Sigmund
Freud e a Psicanálise
Fonte:
"Teorias da Personalidade"
Fadigman,
James
Frager, Robert
(continuação
da página anterior)
DINÂMICA
Crescimento
Psicológico. A intenção de Freud, desde seus primeiros
escritos, era entender melhor os aspectos obscuros e
aparentemente inatingíveis da vida mental. Ele denominou
psicanálise a teoria e terapia. "Psicanálise é
o nome de: (1) um procedimento para a investigação de
processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer
outro modo, (2) um método (baseado nessa investigação)
para o tratamento de distúrbios neuróticos, e (3) uma
coleção de informações psicológicas obtidas ao longo
dessas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova
disciplina científica" (1923, livro 15, p. 107
na ed bras.).
Um
exame dos métodos da psicanálise e seus principais procedimentos-associação
livre e transferência está além dos objetivos deste
livro. O objetivo da psicanálise é liberar materiais
inconscientes antes inacessíveis, de modo que se possa
lidar com eles conscientemente. Freud acreditava que
o material inconsciente permanecia inconsciente apenas
através de um consumo considerável e contínuo de libido.
À medida que esse material torna-se acessível, a energia
e pode ser usada pelo ego para atividades mais saudáveis.
A
liberação de materiais bloqueados é capaz de minimizar
as atitudes autodestrutivas. É possível reavaliar a
necessidade de ser punido ou de sentir-se inadequado
por exemplo, trazendo à consciência aqueles atos ou
fantasmas que levavam à necessidade. As pessoas podem,
então libertar-se do sofrimento que, de certa forma,
traziam perpetuamente consigo mesmas. Exemplificando,
muitos, se não a maioria dos norte-americanos, sentem
que seus órgãos sexuais não têm a medida certa: os pênis
são muito curtos ou muito finos; os seus seios são flácidos,
muito miúdos, muito grandes ou malformados e assim por
diante. A maioria dessas crenças surge durante os anos
da adolescência ou mais cedo. Os resíduos inconscientes
dessas atitudes são visíveis nas preocupações a respeito
de adequação sexual, capacidade de despertar desejo,
ejaculação precoce, frigidez e um grande número de sintomas
relatados. Se estes temores não-expressos forem explorados,
expostos e atenuados, pode haver um aumento da energia
sexual disponível, assim como uma redução da tensão
total.
A
psicanálise sugere que é possível, porém difícil, chegar
a um acordo com as repetidas exigências do id. "O
propósito da psicanálise é revelar os complexos reprimidos
por causa de desprazer e que produzem sinais de resistência
ante as tentativas de levá-los à consciência" (1906,
livro 31, pp. 62-63 na ed bras.). "Uma das atribuições
da psicanálise, como sabem, é erguer o véu da amnésia
que oculta os anos iniciais da infância e trazer à memória
consciente as manifestações do início da vida sexual
infantil que estão contidas neles" (1933, livro
28, p.42 na ed bras.). As metas, tais como descritas
por Freud, pressupõem que se uma pessoa liberar-se das
inibições do inconsciente, pressupõem que se uma pessoa
liberar-se das inibições do inconsciente, o ego estabelecerá
novos níveis de satisfação em todas as áreas de funcionamento.
Sonhos
e Elaboração Onírica. Ouvindo as associações livres
de seus pacientes, assim como considerando sua própria
auto-análise, Freud começou a investigar os relatos
e lembranças dos sonhos. No livro que é com freqüência
descrito como seu trabalho mais importante - A Interpretação
de Sonhos (1900) - ele descreve como os sonhos ajudam
a psique a se proteger e satisfazer-se. Obstáculos incessantes
e desejos não mitigados preenchem o cotidiano. Os sonhos
são um balanço parcial, tanto somática quanto psicologicamente.
Freud indica que do ponto de vista biológico, a função
dos sonhos é permitir que o sono não seja perturbado.
Sonhar é uma forma de canalizar desejos não realizados
através da consciência sem despertar o corpo. "Uma
estrutura de pensamento, na maioria das vezes muito
complicada, que foi construída durante o dia e não realizada
(estabelecida) - um remanescente do dia - apega-se firmemente
mesmo durante a noite à energia que tinha assumido...
e então ameaça perturbar o sono. Esse resíduo diurno
é transformado num sonho pela elaboração onírica e,
dessa forma, torna-se inofensivo ao sono (1905; em Fodor,
1958, pp.52-53).
Mais
importante que o valor biológico dos sonhos são os efeitos
psicológicos da elaboração onírica. Esta é "o
conjunto das operações que transformam os materiais
do sonho (estímulos corporais, restos diurnos, pensamentos
do sonho) num produto: o sonho manifesto" (La Planche
e Pontalis, 1973, p. 664 na ed bras.). Um sonho não
aparece simplesmente; ele é desenvolvido para atingir
necessidades específicas, embora essas não sejam descritas
de maneira clara pelo conteúdo manifesto do sonho.
