Outras Escolas Psicodinâmicas

 

Carl Gustav Jung

 

        Carl Gustav Jung (1875-1961) residiu durante toda a sua vida na Suíça. Estudou psiquiatria com Eugen Bleuler no Hospital Mental Burgholzii, em Zurique. Ele estava fortemente envolvido com Freud e com o movimento psicanalítico de 1906 a 1914, quando renunciou à presidência da Associação Psicanalítica Internacional. Após uma "doença criativa" que durou de 1914 a 1918, Jung emergiu como um defensor da introspecção ativa como um meio para a mudança intrapsíquica. Embora rejeitasse a noção de Freud de libido como energia sexual e o complexo de Édipo como um estágio desenvolvimental universal, ele acreditava não apenas na ação inconsciente, mas em um inconsciente coletivo partilhado. Em sua própria tipologia, um introvertido intuitivo, Jung não estava interessado nos aspectos práticos do viver no mundo. Seu foco foi sobre individuação através de tornar-se ciente do inconsciente. Jung fundou uma escola de psicoterapia e psicologia que ele denominou psicologia analítica.

        TEORIA DA PERSONALIDADE. Jung desenvolveu uma elaborada metapsicologia. Seu construto do aparelho psíquico diferia da topologia freudiana de ego, superego, id e ideal do ego, diagramada para fins de comparação na Figura 1. A Figura 2 apresenta a visão de Jung do aparelho psíquico. Abaixo de uma margem externa de consciência está o inconsciente pessoal, contendo os complexos. Contidos dentro do inconsciente pessoal e conectados aos complexos estão os arquétipos, os elementos do self, que, por sua vez, conectam-se a superfície da personalidade como o ego.

Figura 1 - A topologia freudiana do aparelho psíquico

SE = Superego
CS= Consciente
UCS= Inconsciente

        Complexos. Os complexos são grupos de idéias inconscientes associadas a eventos ou experiências particulares emocionalmente coloridos. Jung os deduziu a partir de seus estudos iniciais de associação de palavras quando ele observou que determinadas palavras provocam reações intensas ou produzem menos reação do que o esperado. Os complexos são construídos em torno de estruturas psíquicas solidamente interligadas conhecidas como arquétipos, que são explicadas adiante.

         Os complexos são também reforçados por eventos ambientais e por atenção ou desatenção seletiva e são, portanto, autoperpetuantes. Eles são dotados de energia psíquica a partir de seu tom afetivo - positivo, negativo, suave ou forte. Quanto mais intenso o complexo, maior a emoção, imagens mentais e tendência à ação. Os complexos são freqüentemente estimulados por interações com outros. Um complexo com o pai pode ser estimulado por uma pessoa que simboliza um pai (por ex., um amigo mais velho) ou por um estímulo como a música ou arte que evoca memórias do pai. O complexo, anteriormente inativo no inconsciente, vem para o consciente e tende a dominar a consciência e deslocar outros complexos, que então mergulham em inconsciência. Emoções, imagens, memórias e idéias relacionadas ao pai vem à percepção e são expressas durante este período, denominado "baixando o nível de consciência." À medida que os estímulos relacionados ao pai diminuem, o mesmo pode acontecer com o complexo com o pai, incluindo o que foi pensado, sentido e expressado durante a sua ascendência.

Figura 2 - O aparelho psíquico jungiano ( De A Stevens: On Jung, p 29. Routledge, Londres, 1990. Usado com permissão)

C= Complexo
A= Arquétipo


        Alguns complexos são conscientes, bem desenvolvidos e egossintônicos; outros são menos conscientes, maldesenvolvidos e egodistônicos. Os últimos são projetados sobre o ambiente, especialmente pelo processo psíquico inativo das crianças; a partir deste processo, processos projetivos e introjetivos evoluem. Uma pessoa pode introjetar e identificar-se com um complexo que foi projetado por uma outra pessoa. Deste modo, os terapeutas podem tornar-se psicologicamente infectados por seus pacientes. Pode-se também projetar um complexo que não está integrado em si mesmo sobre uma outra pessoa e então desenvolver um relacionamento com o complexo projetado. A pessoa pode imaginar um ambiente interpessoal carregado com complexos projetados potencialmente disponíveis para introjeção, deste modo oferecendo um potencial interminável para mutação psíquica em um campo interpessoal.

