ASPECTOS DE NARCISO – NO INDIVÍDUO
E NA SOCIEDADE
Este
artigo foi gestado em texto de Sérgio Lasta.
Prof.
Eustásio de Oliveira Ferraz.
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Narciso
- Michelangelo Merisi Caravaggio (1571-1610)
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O
Mito de Narciso.
Narciso
era um belo rapaz indiferente ao amor, filho do
deus do rio Céfiso e da ninfa Liríope.
Por ocasião de seu nascimento os pais perguntaram
ao adivinho Tirésias qual seria o destino
do menino, pois ficaram muito assustados com a
sua beleza rara e jamais vista. A resposta foi
que ele teria vida longa se não visse a
própria face. Muitas moças e ninfas
apaixonaram-se por Narciso quando ele chegou à
fase adulta, mas o belo jovem não se interessou
por nenhuma delas. A ninfa Eco, uma das apaixonadas,
não se conformando com a indiferença
de Narciso, afastou-se amargurada para um lugar
deserto onde definhou até a morte e restaram
somente seus gemidos. As moças desprezadas
pediram aos deuses que a vingasse. Nêmesis
apiedou-se delas e induziu Narciso, depois de
uma caçada num dia muito quente, a se debruçar
na fonte de Téspias para beber água.
Nessa posição ele viu seu rosto
refletido na água e se apaixonou pela própria
imagem. Descuidando-se de tudo o mais, ele permaneceu
imóvel na contemplação ininterrupta
de sua face refletida e assim morreu. No local
de sua morte apareceu uma flor que recebeu seu
nome, dotada também de uma beleza singular,
porém narcótica e estéril.
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Narciso é um personagem enigmático
e fascinante que traz em si um grande dilema:
ver-se ou viver; ver-se e não viver ou
não se ver e viver. Não podia conhecer-se,
caso contrário não veria a velhice
ou a vida eterna, como previra o oráculo.
Por isso, era admirado por si mesmo, imobilizado
e aprisionado em seu próprio mundo. Não
podia se ver para continuar vivendo. Amava e não
podia amar, amado, não podia deixar-se
amar. Era solitário vagando pela floresta.
O belo Narciso é independente, porém
vive na solidão; evita qualquer aproximação,
não respeita a sociabilidade. É
imerso em si, anula a alteridade (o outro). Tem
tudo, basta-se a si mesmo. É prisioneiro
de sua própria aparência que lhe
é irresistível e isso o faz sofrer.
Sofre porque não consegue ter aquela imagem
para si. Está tão próximo
e ao mesmo tempo tão distante. Representa
o eterno dilema da auto-sedução
que não se realiza. Tem e ao mesmo tempo
não a tem, porque essa é intocável,
pode ser somente contemplada. É um amor
platônico por si mesmo. Tocar a fonte de
Téspias seria deformar aquela imagem tão
bela e perfeita.
Seu desejo é devorar-se a si mesmo. Tem
a beleza desejada, idealizada, que todos querem
possuir. Às vezes isso provoca a ruína,
o que significa ver somente o ideal de si, um
rosto bonito e não uma pessoa em sua inteireza.
É uma imagem com muitos rostos onde o próprio
EU não entra e esses rostos se confundem.
Há o desejo de se tornar sedutor(a), de
despertar desejos. E o sedutor(a) adquire uma
imagem que não é sua, tem outra
identidade, pois seu ego é frágil,
nada sedutor.
Ao contemplar-se nas águas da fonte, sua
unidade rompe-se: o que era um parte-se em dois.
É arrastado para fora de si. O que Narciso
viu? O ideal de si e lutou para não perder
essa imagem. Sua posição reclinada
para baixo não permite ver a vastidão
do horizonte, deixa-o envolto em si mesmo. Por
isso a visão que tem do mundo é
ínfima. Mas a imagem ideal refletida é
inalcançável, isso o leva à
morte como punição por não
conseguir trazer para si a imagem desejada.
Esse mito, ou lenda simboliza a imobilidade, a
solidão e a infelicidade, porque Narciso
não conseguiu vencer a sedução
da própria imagem. Se isso acontecesse,
teria que assumir responsabilidades sociais, enfrentar
desafios, a realidade, as desilusões. Não
há risco zero na vida. Exemplos? Basta
prestar atenção na vida dos animais.
Se ficar na toca certamente morrerá de
fome e sede. É preciso enfrentar a realidade,
mesmo sob o perigo de perder a vida. É
também a busca da eterna beleza. Morrendo
jovem e belo, seria lembrado assim, com sua juventude
perpetuada. É a busca do aplauso, do reconhecimento.
Esse ideal do belo provoca desejos irrealizados,
prazer em seduzir e despertar desejos. Porém
não permite que sejam satisfeitos. Isso
leva à melancolia, o mundo perde o valor,
a consciência aflige-se com fragilidade.
O grande engano de Narciso foi errar na escolha
de amor. Ao invés de dirigi-lo a outro,
volta-se para si mesmo e comete um incesto intrapsíquico.
Toda sua energia não se liga ao mundo externo
e isso é patológico. O que ele ama
é a sua sombra, o próprio reflexo,
por isso não abandonou as águas
da fonte. Somente ali essa ação
é possível. Seu desejo era manter-se
eterno, perpetuar aquela imagem que o seduziu
e a sedução pelo eterno levou-o
à morte.
A fonte é o espelho que atrai e arruína.
A imagem refletida não é o que aparenta.
Mostra o que é e o que não é.
Estimula na alma o desejo por uma imagem inatingível.
Narciso achou que era a própria imagem,
não se individualizou, não separou
realidade e fantasia.
Esse personagem também pode ser visto por
outro ângulo, pois até aqui parece
ser doentio. Todos têm um Narciso em si
e isso leva a que cada um procure cuidar do próprio
corpo; arrumar-se, enfeitar-se para agradar a
si e aos outros demais. Isso não significa
que esteja voltando sua capacidade de amar e ser
amado só para si mesmo, mas tem a finalidade
de encontrar alguém, ir em busca do outro
e do mundo.
Logicamente o mito presta-se para muitas outras
interpretações. Porém Narciso
perambula pela sociedade e está na personalidade
de todos.
O mito de Narciso nos mostra que vivemos na superficialidade,
nas aparências. Somos seres sem profundidade.
O mito de Narciso sempre quer falar algo do ser
humano. De uma forma ou de outra sempre trazemos
um Narciso dentro de nós. Narciso diz que
cada ser humano tem que descobrir que ele é,
e qual o caminho que o conduz à felicidade.
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