Sigmund
Freud e a Psicanálise
Fonte:
"Teorias da Personalidade"
Fadigman,
James
Frager, Robert
(continuação
da página anterior)
Fases
Psicossexuais do Desenvolvimento
À
medida que um bebê se transforma numa criança, uma criança
em adolescente e um adolescente em adulto, ocorrem mudanças
marcantes no que é desejado e em como estes desejos
são satisfeitos. As modificações nas formas de gratificação
são os elementos básicos na descrição de Freud das fases
de desenvolvimento. Freud usa o termo fixação para
descrever o que ocorre quando uma pessoa não progride
normalmente de uma fase para outra, mas permanece muito
envolvida numa fase particular. Uma pessoa fixada numa
determinada fase preferirá satisfazer suas necessidades
de forma mais simples ou infantil, ao invés dos modos
mais adultos que resultariam de um desenvolvimento normal.
Fase
Oral. Desde o nascimento, necessidade e gratificação
estão ambas concentradas predominantemente em volta
dos lábios, língua e, um pouco mais tarde, dos dentes.
A pulsão básica do bebê não é social ou interpessoal,
é apenas receber alimento para atenuar as tensões de
fome e sede. Enquanto é alimentada, a criança é também
confortada, aninhada, acalentada e acariciada. No início,
ela associa prazer e redução da tensão ao processo de
alimentação.
A
boca é a primeira área do corpo que o bebê pode controlar;
a maior parte da energia libidinal disponível é direcionada
ou focalizada nesta área. Conforme a criança cresce,
outras áreas do corpo desenvolvem-se e tornam-se importantes
regiões de gratificação. Entretanto, alguma energia
é permanentemente fixada ou catexizada nos meios de
gratificação oral. Em adultos, existem muitos hábitos
orais bem desenvolvidos e um interesse contínuo em manter
prazeres orais. Comer chupar, morder, lamber ou beijar
com estalo, são expressões físicas destes interesses.
Pessoas que mordicam constantemente, fumantes e os que
costumam comer demais podem ser pessoas parcialmente
fixadas na fase oral, pessoas cuja maturação psicológica
pode não ter se completado.
A
fase oral tardia, depois do aparecimento dos dentes,
inclui a gratificação dos instintos agressivos. Morder
o seio, que causa dor à mãe e leva a um retraimento
do seio, é um exemplo deste tipo de comportamento. O
sarcasmo do adulto, o arrancar o alimento de alguém,
a fofoca, têm sido descritos como relacionados a esta
fase do desenvolvimento.
A
retenção de algum interesse em prazeres orais é normal.
Este interesse só pode ser encarado como patológico
se for o modo dominante de gratificação, isto é, se
uma pessoa for excessivamente dependente de hábitos
orais para aliviar a ansiedade.
Fase
Anal. À medida que a criança cresce, novas áreas
de tensão e gratificação são trazidas à consciência.
Entre dois e quatro anos, as crianças geralmente aprendem
a controlar os esfíncteres anais e a bexiga. A criança
presta uma atenção especial à micção e à evacuação.
O treinamento da toalete desperta um interesse natural
pela autodescoberta. A obtenção do controle fisiológico
é ligada à percepção de que esse controle é uma nova
fonte de prazer. Além disso, as crianças aprendem com
rapidez que o crescente nível de controle lhes traz
atenção e elogios por parte de seus pais. O inverso
também é verdadeiro; o interesse dos pais no treinamento
da higiene permite à criança exigir atenção tanto pelo
controle bem sucedido quanto pelos "erros".
Características
adultas que estão associadas à fixação parcial na fase
anal são: ordem, parcimônia e obstinação. Freud observou
que esses três traços em geral são encontrados juntos.
Ele fala do "caráter anal" cujo comportamento
está intimamente ligado a experiências sofridas durante
esta época da infância.
Parte
da confusão que pode acompanhar a fase anal é a aparente
contradição entre o pródigo elogio e o reconhecimento,
por um lado e, por outro a idéia de que ir ao banheiro
é "sujo" e deveria ser guardado em segredo.
A criança não consegue compreender inicialmente que
suas fezes e urina não sejam apreciadas. As crianças
pequenas gostam de observar suas fezes na privada, na
hora de dar a descarga, e com freqüência acenam e dizem-lhes
adeus. Não é raro uma criança oferecer como presente
a seu pai ou mãe parte de suas fezes. Tendo sido elogiada
por produzi-las, a criança pode surpreender-se ou confundir-se
no caso de seus pais reagirem ao presente com repugnância.
Nenhuma área da vida contemporânea é tão carregada de
proibições e tabus como a área que lida com o treinamento
da higiene e comportamentos típicos da fase anal.
| Outra
característica da sexualidade infantil inicial
é que o órgão sexual feminino propriamente dito
ainda não desempenha nela qualquer papel: a
criança ainda não o descobriu. A ênfase recai
inteiramente no órgão masculino; todo o interesse
da criança está dirigido para a questão de se
ele se acha presente ou não (1926, livro 25,
p.130 na ed. bras.). |
Fase
fálica. Bem cedo, já aos três anos, a criança entra
na fase fálica, que focaliza as áreas genitais do corpo.
Freud afirmava que essa fase é melhor caracterizada
por "fálica" uma vez que é o período em que
uma criança se dá conta de seu pênis ou da falta de
um. É a primeira fase em que as crianças tornam-se conscientes
das diferenças sexuais.
