
através dos quais ele pode gratificar
sua onipotência e exibicionismo
científico terá pouca paciência
com relatos do paciente centrados
na regressão e suas manifestações. Poderá
dirigir o questionário buscando
sintomas e desprezando por seu desinteresse,
uma série de queixas que o paciente
valoriza. Este poderá submeter-se
a essa exigência do médico mas ao
preço de uma revolta interna que
não expressa e cuja conseqüência
é a impossibilidade de estabelecer
uma relação de trabalho com o médico.
Se o paciente se revolta contra
a direção que o médico pretende
impor-lhe com seu questionário o
mesmo fracasso existirá pois surgirá
um clima de tensão e insatisfação
por parte do médico que se vê frustrado.
2.
As possibilidades de obter uma relação
menos complexa melhoram quando o
médico imaturo se vê frente a um
paciente integrado, com aspectos
regressivos menos acentuados que
os da disfunção. O paciente corresponde
mais ao interesse do médico e este
poderá mesmo colher uma história
clínica razoável mas, isto será
conseguido a despeito de sua participação
pois, a relação médico-paciente
em nada se beneficiará de sua contribuição.
3.
O médico capaz, com o paciente
de personalidade equilibrada permitirá
o estabelecimento de uma relação
de trabalho excelente com base numa
relação bi-pessoal cooperativa e
de interesse mútuo.
4.
Finalmente, o médico bem integrado
poderá prestar relevantes serviços
ao paciente em pânico que o procura.
A capacidade do primeiro em ouvir
as queixas do paciente, investigá-las
de um modo sistemático e dar-lhe
atenção, demonstrar interesse ouvindo-o
e estimulando-o a falar, estabelecem
uma relação de confiança que facilitará
grandemente a complementação
desta etapa do trabalho médico e
das seguintes. Após ouvi-lo
e interrogá-lo, o médico poderá
reapresentar ao paciente o que lhe
foi comunicado organizando de um
modo unitário as queixas de forma
que o paciente possa compreendê-las
em suas relações de causa-efeito,
na medida em que for possível ao
médico. Esta parte da anamnese representa
a primeira intervenção do médico
no sentido de tratar o paciente
e implica em conhecimentos psicoterápicos
de como melhor usar a “droga” o
médico e sua personalidade.
Nesta
etapa da relação, o paciente com
a sua disfunção e regressão, se
aproxima do médico com temor e esperança,
angústia e desejo de alívio.
O médico com as suas funções de
técnico, pai-mãe e mágico aceita
a disfunção e ao compreendê-la explica-a
ao paciente; aceita a criança sofredora
e com paciência e autoridade restabelece
a confiança do doente em si mesmo;
põe-se em contato com o homem em
regressão que quer utilizá-lo como
mágico todo-poderoso, aceita o que
o paciente lhe diz, não se deixa
modificar ou ser induzido
ao papel proposto e encontra uma
solução não mágica que oferece de
volta ao paciente.
Para isso, o médico deve estar capacitado
a ouvir e a saber distinguir as
várias “doenças parciais” separando
a disfunção da regressão e mostrando
isso ao paciente. Este
não deseja “tapinhas nas costas”
e sim a paciência, a bondade, a
autoridade, curiosidade ou interesse
científico e o conhecimento por
parte do médico.
Para
que esta etapa do encontro não seja
prejudicada em seus objetivos o
médico deve ter uma organização
do trabalho com um mínimo de burocracia
entre ele e o paciente e este
mínimo ser confiado a uma enfermeira
bem informada, cortês e discreta.
Se possível atenderá os pacientes
na hora que lhes marcou evitando
as esperas longas que em última
análise implica desrespeito ao paciente.
Em seguida é preciso considerar
as condições materiais para o trabalho.
Um lugar simples e agradável, onde
o paciente tenha a certeza de poder
falar sem ser ouvido por terceiros
nem ser interrompido por auxiliares,
telefonemas, etc, em muito ajudarão
que ele possa expor o que sente.
