| Princípios,
técnica, indicações e limitações
da psicoterapia complexa de Jung. - Estrutura da psique.
- Os arquétipos. - Fases da individuação
etc.
Se a psicologia
individual adleriana pode ser criticada por não
ser propriamente individual (ainda que de todas as escolas
psicológicas modernas seja a que leva mais em
conta a pressão que a comunidade social exerce
sobre o indivíduo e construa a caracterologia
deste de acordo com normas excessivamente simplistas
e rígidas), o que nao impede seja manejável
e atrativa quando enfrentamos casos de pouca complicação
psicológica; a psicologia complexa de Jung -
e ao sistema psicoterápico que dela deriva -
não podemos fazer-lhe a censura de não
corresponder em seu conteúdo ao que no título
promete: é não só complexa, mas
também confusa. Mais útil seria, como
veremos, saber escolher e selecionar devidamente os
casos a que devemos aplicá-la.
Em
linhas gerais vimos que as concepções
de Adler serviam de um modo especial - ainda que esta
não seja a opinião de seus fiéis
adeptos - para o trato com personalidades infantis,
imaturas que, com falta de auto-suficiência e
de segurança, tentam produzir impressão
a qualquer preço. Ao contrario, a zona de ação
da psicoterapia junguiana, é a das pessoas maduras
próximas da crise evolutiva ou submergidas nela,
que, ao reverem a sua vida e seus fins, se dão
conta de que se equivocaram em seu caminho e não
acertam em encontrar a sua rota ou acreditam que seja
demasiado tarde para segui-la. Tais pessoas requerem,
muito mais que as jovens, perspectivas que as consolem
de seu desgosto íntimo pelo "tempo perdido
e que já não voltara" e, de outra
parte, as preparem para enfrentar a idéia de
sua morte próxima, idéia esta que se apresenta
cada vez mais clara. Quando de um modo espontâneo
não existe nelas um sentimento religioso suficientemente
intenso para lograr a sua transcendência nêle,
falham os princípios psicoterápicos correntes;
o ceticismo e o pessimismo não propiciam em tais
enfermos uma relação fácil, nem
tampouco é possível oferecer-lhes grandes
coisas nem satisfações a sua libido, em
plena regressão hormonal. E então precisamente
que essa espécie de credo religioso-científico,
sem maiores pretensões, pode alcançar
a sua máxima eficácia curativa: se a psicanálise
freudiana gira em redor do descobrimento do complexo
edipiano e da liquidação dos sentimentos
de culpa, a psicoterapia junguiana leva ao descobrimento
da anima materna e à realização,
embora tardia, da própria vocação
(voz interior) que nela acha suas raízes. Tudo
isso pressupõe a posse de um sistema complicado
de conceitos, alguns dos quais têm um conjunto
de raízes empírico-experiências
e outros, infelizmente, são meras abstrações
mítico-especulativas.
Vamos tentar uma síntese
de tal sistema, ajudando-nos com alguns esquemas elaborados
por uma das discípulas prediletas do mestre de
Zurique, a Dra. Jacobi:
ESSÊNGIA
E ESTRUTURA DA PSIQUE
Para
Jung, a psique tem tanta realidade quanto o soma (corpo)
e apresenta uma "estrutura" não menos
complexa que a deste, ainda que suas dimensões
sejam virtuais. A psique (termo com que Jung designa
o aparelho psíquico freudiano) acha-se dividida
em zonas ou estratos, dos quais,
a maior parte corresponde a processos que não
tem a propriedade de refletir-se sobre si e, portanto,
são inconscientes, ao passo que a outra parte
possui tal característica.
Quatro
são as zonas que se devem distinguir na psique:
a)
a zona do ego (também chamada egótica,
em que nasce e atua a consciência da existência;
b) a zona do conhecimento
geral;
c) a zona do inconsciente
pessoal;
d) a zona do Inconsciente coletivo.
Esta ultima subdivide-se em duas : a dos processos que
se podem fazer emergir da consciência (e são
portanto cognosciveis) e a dos que sempre permanecerão
ignorados, por não terem a dita possibilidade.
