Franz
Alexander (1891-1964) foi um da segunda geração
de psicanalistas. Ele nasceu em Budapeste, onde
freqüentou sua escola de medicina, formando-se
em 1912. Ele conduziu pesquisas sobre bacteriologia
no Instituto para Patologia Experimental até
a Primeira Guerra Mundial, quando ele praticou
microbiologia clínica no front
italiano, principalmente combatendo a malária.
Após a guerra, ele se juntou ao departamento
de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade
de Budapeste como pesquisador do cérebro.
Esta pesquisa levou a um encontro com o trabalho
de Freud e em 1919 ele tornou-se o primeiro
estudante no Instituto Psicanalítico
de Berlin. Em 1930, tornou-se um professor visitante
de psicanálise na Universidade de Chicago
e em 1932 fundou o Chicago Psychoanalytic Institute.
Estabeleceu o instituto independente das sociedades
psicanalíticas, levando o instituto de
Chicago a ser uma das mais criativas fontes
de pensamento psicanalítico.
Durante a mesma época, despertou seu
interesse por doenças psicossomáticas,
ajudando a fundar o jornal Psychossomatic Medicine.
Um princípio orientador de seu trabalho
foi tornar a psicanálise uma parte integral
da medicina.
Em 1946, Alexander tornou-se professor de psicanálise
na University of Southern Califórnia,
onde continou seu trabalho sobre medicina psicossomática
e tornou-se interessado na ligação
da teoria da aprendizagem à psicofisiologia
do estresse e psicanálise.
TEORIA
DA PERSONALIDADE. Alexander
não desenvolveu uma teoria abrangente
única da personalidade. Sua contribuição
foi sua aplicação do pensamento
psicanalítico a processos patofísiológicos.Ele
lançou os fundamentos para as áreas
florescentes da medicina psicossomática,
medicina comportamental e psicofisiologia. Ele
criou a base para o modelo biopsicossocial e
estudou a mente e o corpo em um momento em que
a psiquiatria americana, apesar das idéias
originais de Freud, tornara-se puramente psicológica
em orientação. Ao estudar e tratar
muitos pacientes com doenças físicas
sérias, ele também foi forçado
a considerar modificações criativas
de técnicas terapêuticas.
Alexander e seu grupo começaram estudando
intensamente, através de entrevistas
clínicas, pacientes que tiveram uma entre
sete doenças que foram identificadas
por clínicos gerais como regularmente
apresentando fortes componentes psicológicos.
Entre estes estudos clínicos surgiu a
hipótese da especificidade. A hipótese
da especificidade propôs que determinadas
doenças são os produtos de interações
complexas de predisposições constitucionais
específicas, conflitos inconscientes
específicos e tipos específicos
de estressores que ativam tais conflitos. Alexander
e seu grupo então testaram estas hipóteses
em uma série de estudos clínicos
de populações de pacientes. A
variável independente foi geralmente
a habilidade de clínicos experientes
de prever a doença do paciente a partir
de relatos de casos mascarados. No modelo que
Alexander propôs, permanece a conceituação
psicossomática fundamental; uma variedade
de situações de doença
é agora estudada controlando influências
genéticas enquanto medindo e modificando
o conflito intrapsíquico e estressores
externos.
Na área da psicoterapia, Alexander foi
um dos muitos que buscou abreviar o processo
analítico. Ele formulou a hipótese
de que o insight intelectual não é
o fator curativo central na terapia. Ao contrário,
enfatizou o papel da experiência emocional
corretiva. Esta ênfase o levou a experimentar
com variações na técnica
que podem facilitar tais experiências.
Esta posição controversa rompeu
suas relações com o movimento
psicanalítico.
TEORIA
DA PSICOPATOLOGIA. As sete
doenças que Alexander estudou foram úlcera
péptica, colite ulcerativa, hipertensão
essencial, artrite reumatóide, asma brônquica,
neurodermatite e doença de Graves. Alexander
e seu grupo identificaram o que eles acreditavam
ser um único conflito central que, em
interação com predisposições
constitucionais e um estressor particular, ativa
a doença.