O escutar do médico está sob o escrutínio
constante do paciente e as respostas
fisionômicas e corporais de parte
do médico - gestos de espanto ou
de nojo, bocejos, manifestações
de impaciência, irritação ou cansaço
- são prontamente cantados de modo
que o médico deve exercer um certo
domínio sobre elas. Tudo aquilo
que percebe no médico e o que este
lhe diz será apenas uma parte do
percebido, servirá ao paciente para
organizar suas “doenças parciais”
daí o empenho em descobrir a aprovação
ou reprovação, o agrado ou desgosto,
a esperança ou o desespero por parte
do médico. Este se encontra
numa posição significativa e poderá
auxiliar ou prejudicar o paciente
com o que expressa, explícita ou
implicitamente, e deve ter plena
consciência dos potenciais que mobiliza.
Auxiliar o paciente quando mostra
interesse, atenção, respeito pelo
que este lhe oferece.
Pode orientar o foco do paciente
para certos pontos obscuros ou omissões
que deseja ver esclarecidos em desprezar
as demais queixas que lhes são oferecidas.
Pode anotar por futuras referências
e investigações de outros pontos
importantes menosprezados ou omitidos
pelo enfermo se julgar inoportuna
a ocasião de tocá-los.
Quando lhe parecer conveniente pode
interromper o paciente para reorganizar
o seu relato e colocar disfunções
e regressão de um modo organizado
de causa-efeito e aqui destacar
a importância de fatores subestimados
ou negligenciados pelo paciente.
Isso será feito de um modo tal que
o paciente possa receber a explicação
como ajuda e cooperação do médico
e não uma repreensão ou crítica.
Prejudica
o paciente quando o impede de relatar
as suas queixas reagindo de modo
impróprio ao que ouve. Espanto,
preocupação, julgamentos morais,
éticos, e estéticos, sinais de irritação
e desagrados não tem lugar num consultório
médico, por não serem funções do
médico, e não contribuírem para
o desempenho da tarefa em vista.
O capítulo das doenças introgênicas
é vasto e importante mas, não pode
ser abordado neste trabalho.
Também mencionarei, sem entrar em
maiores detalhes, o problema referente
ao que perguntar, quando fazê-lo
quais os limites que devem ser observados.
Em geral, o médico se comporta conforme
o padrão estabelecido. Está indicado
a pedir a uma paciente que se dispa
por completo para ser examinada
mas, em geral, há restrições da
parte da paciente e do médico, ao
indagar ou permitir que a paciente
aborde certos aspectos de sua vida,
por não estar sancionada ou não
haver por parte de ambos, a convicção
da importância em fazê-lo.
Ajuda
seu enfermo o médico capaz de aprender
aspectos básicos da personalidade
daquele, dirigindo discretamente
o interrogatório para aspectos significativos
de sua história, ajudando-o desse
modo a encontrar as dificuldades
que têm percebidas ou não. Por outro
lado, perguntas intempestivas e
inoportunas minarão o clima de confiança
indispensável à relação médico-paciente.
O
EXAME CLÍNICO: Após
ter contado sua história e apresentado
suas queixas o paciente espera ser
examinado e o médico satisfeito
com a anamnese inicial deseja fazer
isso mesmo. O costume
modificou, nos últimos anos, o exame
clínico graças ao que Balint
chama de trabalho apostolar do médico.
Pedir ao paciente que se dispa,
fazer um exame vaginal ou retal,
olhar a boca e o orofaringe, vasculhar
os aspectos mais recônditos do corpo
são medidas sancionadas pelo uso
e representam conquistas do trabalho
dos médicos que convenceram os pacientes
da necessidade e conveniência de
assim proceder. É um direito
do médico pedir ao seu paciente
que se mostre à palpação, à
percussão, à ausculta e às demais
técnicas de exames desenvolvidas
pela medicina. Apenas
no que tange ao exame psicológico,
parte fundamental do exame clínico,
faz-se ainda necessária a atividade
apostolar do profissional fazendo
que o paciente compreenda como o
que pensa, sente e faz são partes
importantes de sua conduta global
ou, como é moda dizer, psicossomática.
Ser
examinado tem sentidos diversos
dependendo da compreensão, do nível
de maturidade do paciente, do medo,
da angústia e da orientação mágica
que utiliza. O médico deve
ter presente que cada paciente é
feito de partes diferentemente substituídas,
lógicas e mágicas. Um exame
físico deve levar esse fator em
consideração para que o profissional
mantenha um contato afetivo com
o examinando, continuando o que
mostrou em relação à anamnese.
O médico que se mantém alerta para
as modificações ocorridas no paciente
durante o exame poderá aliviar os
seus temores, incompreensões
à medida em que surjam.
