Narcisistas:
os mestres da negação
Jeffrey
Kluger
Revista
Time
O
psicólogo Lawrence Josephs sabe dizer de imediato quais
os pacientes que, mais provavelmente, o despedirão.
Os narcisistas podem ser os piores e só chegam a um
terapeuta porque seus cônjuges não param de cobrar mais
interesse no casamento e porque as pessoas no trabalho
não parecem lhes dar o crédito ou a atenção que merecem.
Freqüentemente, ficam apenas o tempo suficiente
para decidir que o que realmente precisam é deixar o
casamento e trocar de emprego. Depois disso, abandonam
a terapia.
"Eles
vêm por coerção", disse Josephs, professor de Psicologia
da Universidade Adelphi em Garden City, Nova York. "Mas
não se comprometem. O que realmente querem é que tudo
saia de acordo com suas vontades".
Se
serve de conforto para Josephs, ele não é o único a
ter tais problemas para lidar com narcisistas, e não
são apenas os narcisistas que dão aos terapeutas tais
problemas. O narcisismo é apenas uma de 10 condições
que se enquadram no diagnóstico de transtornos de personalidade,
e segundo a maioria dos relatos, os narcisistas estão
entre as nozes mais difíceis dos psicólogos quebrarem.
Terapia de conversação geralmente não os sensibiliza;
terapia com medicamentos funciona igualmente pouco.
Os pesquisadores sabem o motivo.
Condições
mentais comuns, como transtornos de ansiedade, desordens
alimentares e depressão, podem ser pensadas como uma
casca patológica em torno de um núcleo intacto. Descascar
a pele por meio de terapia de conversação ou seu derretimento
por meio de medicamentos pode eliminar o problema. Mas
os transtornos de personalidade, por outro lado, estão
marmorizados por todo o temperamento. Os narcisistas
podem ser concentrados em si mesmos, mas eles acreditam
que têm o direito de ser assim. Personalidades histriônicas
podem exagerar as coisas, mas de que outra forma seriam
ouvidas? Já é difícil o bastante persuadir a maioria
das pessoas a procurar um terapeuta, e é ainda mais
difícil quando o paciente nega que há um problema. "Raramente
chega uma pessoa com consciência de que tem um transtorno
de personalidade", disse Josephs. "Os amigos
e a família são os que os pressionam a procurar ajuda".
Atualmente
há mais motivos do que nunca para pressioná-los. À medida
que as famílias ficam cada vez mais fragmentadas e crescem
as pressões sociais, os especialistas dizem que estão
vendo mais casos de transtornos de personalidade do
que nunca. Estima-se que até 9% da população sofra de
algum tipo de transtorno de personalidade, e até 20%
de todas as hospitalizações por problemas de saúde mental
podem resultar de tais condições.
Os
epidemiologistas não fizeram um bom trabalho em comparar
estes números com os de anos anteriores, mas muitos
médicos relatam - por observação casual - que estão
aumentando os casos que estão tratando de transtornos
de personalidade. "Os mais severos estão aumentando",
disse Josephs, "especialmente entre pessoas que
cresceram em lares com problemas de divórcio, drogas
ou álcool".
Desta
forma, cada vez mais pesquisadores estão à procura de
novas formas para tratar tais condições explorando tanto
as raízes genéticas quanto ambientais, buscando tanto
curas químicas quanto terapêuticas. E é bom que estejam.
"Os custos sociais de desordens de personalidade
são imensos", disse o dr. John Gunderson diretor
do Serviço de Transtornos de Personalidade do Hospital
McLean, em Belmont, Massachusetts. "Estas pessoas
estão envolvidas em muitos males da sociedade -divórcio,
abuso infantil, violência. O problema é tremendo".
Apesar
das soluções serem esquivas, o arco patológico dos transtornos
de personalidade é previsível. Eles tendem a aparecer
depois dos 18 anos, atingindo igualmente homens e mulheres
-apesar do gênero poder influenciar qual dos 10 transtornos
uma pessoa desenvolverá. Os transtornos são agrupados
em três subcategorias, e destas, o chamado grupo dramático
-os transtornos fronteiriço, anti-social, histriônico
e narcisista- é o mais conhecido. Mas são os fronteiriços
que causam aos médicos -sem dizer às famílias- as maiores
dores de cabeça.