O
inconsciente com esses três estratos (pessoal,
coletivo, cognoscível e coletivo incognoscível)
é mais antigo que a consciência, a qual
procede dele e representa apenas uma parte superficial
e inconstante do funcionamento psíquico. Esse
inconsciente tende a compensar as atitudes da zona consciente
para conservar tanto quanto possível a síntese
individual, a qual, além disso, é determinada
e mantida pelo ajustamento adequado das funções
fundamentais da psique, que são quatro: pensar,
intuir, sentir e sensacionar (Denken, Intuieren., Fuhlen,
Empfinden). Com o nome de "função
psíquica" designa Jung "uma atividade
psíquica completamente independente de seus conteúdos
circunstanciais e persistentes de sua natureza através
do tempo". As duas mais conhecidas dessas funções
(pensar e sentir) são denominadas racionais;
o pensar serve para a distinção entre
o verdadeiro e o falso, ao passo que o sentir permite
a avaliada do agradável (prazer) e desagradável
(desprazer). Ambas as funções excluem-se
como atitude e compensam-se na individualidade, (pela
oposição consciente-inconsciente, isto
e, quanto mais aparece uma no piano consciente, mais
se reprime e entra em tensão a outra no inconsciente).
As
outras duas (intuir e sensacionar) são consideradas
irracionais : a sensação "objetiva"
serve à chamada fonction du réel dos franceses.
A intuição apreende ou capta essa realidade
imediata - não reacional, mas vital - podem sem
a ajuda do aparelho sensorial corrente, isto e, em virtude
de uma peculiar percepção interna (ou
cripltestésica). Enquanto o possuidor de um tipo
sensorial (ou sensacionista) nota os detalhes de um
conteúdo real, o possuidor do tipo intuitivo
não dá atenção a eles, porém
vivencia, de chôfre (d'emblée) o seu sentido
íntimo ou essência e suas projeções
na existência temporal e espacial. Também
esse par funcional se exclui e ao mesmo tempo se compensa
reciprocamente na dinâmica psico-individual. Para
representar esquematicamente o imbricamento dessas quatro
funções, as suas possíveis interferências
e combinações, Jung as integra no chamado
sinal "Taigitu" dos chineses, na forma seguinte:
 |
Geralmente
predomina em cada individuo uma delas (função
superior) e a oposta (inferior) permanece mais ou menos
latente no inconsciente. No esquema transcrito, a zona
branca indica o território plenamente consciente
e a raiada assinala o campo inconsciente; de acordo
com a representação gráfica, a
função superior é, neste caso,
o pensar, achando-se reprimido o sentir. Intuir e sensacionar
- para esse suposto indivíduo - funções
auxiliares (a primeira aparece aqui latente, ao passo
que a segunda é manifesta). São poucos
os indivíduos que pertencem a um tipo puro (caracterizado
pelo predomínio absoluto de uma dessas funções
sobre o resto), sendo o comum achar tipos mistos (pensadores
empíricos, pensadores especulativos, afetivo-intuitivos,
afetivo-sensoriais etc.).
Ao complexo funcional que se
forma no seio da individualidade como resultado de um
compromisso entre esta e a sociedade, chama Jung persona
(dando a esta palavra o seu. primitivo significado de
máscara). O eu parece assim intercalado entre
ela e o inconsciente, oscilando entre os dois mundos
(subjetivo e objetivo), entre os quais se consome o
seu vivenciar. A esse respeito Jung coincide parcialmente
com Stern, de cujas concepções difere,
contudo, em aspectos básicos, como veremos adiante.
Outra semelhança entre
ambos os psicólogos no-la dá o fato de
que admitem eles, em relativa oposição
a Freud, uma causalidade psíquica fechada, de
sorte que a energia psíquica individual aparece
em suas concepções como uma quantidade
constante, susceptível, porém, de transformar-se
e de deslocar-se no espaço (introversão
e extroversão) e no tempo (progressão
e regressão), criando assim um sistema de coordenadas
pessoais inteiramente superponível, mas distinto
das coordenadas físicas.
