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Na
língua portuguesa, a palavra resiliência
aplicada às Ciências Sociais e Humanas
vem sendo utilizada há poucos anos. Nesse sentido,
seu uso no Brasil restringe-se ainda a um grupo bastante
limitado de pessoas de alguns círculos acadêmicos.
Nossa experiência tem mostrado que a maior parte
dos colegas da área de Psicologia, Sociologia
ou Educação não conhecem a palavra
e desconhecem seu uso formal ou informal, bem como sua
aplicação em quaisquer das áreas
da ciência. Por outro lado, profissionais das
áreas de Engenharia, Física e Odontologia
revelam certa familiaridade com a palavra quando esta
se refere à resistência de materiais.
Em
certos países da Europa, nos Estados Unidos e
no Canadá, a palavra resiliência já
vem sendo utilizada com freqüência não
só por profissionais das Ciências Sociais
e Humanas, mas também através de referências
da mídia a pessoas, lugares, ações
e coisas em geral. Uma pesquisadora canadense (Martineau,
1999: 96-7) cita, em seu importante trabalho de doutorado
sobre a resiliência na criança, alguns
exemplos das contradições desse uso coloquial,
em que pessoas famosas são consideradas resilientes
pela mídia tanto por tolerarem como por terminarem
seus casamentos. Pessoas ou coisas que tanto resistem
como provocam mudanças também são
descritas como resilientes nos comerciais de TV e em
diálogos informais é comum as pessoas
classificarem-se como resilientes ou não resilientes.
*
Fundação Universidade Federal do Rio Grande,
doutoranda em Psicologia da Educação na
Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. E-mail: yunes@vetorialnet.com.br.
** Docente do Programa de Estudos Pós-graduados
em Psicologia da Educação na. Pontifícia
Universidade de São Paulo. E-mail: hs2ymans@exatas.pucsp.br.
No
Brasil, no entanto, a palavra resiliência e seus
significados ainda permanecem como "ilustres desconhecidos"
para a grande maioria das pessoas, enquanto nos países
acima mencionados o termo resiliência é
muito utilizado inclusive para referendar e direcionar
programas políticos de ação social
e educacional, o que aqui (talvez felizmente.,.) ainda
parece estar longe de ocorrer.
Para
melhor exemplificar a diferença cultural nas
prioridades de significado da palavra resiliência
nas línguas portuguesa e inglesa, consultamos
dicionários especializados. O dicionário
de língua portuguesa Novo Aurélio, de
Ferreira (1999), diz que, na Física, resiliência
"é a propriedade pela qual a energia armazenada
em um corpo deformado é devolvida quando cessa
a tensão causadora duma deformação
elástica". No sentido figurado, o mesmo
dicionário aponta o termo como "resistência
ao choque". O dicionário de língua
inglesa Longman Dicfionary of Contemporary English (1995)1
oferece duas definições de resiliência,
sendo a primeira: "habilidade de voltar rapidamente
para o seu usual estado de saúde ou de espírito
depois de passar por doenças, dificuldades etc.:
resiliência de caráter".2 A segunda
explicação para o termo encontrada no
mesmo dicionário afirma que resiliência
"é a habilidade de uma substância
retornar à sua forma original quando a pressão
é removida: flexibilidade".3
1.
Dicionário formulado por uma equipe multidisciplinar,
com a proposta de auxiliar no inglês escrito e
falado.
2. Original em inglês: "the ability to return
quickly to your usual health or state of mind after
suffering an illness, difficulties etc.: resilience
of character".
3. Original em inglês: "the ability of a
substance to return to its former shape when pressure
isremoved:flexibility''.
Como
se pode ver, os dois dicionários apontam para
conceituações semelhantes, mas que ao
mesmo tempo divergem, pois no dicionário em português
a referência é feita apenas à resiliência
de materiais, e mesmo no sentido figurado nada é
especificamente claro para a compreensão do que
seja a resiliência quando se trata de pessoas.
Já o dicionário de inglês confirma
a prioridade ou maior familiaridade para o uso do termo
em fenômenos humanos, apontando em primeiro plano
a definição nesse sentido.
Origens
do conceito de resiliência: a resiliência
de materiais
Historicamente
falando, a noção de resiliência
vem sendo utilizada há muito tempo pela Física
e Engenharia, sendo um de seus precursores o cientista
inglês Thomas Young, que em 1807, considerando
tensão e compressão, introduz pela primeira
vez a noção de módulo de elasticidade.
Young descrevia experimentos sobre tensão e compressão
de barras, buscando a relação entre a
força que era aplicada num corpo e a deformação
que essa força produzia. Esse cientista foi também
o pioneiro na análise dos estresses causados
pelo impacto, tendo elaborado um método para
o cálculo dessas forças (Timosheibo, 1983).
Silva
Jr. (1972) denomina resiliência de um material,
correspondente a determinada solicitação,
a energia de deformação máxima
que ele é capaz de armazenar sem sofrer deformações
permanentes. Dito de uma outra maneira, a resiliência
refere-se à capacidade de um material absorver
energia sem sofrer deformação plástica
ou permanente (Easley, Easley & Rolfe, 1983). Nos
materiais, portanto, o módulo de resiliência
pode ser obtido em laboratório através
de medições sucessivas ou utilização
de uma fórmula matemática que relaciona
tensão e deformação e fornece com
precisão a resiliência dos materiais. E
importante ressaltar que diferentes materiais apresentam
diferentes módulos de resiliência.
Resiliência
como um construto psicológico
Em
Psicologia, o estudo do fenômeno da resiliência
é relativamente recente, e vem sendo pesquisado
há pouco mais de vinte anos. Mas, apenas nos
últimos cinco anos os encontros internacionais
têm trazido esse construto para discussão.
Sua definição não é clara
nem tampouco precisa quanto na Física ou na Engenharia
(e nem poderia ser), consideradas a complexidade e a
multiplicidade de fatores e variáveis que devem
ser levados em conta no estudo dos fenômenos humanos.
Portanto, não há como comparar "alhos
com bugalhos", ou seja, comparar a resiliência
de materiais com a resiliência como um processo
psicológico, mesmo porque o conceito de "deformação"
em Física e Psicologia são incomparáveis.
Pode-se apenas tentar fazer algumas referências
e apontamentos conceituais sobre as definições
encontradas, sem esquecer as idiossincrasias de dois
campos da ciência tão distintos. Vale dizer
que a Psicologia apropriou-se de um conceito construído
dentro de um modelo matemático, e devemos ter
muita cautela para não incorrer em comparações
indevidas. Para apenas usar uma metáfora, poder-se-ia
dizer que a relação tensão/pressão
com deformação-não-permanente do
material corresponderia à relação
situação de risco/estresse/experiências
adversas com respostas finais de adaptação/ajustamento
no indivíduo, o que ainda nos parece bastante
problemático, haja vista as dificuldades em esclarecer
o que é considerado risco e adversidades, bem
como adaptação e ajustamento.
Os
precursores do termo resiliência na Psicologia
são os termos invencibilidade ou invulnerabilidade
ainda bastante referidos na literatura atual sobre resiliência.
Vários autores (Rutter, 1985; Masten & Garmezy,
1985; Werner & Smith, 1992) relatam que "em
1974, o psiquiatra infantil E. J. Anthony introduziu
o termo invulnerabilidade na literatura da psicopatologia
do desenvolvimento, para descrever crianças que,
apesar de prolongados períodos de adversidades
e estresse psicológico, apresentavam saúde
emocional e alta competência" (Werner &
Smith, 1992: 4). Alguns anos depois, já se discutia
a aplicação do termo, que parecia implicar
que as crianças seriam totalmente imunes a qualquer
tipo de desordem, independentemente das circunstâncias.
Como afirmaram Masten & Garmezy (1985), um termo
menos Olímpico como resiliência ou resistência
ao estresse, se faziam necessários. Segundo Michael
Rutter (1985 e 1993), um dos pioneiros no estudo da
resiliência no campo da Psicologia, invulnerabilidade
passa uma idéia de resistência absoluta
ao estresse, de uma característica imutável,
como se fôssemos intocáveis e sem limites
para suportar o sofrimento. Rutter (1993) considera
que invulnerabilidade passa somente a idéia de
uma característica intrínseca do indivíduo,
e as pesquisas mais recentes têm indicado que
a resiliência ou resistência ao estresse
é relativa, cujas bases são tanto constitucionais
como ambientais e que o grau de resistência não
tem uma quantidade fixa, e sim, varia de acordo com
as circunstâncias (Rutter, 1985). Resiliência
e invulnerabilidade não são termos equivalentes,
afirmam Zimmerman & Arunkumar (1994).4 Segundo esses
autores, .resiliência refere-se a uma "habilidade
de superar adversidades" (Zimmerman & Arunkumar,
1994: 4), não significando que o indivíduo
saia da crise ileso, como implica o termo invulnerabilidade.