        Um outro aspecto importante dos complexos é a sua bipolaridade. Cada complexo tem um pólo positivo e um pólo ne projetado sobre uma outra pessoa, que, por sua vez, age sobre ele em um relacionamento. Deste modo, a teoria dos complexos é uma teoria de relacionamentos interpessoais, bem como de relacionamentos intrapsíquicos.

        Na teoria junguiana, o ego é também um complexo. Ele serve à mesma função que o ego freudiano, controlar a vida consciente e ligar o mundo intrapsíquico ao mundo externo. Os outros complexos que compõem o processo psíquico podem alinhar-se com ou opor-se ao ego. Por exemplo, complexos primitivos emocionalmente carregados têm uma grande tendência a tornar-se autônomos e podem comportar-se como personalidades parciais que se opõem ou controlam o ego. Estas personalidades aparecem como imagens em sonhos, como alucinações e como personalidades separadas em casos de transtorno de múltipla personalidade. Eles também aparecem em sessões espíritas quando médiuns apresentam as assim chamadas personalidades dos mortos. Para Jung, este fenômeno também explicava o animismo e os estados de possessão.

         Arquétipos. Complexos estão conectados a estruturas profundamente embutidas no aparelho psíquico, os arquétipos (Figura 2). Os complexos, o aspecto superficial do contínuo complexo-arquétipo, estão relacionados a eventos, sentimentos e memórias de vidas individuais. Eles são meios pelos quais os arquétipos expressam-se no processo psíquico pessoal. Os arquétipos são capacidades herdadas de iniciar e realizar comportamentos típicos de todos os seres humanos, independentemente de raça ou cultura, tais como alimentar e aceitar alimentação, tornar-se agressivo e lidar com agressão de outros. Estas predisposições são análogas à organização do córtex cerebral na lenta caminhada para a percepção visual de estímulos auditivos que se torna a capacidade para ver e ouvir, mas que especificamente requer estímulo para o seu desenvolvimento. Assim como a visão não pode desenvolver-se sem a carga visual durante estágios fisiologicamente decisivos, do mesmo modo os arquétipos requerem estimulação interativa para a sua elaboração em complexos. Deste modo, o complexo psíquico do bebê humano não é uma energia amorfa aguardando organização pelo ambiente. Ela é, ao invés disso, um complexo e organizado conjunto de potenciais cujo preenchimento e expressão dependem dos estímulos ambientais apropriados. Há tantos arquétipos quanto há situações humanas prototípicas.

         O arquétipo-complexo mãe ilustra a inter-relação entre complexo e arquétipo. O complexo mãe é baseado em experiências com mães ou mães substitutas - suas atitudes, personalidades e relacionamento com a pessoa. O arquétipo mãe é encontrado em sonhos ou fantasias freqüentemente como uma mulher imensa ou um animal com muitos seios. O tema principal do animal com muitos seios encontrado em muitas culturas é o de nutridora ilimitada.
Inconsciente. Em contraste com o inconsciente de Freud (Figura 1), o inconsciente jungiano tem duas camadas, a camada mais superficial sendo o inconsciente pessoal e a camada mais profunda sendo o inconsciente coletivo. Os complexos existem no inconsciente pessoal, os arquétipos no inconsciente coletivo ou complexo psíquico. O inconsciente pessoal é o equivalente do inconsciente freudiano, um repositório do que foi reprimido. O inconsciente coletivo é o resíduo do que foi aprendido na evolução da humanidade e passado ancestral, de modo bastante semelhante a como o ácido desoxirribonucléico (DNA) é um agregado do passado. Nesta porção do complexo psíquico, residem os instintos, o potencial para criatividade e a herança espiritual.

         O complexo psíquico, assim como todos os sistemas vivos, tenta permanecer em equilíbrio. O termo de Jung para homeostase na relação da vida consciente com a inconsciente foi a "lei da compensação". Para qualquer atitude consciente ou experiência que é excessivamente intensa, há uma compensação inconsciente. Uma pessoa experimentando negligência pode fantasiar ou sonhar com uma mãe imensa de muitos seios. Ao interpretar sonhos, Jung perguntava a si mesmo por qual atitude consciente o sonho compensara.