O
paciente com febre submetido a um
exame oftalmoscópico está convicto
que através dessa “janela” o médico
espia dentro de sua cabeça e vê
a “meningite”.
Simultaneamente buscará na expressão
do examinado sinais de alarme
ou de tranqüilidade para os
seus temores. Quem percebe
essas alternativas pode desmontar
as fantasias do enfermo, tranqüilizando-o
e mantendo-o com este um melhor
contato emocional que resultará
na sua melhor cooperação para o
trabalho.
Com
o paciente imaturo o médico terá
presente uma pessoa dominada por
fantasias de perigo e premonições
de acontecimentos catastróficos. Se
a mulher com perturbação de ciclo
menstrual tiver um nódulo na glândula
tireóide, do ponto de vista do médico
sem maior expressão ou significado
ou se encontrar uma taquicardia
igualmente irrelevante, em nada
beneficiará ao informar esses achados
e estará, pelo contrário, fornecendo-lhe
combustível para as suas fantasias
hipocondríacas. Se for
uma pessoa madura e com menor nível
de regressão poderá ser-lhe
comunicado isso ao final do exame,
se o médico assim o desejar.
Assim
como o paciente, o profissional
tem reações próprias ao exame
clínico e muitas delas já devidamente
abordadas no tocante à anamnese.
As recomendações sobre a sua atitude
no tocante à discreção de manifestações
fisionômicas, posturais ou verbais
feitas já feitas devem ser ratificadas
e enfatizadas nesta etapa do exame. Esta
recomendação é especialmente importante,
mas desconfio que perfeitamente
inútil, para o médico narcisista
e exibicionista de suas habilidades
e conhecimentos. O exame
físico é uma situação de sujeição
onde o paciente, para obter a ajuda
do médico, aceita despir-se, mostrar-se,
ser tocado e manuseado, nas mais
estranhas posições e com técnicas
desconhecidas. É uma
situação onde o paciente está claramente
numa posição passiva, submissa em
relação ao examinador. Por
isso, mesmo se presta a ser um momento
para demonstrações descabidas de
conhecimento, para tripudiar sadicamente
sobre o enfermo, transformado em
instrumento de engrandecimento do
médico que busca assim ofuscar e
provocar a admiração do pobre enfermo.
O
exame físico é uma situação excelente
para auxiliar o paciente a compreender
um pouco mais a sua doença. As
“doenças parciais” e desorganizadas
que nos apresentou foram, até certo
ponto, organizadas e estruturadas
na sua anamnese. Com o exame físico
é possível completar o quadro ou
ampliá-lo. Terminado
o mesmo, o médico dará uma orientação
mais completa do que pensa ser a
disfunção e do que julga serem as
suas manifestações. É possível
que o médico deva apresentar com
humildade um quadro onde o diagnóstico
não esteja ainda definido. É o momento
em que pede ao paciente que realize
exames complementares. É
importante que se mantenha o contato
afetivo, explicando ao paciente
o que se pensa e captando as reações
ao que lhe dizemos. No tocante aos
exames complementares é necessário
que saiba claramente o que fará
e porquê. Uma informação
simples ajudará a neutralizar conclusões
erradas e nocivas tiradas da leitura
antecipada desses resultados, ocorrências
geralmente inevitáveis.
Em determinados casos o médico julgará
conveniente não dar ciência ao paciente
do que descobriu ou do que poderá
vir a ser encontrado nos exames
laboratoriais. Cabe à
família ouvir o que o médico tem
a dizer e assim permitir que ele
se desincumba de seu dever.
Ao comunicar os seus achados ao
paciente deve ter em mente o que
e a quem o faz. Em geral, o médico
informa o enfermo dos problemas
encontrados e fica alerta para duas
possibilidades. A de que o
paciente utilize sua comunicação
para reforçar a regressão e as fantasias
de perigo sobre a sua “doença” quando
será necessário retificar logo as
distorções feitas ao receber a informação. A
outra é que ao ser informado o paciente
responde como se nada lhe houvesse
dito negue o que ouviu. Se
o médico pensa que o paciente deve
tomar em consideração a informação
para tratar de outras providências
enfatizará o conteúdo de sua comunicação
e as implicações observadas na conduta
do enfermo. Uma outra
alternativa é a de que o médico
não sinta que possa comunicar o
que encontrou ao paciente, por julgar
que este, dominado pelo pavor, não
tem condições de ouvir e nesse caso
cabe informar à família.