Apesar dessas considerações, é
essa versão inicial de resiliência como
invulnerabilidade frente às adversidades que
ainda vem orientando a produção científica
de muitos pesquisadores da área, dando lugar
à construção de um conceito que
define a resiliência como um conjunto de traços
e condições que podem ser reificados e
replicados, conforme afirma Martineau (1999) em sua
análise crítica sobre o discurso dos denominados
por ela de "experts" no assunto. Essa mesma
autora afirma que a maioria dos estudos sobre resiliência
é realizada mediante uma abordagem quantitativa
tendo como foco a criança, que é identificada
como resiliente ou não, a partir de testes psicométricos,
notas na escola, testes de personalidade ou de perfil
de temperamento, que levam a um conjunto de características
observáveis que definiriam a "criança
resiliente".
As
pesquisas pioneiras em resiliência: o foco no
indivíduo
Vários
autores estrangeiros, sobretudo dos Estados Unidos e
do Reino Unido, têm desenvolvido pesquisas sobre
resiliência. A maioria dos estudos tem por objetivo
estudar a criança ou o adolescente, numa perspectiva
individualística, que foca traços e disposições
pessoais. Muitos pesquisadores do desenvolvimento humano
estudam os padrões de adaptação
individual da criança associados ao ajustamento
apresentado na idade adulta, ou seja, "procuram
compreender como adaptações prévias
deixam a criança protegida ou sem defesa quando
expostas a eventos estressores" (Hawley & DeHann,
1996), e estudam também como os "padrões
particulares de adaptação, em diferentes
fases de desenvolvimento interagem com mudanças
ambientais externas" (Sroufe & Rutter, 1984:
27). Dentre as mais citadas, estão as primeiras
publicações sobre o assunto intituladas
Vulnerable but invincible [Vulneráveis, porém
invencíveis], Overcoming the odds [Superando
as adversidades], ambos de Werner & Smith (1982,1992),
e The invulnerable child [A criança invulnerável],
de Anthony & Cohler (1987). A importância
desses estudos está na característica
de long-term, ou seja, são estudos longitudinais
que acompanham o desenvolvimento do indivíduo
desde a infância até a adolescência
ou idade adulta. Segundo Werner & Smith (1992),
poucos investigadores têm acompanhado populações
de "alto risco"5 desde a infância e
adolescência até a idade adulta com o objetivo
de monitorar efeitos dos fatores de risco e os fatores
de proteção que operam durante os anos
de desenvolvimento do indivíduo. O estudo longitudinal
realizado por Werner (1986, 1993, Werner & Smith,
1982, 1989, 1992) e outros colaboradores durou cerca
de quarenta anos, tendo se iniciado em 1955. De acordo
com Martineau (1999), este estudo não tinha como
proposta inicial estudar a questão da resiliência,
mas, sim, investigar os efeitos cumulativos da pobreza,
do estresse perinatal e dos "cuidados familiares
deficientes"6 no desenvolvimento físico,
social e emocional das crianças. A pesquisa acompanhou
o nascimento de 698 crianças em Kauai, uma ilha
do Havaí. As crianças foram avaliadas
com 1 ano de idade (incluindo entrevistas com os pais)
e acompanhadas até as idades de 2,10,18 e 32
anos. O foco da pesquisa relatada no livro Vulnerable
but invincible foram 72 crianças (42 meninas
e 30 meninos) com uma história de quatro ou mais
fatores de risco, a saber: pobreza, baixa escolaridade
dos pais, estresse perinatal, baixo peso no nascimento
ou, ainda, a presença de deficiências físicas.
Uma proporção significante dessas crianças
era proveniente de famílias cujos pais eram alcoólatras
ou apresentavam distúrbios mentais. Para surpresa
dos pesquisadores, nenhuma dessas crianças desenvolveu
problemas de aprendizagem ou de comportamento (Werner
& Smith, 1982), o que foi considerado então
como "sinal de adaptação ou ajustamento".
Diante desses indicativos, as crianças foram
denominadas "resilientes" pelas pesquisadoras,
pois nesse período já se discutia muito
sobre o que haveria de diferente em crianças
que, apesar de criadas em circunstâncias adversas,
não eram por elas atingidas (embora não
fique bem claro o que significa ser ou não atingido).
Uma outra amostra, estudada por Werner em 1986 abrangeu
um grupo de 49 jovens da mesma ilha, cujos pais tiveram
sérios problemas devido ao abuso de álcool;
estes jovens sofreram conflitos familiares desde cedo,
além de viverem em condições de
pobreza. Por volta dos 18 anos, 41% deste grupo apresentou
problemas de aprendizagem, ao contrário dos restantes
59%. Este último grupo foi nomeado grupo resiliente,
e diferia do primeiro por um número de medidas
obtidas através de entrevistas com pais e entrevistas
retrospectivas com os próprios jovens. Os fatores
que discriminaram o grupo resiliente, tanto nas pesquisas
de 1982 como nas de 1986, incluíam: temperamento
das crianças/jovens (percebidos como afetivos
e receptivos); melhor desenvolvimento intelectual; maior
nível de auto-estima; maior grau de autocontrole;
famílias menos numerosas; menor incidência
de conflitos nas famílias. Como se pode notar,
os autores atribuíram as diferenças às
características constitucionais das crianças
e ao ambiente criado pelos cuidadores da infância.
Na última etapa desta ambiciosa pesquisa, Werner
& Smith (1992: 192) concluíram que "um
terço dos indivíduos considerados de alto
risco tornaram-se adultos competentes capazes de "amar,
trabalhar, brincar e ter expectativas".7 Conforme
afirma Martineau (1999), a "resiliência"
a que as autoras se referem foi identificada nas pesquisas
iniciais como "invulnerabilidade às adversidades",
conceituação reformulada e mais tarde
definida como "habilidade de superar as adversidades".
Werner (1993) notou que "o componente-chave do
efetivo coping destas pessoas é o sentimento
de confiança que o indivíduo apresenta
de que os obstáculos podem ser superados",
o que confirma a ênfase colocada nos componentes
psicológicos individuais, de um "algo interno",
apesar das inúmeras referências feitas
pelas autoras aos aspectos protetores decorrentes de
relações parentais satisfatórias
e da disponibilidade de fontes de suporte social na
vizinhança, escoia e comunidade.
5.
Ver seção sobre o conceito de risco.
6. Poor parenting, no original em inglês (Martineau,
1999: 102).
7. Original das autoras: "yet one out of three
of these high risk children grew into competent young
adults who loved well, worked well, played well, and
expected well". Penso que as autoras inspiraram-se
no que Freud chamava de a essência da existência
humana: brincar, trabalhar e amar.
Como já foi
mencionado, outro importante e citado pensador do assunto
é o psiquiatra britânico Michael Rutter,
que, em razão das inúmeras publicações
e pesquisas empíricas, tem orientado até
hoje o curso dos projetos nessa área. Seus trabalhos
mais conhecidos datam do início dos anos 70,
com a investigação de diferenças
entre meninos e meninas provenientes de lares desfeitos
por conflitos (Rutter, 1970) e as relações
entre os efeitos desses conflitos parentais no desenvolvimento
das crianças (1971). Seus resultados indicaram
que os meninos são mais vulneráveis que
as meninas, não somente a estressores físicos,
mas também aos psicossociais. Um de seus marcantes
trabalhos nessa área foi desenvolvido com uma
amostra de sujeitos da Ilha de Wight e da cidade de
Londres (Rutter, 1979b e 1981b), os quais haviam experienciado
discórdias na família dos pais, eram de
camadas sociais de baixa renda, famílias numerosas,
com história de criminalidade de um dos pais,
doença mental da mãe ou institucionalizados
sob custódia do governo. Seus resultados deram
origem à sua afirmação bastante
divulgada de que um único estressor não
tem impacto significante, mas que a combinação
de dois ou mais estressores pode diminuir a possibilidade
de conseqüências positivas (positive outcomes)
no desenvolvimento, e que estressores adicionais aumentam
o impacto de outros estressores presentes. Em 1981,
Rutter publica um livro que trata da relação
entre a ausência da figura materna e o desenvolvimento
de psicopatologias na criança (Rutter, 1981a),
com um capítulo que versa sobre resiliência
e o comportamento parental de adultos que na infância
tenham sofrido abandono. Entre as principais questões
levantadas pelo autor, aparece a mais freqüente
formulação inicial dos estudos sobre resiliência:
Por que, apesar de passar por terríveis experiências,
alguns indivíduos não são atingidos
e apresentam um desenvolvimento estável e saudável?