O
conflito central identificado na úlcera
péptica é hiperindependência
como uma defesa contra necessidades de dependência
inaceitáveis. O estressor que resulta
em um ataque agudo é qualquer situação
que exija que a pessoa afligida reconheça
abertamente necessidades de dependência
ou peça que elas sejam satisfeitas. Ordinariamente,
tais pacientes utilizam dominação
e controle para intimidar os outros a preencher
suas necessidades de dependência. Alexander
foi o primeiro a descrever o executivo de negócios
little boy (menininho) propenso a úlceras
pépticas. O fundamento foi lançado
para as experiências com macacos executivos
de John J. Brady. Este modelo de doença
particular recebeu mais evidências confirmadoras
do que quaisquer dos outros; em um estudo de
alistados no exército, perfis psicológicos
descritos por Alexander, em combinação
com medições de pepsinogênio
no soro, foram extraordinariamente exitosas
em prever o desenvolvimento de úlceras
duodenais.
A teoria de Alexander da colite ulcerativa também
implica em conflitos de dependência; no
entanto, fúria por necessidades não
satisfeitas é visto como a característica
definidora. A fúria provoca culpa e a
urgência de fazer restituição
para o objeto da raiva através de presentes
de realização e sucesso.
O modelo aqui é claramente a criança
raivosa buscando aplacar um progenitor através
de desempenho. O evento precipitador para a
reativação da doença é
a percepção de que os esforços
de aplacamento serão malsucedidos. Alexander
alegou que a percepção resulta
em excesso de atividade parassimpática
conduzindo à diarréia. No próprio
estudo de Alexander, internistas e psiquiatras
hábeis revisaram descrições
de casos nas quais cada paciente apresentava
uma das sete doenças psicossomáticas
identificadas e então previu qual doença
cada paciente tinha; os médicos identificaram
corretamente mais da metade dos pacientes com
colite ulcerativa a partir apenas de sua dinâmica
- um resultado bastante acima do acaso. No entanto,
a maioria dos clínicos agora considera
a formulação embasada em relações
de objeto de Engel como mais acurada.
A hipótese de Alexander sobre hipertensão
essencial focaliza sobre raiva inibida e suspeição
em uma pessoa exteriormente anuente e cooperativa.
Um paciente hipertenso freqüentemente passa
por longos períodos com pressão
sanguínea sob controle e então,
de forma aparentemente inexplicável,
experimenta elevações dramáticas
na pressão sanguínea. Alexander
atribuiu estes episódios a incidentes
quando a raiva crônica é exacerbada
e defesas intensas devem ser usadas, causando
ativação e luta-fuga simpática
crônica. Diversos estudos psicofisiológicos
sugeriram que a idéia tem alguma precisão,
pelo menos em termos de mudanças de curto
prazo na pressão sanguínea de
um subconjunto de pacientes hipertensos. Pacientes
hipertensos lábeis parecem encaixar-se
melhor no modelo.
O conflito específico proposto para a
artrite reumatóide postula conflitos
sobre rebelião contra pais protetores.
Uma formação de acordo na qual
o conflito é descarregado através
de atividade física, especialmente esportes,
funciona por algum tempo, mas a raiva é
eventualmente expressada em auto sacrifício
destinado a controlar outros. Falhas do padrão
resultam em tensão ambivalente aumentada,
diretamente expressa por contrações
musculares que conduzem à degeneração
de articulações. Uma notável
quantidade de evidências confirmadoras
para esta constelação aparece
em uma série de estudos de testagem psicológica;
no entanto, pesquisas mais recentes falharam
em reproduzir muitos destes resultados e implicaram
em tópicos de estresse mais gerais, mudanças
de vida e mecanismos psiconeuroimunológicos.