As
pessoas com transtorno de personalidade fronteiriço
formam relacionamentos cada vez mais voláteis, oscilando
entre a idealização da família e dos amigos e o desprezo
deles como sem valor ou odiosos. São pessoas que temem
ser abandonadas, mas reagem tão selvagemente quando
um ente querido as desaponta que o abandono é freqüentemente
o que conseguem. Ao serem levadas à terapia, a mesma
dinâmica se desenvolve lá. "Em um determinado momento
você é o amigo mais íntimo, e duas semanas depois, você
é o inimigo", disse Norman Clemens, professor de
Psicologia da Universidade da Reserva Case Western em
Cleveland.
As
personalidades histriônicas e narcisistas usam o drama
ou a concentração em si mesmas basicamente da mesma
forma -para afastar a família e irritar os terapeutas.
Pessoas com personalidades anti-sociais elevam as apostas,
exibindo agressividade, falta de consciência e indiferença
à lei, geralmente misturando comportamento criminoso
em sua patologia.
Menos
dramático, mas igualmente teimoso, é o grupo ansioso,
que inclui a personalidade dependente, a socialmente
tímida personalidade esquiva e a rígida e cheia de regras
personalidade obsessivo-compulsiva (um diagnóstico totalmente
diferente de desordem obsessivo-compulsiva, um problema
de ansiedade). O terceiro grupo -chamado de grupo esquisito
ou excêntrico- inclui as personalidades paranóide, esquizotípica
e esquizóide. Paranóide é exatamente o que o nome diz.
Os esquizotípicos e os esquizóides apresentam problemas
para formação de relacionamentos e interpretação das
dicas sociais; os esquizotípicos também podem sofrer
ilusões. "Os esquizóides são lobos solitários",
disse Clemens. "Os esquizotípicos caminham no limite
da verdadeira esquizofrenia".
Antes
que os cientistas possam imaginar como tratar estas
condições, precisam
determinar o que há por trás delas. Poucos pesquisadores
duvidam que quando os transtornos estão tão entrelaçadas
no temperamento, parte do que os causa está escrito
nos genes. Um estudo norueguês, publicado em 2000, examinou
gêmeos idênticos e fraternos e descobriu que pares idênticos
-com suas plantas genéticas idênticas- apresentavam
maior probabilidade de compartilhar transtornos de personalidade
do que pares não idênticos. A personalidade fronteiriça
apresentou um nível de hereditariedade de 69%. Isto
confirma as observações de campo dos médicos, que perceberam
taxas maiores de transtornos entre os descendentes de
pessoas com transtornos de personalidade. "Quase
certamente há múltiplos genes envolvidos na predisposição
das pessoas aos transtornos de personalidade",
disse Gunderson.
Mas
genes não são tudo. Terapeutas que trabalham com narcisistas
geralmente descobrem abuso na infância ou algum outro
trauma que leva à baixa auto-estima ou ao ódio-próprio
-exatamente o tipo de buraco emocional que a grandiosidade
patológica busca preencher. O transtorno de personalidade
fronteiriço afeta mais mulheres do que homens, e algumas
pesquisas mostraram que até 70% das mulheres fronteiriças
sofreram abuso físico ou sexual em certa altura de suas
vidas. É difícil atribuir tais maus tratos aos genes.
O transtorno bipolar ou dificuldades de aprendizado
quando são lidadas de forma indevida também podem evoluir
em transtornos de personalidade. O dr. Larry Siever,
professor de Psiquiatria da Escola de Medicina Mount
Sinai em Nova York, acredita que parte do aumento dos
transtornos de personalidade pode estar vinculada à
perda dos grupos naturais de apoio, à medida que os
indivíduos, em uma cultura cada vez mais móvel, migram
cada vez mais para mais longe de casa. "No passado",
disse ele, "nós vivíamos perto de nossas famílias
estendidas em comunidades altamente estruturadas. As
pessoas podiam cuidar dos seus e refreá-los".