Jung volta a sua originalidade
quando admite, além disso, que o processo de
individuação a uma síntese de contrários,
e que em sua dinâmica intervem (como ocorre na
física) a lei de entropia, porém a diferencia
do mundo inanimado, no da alma (que a uma realidade
independente ou coisa em si para Jung), existindo a
possibilidade de uma transformação reversível
(consciência-inconsciente) graças ao eixo
das chamadas funções auxiliares. No curso
da vida individual - e nisto coincide agora a psicologia
complexa com as idéias de Kretschmer - observa-se,
geralmente entre os 40 e 50 anos, isto e, em tome da
crise involutiva, a inversão da fórmula
do equilíbrio psico-individual, em virtude da
qual o introvertido se extroverte e vice-versa, ao mesmo
tempo que a função reprimida passa a ser
guia.
Os "complexos" -
cujo estudo designa ou qualifica esta psicologia - são
partes desprendidas da personalidade psíquica,
grupos de conteúdos mentais que se fizeram independentes
da ação do eu e funcionam autônoma
e intencionalmente, com um núcleo submerso no
inconsciente e uma parte secundária que emerge
na consciência. Quando desce o nível desta
a possível que se mostre também a parte
oculta, mas então o indivíduo experimenta
sua aparição como algo alheio a ele, como
um corpo estranho, perturbador de sua liberdade e de
seus propósitos voluntários. Jung sustenta
que nem todos os complexos são patológicos
nem tampouco derivam de uma regressão inicial
da libido (como pensa Freud) e que às vezes são
formações primitivamente inconscientes
(talvez pré-individuais, isto é, provenientes
do inconsciente herdado ou coletivo-ancestral) que não
chegaram a escalar totalmente o pináculo da zona
claramente consciente.
A via régia para a exploração
do inconsciente é o sonho, mas também
o é a análise das visões, devaneios
e fantasias. Jung admite a existência de vivencias,
denominadas "revelação", nas
quais, subitamente, e quase com força alucinatória,
aparece diante do indivíduo uma imagem ou uma
idéia totalmente sem conexão habitual
com sua corrente de pensamento e apresentada nele à
maneira de um aerólito (que houvesse seguido
uma rota invertida) ; tais conteúdos psíquicos
são quase sempre expressões ou símbolos
representativos dos arquétipos, os quais por
sua vez, nos introduzem no domínio da chamada
psique objetiva (em oposição à
psique subjetiva ou egótica). Tais símbolos
são multívocos (condensam muitas significações)
e tem, freqüentemente, um caráter profético
(H).
OS ARQUÉTIPOS JUNGUIANOS
Muito
escreveu Jung acerca de tais arquétipos (talvez
demasiado, pois com freqüência incorre em
contradições sobre eles); o certo é
que sua delimitação conceptual constitui
um dos pontos mais obscuros dessa doutrina. Em sua conhecida
obra "A integração da personalidade"
dedica um extenso capitulo, de 43 paginas, a sua descrição
sem que em nossa modesta opinião consiga esclarece-la.
Afirma em tal trabalho que seus arquétipos constituem
uma paráfrase do eidos (idéias) platônico
e são les eternelles incrées, determinados
formalmente e não em conteúdo material.
O arquétipo é tão imanente como
o sistema axial que potencialmente determina a formação
de um cristal, sem ter uma existência concreta.
Constitui uma "presença eterna que pode
ou não ser percebida pelo conhecimento"
e apresentar-se ante ele sob diversas formas concretas.
Levy Bruhl designa algo parecido com suas "representations
collectives", que concernem a sucessos e vivências
típicas, primitivas, que mais tarde serão
a base de fábulas e mitos tradicionais. Jung
denominou os primeiros "imagens arcaicas"
porem preferiu depois tomar o termo arquétipo
(de Stº. Agostinho) por não prejulgar a
natureza de sua representação concreta.