Rutter (1987) define resiliência como uma "variação
individual em resposta ao risco", e afirma "que
os mesmos estressores podem ser experienciados de maneira
diferente por diferentes pessoas". De acordo com
esse autor, a resiliência não pode ser
vista como um atributo fixo do indivíduo",
e "se as circunstâncias mudam a resiliência
se altera" (1987: 317). Tais observações
procuram dar ao conceito um toque de relatividade, que
nem sempre aparece nos estudos quantitativos que usam
medidas e critérios estatísticos baseados
em comportamentos observáveis para identificar
crianças resilientes num determinado ponto de
suas vidas. O estudo desenvolvido por Martineau deixa
claro que "resiliência tem diferentes formas
entre diferentes indivíduos em diferentes contextos,
assim como acontece com o conceito de risco" (1999:
103).
A
introdução de diversos estudos que investigam
resiliência 'traz questões relativas a
essas "habilidades individuais" ilustradas
com pequenas histórias de pessoas com trajetórias
semelhantes; dentre elas, entretanto, algumas conseguem
superar os momentos de crise e outras não. Dessa
forma, a perspectiva no indivíduo busca identificar
resiliência a partir de características
pessoais, tais como sexo, temperamento e background
genético, apesar de todos os autores acentuarem
em algum momento o aspecto relevante da interação8
entre bases constitucionais e ambientais da questão
da resiliência. Muitos desses trabalhos situam-se
na área da psicopatologia do desenvolvimento,
a qual tem sido descrita como a ciência que estuda
as "origens e o curso dos padrões individuais
de comportamentos de desadaptação"
(Sroufe & Rutter, 1984:18), e cuja ênfase
está no desenvolvimento dos comportamentos patológicos
ao longo do tempo (Hawley & DeHann, 1996). Em muitos
casos, o patológico estudado nos estudos sobre
resiliência refere-se tão-somente a populações
em desvantagem social ou a minorias étnicas.
Martineau (1999), ao comentar o estudo pioneiro de Werner
& Smith (1982 e 1992) realizado na ilha de Kauai,
refere que uma consideração que merece
ser feita é sobre a construção
inicial do que as autoras chamaram de "pobreza",
numa sociedade rural, não-industrializada, cuja
população era predominantemente constituída
por havaianos ou asiáticos. A eles foi atribuída
pobreza, pois por volta de 1950 a economia do local
girava em torno da pesca e da cana-de-açúcar.
Segundo Martineau, as pesquisadoras do cohort9 em Kauai
fizeram uma descrição dos pais das crianças
(classificados como "não-habilidosos e grosseiros"),10
com indicações de que eles estavam sendo
comparados com populações urbanas de áreas
industrializadas que tinham acesso a serviços
médicos, educacionais e outras facilidades. Ilustrativo
desta visão que permeia diversas pesquisas sobre
resiliência é um dos artigos de Garmezy
(1991) sobre "Resiliência e Vulnerabilidade
associados à pobreza", em que o autor cita
os esforços empreendidos por seu grupo, desde
o início da década de 70, no sentido de
compilar os atributos de crianças negras que
vivem em circunstâncias desfavoráveis,
ou de baixa renda, mas denotam competência.11
Tal atenção dos pesquisadores da resiliência
dirigida especialmente a estas populações
de imigrantes, pobres ou aqueles que vivem em circunstâncias
de "desvantagem" parece refletir uma preocupação
daquelas sociedades com a "ameaça"
que estes grupos podiam (ou podem) representar para
as camadas das classes dominantes. Penso que é
com esta conotação que as populações
têm sido denominadas "populações
de risco", ou de "alto risco". Dependendo
da maneira como tratarmos os estudos sobre resiliência
em nosso país, poderemos cair neste mesmo viés.
Por isso, esta é uma questão que merece
ser analisada com muita cautela e acredito ser necessário,
num primeiro momento, uma revisão conceituai
ampla.
Conforme
já citado, foi a partir das pesquisas de Michael
Rutter, Emily Werner, Ruth Smith, e ainda de importantes
nomes como Norman Garmezy, Ann S. Masten, Suniya Luthar
e outros, que delineou-se a questão da resiliência
e emergiram, com esta construção, várias
constelações temáticas e conceituais
que passaram a fazer parte dos relatos empíricos
— e até os dias de hoje exercem uma forte
influência no discurso científico —,
tais como: risco, vulnerabilidade, estresse, coping,
competência e proteção, os quais,
para melhor compreensão do fenômeno da
resiliência, merecem considerações
especiais.
8.
Uma interessante discussão sobre o termo "interacional"
é encontrada numa publicação de
Coyne & Gottlieb (1996: 963 e 964); segundo os autores
o termo é usado inconsistentemente na literatura
psicológica. Os autores argumentam que, numa
perspectiva interacional, pessoas e ambientes são
vistos como entidades independentes, e numa perspectiva
transacional, pessoas e ambientes são definidos
relacionalmente, ou seja, uma entidade é relevante
para outra. Dentro dessa ótica, penso que se
aplicaria esta última perspectiva ao fenômeno
da resiliência, o que fica também em consonância
com a abordagem ecológica de Bronfenbrenner (1979
e 1996), que será discutida no final deste trabalho.
Esta questão é retomada na seção
que trata do conceito de coping.
9. Grupo de pessoas que nasceram e viveram durante o
mesmo período histórico (Garbarino, 1992).
10. "Unskilled and uneducated" são
as palavras originais usadas no texto em inglês.
11. O conceito "competência" e as pesquisas
realizadas na área serão discutidos numa
seção à parte.
O
conceito de risco
Conceito
de risco tem suas raízes no campo do comércio
em vias marítimas de séculos atrás.
Em
virtude dos constantes desastres e perda de suas cargas,
os mercadores viram a necessidade de estimar o risco
de perda de mercadorias para assegurar-se financeiramente.
Este
fato desencadeou uma verdadeira indústria de
seguros, que procurava quantificar o risco destas perdas
potenciais; estas eram discutidas entre os mercadores
e os seguradores por meio de prêmios e benefícios
(Masten & Garmezy, 1985; Cowan, Cowan & Schulz,
1996).
Quanto
às pesquisas científicas, os primeiros
estudos sobre risco foram feitos no campo da epidemiologia
e da medicina, cujo foco era estudar "padrões
de doença em determinadas populações
e os fatores que influenciavam estes padrões"
(Lilienfeld & Lilienfeld, 1980). Como afirmam Cowan,
Cowan & Schulz (1996), o sentido e a forma de medir
risco foi se modificando significativamente, se considerarmos
a sua atual aplicação no campo da saúde
mental. Sem sombra de dúvida, é muito
mais complexo definir o que se constitui risco quando
se trata de doenças mentais do que quando se
trata de probabilidades de perder ou não determinadas
mercadorias. O conceito de risco foi aumentando a sua
amplitude quando se passaram a estudar também
riscos psicossociais, como, por exemplo, qual a correlação
entre conflitos familiares e o comportamento agressivo
de uma criança (Fincham, Grych & Osborne,
1994), quando se reconheceu que privação
econômica é uma das principais fontes de
risco sociocultural para a criança (Garbarino,
1992) e que pobreza e miséria são importantes
fatores de risco universal (Luthar & Zigler, 1991).
A
análise crítica da história da
infância mostra que riscos e todas as espécies
de estressores sempre se fizeram presentes em qualquer
tempo e lugar. O que tem variado é a construção
social do que se constitui risco (Martineau, 1999).
De alguns anos para cá, é crescente o
interesse no estudo do poder que determinados tipos
de estressores tem na infância (Garmezy &
Rutter, 1983 e 1985). Fatores de risco relacionam-se
com toda a sorte de eventos negativos de vida, e que,
quando presentes, aumentam a probabilidade de o indivíduo
apresentar problemas físicos, sociais ou emocionais.