Sejam
quais forem as raízes específicas das condições, assim
que estes dados ambientais e genéticos são lançados,
o resultado já está consumado para a pessoa com transtorno
de personalidade? Resumindo, a resposta triste é:
freqüentemente sim -pelo menos enquanto os pacientes
com transtorno de personalidade resistirem ao reconhecimento
do problema. Transtornos de ansiedade como fobias geralmente
são tratadas como males ego-distônicos: o doente reconhece
o problema e deseja fazer algo a respeito. Desordens
de personalidade são ego-sintônicas: os indivíduos acreditam
que o drama, a concentração em si mesmos e outras características
que marcam sua condição são respostas razoáveis para
a forma como o mundo os trata. Este é um paciente difícil
de curar, mas há esperança, e parte dela começa no laboratório
farmacêutico.
Os
pesquisadores estão descobrindo que antipsicóticos podem
ajudar a minimizar os sintomas paranóides, esquizóides
e esquizotípicos. Uma variedade de medicamentos -incluindo
estabilizadores de humor, como lítio e Depakote; anticonvulsivos
como Tegretol; e inibidores de recaptura de serotonina
(SSRIs)- podem ajudar a controlar o elemento impulsivo
dos transtornos dramáticos. E apesar de medicamentos
antidepressivos e antiansiedade fazerem pouco para corrigir
algo tão básico como a personalidade, os médicos descobriram
que se prescreverem medicamentos para aliviar o estresse
resultante de viver uma vida com tamanha desordem, alguns
pacientes são motivados a buscar o trabalho mais árduo
da terapia de conversação. Para aqueles que o fazem,
as opções estão aumentando. A terapia analítica, que
explora traumas passados, pode revelar os conflitos
enraizados profundamente por trás das condições.
Resultados
mais imediatos podem ser obtidos por meio de terapia
cognitiva e comportamental, que ensina alterações de
comportamento. Um novo tratamento conhecido como terapia
de comportamento dialético, desenvolvido pela psicóloga
clínica Marsha Linehan, da Universidade de Washington,
pode ensinar aos pacientes fronteiriços a reconhecer
situações que provocam sentimentos explosivos, os ajudando
a conter uma reação antes que ela irrompa. "A primeira
coisa que ensinamos é a assumir o controle do comportamento",
disse Linehan. "Depois disso, nós trabalhamos em
como se sentir melhor".
Quando
os pacientes se comprometem com algum tipo de terapia,
até mesmo os médicos ficam surpresos. Um estudo conduzido
por Gunderson e colegas de Harvard, Yale, Colúmbia e
Brown investigou pacientes fronteiriços, esquivos, obsessivo-compulsivos
e esquizotípicos e descobriu que, após dois anos de
tratamentos, incluindo medicação, psicoterapia, terapia
de comportamento dialético ou terapia de grupo ou familiar,
eles apresentaram uma melhora de 40%. "Isto é uma
grande notícia", disse Gunderson. "Ninguém
imaginava que conseguiríamos algo melhor que 15%".
Mas
40% ainda deixa 60% de sofredores, e os pesquisadores
esperam conseguir pender a balança para o outro lado.
No Mount Sinai, Siever está investigando ainda mais
profundamente o que torna as pessoas neurologicamente
suscetíveis aos transtornos de personalidade, estudando
a estrutura e a função do próprio cérebro, visando determinar
que áreas falham no curso das desordens assim como o
papel de neurotransmissores como serotonina e dopamina.
Outros estão estudando causas possíveis como níveis
elevados de hormônios de estresse no útero e até má
nutrição durante o desenvolvimento do cérebro. A compreensão
da bioquímica deverá facilitar o desenvolvimento de
medicamentos. Até lá, caberá principalmente aos pacientes
negar a mentira que a desordem diz - que não há nada
realmente errado com eles - e realizar o compromisso
terapêutico necessário para consertar as coisas. "Ninguém
muda totalmente", disse Josephs. "Mas qualquer
um pode se tornar mais flexível e resistente. Qualquer
um pode fazer progressos". Isto por si só já é
um prognóstico melhor do que a maioria dos pacientes
já teve.
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