A soma dos arquétipos constitui a soma de todas
as possibilidades latentes da psique humana.
Imperativa obrigação
de cada um é a de enfrentar a si mesmo e de olhar
para si, interrogando os seus próprios mistérios
e surpreendendo a riqueza incomensurável de seu
mundo interior, tão grande que o indivíduo
pode perder-se nele. Para que isso não ocorra,
isto e, para evitar que alguém "se extravie
em sua própria mesmidade", a psicologia
complexa trabalha sem descanso e nos oferece um segundo
fio de Ariadne: a interpretação das formas
representativas dos arquétipos individuais, através
do estudo paciente da pré-história, da
mitologia, do folclore, das religiões, da alquimia
e das concepções das antigas filosofias
e cosmogonias...
Ocupada em tal tarefa, a psicologia
complexa propende a conseguir que cada qual consiga
construir e reconstruir a sua individualidade criando,
mediante a aplicação de seu eu em certas
zonas de seu inconsciente, um núcleo energético
de poder superior que seja capaz de superar a autonomia
existente entre a consciência e o inconsciente,
integrando as diversas forças instintivas que
se acham concentradas nos arquétipos, tantas
vezes citados. A esse eu ampliado e superpotente, resultante
do laborioso processo da procura e do encontro consigo
mesmo, chama-lhe Jung "Selbst" e nós
propomos traduzi-lo por mesmo ou mim; isto e, pois,
o eu inicial e mais uma série de tendências
e conteúdos gnósticos que, ao se englobarem
nele, deslocam o centro da atividade psíquica,
colocando-o em um ponto equidistante do âmbito
individual. Se o eu se acha no centro da consciência,
o mesmo encontra-se no centro do indivíduo; sua
esfera fera território de ação
se chama mesmidade (Selbstheit). Para obter-se este
mesmo ou mim é necessário percorrer um
longo caminho no qual achamos sucessivamente as instâncias
dos arquétipos fundamentais da humanidade (*).
O primeiro deles e a sombra.
Jung define-a como o "irmão oculto",
como a "invisível cauda de sáurio
que todo homem tem atrás de si" ou como
"a parte inferior e menos recomendável"
do indivíduo. Com isto quer exprimir que a sombra
correspondente ao conjunto de nossas reações
primárias procede da época selvagem da
humanidade; o seu significado a demoníaco e sinistro:
e o Mefistófeles de Fausto.
(*) A tarefa de autoformação
da individualidade é chamada por Jung "processo
de individuação", enquanto que ao
esforço para conseguir destacá-la de entre
as demais que integram o corpo social, é por
ele designado como "trabalho de individualização".
O segundo arquétipo,
já mais profundo e separado normalmente do eu,
é denominado por Jung anima no sexo masculino
e animus no feminino.
Acerca
dele e de suas formas expressivas é muito mais
explícito que a respeito do anterior, que a verdadeiramente
apenas esboçado em suas descrições.
A anima corresponde à imagem da mãe primitiva
ou ancestral e simboliza quanto de feminino tem o individuo.
Não deve identificar-se com a alma, se bem que
pareça formar parte dela. Constitui "uma
fonte de vida por trás da consciência,
que não pode ser integrada nesta e que contudo
a condiciona" (Jung, ob. cit.) ; esse caráter
vital ou energético - fons et origo da criação
psíquica - que se atribui ao dito arquétipo,
explica a multiformidade e complexidade das imagens
que utiliza para mostrar-se ante o indivíduo
- Vênus ou uma bruxa, frágil donzela, ou
enérgica amazona, anjo ou demônio, mãe
ou prostituta... Em qualquer dessas formas contraditórias
é capaz de aparecer nas visões e sonhos.