Alguns exemplos do que vem sendo tomado como experiências
estressoras no desenvolvimento das crianças em
vários estudos são: divórcio dos
pais (Emery & Forehand, 1996), perdas de entes próximos
(Clark, Pynoos & Goebel, 1996), abuso sexual/físico
contra a criança (Egeland & Brunnquell, 1979),
pobreza (Rutter & Madge, 1976; Luthar & Zigler,
1991), holocausto (Moskovitz, 1983), desastres e catástrofes
naturais (Yule, 1994), guerras e outras formas de trauma
(Goodyer, 1990; Garmezy & Rutter, 1985). Tradicionalmente,
estes estressores eram concebidos em termos estáticos,
ou seja, na presença de qualquer um deles já
se previam conseqüências indesejáveis.
Embora seja notório que pobreza, conflito familiar
e abuso são prejudiciais, se esses fatores irão
se constituir em risco ou não, isto irá
depender do comportamento que se tem em mente e dos
mecanismos pelos quais os processos de risco operam
seus efeitos negativos na criança (Cowan, Cowan
& Schulz, 1996). Portanto, uma condição
de risco não pode ser assumida a priori (Luthar,
1993). Muito recentemente, Rutter (1999), ao fazer novas
considerações metodológicas sobre
o conceito de resiliência, reiterou a necessidade
de se fazer a distinção entre indicadores
de risco e mecanismos de risco. Torna-se claro, portanto,
que interessa estudar o conjunto de processos decorrente
desta variável, que vincula e faz a mediação
das condições de risco com as manifestações
negativas ou psicopatológicas. Risco deve ser
sempre pensado como processo e não como a variável
em si.
O
dinamismo do conceito de risco
No
campo da psicopatologia do desenvolvimento, Cowan, Cowan
& Schulz (1996) colocam que "o ingrediente
central dos estudos contemporâneos sobre risco
está na sua ênfase no movimento dos fatos
e não em fatos estáticos". Isto significa
que os riscos psicológicos são flutuantes
na história dos indivíduos, ou seja, mudam
de acordo com as circunstâncias de vida e têm
diferentes repercussões, dependendo de cada um.
Portanto, não é possível fazer
inferências do tipo causa-efeito, com um raciocínio
linear, quando se trata de riscos psicológicos.
É preciso identificar que processos ou mecanismos12
influenciaram o que liga risco à conseqüência
em um determinado ponto da história do indivíduo.
Rutter
(1996) enfatiza a importância de se focar ao longo
do tempo os mecanismos mediadores presentes quando há
indicações de risco. Tendo-se como exemplo
a situação de perda de um dos pais para
uma criança, a perda do pai ou mãe isoladamente
pode não consistir em risco por si só,
mas devem ser levadas em conta as condições
precedentes (a vivência da situação
de doença, por exemplo) e as conseqüências
dessa perda no contexto familiar da criança (o
luto dos sobreviventes e os efeitos no relacionamento
com a criança). Portanto, neste exemplo, a perda
do familiar será o evento-chave e constituirá
apenas o indicador de uma situação de
risco, mas os mecanismos de risco envolvem uma rede
complexa de acontecimentos anteriores e posteriores
ao evento-chave.
Numa
outra maneira de abordar essa complexa questão,
em um artigo que sumariza aspectos metodológicos
e conceituais das pesquisas sobre resiliência
na criança, Luthar (1993) enfatiza a necessidade
de se distinguir entre dois níveis de risco:
distai e próxima!.13 A autora coloca que risco
distai não é diretamente experienciado
pela criança, como por exemplo status socioeconômico.
Já o risco proximal refere-se às variáveis
mediadoras, como, por exemplo, cuidados familiares deficientes
ou conflito entre os pais. Luthar (1993) chama atenção
para o cuidado que se deve ter quando consideramos uma
criança estatisticamente em situação
de risco, levando-se em conta apenas o fator de risco
distal. O que pode ocorrer é que, apesar do risco
estatístico, quando consideradas as variáveis
proximais, chega-se à conclusão de que
a criança não tem sofrido influências
adversas, e não cabe, portanto, falar em condição
de resiliência neste caso. Isto deixa a questão
de crianças expostas a riscos proximais em aberto,
assim como outras inferências que têm sido
feitas sobre riscos distais, discussão esta feita
também por outros autores (Rutter, 1987 e 1993;
Masten & Garmezy, 1985). Segundo Clark, Pynoos &
Goebel (1996), será a acumulação
de eventos ao longo do tempo que contribuirá
para a emergência de resiliência ou vulnerabilidade
em casos individuais.
12.
Cowan, Cowan & Schulz (1996) tratam desta questão
conceituai brevemente e apresentam uma clara definição
de mecanismo: "Mecanismos são processos
que ligam riscos às suas conseqüências,
propiciando o entendimento na variabilidade destas conseqüências"
(p. 16). Segundo os autores, os mecanismos podem operar
de duas maneiras para fazer esta vinculação
risco-conseqüência: como mediadores ou moderadores.
Um mecanismo mediador é dinâmico e não
diretamente observável. O mecanismo moderador
amplifica, reduz ou muda a direção da
correlação entre riscos e respostas.
13. Autora cita alguns autores responsáveis por
estes trabalhos: Baldwin, Baldwin & Cole, 1990;
Masten, Best & Garmezy, no prelo; Richters &
Weintraub, 1990.
Risco
& Resiliência
As
referências à resiliência vêm
quase sempre associadas à presença/ausência
de risco (Cowan, Cowan & Schulz, 1996). Referências
ao termo resiliência têm uma conotação
positiva, enquanto a palavra risco traz, além
do estigma negativo da própria categoria, possibilidades
de variabilidade e de interpretações vagas
no uso que tem sido feito pelos teóricos, pesquisadores
e clínicos. E preciso esclarecer, portanto, as
vinculações conceituais entre resiliência
e risco. Rutter (1993) procura mostrar a associação
risco & resiliência usando exemplos de pesquisas
do campo da medicina, de resistência a doenças,
com o que o autor exemplifica a relação
entre os dois conceitos no campo psicológico.
Segundo ele, três pontos devem ser considerados
nessa relação. Em primeiro lugar, a resiliência
não está no fato de se evitar experiências
de risco e apresentar características saudáveis
ou ter boas experiências; em segundo lugar, os
fatores de risco podem operar de diferentes maneiras
em diferentes períodos de desenvolvimento, como
mostra o exemplo dado por ele mesmo em outro artigo
sobre o tema: "uma criança em idade escolar,
diante de uma situação de estresse, tal
como ser hospitalizada, será considerada em menor
risco, porque provavelmente terá capacidades
cognitivas de manter outros relacionamentos durante
o período de separação da família
e entender por que a sua admissão foi necessária,
do que uma criança em idade pré-escolar"
(Rutter, 1987:326). E, em terceiro lugar, é necessário
focar mecanismos de risco e não fatores de risco,
pois o que é risco numa determinada situação
pode ser proteção em outra. Rutter (1993)
exemplifica essa premissa com os resultados de um estudo
longitudinal realizado na Califórnia por Elder,
em 1986: demonstrou-se que jovens provenientes de famílias
de baixa renda, ao entrarem cedo nas Forças Armadas,
puderam continuar seu processo educacional, adiaram
as possibilidades de casamento precoce, estabeleceram
vários contatos, enquanto para um grupo de jovens
de classe social mais abastada a experiência foi
disruptiva, pois interrompeu suas carreiras e interferiu
negativamente em suas vidas familiares.
Esse exemplo parece
demonstrar a já referida plasticidade do conceito
de risco, além de servir de alerta aos pesquisadores
da questão sobre o perigo que se incorre ao considerar
eventos isolados como fatores de risco, o que muitas
vezes é feito de forma arbitrária ou calcada
em preconceitos. Sendo assim, focar isoladamente um
evento de vida e atribuir-lhe a condição
de adversidade, tanto no caso de um indivíduo
como de um grupo, não parece a melhor maneira
de se abordar a questão. Por isso, uma análise
criteriosa dos processos ou mecanismos de risco parece
imprescindível para que se possa ter a dimensão
da diversidade de respostas que podem ser observadas,
sobretudo quando se trata de riscos psicossociais ou
riscos socioculturais.
De
qualquer modo, risco implica uma alta probabilidade
de conseqüências "negativas" (definidas
na literatura como psicopatologias), enquanto resiliência
seria o resultado "positivo" (freqüentemente
definida como superação de adversidades).