Quase
todo sonho pode ser compreendido como a realização
de um desejo. O sonho é um caminho alternativo para
satisfazer os desejos do id. Quando em estado de vigília,
o ego esforça-se para proporcionar prazer e reduzir
o desprazer. Durante o sono, necessidades não satisfeitas
são escolhidas, combinadas e arranjadas de modo que
as seqüências do sonho permitam uma satisfação adicional
ou redução de tensão. Para o id, não é importante o
fato da satisfação ocorrer na realidade físico-sensorial
ou na imaginada realidade interna do sonho. Em ambos
os casos, energias acumuladas são descarregadas.
| Os
sonhos não devem ser comparados aos sons desregulados
que saem de um instrumento musical atingido
pelo golpe de alguma força externa em vez de
sê-lo pela mão de quem sabe tocar; não são destituídos
de sentido, não são absurdos, não implicam que
uma parcela de nossa reserva de idéias se ache
adormecida, enquanto outra começa a despertar.
pelo contrário, são fenômenos psíquicos de inteira
validade - realização de desejos; podem ser
inseridos no conjunto de atos mentais intelegíveis
de vigília; são produzidos por uma atividade
da mente altamente complexa (1900, vol. IV p.
131 na ed bras.). |
Muitos
sonhos parecem não ser satisfatórios; alguns são deprimentes,
alguns perturbadores, outros assustadores e muitos simplesmente
obscuros. Muitos sonhos parecem reviver eventos passados,
enquanto uns poucos parecem ser proféticos. Através
da análise detalhada de dezenas de sonhos, ligando-os
a conhecimentos da vida do sonhador. Freud foi capaz
de mostrar que a elaboração onírica é um processo de
seleção, distorção, transformação, inversão, deslocamento
e outras modificações em um desejo original. Essas mudanças
tornam tal desejo aceitável ao ego, mesmo que o desejo
não-modificado seja totalmente inaceitável pela consciência
em estado de vigília. Freud torna-nos cientes da permissividade
dos sonhos, onde toleramos ações que estão claramente
além das restrições morais de nossa vida de vigília.
Em sonhos, matamos, mutilamos ou destruímos inimigos,
parentes ou amigos; temos relações sexuais, realizamos
nossas perversões e tomamos como parceiros sexuais uma
vasta gama de pessoas. Em sonhos, combinamos pessoas,
lugares e ocasiões que não apresentam nenhuma possibilidade
de serem reunidos no nosso mundo de vigília.
| Sonhos
são reais enquanto duram - podemos dizer mais
alguma coisa da vida? (Havelock Ellis) |
O
sonho é uma forma de satisfazer desejos que não foram
ou não podem ser realizados durante o dia. Os "resíduos
diurnos" que formam o conteúdo manifesto do sonho
servem como estrutura do conteúdo latente ou dos desejos
disfarçados. O sonho realiza, em pelo menos dois níveis,
incidentes comuns que não foram resolvidos ou que fazem
parte de padrões mais amplos e antigos que nunca foram
solucionados.
Sonhos
repetidos podem ocorrer quando um acontecimento diurno
provoca o mesmo tipo de ansiedade que levou ao sonho
original. Por exemplo, uma mulher de 60 anos ativa e
feliz no casamento, de vez em quando ainda sonha que
vai prestar exames no colégio. Ela entra na classe,
mas a mesma está vazia. O exame terminou, ela chegou
muito tarde. Ela tem esse sonho quando está ansiosa
a respeito de uma dificuldade corriqueira; no entanto,
sua ansiedade não está relacionada nem com o colégio,
nem com os exames, os quais deixou para trás há muitos
anos.
| Um
sonho, então, é uma psicose, com todos os absurdos,
delírios e ilusões de uma psicose. Uma psicose
de curta duração, sem dúvida, inofensiva, até
mesmo dotada de uma função útil, introduzida
com o consentimento do indivíduo e concluída
por uma ato de sua vontade (1940, livro 7, p.
47 na ed. bras.) |
Sonhos
tentam satisfazer desejos, mas nem sempre são bem sucedidos.
"Em determinadas circunstâncias, um sonho só é
capaz de levar a efeito a sua intenção de modo muito
incompleto, ou, então tem de abandoná-la por inteiro.
A fixação inconsciente a um trauma parece estar acima
de tudo, entre esses obstáculos à função de sonhar"
(1933, livro 28, p.43 na ed bras.).
Dentro
do contexto da psicanálise, o terapeuta ajuda o paciente
a interpretar os sonhos para facilitar a recuperação
do material inconsciente. Freud fez certas generalizações
sobre tipos especiais de sonhos (p. ex. sonhos em que
se cai, em que se voa, em que se nada, e sonhos sobre
fofo), mas ele deixa claro que para cada caso específico
as regras gerais podem não ser válidas, e que as associações
de um indivíduo em seu próprio sonho são mais importantes
que qualquer conjunto preconcebido de regras de interpretação.
| Os
sonhos são os verdadeiros intérpretes de nossas
inclinações, mas é necessária arte para ordená-los
e compreendê-los (Montaigne, 1553/1592, Ensaios) |
Os
críticos de Freud freqüentemente sugerem que ele interpretou
além do necessário os componentes sexuais dos sonhos
de forma a ajustá-los à sua teoria geral. A réplica
de Freud é clara: "Jamais sustentei a afirmação,
tantas vezes a mim atribuída, de que a interpretação
de sonhos revela que todos os sonhos têm um conteúdo
sexual ou provêm de forças motoras sexuais" (1925,
livro 25, p.58 na ed bras.). O que ele sustentou é que
os sonhos não são nem casuais nem acidentais, e sim
um modo de satisfazer desejos não realizados. Outros
teóricos, incluindo Jung e Perls, que não aceitaram
as interpretações de Freud, reconheceram, contudo, sua
dívida para com ele pelo seu trabalho pioneiro em desvendar
e interpretar a função dos sonhos.
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