Na literatura e Kundry (Parsifal) ou Andrómeda
(Perseu), Beatriz (Divina Comédia) ou "Ella"
(R. Haggard), Antinea (Atlântida) ou Helena de
Tróia (Erskine)... como mãe, inspira nosso
primeiro sopro e recolhe o nosso último alento;
como a vida, é, ao mesmo tempo, absurda (irracional)
e significativa (lógica). Note-se, além
disso, que Jung se compraz em destacar a cada passo
esse caráter ambivalente e antinômico de
todos os produtos e fatos psíquicos; nesse arquétipo
encontra uma das melhores ocasiões para desenvolver
tal gosto a critério. Na terceira fase desta
viagem as profundidades do inconsciente coletivo aparece
o arquétipo de saber primitivo, isto a do mago,
que no sexo masculino pode apresentar-se sob a forma
de profeta, caudilho etc., e no sexo feminino o faz
com magna mater sob a aparência de deusa da fecundidade,
pitonisa, sibila, sacerdotisa etc. Em Nietzsche esse
setor da individualidade personifica-se em Zaratustra.
Essas imagens são designadas por Jung com o comum
qualificativo de personalidade maná e seu descobrimento
coloca o indivíduo em frente a um núcleo
de forças que lhe injeta confiança em
seu saber e lhe permite tornar-se independente da influência
que sobre ele exerciam as imagens de seus progenitores.
Em suma, esse velho homem sábio, espécie
de Jeová, Júpiter, Wotan, Grande Espírito
ou Mago, a uma figura híbrida que possui todos
os segredos e arcanos do mundo: à medida que
o indivíduo se deixa levar por ela, sente-se
seguro e onipotente. Em alguns delírios de grandeza
e estados oniróides da esquizofrenia vemo-la
em ação, dirigindo todo o pensamento do
indivíduo que adquire categoria de homo divinans.
Deixando de lado as representações
pessoais dos três arquétipos até
agora mencionados, existem muitas imagens impessoais
dos mesmos, mas estas não os representam em seu
estado de pureza e sim no processo de transformação
que operará no seio da individualidade para a
criação de seu novo centro diretor: o
mesmo. Na medida em que este se precisa e condensa aparece
então uma nova categoria de símbolos arquétipos
que denotam sua existência e mostram, como característica
comum, uma forma circular (correspondente em Jung ao
circulo mágico empregado no lamaismo e no ioga
tântrico como intra). Estes símbolos, reveladores
do processo formador da mesmidade, isto é, símbolos
mésmicos (!) são designados pela psicologia
complexa com o qualificativo de mandalas.
O próprio Jung escreve
acerca deles as seguintes e desencorajantes linhas (Ob.
cit. pág. 178) : "o que podemos dizer hoje
sobre o simbolismo mandálico e o seguinte: que
representa um fato psíquico autônomo, conhecido
pelas manifestações que se repetem continuamente,
e se encontram sempre idênticas. Parece uma espécie
de núcleo atômico acerca de cuja íntima
estrutura e significado último não sabemos
nada. Podemos, pois, considerá-lo como a imagem
espetral real, isto é, afetiva, de uma atitude
de consciência que não pode formular nem
o seu objeto nem o seu propósito e cuja atividade
por tal renúncia se acha completamente projetada
no centro virtual da mandala. Este só pode suceder
par compulsão e a compulsão sempre chega
a uma situação na qual o indivíduo
não conhece o meio de auxiliar-se de outra maneira".
Evidentemente esse parágrafo não esclarece
o conceito que visamos alcançar.
Porém,
outras dificuldades maiores vem somar-se às já
encontradas por quem deseje seguir até o fim
a peregrinação que impõe Jung para
chegar a ser um indivíduo redondo e completo,
isto é, possuidor de um grande mesmo e capaz
de integrar tudo quanto traga em si. Tais dificuldades
nascem da emergência, cada vez maior, de outros
arquétipos ainda mais obscuros que os já
assinalados. Com efeito, junto aos símbolos mandálicos
se apresentam também as tétradas que,
segundo parece, também simbolizam a mesmidade,
dando-lhe forma tetrassômica ou quadricorpórea,
- correspondente às quatro funções
fundamentais antes descritas.
Daí, diz Jung,
o prestigio universal da Cruz, dos pontos cardiais,
do carbono (quadrivalente) ...