Os autores Cowan, Cowan & Schulz (1996) definem
resiliência na sua associação com
a questão do risco da seguinte maneira: "Resiliência
refere-se a processos que operam na presença
de risco para produzir conseqüências boas
ou melhores do que aquelas obtidas na ausência
de risco". Rutter (1987) coloca que "resiliência
é o processo final de processos de proteção
que não eliminam o risco, mas encorajam o indivíduo
a se engajar na situação de risco efetivamente".
Mais tarde, este mesmo autor (Rutter, 1996) aponta que
vários avanços conceituais e metodológicos
têm sido feitos no campo das pesquisas sobre risco.
Dos mais importantes avanços citados por ele,
é necessário considerarmos: a) os diferentes
mecanismos envolvidos na relação pessoa-interação
com o ambiente; b) as diferenças individuais
na percepção das situações
de estresse; c) os mecanismos de proteção
nas situações de estresse e d) as reações
em cadeia indiretas que ocorrem ao longo do tempo.
De
maneira geral, os diversos pontos abordados por essa
discussão nos remetem ao cuidado que os pesquisadores
devem ter ao abordar o binômio risco e resiliência,
pois muitos indicadores de risco ou "alto risco"
carecem de informações suficientes para
ser categorizados como tal, o que faz com que, algumas
vezes, os conceitos de resiliência e fatores de
proteção sejam prematuramente invocados
(Richets & Weintraub, 1990). Não é
possível investigar resistência ao estresse
e adversidade ou resiliência sem antes verificarmos
a presença de experiências que apresentam
riscos crescentes ao desenvolvimento (Rutter, 1999).
Resiliência
& Vulnerabilidade
A
palavra vulnerável origina-se do verbo latim
vulnemre, que significa ferir, penetrar. Por estas raízes
etimológicas, vulnerabilidade é um termo
geralmente usado na referência de predisposições
a desordens ou de susceptibilidade ao estresse.
Muitas
vezes o conceito de vulnerabilidade é aplicado
erroneamente no lugar de risco. Cabe dizer que trata-se
de dois conceitos distintos, cuja diferença reside
tanto na ênfase como na origem do uso dos mesmos.
Como já se disse anteriormente, risco foi usado
pelos epidemiologistas sempre associado a grupos e populações.
Já vulnerabilidade associa-se mais estritamente
ao indivíduo e às suas susceptibilidades
ou predisposições a respostas ou conseqüências
negativas (Masten & Garmezy, 1985). É importante
ressaltar a relação entre risco e vulnerabilidade:
vulnerabilidade opera apenas quando o risco está
presente; sem risco, vulnerabilidade não tem
efeito (Cowan, Cowan & Schulz, 1996).
Historicamente
falando, o conceito de vulnerabilidade foi formulado
nos anos 30 pelo grupo de pesquisas de L. B. Murphy,
que acabou por definir o termo como "susceptibilidade
à deterioração de funcionamento
diante de estresse" (Masten & Garmezy, 1985).
Murphy e seus colegas focaram suas pesquisas nas diferenças
individuais das vulnerabilidades das crianças
e suas formas de lidar com as mesmas associadas às
dificuldades ambientais. Tal perspectiva acabou por
reconhecer as complexas interações entre:
a) as vulnerabilidades/"forças" individuais,
b) o ambiente e c) a presença ou não de
suporte social.14
No
contexto dos estudos sobre resiliência, vulnerabilidade
é um conceito utilizado para definir as susceptibilidades
psicológicas individuais que potencializam os
efeitos dos estressores e impedem que o indivíduo
responda de forma satisfatória ao estresse (Hutz,
Koller & Bandeira, 1996). Para Zimmerman e Arunkumar
(1994), vulnerabilidade refere-se a "predisposições
ao desenvolvimento de várias formas de psicopatologias"
(p. 2). Rutter (1987) define o termo como: alterações
aparentes no desenvolvimento físico e/ou psicológico
de uma pessoa que submeteu-se a situações
de risco. Tais alterações ficam tão
evidentes na trajetória de adaptação
da pessoa que podem torná-la suscetível
e propensa a apresentar sintomas e doenças. De
acordo com Cowan & Cowan & Schulz (1996), vulnerabilidade
diz respeito à predisposição individual
para o desenvolvimento de psicopatologias ou de comportamentos
ineficazes em situações de crise. Esses
autores reiteram que vulnerabilidade não se refere
apenas a predisposições genéticas,
pois condições tais como baixa auto-estima,
traços de personalidade e depressão são
freqüentemente descritos como vulnerabilidades.
As condições externas também podem
funcionar como vulnerabilidades: por exemplo, práticas
educativas familiares ineficazes podem deixar crianças
mais vulneráveis (Patterson & Cappaldi, 1991).
Em
suma, as variações na sensibilidade de
crianças a riscos ambientais podem tanto ser
geneticamente influenciadas, como podem derivar das
experiências vividas anteriormente. As conseqüências
podem ser nocivas ao desenvolvimento psicológico
ou não, a depender das inter-relações
entre os fatores acima mencionados, o que de alguma
maneira explica parcialmente a diversidade de respostas
das crianças expostas a situações
de risco psicossocial (Rutter, 1999).
14.
Segundo Masten & Garmezy (1985), o reconhecimento
das complexidades das interações entre
o indivíduo e o ambiente caracteriza a perspectiva
transacional, já mencionada anteriormente e também
estudada por Sameroff & Chandier (1975), que pesquisaram
o risco perinatal e suas conseqüências no
desenvolvimento. Esses autores sugeriram que crianças
vulneráveis em razão de terem tido complicações
no período perinatal podem desenvolver-se de
diversas maneiras, dependendo da relação
entre o grau de vulnerabilidade deixado pela seqüela
e o suporte do ambiente.
Resiliência,
Estresse & Coping
Nos
dias de hoje, estresse é um fator inevitável
em nossas vidas e tem sido correntemente usado para
explicar uma diversidade de questões. As pessoas
usam expressões do tipo "estou estressada(o)",
"isto é estresse" para justificar muitas
de suas experiências do dia-a-dia. Cientificamente,
é um conceito muito difícil de ser definido.
Hinkle (1987) chegou à conclusão de que
não se tem ainda uma definição
amplamente aceita por aqueles que estudam a questão
do estresse. No entanto, é consenso que, diante
de uma situação de vida "estressante",15
as pessoas têm as mais diferentes reações.
Pereira (1997) cita que Hans Selye, em 1936, foi o primeiro
a introduzir o conceito de estresse nas ciências
humanas, definindo-o como "uma resposta específica
do corpo a uma exigência feita a ele".16
Numa
visão subjetiva do fenômeno, pode-se dizer
que, dependendo da percepção que o indivíduo
tem da situação, da sua interpretação
do evento estressor e do sentido a ele atribuído,
teremos ou não a condição de estresse.
Por exemplo, a mesma situação de vida
pode ser experienciada por um indivíduo como
perigo, enquanto outro a percebe como um grande desafio.
Numa
perspectiva psicológica, Lazarus & Folkman
referem-se a estresse como "uma relação
particular entre a pessoa e o ambiente que é
apreciado por ela como excedente aos seus recursos,
o que coloca em perigo o seu bem-estar" (1984:
19). A palavra particular usada pelos autores enfatiza
o aspecto subjetivo do conceito de estresse, porém
muito importante é também a ênfase
da definição na relação
pessoa-ambiente. Esta traz o dinamismo de um processo
que muda durante uma transação estressora
entre pessoa e ambiente.
Assim
como acontece com o conceito de risco nos estudos sobre
resiliência, o conceito de estresse também
se refere a experiências de vida negativas. Alguns
pensadores da resiliência usam os dois conceitos
simultaneamente, o que dificulta a distinção
entre ambos. Entretanto, nota-se que o termo estresse
aparece quase sempré acompanhado por palavras
como situações ou circunstâncias,
indicando condições temporárias
ou transitórias ligadas a eventos de vida. A
observação de Mães, Vingerhoets
& Van Heck (1987)17 parece confirmar essa perspectiva:
"eventos operam como estressores na medida em que
eles sobrecarregam ou excedem os recursos adaptativos
da pessoa", o que dá uma idéia de
que isso ocorre em algum ponto do ciclo de vida da pessoa.
15. Estamos usando o termo no seu sentido
coloquial.
16. Pereira (1997b) cita Selye (1974).
A
contrapartida de estresse é o conceito de coping,
palavra não traduzida na língua portuguesa
e utilizada sempre no seu original em inglês.
Estresse & coping são conceitos que aparecem
lado a lado constantemente nas pesquisas sobre resiliência.
