UMA
EXPERIÊNCIA...
QUANDO
O MÉDICO VIRA PACIENTE: EDUCAÇÃO
MÉDICA,
A VIVÊNCIA DO "OUTRO" E A CONSOLIDAÇÃO
DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE
Francisco
Arsego de Oliveira*
Leda Curra
Airton T. Stein
Carmen Fernandes
Felipe A. Correa
Sérgio Sirena
O GHC
é uma instituição pública,
vinculada ao Ministério da Saúde, e seu
Programa de Residência Médica em Medicina
Geral Comunitária (Medicina da Família)
está estruturado há 19 anos, sendo um
dos pioneiros na especialidade no Brasil e um dos que
mais profissionais formou ao longo da sua história.
Oferece atualmente 18 vagas para residentes de primeiro
ano, distribuídas por Unidades de Saúde
localizadas na Zona Norte de Porto Alegre. Costumamos
dizer que esse programa busca conciliar uma forte qualificação
clínica com um apurado sentido social da prática
médica. E o processo de familiarização
de nossos médicos-residentes - que não
é algo novo no Programa - busca colocar em prática,
de formas diversificadas, esses princípios, proporcionando
aos novos membros das equipes uma idéia da complexidade
do trabalho interdisciplinar em atenção
primária à saúde.
Nesse
ano resolvemos, então, ousar. Organizamos uma
gincana em que foram estabelecidas quinze tarefas a
serem cumpridas pelos novos médicos-residentes,
reunidos em três subgrupos. Essas tarefas foram
divididas de forma tal que permitiam que se cumprissem
os objetivos da familiarização: (l) integrar
os médicos-residentes entre eles; (2) integrar
o grupo de novos médicos-residentes à
instituição — GHC, Serviço
de Saúde Comunitária (SSC) e Programa
de Residência Médica; e (3) proporcionar
uma vivência aos médicos-residentes como
pacientes, frente ao Sistema Único de Saúde
(SUS).
É
claro que os médicos não são os
culpados pelos problemas no SUS, mas estão na
linha de frente do sistema, prestando os primeiros atendimentos
à população. Assim, foram elaboradas
várias tarefas no sentido de oportunizar ao residente
o contato com o sistema de saúde na perspectiva
de seus usuários, como, por exemplo, conseguir
uma consulta simulando uma doença aguda, marcar
uma consulta com especialistas, doar sangue, obter medicamentos
de uso continuado para o tratamento de hipertensão
arterial e descobrir a localização e o
estado de saúde de pacientes internados em um
dos hospitais da instituição. Essas atividades
não foram pensadas para ter uma conotação
denuncista ou fiscalizadora em relação
aos serviços de saúde. Apesar disso, foram
as que causaram mais polêmica, mesmo entre alguns
profissionais (médicos e não médicos)
do próprio SSC, que chegaram a questionar a validade
da experiência. Entretanto, temos a convicção
de que um "choque de realidade" contribui
para qualificar o atendimento de saúde que esse
grupo de jovens médicos prestará à
população — pelo menos nos dois
anos em que estarão vinculados ao Programa de
Residência. E uma melhor qualificação
passa, necessariamente, pelo reconhecimento do outro
como cidadão, que, infelizmente, apesar dos inegáveis
avanços do SUS, ainda pode enfrentar dificuldades
para obter exames laboratoriais simples, consultas com
especialistas ou mesmo tarefas que podem parecer prosaicas,
como localizar o leito e ter acesso ao médico
assistente de um paciente em uma instituição
em que trabalham mais de 800 médicos e que possui
mais de 1600 leitos!
A humanização
do atendimento prestado é um dos nossos princípios
básicos, e talvez essa preocupação
com "o outro" explique, em parte, o sucesso
e a aceitação do Programa de Residência
e do SSC/GHC entre a população e a surpreendente
atenção dada pela mídia. Há
vários anos são desenvolvidas atividades
educativas direcionadas aos médicos-residentes,
buscando evidenciar justamente isso: a importância
de entender como pensam e pelo que passam os pacientes
atendidos nos consultórios do sistema público
de atenção à saúde. Esse
é o "choque de realidade" de que falamos
acima. No momento em que o próprio médico-residente,
por exemplo, busca e não consegue medicação
do SUS para hipertensão, ele passa a entender
melhor um dos motivos dos pacientes para abandonar o
tratamento proposto. Da mesma forma, dará especial
valor ao tempo gasto na sala de espera dos postos de
saúde e pensará duas vezes antes de encaminhar
um paciente a um especialista, pois o problema apresentado
por ele pode, como ocorre com cerca de 90% da demanda
que procura o SSC, ser resolvido — e bem —
na própria unidade básica de saúde.
No
momento da apresentação das tarefas, ao
final da gincana, foi interessante ouvir os depoimentos
dos diversos subgrupos sobre essa experiência.
Notava-se uma mistura de surpresa e satisfação
entre os participantes, pois, como relatado, em nenhum
momento de sua vida acadêmica foi-lhes dada uma
oportunidade como essa.
De
nossa parte, ficamos igualmente satisfeitos com os resultados
dessa atividade: cumprimos a nossa função
como educadores. A recomendação é
que outras instituições façam o
mesmo, sob forma de gincana ou qualquer outro modo,
mas que oportunizem uma vivência crítica
da realidade do Sistema Único de Saúde,
partindo da ótica dos pacientes. Às vezes,
como foi dito em uma das reportagens exibidas na televisão,
provar um remédio amargo pode representar uma
ação pedagógica inestimável
e contribuir para a implantação definitiva
do SUS no Brasil.
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* Programa de Residência Médica em Medicina
Geral Comunitária Grupo Hospitalar Conceição
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