         Símbolos. Embora Jung aceitasse determinados símbolos como universais, ele sugeriu que, ao lidar com pacientes, o terapeuta deveria ver os símbolos como expressões de conteúdo ainda não conscientemente reconhecidas ou conceitualmente formuladas. Um objeto cilíndrico alto pode simbolizar um pênis, mas pode igualmente bem representar criatividade ou cura. Os símbolos são, freqüentemente, tentativas de unir imagens do inconsciente coletivo com o inconsciente pessoal e atingir um equilíbrio entre os dois. Um objeto cilíndrico alto que simboliza um pênis no inconsciente pessoal pode simbolizar o princípio fálico da criatividade ou fertilidade no inconsciente coletivo.

         Estrutura da personalidade. No centro da personalidade consciente está o complexo denominado ego. Diversos complexos universais servem ao ego. A persona (nomeada como a máscara usada pelos atores gregos antigos), a personalidade pública, intermedia entre o ego e o mundo real. A sombra, a imagem inversa da persona, contém aqueles traços inaceitáveis para a persona, quer eles sejam positivos, quer negativos. Uma persona corajosa, por exemplo, tem a sua sombra temerosa. O arquétipo da sombra é o inimigo ou o intruso temido. A anima é o depósito de todas as experiências de mulher na herança psíquica de um homem; o animus é o depósito de todas as experiências de homem na herança psíquica de uma mulher. A anima ou o animus conecta o ego ao mundo interno do complexo psíquico e é projetado sobre outros em relacionamentos cotidianos ou íntimos. Quando conectado à sombra, um homem, por exemplo, pode ver os atributos de mulher como indesejáveis e pode experimentar culpa ao encontrar estas qualidades em si próprio.

         SELF. O self é o arquétipo do ego; ele é o potencial inato para a integridade, um princípio ordenador inconsciente direcionando a vida psíquica geral que dá lugar ao ego, faz acordos com e é parcialmente moldado pela realidade externa. Na metapsicologia jungiana, o inconsciente dá lugar à integração, ordem e individuação. O self surge do inconsciente em sonhos, fantasias e estados de consciência alterada para dar direção. Na primeira metade da vida, o ego tenta identificar-se com o self e apropriar o poder do self a serviço do crescimento e diferenciação do ego. Durante este tempo, o ego pode tornar-se inflado com um sentimento irrealista de poder - a arrogância da juventude. Se cortado do self, o ego pode ser alienado e deprimido.

         INDIVIDUAÇÃO. Na segunda metade da vida, o ego começa a servir mais ao self do que ao domínio consciente da vida. Jung chamou este processo do desenvolvimento de "individuação" o impulso para uma pessoa tanto para tornar-se singular como para preencher as propensões espirituais comuns a toda a humanidade. Freqüentemente o processo requer a retícula de identidades anteriores e definições convencionais de sucesso e busca novos caminhos.

        A mudança freqüentemente exerce o efeito paradoxal de conduzir a relacionamentos mais amplos e mais maduros e a maior criatividade.

         Tipos psicológicos. A teoria de Jung de tipos psicológicos possui três eixos (Figura 3). A polaridade extroversão-introversão diz respeito ao relacionamento de objeto. Os extrovertidos são orientados aos outros e ao mundo da consciência. Sua energia flui para fora primeiro, então para dentro. Os introvertidos são orientados para os seus mundos internos, sua energia fluindo primeiro para dentro e então para a realidade externa. Os introvertidos podem, portanto, ser vistos como egoístas e inadaptáveis porque eles prestam atenção primeiro aos seus mundos internos e então determinam como o mundo externo pode encaixá-los.

         A polaridade sensação-intuição relaciona-se à percepção. O tipo perceptivo que Jung denominou orientado à sensação é orientado a estímulo e sintonizado aos particulares da realidade aqui e agora. O tipo intuitivo obscurece os detalhes, mas entende o quadro geral. O tipo sensação vem a entender uma situação reunindo os detalhes; o tipo intuitivo capta a situação geral antes de tentar assimilar suas partes. O tipo sensação vê as árvores primeiro; o tipo intuitivo vê a floresta primeiro.

         A polaridade entre pensamento e sentimento lida com processamento de informações e julgamento. No modo pensamento, os dados são avaliados de acordo com o princípio lógico. Sentimento, no pólo oposto, envolve fazer julgamentos através de processos não lógicos relacionados a valores e entender os relacionamentos. Nos relacionamentos sociais, o tipo pensamento lida com as pessoas de acordo com sua classe social e a tradição da etiqueta; um tipo sentimento lida com os outros em termos dos seus relacionamentos sociais presentes ou estado emocional percebido.