Parece ser mais um dos vários dualismos entre
pólos positivos e negativos que permeiam o conceito
de resiliência, sendo que, neste caso, estresse
é o pólo negativo e coping, o positivo.
Pereira (1997a) cita parafraseando Lazarus que desde
1960 o estresse tem sido reconhecido como um aspecto
inevitável da condição humana,
e é o coping que faz a diferença nas reais
conseqüências do mesmo. Os trabalhos de Lazarus
& Folkman têm sido de grande influência
na questão do coping. A definição
desses autores que tem sido utilizada em diferentes
pesquisas é a seguinte: "coping é
um conjunto de esforços cognitivos e comportamentais
utilizados com o objetivo de lidar com demandas específicas,
internas ou externas, que surgem em situações
de estresse e são avaliadas como sobrecarregando
ou excedendo os recursos pessoais" (1984:141).
Os estudos mais recentes sobre estresse têm investigado
as conseqüências deste com certa ênfase
nos comportamentos de coping que podem aliviar os aspectos
negativos dessas situações. Muitas questões
vêm sendo feitas ainda sobre o que estaria envolvendo
o fenômeno da resiliência no que tange ao
coping "bem-sucedido" diante de situações
de estresse. Em uma das mais recentes revisões
de Rutter (1996) sobre pesquisas na área de estresse,
ele afirma que é muito importante lembrar que
tanto o estresse como o coping devem ser considerados
nos seus diferentes níveis: social, psicológico
e neuroquímico. Cada um desses níveis
oferece diferentes perspectivas que se complementam
entre si. Anteriormente Luthar (1993) já havia
proposto que as discussões sobre resiliência
apresentassem e definissem claramente os domínios
específicos de coping, nas esferas social, emocional
e acadêmica, que delimitariam tipos de resiliência:
resiliência social, resiliência emocional
e resiliência acadêmica. Outros autores
reforçam que o indivíduo pode ser resiliente
em uma dessas áreas, mas nada garante que ele
o será em todas (Hutz, Koller & Bandeira,
1996).
De
maneira geral, o conceito de coping vem freqüentemente
acompanhado de palavras como: habilidades, estratégias,
comportamentos, estilos, respostas ou recursos. A metodologia
utilizada no seu estudo envolve, na maioria das vezes,
instrumentos denominados checklists, tais como o "Revised
Ways of Coping Checklist", de Lazarus & Folkman
(1984), entre outros inventários ou escalas.
Segundo Coyne & Gottlieb (1996), apesar das centenas
de investigações que têm sido feitas
nos últimos quinze anos, o uso convencional desses
instrumentos oferece uma visão distorcida e incompleta
de coping. Estes autores fazem uma análise crítica
da questão afirmando que alguns aspectos importantes
do conceito de coping têm sido ignorados, tais
como:
a)
o coping antecipatório, ou seja, estratégias
que o indivíduo utiliza antes da ocorrência
de determinadas situações de estresse
e que podem até determinar a ocorrência
ou não da situação de crise;
b)
a exclusão de hábitos ou comportamentos
automáticos do domínio de coping —
embora em alguns casos estas estratégias se tenham
mostrado eficientes, não são propriamente
incluídas no conceito de coping;
c) outros fatores
que têm mais a ver com "visão de mundo"
também não são considerados em
sua influência sobre coping, como, por exemplo,
os estilos de relacionamento interpessoal do indivíduo
ou os tipos de relacionamento que têm sido cultivados
antes da situação de estresse.
Os
autores mencionados concluem que o conceito de coping
é por demais amplo e requer uma metodologia fiel
ao modelo transacional18 de estresse e coping, pois
um grande número de fatores interfere entre o
que ocorre numa situação natural e aquilo
que é reportado na aplicação dos
checklists, e faz com que as interpretações
dos mesmos sejam inconsistentes. Outros autores reforçam
essa crítica e afirmam que os avanços
na compreensão da eficácia de coping devem
ir além da simples contagem de respostas relacionadas
a conseqüências positivas (Gore & Eckenrode,
1996), sugerindo que os fatores contextuais devem ser
incorporados nas análises da questão.
Gore & Eckenrode (1996) argumentam que a maioria
das pesquisas em coping desconsidera o contexto social
e as influências das relações sociais
nas escolhas das estratégias de coping, bem como
o impacto de determinados comportamentos de coping nas
relações sociais. Os mesmos autores sugerem
que a perspectiva de curso de vida deve ser utilizada
nos estudos de estresse e coping para que possamos ir
além dos efeitos imediatos de experiências
estressoras.
18.
Ver, aqui, nota n° 8 sobre a diferença teórica
entre os modelos interacionais e transacionais.
Em
vista de estarem os conceitos de estresse e coping intimamente
ligados ao construto da resiliência, tais considerações
metodológicas são de extrema relevância
para pesquisas futuras nessa área. Pontos importantes
foram ressaltados e nos fazem refletir sobre as contribuições
da metodologia utilizada em alguns trabalhos para a
construção de uma visão substantivada19
de resiliência, a qual já apontamos aqui
anteriormente.
Resiliência
& Competência
Como
se disse na seção anterior, as pessoas
reagem de diversas maneiras particulares diante de situações
de vida estressoras. Uma forma de reação
categorizada pelos teóricos com o nome de coping
explica que as pessoas desenvolvem formas peculiares
para lidar com crises e adversidades. Quase sempre essas
respostas têm por objetivo aliviar os aspectos
negativos das situações de estresse ou
risco. "O sucesso no cumprimento de importantes
tarefas de desenvolvimento reflete boas habilidades
de coping", afirma Luthar (1993: 441). Isso pode
nos levar a pensar que o uso de estratégias de
coping eficientes na redução do estresse
e conseqüente adaptação do indivíduo
no seu ambiente expressam a essência do conceito
de competência. Em termos mais amplos, o conceito
de competência refere-se ao "sucesso diante
de tarefas de desenvolvimento esperadas para uma pessoa
de determinada idade e gênero no contexto de sua
cultura, sociedade e época" (Masten &
Coatsworth, 1998: 206).
19. Com visão "substantivada"
de resiliência quero dizer uma visão de
resiliência baseada num conjunto de traços
definidos, como explica Martineau (1999): características
de sociabilidade, criatividade, senso de autonomia e
de proposta (purposefulness, no original da autora).
Garrnezy, Masten
& Tellegen (1984), coordenadores do "The Project
Competence Studies of Stress Resistance in Children",
definiram, por ocasião da pesquisa, a resistência
ao estresse ou resiliência como "manifestações
de competência apesar da exposição
a eventos estressores" (p. 98). Luthar (1991 e
1993) reforça que, para operacionalizar níveis
de ajustamento, a maioria dos pesquisadores tem escolhido
o conceito de competência social. Este tem sido
o foco de muitos estudos de resiliência na criança.
Michael Rutter afirmou recentemente que "E importante
ressaltar que o conceito de resiliência é
diferente de aquisição de competência
social, auto-eficácia ou de saúde mental"
(1999: 120), o que evidencia a atual preocupação
desse importante pesquisador em clarificar as inúmeras
controvérsias da questão.
Em
1991, Luthar apresentou um trabalho semelhante ao de
Garmezy (1984) com adolescentes em situação
de "alto risco", partindo da mesma definição
de resiliência já apresentada acima, porém
com algumas diferenças e ajustes metodológicos.
No projeto de Garmezy (1984) os procedimentos utilizados
foram desenvolvidos para avaliar competência,
estresse e outros aspectos hipoteticamente selecionados
com relação a coping e resiliência,
incluindo atributos individuais e características
do desenvolvimento individual, bem como atributos dos
pais e características do meio familiar. As três
grandes perspectivas de análise dos dados de
competência deste trabalho foram baseadas nas
seguintes fontes: a escola (que inclui o professor,
os colegas e dados do que foi atingido pela criança);
a criança (através de entrevistas) e os
pais (também entrevistados). O fator estresse
foi abordado e avaliado por múltiplas perspectivas,
usando-se o questionário de Eventos de Vida,
entrevistas com os pais e medidas globais de níveis
de estresse categorizadas pelo entrevistador. A pesquisadora
Suniya Luthar (1991) fez algumas considerações
importantes sobre o fato de que competência seria
avaliada apenas com base no observável e em critérios
comportamentais. Sua pesquisa questiona quais seriam
os níveis de sintomas internalizados, tais como
depressão e ansiedade em adolescentes considerados
resilientes, resistentes ao estresse ou competentes.
A autora investigou seis tipos de habilidades sociais,
com estudos quantitativos complementados por avaliações
qualitativas das relações interpessoais.