O
examinador poderá prejudicar o paciente
nesta fase de relação deixando-o
totalmente ignorante, como se fosse
uma criança que não deve tomar conhecimento
do que se passa com ela, ou transmitir-lhe
impressões direta ou indiretamente,
que o levem a inferir conclusões
nocivas, ou fazer afirmações sobre
aspectos que ele mesmo não esteja
certo. Mas de todos os
meios de induzir reações iatrogência
o mais grave é a do médico inseguro
que receia expor-se e procura resolver
a situação rotulando como “muito
grave” toda e qualquer situação
descarregando assim a sua responsabilidade
em relação a possíveis e inevitáveis
fracassos terapêuticos.
Além de ineficaz a maneira é
prejudicial por induzir no paciente
e na relação com o médico um clima
de maior tensão e desespero.
O
TRATAMENTO:
A terceira etapa da relação
médico-paciente é de tratamento
mas pelo que deixa assinalado anteriormente,
em vários momentos da anamnese e
dos exames físicos, o tratamento
de regressão se inicia no momento
mesmo que o paciente decide procurar
o médico. O que geralmente
se inicia a tratar nesta etapa é
a disfunção e as suas causas. Estas
considerações servem para
lembrar que ao tratar deve-se levar
em consideração que cuidamos de,
pelo menos, dois aspectos do paciente
- a sua disfunção e a regressão. Geralmente,
a primeira é bem estudada, diagnosticada
e tratada. É o
mesmo que dizer que a esse aspecto
da doença dá-se mais facilmente
um status de enfermidade. A
segunda é mais ou menos ignorada
na prática médica quando não é objeto
de desdém e do rechaço, manifesto
ou implícito, por parte do terapeuta.
Infelizmente, essa dicotomia tem
efeito desastrosos pois, as “doenças”
do paciente estão de tal modo interligadas
que é freqüente ver o fracasso do
tratamento quando não se cuida devidamente
do aspecto regressivo. Os
tratamentos com base farmacológica
ou cirúrgica exclusiva, ao não levarem
em consideração a necessidade de
uma boa relação com o enfermo, facilmente
redundam em fracasso.
Balint
diz que “Sem lugar à dúvida a droga
mais freqüentemente usada na clínica
geral é o médico mesmo”, e com isso
refere-se à personalidade do terapeuta
e ao modo como ela é usada no tratamento. O
modo como se relaciona com o paciente
depende da medida em que é bem sucedido
nas suas funções de mãe-mágico-técnico.
Para poder usar sua personalidade
como elemento terapêutico básico,
o pano-de-fundo contra o qual se
usam as outras técnicas de tratamento,
o médico necessita ter ou adquirir
certas qualidades fundamentais que
resumirei assim:
1-
Uma personalidade orientada preferentemente
no plano científico e onde os traços
mágicos e narcisistas desempenham
um papel mínimo;
2-
Uma atitude de aceitação do paciente
como este se apresenta, o que está
intimamente relacionada com a aceitação
de si mesmo nos seus aspectos primitivos
e “doentes”;
3-
Um sincero desejo de ajudar o paciente
a compreender melhor a sua disfunção
e a sua regressão, sejam quais forem
suas manifestações;
4-
Um fundo de conhecimentos científicos
- incluindo conhecimentos sobre
as personalidades - e de capacidade
técnica básica ao desempenho de
sua tarefa, tanto no que diz a respeito
à disfunção como à regressão
conseqüente;
5-
A firme convicção de sua pessoa
de que seus conhecimentos só poderão
ser empregados corretamente em condições
mínimas de tempo - disposição das
horas necessárias ao bom desempenho
de seu trabalho-espaço, dispondo
de acomodações simples indispensáveis
ao bom trato com o paciente - de
equipamentos tanto no que diz respeito
à personalidade do médico como do
material indispensável ao seu trabalho
com o enfermo.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:-
Balint,
M. (1955) The doctor, His patient
and
Illness.
Em Problems of Humann Pleasure and
Bechaviou.
Londres:
Horgarth Press, 1957.
Martins
M. (1966): Mania e Onipotência.
Relatório
apresentado ao VI Congresso Psicanalítico
Latino-Americano,
Montevideu Julho de 1966.