         Os três eixos indicados na Figura 3 tipificam cada pessoa. A sensação verifica que algo existe. O pensamento diz o que isso é. Os sentimentos atribuem valor a isso. Através da intuição, suas possibilidades podem ser apuradas. Um tipo extrovertido-sensação-pensamento é orientado para o mundo real, tende a perceber detalhes e os organiza em uma estrutura lógica. Um tipo introvertido-intuição-sentimento é auto-orientado, capta situações como um todo e é sensível às suas implicações emocionais.

         O complexo psíquico de todos contém todos os tipos. Mas cada pessoa tem um conjunto superior de funções, tipos que são desenvolvidos desde o início da vida e que são moldados fortemente por fatores constitucionais. Na segunda metade da vida, os adultos que continuam o processo de individuação tentam integrar ou ampliar e aprofundar seu entendimento de suas funções inferiores. Tipos pensamento tornam-se mais cientes dos sentimentos; tipos sensação permitem-se se basear mais em intuição.

         PSICOPATOLOGIA. Jung definiu neurose como uma dissociação da personalidade em decorrência dos complexos. Quando um outro complexo torna-se incompatível com o complexo do ego, a pessoa experimenta ansiedade. Para conter a ansiedade, a pessoa dissocia o complexo incompatível do ego e manobra inconscientemente contra o ego ou outros complexos identificados com o ego. Esta dissociação capacita a pessoa a sobreviver os dois complexos incompatíveis, um mais identificado com o ego e o outro mais ego distônico. O complexo ego distônico é freqüentemente experimentado como sendo infligido pelo mundo externo ("eu estou sendo maltratado" ao invés de "eu tenho um conflito interno"). A cisão fica particularmente evidente em transtornos de conversão e dissociativos e é uma explicação especialmente boa do fenômeno das múltiplas personalidades. Dentro da psique o ego ou personalidades parciais ou complexos opera junto com personalidades-sombra antitéticas a elas. Além disso, a anima ou o animus e as imagens arquetípicas do self tentam integrar e controlar o caso. As dissociações de personalidades que aparecem no transtorno de múltipla personalidade são manifestações dos complexos e do self.

         Os extrovertidos tendem a desenvolver sintomas de conversão ou a tornar-se anti-sociais. Os introvertidos tornam-se distímicos, ansiosos e obsessivos. Os sintomas são freqüentemente relacionados à tentativa de emergência de funções inferiores. Visto deste modo, condições patológicas podem conter dentro delas a luta em direção à integridade ou saúde; funções inferiores tentam tornar-se integradas ao invés de dissociadas da consciência. A integração das funções inferiores freqüentemente requer reorganizações emocionalmente dolorosas de pensamentos, atitudes e estilo de vida conscientes.

         A tentativa de expressão de funções inferiores não precisa resultar em psicopatologia. Pessoas com funções de pensamento altamente desenvolvidas podem encontrar-se desejando experimentar a vida mais plenamente e podem envolver-se em relacionamentos extramaritais altamente emocionais. Ao explorar, pode-se encontrar perda não resolvida de uma pessoa cuidadora com inabilidade resultante cedo na vida de obter intimidade com uma mulher. O processo de busca de intimidade é encenado fora do relacionamento marital porque à esposa foi designado o papel da mãe fria abandonadora.

         Aplicação. Jung sugeriu que a terapia começasse com quatro visitas por semana e então fosse espaçada para uma ou duas por semana.

         Os clínicos jungianos atuais trabalham com seus analisandos uma vez por semana, face-a-face. Jung colocou grande ênfase no relacionamento humano entre analista e analisando e observou que ambos mudam no transcorrer da análise. Ele definiu transferência como a tentativa do paciente de entrar em rapport psicológico com o médico e sustentou que, sem rapport e relação de objeto, as operações técnicas do analista não têm valor algum.

         Com sua ênfase sobre reintegração, simbolismo e sonhos, a análise jungiana parece bem adequada para ajudar pessoas educadas a lidar com problemas desenvolvimentais da meia-idade. Tendo atingido uma identidade profissional, sucesso material e um papel familiar firme, eles freqüentemente começam a perguntar "O que é o meu eu real?" "O que é mais importante para mim?" e "Qual é o meu relacionamento com a humanidade e com a história humana?" Tais pessoas fortemente dadas à autocrítica a serviço de autoprogresso com freqüência podem ficar aliviadas em encontrar-se descritas como tentando tornar-se plenamente elas mesmas, ao invés de ser mentalmente perturbadas.