As evidências mostraram que jovens adolescentes
denominados resilientes mostraram níveis significativos
de depressão e ansiedade, embora estivessem atendendo
com sucesso ao cumprimento das normas sociais. Essa
questão nos remete a um importante ponto levantado
pelo estudo de Martineau (1999) com relação
ao que a autora chamou resiliência performativa20
(performative resilience), definida por ela "como
conformidade às normas sociais, sucesso acadêmico
e empatia pelos outros" (p. 124), porém
manifestos apenas com o objetivo de agradar ou enganar.
Em 1991, Garmezy,
como principal investigador do Projeto sobre Competência,
sumariza resultados de seu grupo de pesquisas apresentando
características recorrentes identificadas nas
crianças negras que vivem em circunstâncias
desfavoráveis ou de baixa renda, mas consideradas
competentes. Usando-se a tradução literal
das palavras do autor (Garmezy, 1991: 424), podemos
enumerá-las da seguinte maneira:21
1.
habilidades sociais identificadas pelas professoras
(amigáveis, queridas por outras crianças
e adultos);
2.
habilidades cognitivas medidas por testes de inteligência,
com modos de responder que indicam "cautela",
ou seja, não respondem impulsivamente;
3.
autopercepção fundada num senso de força,
e uma percepção de seus atributos sociais
como positivos;
4.
os professores consideraram as crianças como
desejosas de aprender e participantes nas discussões
de classe;
5.
crianças que expressam suas preferências
por atividades educacionais e tem altas aspirações
vocacionais; a ausência do pai não se relaciona
à produção acadêmica;
6.
as casas das crianças são organizadas
e limpas e com mais livros;
7.
os papéis dos pais e das crianças são
bem definidos;
8.
os pais apresentam consciência dos aspectos individuais
da criança e permitem sua autodireção
nas tarefas diárias e reconhecem seus interesses
e objetivos.
20. A autora deste conceito esclarece
que por performativo entende algo caricatural, impersonalização,
no sentido de agradar ou enganar outros, ou a si mesmo.
21. Masten & Coastworth (1998: 212) enumeram características
de crianças e adolescentes que são consideradas
resilientes por apresentarem "competência
ou melhor funcionamento psicossocial durante ou após
experiências adversas". Os autores reforçam
que, dentre as qualidades enumeradas, os dois mais amplamente
divulgados fatores que poderiam prever resiliência
são: relacionamentos com adultos considerados
pró-sociais e bom funcionamento intelectual.
Como
se pode notar, os atributos ou características
que operacionalizam competência têm como
base os comportamentos observáveis ou critérios
de comportamento referidos por Suniya Luthar, em que
o sucesso significa estar em consonância com as
expectativas sociais. Esse aspecto se evidencia pelo
fato de que as avaliações de competência
das crianças foram feitas pelas professoras,
pais, colegas das crianças, ou pelas notas obtidas
na escola. Sucesso, competência e resiliência
são termos que em muitas pesquisas trazem consigo
um forte componente ideológico, podendo o conceito
de resiliência em si ter se tornado um código
ideológico, como afirma Martineau (1999) em sua
análise crítica do discurso de pessoas
de diversos segmentos sobre essa questão. Segundo
a autora, "códigos ideológicos operam
no discurso coloquial para reforçar normas sociais
[...] o discurso da resiliência impõe normas
prescritas de sucesso na escola e sucesso social daqueles
menos privilegiados e identificados ^em situação
de risco'. Aqueles indivíduos que não
se conformam às normas prescritas seriam patologizados
como não-resilientes. A ênfase se mantém
no indivíduo e, portanto, individualismo é
a ideologia dominante no discurso da resiliência"
(1999: 11-2).
Como
se pode notar, todos esses conceitos analisados até
então parecem estar imbuídos desta ideologia
de conformidade do indivíduo às normas
sociais vigentes, em que tanto coping como competência
e resiliência são avaliados de acordo com
manifestações aceitas e aplaudidas socialmente,
pois, caso contrário, logo se cai na classificação
oposta, ou seja, do coping ineficaz, do indivíduo
incompetente e, conseqüentemente, não-resiliente.
As controvérsias e as armadilhas que acompanham
o conceito de resiliência representam para nós
pesquisadores um grande desafio na compreensão
profunda desse fenômeno.
Resiliência
e fatores de proteção ou "buffers"
Teoricamente,
os pensadores do tema resiliência enfatizam que
competência vai manifestar-se no decorrer da trajetória
do indivíduo, apesar das crises e experiências
adversas, quando sistemas de proteção
passam a operar para garantir e sustentar o desenvolvimento.
Que sistemas são esses? O que significa proteção
nesses casos?
Todas
as pesquisas em resiliência apontam para o fato
de que sistemas de proteção operam em
diferentes pontos do desenvolvimento do indivíduo
e em diferentes contextos. Segundo Rutter, "fatores
de proteção referem-se a influências
que modificam, melhoram ou alteram respostas pessoais
a determinados riscos de desadaptação"
(1985: 600). A característica essencial desses
fatores é a modificação catalítica
da resposta do indivíduo à situação
de risco (Rutter, 1987). Esses fatores podem não
apresentar efeito na ausência de um estressor,
pois seu papel é o de modificar a resposta do
indivíduo em situações adversas
mais do que favorecer diretamente o desenvolvimento
normal. Rutter (1987) adverte os pesquisadores para
não equipararem fatores de proteção
com condições de baixo risco. O autor
chama a atenção também para a distinção
que deve ser feita entre fatores de proteção
e experiências positivas. Três aspectos,
segundo ele, devem ser considerados: 1. um fator de
proteção pode não se constituir
num acontecimento agradável no sentido coloquial
do termo, e são mencionados os efeitos "endurecedores"
de determinadas experiências negativas (que, no
caso, agiriam como sistemas de proteção),
o que ainda não foi devidamente investigado;
2. ao contrário das experiências positivas,
os fatores de proteção podem não
ter efeito algum na ausência de um elemento estressor,
já que seu papel é justamente modificar
respostas a situações adversas; 3. fatores
de proteção não são experiências,
mas referem-se a qualidades do indivíduo como
pessoa, como, por exemplo, ser do sexo feminino significa
ser menos susceptível do que meninos (Rutter,
1970 e 1982), o que ainda permanece como campo de pesquisa
a merecer maiores investigações. Tais
conclusões sobre como operam fatores de proteção
são da década de 80 e mostram que os estudos
já apontavam para uma série de variáveis,
tais como "o padrão dos estressores, as
diferenças individuais causadas por fatores constitucionais
e ambientais, experiências compensatórias
fora de casa, o desenvolvimento da auto-estima, oportunidades
(o tipo e o número), grau apropriado de estrutura
e controle, a presença de vínculos e relacionamentos
íntimos, e a aquisição de habilidades
de coping" (Rutter, 1985: 608). Apesar de Rutter
referir-se a variáveis, ele já introduz
termos como "processos" ou "mecanismos"
de proteção (Rutter, 1987), similarmente
ao exposto no estudo do conceito de risco. Nesse sentido,
a pesquisa na área não visa identificar
quais fatores propiciam bem-estar às pessoas,
e sim quais os processos que as protegem dos mecanismos
de risco.
Diante
de uma situação estressora, os conceitos
de proteção e vulnerabilidade podem aparecer
de forma oposicional, como se fossem diferentes lados
de uma mesma moeda, o que não quer dizer que
"proteção" signifique "falta
de vulnerabilidade". São dois tipos de processos
que podem se constituir em "pontos de virada"
(turring points) na trajetória da pessoa (Rutter,
1987 e 1993). Por que "virada"? Porque o processo
pode modificar os rumos de uma trajetória, tornando
o indivíduo adaptado ou desadaptado durante seu
ciclo de vida. Mecanismos de proteção
serão aqueles que, numa trajetória de
risco, acabam por mudar o curso da vida da pessoa para
um "final feliz". Ao contrário, o processo
será denominado vulnerabilidade se numa trajetória
sem detecção evidente de risco ocorrer
uma mudança ou "virada" causada por
uma trajetória com aspectos negativos, que coloca
em risco a adaptação da pessoa.
A
diferença entre mecanismos de risco e processos
de proteção/vulnerabilidade reside no
fato de que o risco leva o indivíduo a apresentar
desordens de diversos níveis, enquanto proteção/
vulnerabilidade operam indiretamente com seus efeitos,
apenas quando houver interação com as
variáveis de risco. Trata-se, portanto, de mecanismos
psicológicos bastante distintos (Rutter, 1987),
que, apesar de um bom número de trabalhos na
área, ainda requerem investigação.