Sendo
nosso propósito o de apresentar somente os pontos
essenciais de cada doutrina, acreditamos que o já
exposto bastará para fazer-se uma idéia
do caráter distinto da atuai obra junguiana.
Como síntese gráfica da mesma permitimo-nos
transcrever em seguida o esquema XVII, com que Jacobi
ilustra a posição que tem nos diversos
pianos da individualidade os seus principais elementos,
de acordo com essa doutrina:
TÉCNICA,
INDICAÇÕES E LIMITAÇÕES
DA PSICOTERAPIA JUNGUIANA
Pelo
exposto acerca das idéias que presidem a concepção
atual de Jung sobre a individualidade humana concebe-se
sua afirmação de que seu sistema curativo
não é tanto de ordem terapêutica
(medica) quanto de natureza mística (religiosa)
: não se trata tanto de curar o indivíduo
de sua relativa miséria existencial, fazendo-o
subir de seu miópico estado psíquico e
descobrir o manancial inesgotável de reservas
que encerra, em potência, o seu inconsciente ancestral
ou coletivo. Ao incorporar ao seu núcleo egótico
estas forças propulsoras e criar assim uma robusta
mesmidade - que tenha em conta suficientemente a vocação
(voz interior) individual - obtém-se uma síntese
psíquica que permite ao indivíduo individuado,
isto é, ao indivíduo que terminou o seu
processo de individuação, superar todos
os conflitos, tanto internos como externos e gozar de
uma paz e de uma satisfação ate então
desconhecidas dele.
A exploração
dessas misteriosas zonas em que reinam os arquétipos
antes descritos faz-se principalmente utilizando o material
onírico que o paciente deve liberar intacto ao
psicoterapeuta. E, além disso, as chamadas vivências
de revelação, constituídas por
súbitas emergências de imagens na consciência,
de sonhos, fantasias ou impulsos de expressão
artística (plástica ou literária)
que ao serem devidamente analisados demonstram possuir
um caráter simbólico e revelar, portanto,
as fontes de que emanam.
Com isto já se deduz
que pessoas que possam ser submetidas a essa terapêutica
deverão ter não escassa cultura e uma
rica vida interior; não podem ser imaginativamente
secas e deverão estar propensas a submergir em
qualquer momento nesse particular estado de divagação
ou devaneio que e a chave de exploração
psicanalítica.
É incompreensível,
porém certo, que Jung conceda cada vez menos
importância a sua prova das associações
condicionadas na exploração de seus enfermos;
sem dúvida, a isso devido à nova orientação
de suas concepções.
Se agora nos perguntamos que tipo
de doentes a mais tributário de seguir esse Heilweg
(caminho da cura) que constitui a psicoterapia junguiana,
dar-nos-emos conta de que são antes de tudo,
os que, chegando a idade madura, sofrem ao ver o insucesso
de suas vidas: tratam de reviver suas existências
e se compenetram de que é demasiado tarde para
isso; procuram consolar-se com a promessa de um venturoso
alem e falta-lhes a fé religiosa, tentam resignar-se
vivendo como até então e não tem
a energia para conformar-se. Tudo isso os leva ao suicídio,
à neurose ou à perversão, mas em
todo caso os desvia progressivamente e os priva de paz
e de satisfação. Em tais condições,
ao psicoterapeuta resta proporcionar-lhes uma doutrina
que tenha encanto de alguma bela criação
artística, força sugestiva de uma tese
religiosa e o poder de convicção persuasiva
de uma obra científica. - Que importa que tudo
isso não seja verdade, se o indivíduo
chega a aceitá-lo como coisa real, que se lhe
impõe como um ato de fé?
O psicoterapeuta impele então
o enfermo ao desprezo de seus sintomas; estes equivalem
ao preço de sua expiação pela ignorância
de si mesmo. Já não diz, como o faziam
Freud ou Adler, que são o preço que paga
pela realização (deformada) de seus desejos
inconfessáveis ou o preço de sua covardia.