As
opiniões de Freud a respeito do desenvolvimento da inveja
do pênis em meninas foram longamente debatidas em círculos
psicanalíticos, assim como em outros lugares. (Incluímos
uma discussão completa deste aspecto controvertido da
teoria psicanalítica no Apêndice I.) Freud concluiu,
a partir de suas observações, que, durante esse período,
homens e mulheres desenvolvem sérios temores sobre questões
sexuais.
O
desejo de ter um pênis e a aparente descoberta de que
lhe falta "algo" constituem um momento crítico
no desenvolvimento feminino. Segundo Freud: "A
descoberta de que é castrada representa um marco decisivo
no crescimento da menina. Daí partem três linhas de
desenvolvimento possíveis: uma conduz à inibição sexual
ou à neurose, outra à modificação do caráter no sentido
de um complexo de masculinidade e a terceira, finalmente,
à feminilidade normal"(1933, livro 29, p.31 na
ed. bras).
| Se
penetrarmos profundamente na neurose de uma
mulher, não poucas vezes deparamos com o desejo
reprimido de possuir um pênis (1917, livro 27,
p.151, na ed. bras.). |
Freud
tentou compreender as tensões que uma criança vivencia
quando sente excitação "sexual", isto é, o
prazer a partir da estimulação de áreas genitais. Esta
excitação está ligada, na mente da criança, à presença
física próxima de seus pais. O desejo desse contato
torna-se cada vez mais difícil de ser satisfeito pela
criança, ela luta pela intimidade que seus pais compartilham
entre si. Esta fase caracteriza-se pelo desejo da criança
de ir para a cama de seus pais e pelo ciúme da atenção
que seus pais dão um ao outro, ao invés de dá-la a criança.
Freud
viu crianças nesta fase reagirem a seus pais como ameaça
potencial à satisfação de suas necessidades. Assim,
para o menino que deseja estar próximo de sua mãe, o
pai assume alguns tributos de um rival. Ao mesmo tempo,
o menino ainda quer o amor e a afeição de seu pai e,
por isso, sua mãe é vista como um rival. A criança está
na posição insustentável de querer e temer ambos os
pais.
Em
meninos Freud denominou a situação complexo de Édipo,
segundo a peça de Sófocles. Na tragédia grega, Édipo
mata seu pai (desconhecendo sua verdadeira identidade)
e, mais tarde, casa-se com a mãe. Quando finalmente
toma conhecimento de quem havia matado e com quem se
casara, o próprio Édipo desfigura-se arrancando os dois
olhos. Freud acreditava que todo menino revive um drama
interno similar. Ele deseja possuir sua mãe e matar
seu pai para realizar este destino. Ele também teme
seu pai e receia ser castrado por ele, reduzindo a criança
a um ser sem sexo e, portanto, inofensivo. A ansiedade
da castração, o temor e o amor pelo seu pai, e o amor
e o desejo sexual por sua mãe não podem nunca se completamente
resolvidos. Na infância, todo o complexo é reprimido.
Mantê-lo inconsciente, impedi-lo de aparecer, evitar
até mesmo que se pense a respeito ou que se reflita
sobre ele essas são algumas das primeiras tarefas do
superego em desenvolvimento.
Para
as meninas, o problema é similar, mas na sua expressão
e solução tomam um rumo diferente. A menina deseja possuir
seu pai e vê sua mãe como a maior rival. Enquanto os
meninos reprimem seus sentimentos, em parte pelo medo
da castração, a necessidade da menina de reprimir seus
desejos é menos severa, menos total. A diferença em
intensidade permite a elas "permanecerem nela (situação
edipiana) por um tempo indeterminado; destroem-na tardiamente
e, ainda assim, de modo incompleto" (1933, livro
29, p.35 na ed. bras.).
Seja
qual for a forma que realmente toma a resolução da luta,
a maioria das crianças parece modificar seu apego aos
pais em algum ponto depois dos cinco anos de idade e
voltam-se para o relacionamento com seus companheiros,
atividades escolares, esportes e outras habilidades.
Esta época, da idade de 5, 6 anos até o começo da puberdade,
é denominada período de latência, um tempo
em que os desejos sexuais não-resolvidos da fase fálica
não são atendidos pelo ego e cuja repressão é feita,
com sucesso, pelo superego. " A partir desse ponto,
até a puberdade, estende-se o que se conhece por período
de latência. Durante ele a sexualidade normalmente não
avança mais, pelo contrário, os anseios sexuais diminuem
de vigor e são abandonadas e esquecidas muitas coisas
que a criança fazia e conhecia. Nesse período da vida,
depois que a primeira eflorescência da sexualidade feneceu,
surgem atitudes do ego como vergonha, repulsa e moralidade,
que estão destinadas a fazer frente à tempestade ulterior
da puberdade e a alicerçar o caminho dos desejos sexuais
que se vão despertando" (1926, livro 25 p. 128
na ed. bras.).
Fase
Genital. A fase final do desenvolvimento biológico
e psicológico ocorre com início da puberdade e o conseqüente
retorno da energia libidinal aos órgãos sexuais. Neste
momento, meninos e meninas estão ambos conscientes de
suas identidades sexuais distintas e começam a buscar
formas de satisfazer suas necessidades eróticas e interpessoais.
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