Otto
Rank (1884-1939) era um estudante de 21 anos quando
encontrou Sigmund Freud. Rank seguiu adiante para
fazer um doutorado em psicologia e por fim tornar-se
par de Freud. Ele via cada pessoa como um artista
cuja tarefa final é a criação
de uma personalidade individual. Para Rank, o
neurótico é um artiste manque,
uma pessoa cujo forte impulso criativo é
frustrado pelo uso negativo da vontade.
DIALÉTICA
RANKIANA. A base para o seu
rompimento com Freud foi a visão de Rank
de que o trauma do nascimento é mais importante
do que o conflito edípico. Segundo Rank,
as experiências físicas e psicológicas
do nascimento dão lugar a uma ansiedade
primal que é lidada através de repressão
primal. O conflito intrapsíquico crucial
que ocorre em todas as fases desenvolvimentais
é o conflito entre manter a bem-aventurança
primal do apego e experimentar a excitação
e o medo associados à separação.
A
união posiciona-se em contraste à
separação; semelhança posiciona-se
em contraste com diferença. União-separação
e semelhança-diferença são
polaridades mantidas em tensão. Na fase
adulta, o movimento em direção a
uma outra pessoa é possível apenas
se a pessoa sabe quem é, o que pode ocorrer
apenas através de ter experimentado separação.
O movimento em direção à
autonomia é possível apenas após
a pessoa ter estabelecido o senso de pertencer
e autovalor que deriva da experiência de
pertencer.
Mover
em direção à união
ou separação não é
um processo biológico inato. Ele é,
ao contrário, um ato de vontade. Ao mover-se
em direção e engajar-se com um outro,
todas as pessoas experimentam sua necessidade
de pertencer. Afastar-se de outros permite a pessoa
experimentar sua singularidade. A maturidade é,
em certo sentido, o triunfo da vontade sobre as
forças - culpa, medo da morte e medo da
vida - que inibem o movimento tanto em direção
como para longe dos outros.
Rank
via a culpa como o preço a ser pago por
qualquer ato de vontade. Mover-se em direção
à união causa culpa sobre estar
necessitado; afastar-se causa culpa de abandonar
a outra pessoa. Medo de morte é o medo
de perder a indentidade fundindo-se com uma outra
pessoa. Quanto mais fraca é a identidade
pessoal de alguém, mais forte é
o medo de morte. Medo de vida, por contraste é
o medo de perder todas as ligações
no processo de tornar-se separado. Cada pessoa
experimenta o ciclo do movimento de união
para a separação novamente como
parte do processo da vida. O movimento ocorre
em diversos níveis: familiar, social, artístico
e espiritual. A cada nível, há um
ou mais movimentos em direção à
união e renascimento. Cada pessoa, por
exemplo, em geral cede a uma experiência
de amor na qual diferenças pessoais são
colocadas de lado para experimentar unidade um
com ou outro, para experimentar autovalor e ser
aliviado do sentimento de diferença. A
submissão para um outro termina quando
a vontade afirma sua separação e
uma nova afirmação de individualidade
ocorre.
Vontade,
o motor primário na dialética rankiana,
é uma força criativa irredutível.
Ela não é somente uma agência
para a expressão de impulsos sexuais ou
agressivos freudianos; nem ela é uma vontade
de poder no sentido adieriano. O começo
da vontade está no "não"
da criança, uma asserção
do que ela não fará. Na maturação,
a vontade torna-se uma força positiva.
Pessoas neuróticas, no entanto, negam sua
vontade devido às culpa em relação
ao que elas desejam. Elas lidam com esta culpa
usando mecanismos de defesa como projeção
e racionalização. Visto desta perspectiva,
as pessoas neuróticas têm vontade
forte e não podem reconhecer o que elas
desejam e sequer que elas desejam. Em decorrência,
elas não podem usar sua vontade construtivamente
a serviço de suas maiores criações
artísticas potências, suas próprias
personalidades.
TRATAMENTO.
A psicoterapia rankiana é uma interação
aqui e agora com o terapeuta que mobiliza a vontade
do paciente e resulta em uma experiência
de renascimento. O tratamento, que tem tempo limitado,
é focalizado no relacionamento com o terapueta.
No relacionamento terapeuta-paciente, são
reencenadas lutas de vida anteriores, especialmente
lutas envolvendo intimidade. Após os pacientes
serem fortalecidos através da aceitação
do terapeuta, eles iniciam um processo de asserção
de vontade negativa que é visto como resistência
na análise clássica. Rank considerou
a asserção de vontade negativa como
indicativa de crescimento e a apoiava. Uma vez
capaz de prover auto-afirmação por
conta própria, os pacientes liberam-se
do terapeuta e começam a individuar-se.
Eles superam o medo da vida vivendo à altura
do seu potencial total.
A
terapia não visa reconstruir história
pessoal. Ela é uma luta no aqui e agora
entre o terapeuta como um representante de objetos
de transferência e da realidade. A meta
da terapia é liberar a vontade do paciente.
O
processo terapêutico forma um paralelo com
o processo do crescimento da personalidade. A
princípio, o relacionamento terapêutico
recapitula relacionamentos prototípicos
iniciais. A primeira experiência de renascimento
para pacientes é reivindicar suas próprias
personalidades individuais e sua singularidade
como seres humanos. A segunda fase é a
sua descoberta do universo físico e sua
semelhança com ele. Posteriormente, eles
reivindicam sua distinção como criadores
de si mesmos. Com a emergência do self,
os pacientes unem-se com a realidade ideológica,
filosófica e espiritual e experimentam
o nascimento final da pessoa ideal, uma pessoa
autopreenchida que não mais precisa criar
para justificar sua existência. |