Em todo o caso, são algo que é necessário
desentender na medida em que o enfermo se interessa
pelo verdadeiro problema que tem diante de si e que
é, nada mais nada menos, que o de seu destino
e o da sua própria formação e autodeterminação.
Assim como Freud leva certos indivíduos a um
pessimismo e cepticismo e Adler os aguilhoa e estimula
censurando-lhes suas faltas de sinceridade e de coragem,
Jung os reanima e alegra assegurando-lhes "que
ainda não haviam chegado a ser o que eram"
e convencendo-os de que abrigam "infinitas possibilidades
criadoras".
Facilmente se adivinham as
limitações deste objetivo: deixando de
lado a escassa cultura ou o excessivo realismo dos pacientes,
ainda prescindindo de se são ou não jovens
e céticos, a evidente que Jung não pode
ajudar de um modo efetivo nem aos enfermos de psicoses
propriamente ditas, nem tampouco aos de psiconeuroses
complicadas como são, por exemplo, as de tipo
impulsivo e obsessivo, pois nestas a mesma estrutura
dos sintomas impossibilita o tipo de exploração
necessária para chegar à interpretação
prevista. Não tendo então um modo de vencer
a resistência individual - pois isto equivale
a pressupor no indivíduo uma atitude demoníaca
que a negada por sua doutrina - o psicoterapeuta junguiano
é incapaz em tais casos de "romper a fachada
sintomática" : a religião privada
do neurótico. A tais enfermos importa um descobrimento
de seu anima ou conhecer as expressões de seu
velho mago : desejam ser aliviados de sua angústia,
ou quando menos, uma prova palpável e evidente
de que estão na pista para consegui-lo. Nem uma
nem outra estão à mão neste tipo
de psicoterapia.
E o mesmo poderíamos
dizer dos inúmeros casos de "organo-neuroses"
e de transtornos em que se imbricam as causas somáticas
e psíquicas produzindo um complicado quadro mórbido
que justifica um ataque pluridimensional em todas as
frentes e com todas as armas. Dada a real independência
que Jung concede ao território da psique (para
o que admite uma causalidade fechada, do mesmo modo
que Freud, em seus primeiros ensaios) vê-se adstrito,
forçosamente, a renunciar ao use de meios e recursos
que se podem integrar comodamente num plano terapêutico
menos rígido que o imposto pelo seu credo.
Isso explica a escassa difusão
que logrou esta escola existem poucos psicoterapeutas
junguianos nos países latinos, quase nenhum na
América do Norte, e também o próprio
autor do sistema parece interessar-se hoje muito mais
em resolver problemas relacionados com a astrologia,
alquimia, arte, religião e cosmologia, do que
com a prática médica.
Contudo, ainda que trazendo
consigo a euforiante esperança de uma troca estrutural
baseada na incorporação de novos elementos,
até então mantidos em estado potencial,
é indubitável que alguns dos conceitos
dessa doutrina podem e devem integrar-se na psicoterapia
clínica: são mais efetivos, e até,
se quisermos, mais sugestivos para o indivíduo
que a "consciência da culpa" ou "complexo
de castração" ou 0 "instinto
tânico" que se podem manejar a torto e a
direito, e requerem uma longa atuação
educativa no enfermo por parte do psicanalista.
BIBLIOGRAFIA
CARL
G. JUNG. - The Integration of the Personality, Farrar,
Nova Iorque.
C. JUNG. - Metamorphoses et
symboles de la Libide, Ed. Montaigne, Paris, 1931.
C. JUNG. - La Realidad del
Alma, Ed. Losada, Buenos Aires, 1940.
C. JUNG. - Modern Man in Search
of a Soul, Ed. K. Paul, Londres, 1933 (ver os capítulos:
Problems of Psychoterapy e Psychotherapists or the Clergy.
A. Dilema).
C. JUNG. - Psychology and Religion.
Yale Univ. Press. 1938.
J. JACOBI. - Die Psychologie
von C. G. Jung. Racher, Zilrique, 1940.
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