Alexander
propôs que a respiração
ruidosa da asma bronquial representa um choro
simbólico. O conflito específico,
segundo ele, e o desejo por proteção
versus o medo de envolvimento. Este conflito
conduz à sensibilização
a tópicos de separação,
que se tornam os eventos que provocam o choro
suprimido do ataque de asma. Em anos recentes,
tornou-se claro que a população
com asma é muito mais heterogênea
tanto psicológica como fisiologicamente
(em termos de vulnerabilidade a alérgenos)
do que era reconhecido no tempo de Alexander.
O papel de um ciclo vicioso fisiológico-psicológico
no qual a asma estimula pânico, que, por
sua vez, dispara respostas psicofisiológicas
pulmonares patológicas tem sido um foco
da pesquisa recente.
Embora
o papel dos conflitos na neurodermatite permaneça
amplamente acepto por clínicos, o conflito
específico proposto por Alexander, de
que privação precoce conduz a
desejos de proximidade que são opostos
por um medo disso não é mais aceita.
Finalmente, a doença de Graves não
é mais amplamente aceita como uma doença
psicossomática. A hipótese de
Alexander foi de que responsabilidade prematura
conduz a negação tipo mártir
de dependência.
TRATAMENTO.
A hipótese da especificidade conduziu
Alexander a focalizar seus esforços psicoterapêuticos
de um modo que outros analistas de seu tempo
não focalizaram.
Ele raciocinou que se pudesse ajudar os pacientes
a resolver seus conflitos centrais sem necessariamente
abordar outras partes da estrutura de personalidade,
a doença médica melhoraria. De
fato, ele publicou diversos estudos de caso
sugerindo apenas este tipo de sucesso. Além
disso, ele estava entre os primeiros a questionar
o valor de insight intelectual como o agente
curativo na psicoterapia. Ele propôs que
uma experiência emocional corretiva é
o agente central de mudança. Uma experiência
emocional corretiva envolve desconfirmação
dentro do relacionamento de transferência
de suposições e projeções
prévias.
Alexander sentiu-se justificado em introduzir
uma variedade de técnicas que inicialmente
induziriam e intensificariam experiência
emocional da transferência e, subseqüentemente,
desafiar as suposições inconscientes
subjacentes. Estas técnicas incluíram
a manipulação da frequência
e a duração das sessões,
fazendo sugestões diretas sobre o estilo
de vida do paciente, alteração
autoconsciente do comportamento do terapeuta
de acordo com o conflito do paciente e técnicas
de terapia do comportamento. De muitos modos
estas técnicas foram os aspectos mais
controvertidos do trabalho de Alexander.
Sérias questões sobre a validade
das suas suposições e a ética
de sua posição manipulativa foram
levantadas. Ele estava impaciente com o processo
lento e metódico de convencer seus colegas;
sua energia intelectual levou-o a embarcar em
experimentos sempre novos enquanto outros analistas
estavam ainda lutando para digerir suas sugestões
anteriores. Ainda assim, hoje, poucos discordam
do conceito de que a aprendizagem emocional
é pelo menos tão importante quanto
o insight intelectual para o sucesso psicoterapêutico.
Os esforços de Alexander para modificar
e encurtar o processo analítico estão
mais próximos da norma na prática
psiquiátrica do que a análise
clássica.
Ironicamente, embora as inovações
terapêuticas de Alexander pareçam
prescientes hoje, sua hipótese de especificidade,
que foi em seu tempo menos controvertida, parece
simplista, ingênua e forçada. Ele
não tinha disponível a percepção
de quão complicadas as causas das doenças
verdadeiramente o são. O modelo dominante
então era o das doenças infecciosas
- um organismo, uma doença. Além
disso, a complexidade dos fenômenos sociais
e estressores era desconhecida em sua época.
Ainda assim ele foi um dos que primeiro postulou
uma etiologia multicausal para doenças
- um defeito constitucional específico,
um conflito específico e um estressor
específico. Ele foi também o primeiro
a estudar interações mente-corpo
de uma forma sistemática. Deste modo,
o próprio Alexander lançou a base
sobre a qual suas próprias formulações
parecem limitadas hoje.