Tipos
de mecanismos de proteção
Segundo
Rutter, os quatro principais mecanismos que colaboram
para a ocorrência de processos de proteção
são:
1.
redução do impacto dos riscos, ou seja,
alterar a exposição da pessoa à
situação estressora;
2.
redução das reações negativas
em cadeia que seguem a exposição do indivíduo
à situação de risco;
3. estabelecer e manter a auto-estima
e auto-eficácia, através da presença
de relações de apego seguras e incondicionais
e o cumprimento de tarefas com sucesso;
4.
criar oportunidades, no sentido dos já mencionados
"pontos de virada", o que requer particular
atenção dos pesquisadores.
Em
vários momentos da construção de
sua teoria sobre a importância dos processos de
proteção e sua contribuição
para o estudo da resiliência, Rutter (1985,1987
e 1993) reitera que proteção não
é uma "química de momento",
mas se refere à maneira como a pessoa lida com
as transições e mudanças de sua
vida, o sentido que ela mesma dá às suas
experiências, e como ela atua diante de circunstâncias
adversas. Isso quer dizer que não se supõe
que seja preciso fugir ou escapar dos riscos, o essencial
é podermos estudar o que o indivíduo faz
quando está na situação, pois isso
é que vai determinar se a experiência será
estressora ou protetora em seus efeitos.
Segundo
Zimmerman & Arunkumar (1994), muitos autores, ao
discorrer acerca de seus estudos sobre mecanismos de
proteção, usam uma abordagem que caracteriza
o modelo de fatores com foco restrito a traços
e relações estáticas, sem o movimento,
as variações e as interações
pressupostas pelo modelo dos mecanismos. Falar em mecanismos
de proteção implica uma abordagem de processos
por meio dos quais diferentes fatores interagem entre
si ao longo do tempo e alteram a trajetória do
indivíduo. Como produto final desses processos
de proteção teremos o conceito de resiliência
e a combinação desses fatores pode apresentar
um impacto maior no desenvolvimento mediante um efeito
cumulativo da interação entre os mesmos.22
22.
Como já citado na seção em que
se discute risco, o mesmo ocorre com os fatores de risco,
ou seja, a combinação de vários
fatores de risco, tanto genéticos como psicossociais,
tem um efeito cumulativo decorrente da interação
entre os mesmos (Rutter, 1999).
Masten
& Garmezy (1985) identificaram três classes
de fatores de proteção citados como fundamentais
ao desenvolvimento da criança: a) os atributos
disposicionais da criança: atividade, autonomia,
orientação social positiva, auto-estima
e similares; b) a coesão familiar, ausência
de conflitos, de negligência, com a presença
de pelo menos um adulto com grande interesse pela criança
e c) uma rede de apoio social bem definida com recursos
individuais e institucionais bem definidos. De maneira
similar, Werner elaborou três grupos de características
que marcam crianças resilientes afirmando o seguinte:
Três
tipos de fatores de proteção emergem da
análise do desenvolvimento de crianças
de "alto risco" desde a infância até
a idade adulta:
a) atributos disposicionais do indivíduo, tais
como o nível de atividade e sociabilidade, possuir
inteligência de nível média, competência
em comunicação (linguagem e leitura) e
locus interno de controle;
b)
laços afetivos dentro da família que oferecem
suporte emocional em momentos de estresse, seja por
um dos pais, irmãos, esposo(a) ou companheiro;
c)
sistemas de suporte social, seja na escola, no trabalho,
na igreja, que propiciam competência e determinação
individual e um sistema de crenças para a vida
(Werner & Smith, 1989: 80).
Essas
últimas considerações sobre fatores
de proteção, com semelhanças constatáveis
com os primeiros autores citados, foram reiteradas em
outras publicações destas autoras (Werner
& Smith, 1982 e 1992). Ambas as citações
de Werner & Smith e de Garmezy têm sido reescritas
por quase todos os estudiosos da resiliência como
se fossem "leis gerais para a identificação
da resiliência". Nessa mesma linha de raciocínio
foi o trabalho sobre competência social de Luthar
(1991), que identificou outros fatores de proteção
específicos, tais como: inteligência, senso
de humor e empatia da criança, bem como a disponibilidade
de recursos financeiros adequados na família.
O
discurso da resiliência como código ideológico
— ou seja, o indivíduo resiliente é
aquele que numa situação de estresse ou
risco conforma-se às normas sociais vigentes
— traz suas marcas também na questão
dos mecanismos protetores. A lista de qualidades pessoais,
da família e da rede social nos faz pensar naqueles
que não apresentam as características
mencionadas, não têm família no
modelo descrito e não têm acesso a uma
rede social. Não serão nunca identificados
como resilientes ou competentes socialmente? Definir
efetivamente o que é ou não proteção
parece muito complicado, pois as interações
e combinações entre os efeitos do que
é considerado risco ou proteção
necessitam de uma cuidadosa análise contextualizada.
Considerações
finais
Nosso
trabalho teve como proposta esclarecer aspectos conceituais
e refletir criticamente sobre uma visão predominante
de resiliência que enfoca características
e variações individuais. Tal abordagem
da questão deve ser considerada com muita cautela,
pois pode levar a supor que o indivíduo deva
possuir "algo interno" para ser considerado
resiliente, e caso não o tenha poderá
ser categorizado como "não-resiliente",
o que possivelmente viria a ser determinante na construção
de sua identidade. Não podemos deixar de lembrar,
no entanto, que as bases ambientais do conceito de resiliência
têm sido remarcadas por vários autores
dessa linha de pensamento como essenciais ao entendimento
dos processos e mecanismos de risco e de proteção.
Isso fica evidente quando diversos pesquisadores (Garmezy,
1991; Masten & Gramezy, 1985; Masten & Coatsworth,
1998; Rutter, 1987 e 1993; Walsh, 1996 e 1998; Werner
& Smith, 1992) ligam a resiliência à
presença de pelo menos uma relação
com um outro significativo, seja da família ou
do mundo social, na trajetória de vida da pessoa.
Como afirma Walsh (1998), mesmo a emergência de
traços individuais geneticamente influenciados
ocorre num contexto relacionai, e até o citado
estudo de Werner & Smith (1992), realizado na ilha
do Kauai, demonstra esse aspecto com clareza. As crianças
consideradas resilientes no referido estudo tiveram
o suporte de alguma pessoa que as aceitava incondicionalmente,
e os autores colocam que "a auto-estima e a auto-eficácia
foram promovidas através dessas relações
de apoio".
No
entanto, muitos outros estudos ainda são necessários
para investigar o peso e as correlações
entre os aspectos genéticos e ambientais na formação
do indivíduo, discussão esta das mais
antigas na Psicologia. A ênfase em qualquer um
dos pólos, seja o genético, seja o ambiental,
determinará uma tendência que pode ser
de trema importância na questão dos estudos
sobre resiliência e sua Utilização
na definição de políticas públicas.
Em
nossa opinião, a perspectiva ecológica
de Urie Bronfenbrenner (1979 e 1996) é a abordagem
que mais pode auxiliar na compreensão desse fenômeno
em sua amplitude e complexidade, visto que procura não
só descrever e explicar os efeitos do ecossistema
no indivíduo, mas também oferecer subsídios
para a elaboração de programas de intervenção
social. Como afirma Garbarino (1992: 16), "aqueles
que estudam a pessoa numa perspectiva ecológica,
são capazes de ver o indivíduo e seus
ambientes como sistemas de formação mútuos,
onde cada sistema muda no decorrer do tempo e cada um
deles adapta-se como resposta às mudanças
ocorridas no primeiro... Esta interação
entre indivíduo e ambiente forma a base da abordagem
ecológica de desenvolvimento humano".
Focalizar
a questão da resiliência numa perspectiva
individual dificulta o desenvolvimento de políticas
e intervenções que tenham condições
transformadoras do sistema social no sentido de buscar
diminuir as desigualdades sociais que consistem em desigualdades
de oportunidades de desenvolvimento humano. Portanto,
nosso cuidado e alerta aos demais pesquisadores interessados
no fascinante tema da resiliência referem-se ao
uso do conceito como mais um rótulo de sucesso
ou fracasso. Em um país como o nosso, essa visão
pode contribuir apenas para manter o desequilíbrio
social vigente e "culpar a vítima".
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