TRANSTORNOS
DA INTEGRAÇÃO AFETIVO-INSTINTIVO DA PERSONALIDADE.
DINAMISMOS
NAS PERSONALIDADES PSICOPÁTICAS E EM QUADROS AFINS.
 |
PELO
Prof.
Dr. Aníbal Silveira («1902
V1979
)
Chefe
de Clínica Psiquiátrica do Hospital de Juqueri,
S. Paulo.
Docente-livre
de Psiquiatria, Universidade de São Paulo
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Os
dois níveis de manifestações afetivas, já descritas
— individualidade e sociabilidade — têm que se integrar
como imperativo do amadurecimento psicológico. Sem este
processo, em que o primeiro se subordina ao segundo,
não haveria possibilidade de vida em sociedade. Ao longo
da escala zoológica, apreciamos esta integração recíproca,
gradualmente, a incapacidade crescente do indivíduo
se bastar a si mesmo, e portanto, a necessidade crescente
de vida gregária. Considerando o indivíduo isoladamente,
ressalta que esse dinamismo de subordinação corresponde,
também, à integração deste, na realidade ambiente. Assim,
a unidade interna, constitui fator indispensável ao
conhecimento do mundo objetivo. Só a sociabilidade –
na acepção já definida de altruísmo — pode conferir
unidade ao indivíduo, para que os contínuos estímulos
do meio externo não lhe tornem incoerente e dispersiva
a atividade mental ou prática. Assim, desde os primeiros
instantes de vida extra-uterina, o indivíduo humano
começa a ser regido pelo afeto e pela subordinação à
mãe ou ao adulto que a substitui. A noção de dependência,
que assim se forma, tem pois, origem emocional. A sensação
de desamparo e a conseqüente emoção de pânico causada
por esta sensação constitui o primeiro dinamismo de
repressão contra as reações de agressividade que a criança
possa então sentir. Em seguida, submissão ao adulto
protetor não será mais puramente passiva — pela dependência
— mas ditada pela dedicação, que já é manifestação de
sociabilidade. As outras fases correlatas — de introjeção
e de assimilação das ações — vão, daí por diante, reforçar
a integração dos instintos básicos na sociabilidade.
Se surgir, nesta fase, algum processo psicológico ou
citológico, na região correspondente do cérebro — poderá
perturbar ou impedir este dinamismo de subordinação.
Neste caso, haverá ampla conseqüência para o desenvolvimento
de personalidade: 1) no contato
com a realidade exterior, a concepção que se
formar do mundo ambiente será associada com o estímulo
enérgico dos instintos da individualidade — o que irá
deformar o chamado “juízo de realidade”, noção do real;
2) na economia prevalecerão os móveis egoísticos
sobre a sociabilidade, e assim, a estrutura subjetiva
da criança se traduzirá pelos freqüentes conflitos com
o comportamento social ou pelo desajustamento franco.
No
primeiro caso, haverá dificuldade ou impossibilidade
de assimilação do senso real, e isto resultará, clinicamente,
em duas condições: ou o equilíbrio sociabilidade-individualidade
será instável e manifesto desde as primeiras fases de
desenvolvimento, ou poderá ser mantido até que acontecimentos
“traumáticos” da fase adulta venham a precipitar a descompensação.
São as condições catalogadas clinicamente, como NEUROSES.
No segundo caso, a desarmonia será mais séria e permanente
estrutural.
Nesse
sentido de déficit afetivo — e secundariamente conativo
— por desordem estrutural, há que considerar duas eventualidades
patogênicas: 1) a anormalidade estrutural decorre
de tendências genéticas, mas se traduz apenas pela insuficiente
regência da individualidade por parte da sociabilidade;
neste caso o desvio do comportamento será global, a
ele corresponderá a denominação de PERSONALIDADE PSICOPÁTICA
ou PSICOPATIA — na acepção, restrita aqui adotada ou
a anormalidade estrutural se traduzirá apenas em desorganização
parcial — e será o caso dos TRAÇOS ANORMAIS DE CARÁTER;
2) as mesmas estruturas do item anterior, se
atingidas por processos mórbidos não genéticos, mas
adquiridos, seja durante a fase embrionária fetal, seja
durante a infância, a condição mórbida em causa será
então a da ENCEFALITE DA INFÂNCIA.
PERSONALIDADE
PSICOPÁTICA
— Os autores em geral, admitem para o termo PP, a acepção
de desvio não psicótico: psicopatia, neste sentido,
que é o da psiquiatria alemã, não é doença mental. Esta
acepção é a que se adota neste grupo, porém com delimitação,
mais restrita: a de desvio em conjunto das esferas
afetiva e conativa. Assim, diversos tipos de PP
descritos pelos diversos autores, em geral não são incluídos
neste conceito. Bleuler, completando Kraepelin, descreveu
nove (9) tipos; Schneider, numa classificação largamente
difundida nos meios psiquiátricos, elevou tal número
a vinte (20) tipos, mas em 1950, limitou-os a dez:
| 1-
hipertímico
2-
depressivo
3-
inseguro
4-
fanático
5-
ávido de apreço |
6-
ânimo lábil
7-
explosivo
8-
insensível
9-
abúlico
10-
astênico |
Mira
y Lopes classifica os tipos de modo algo diverso,
não admitindo alguns desses:
| 1-
astênico
2-
compulsivo
3-
explosivo
4-
instável
5-
histérico |
6-
ciclóide
7-
sensitivo-paranóide
8-
perverso
9-
esquizóide
10-
mitômano |
A
classificação adotada, ao mesmo tempo patogênica e genética
— não descritiva — restringe a cinco (5) os tipos de
psicopatias, levando em conta o princípio semiológico
referido acima. Todos eles aliás, constam da sistemática
de Mira y Lopes, como também das descrições originais
de Kraepelin. São eles:
DESORDENS
PRIMÁRIAS DA ESFERA AFETIVA
1.
Perverso
— em que prevalecem os instintos básicos como fonte
do distúrbio. Há que considerar aqui, uma variedade
mitômana.
2.
Hiperemotivo
— patogenicamente, o distúrbio fundamental é o da sociabilidade
— também mitômana.
DESORDENS
PRIMÁRIAS DA ESFERA CONATIVA
3.
Instável
— onde prevalece a falência da firmeza ou perseverança.
4.
Explosivo
— em que predomina a coragem, sem hegemonia dos demais
atributos.
5.
Astênico
— no qual a prudência se desorganiza patologicamente,
dando o quadro neuropsíquico característico.
TRAÇOS
ANORMAIS, ISOLADOS DE CARÁTER
Aqui,
embora o paciente colida muitas vezes com os padrões
de comportamento, moral e social do adulto, estão em
causa distúrbios parciais da personalidade, inclusive
na esfera intelectual. Há analogia geral entre o quadro
mental resultante e os quadros conhecidos nas várias
psicoses endógenas: isto decorre de estarem em jogo
os mesmos fatores genéticos. Porém, deve haver menos
penetrância genética, e portanto, a maior difusão na
população média, e ao mesmo tempo, menor coerência dos
sintomas clínicos.
São
considerados como enquadrados neste grupo, aqueles casos
que alguns autores incluem na psicopatia: por exemplo,
o tipo inseguro, o fanático, o ávido de apreço. Ao contrário,
o histérico admitindo por Mira y Lopes seria neurótico,
e portanto entraria na rubrica correspondente; o esquizóide
seria na realidade de, apenas excêntrico, como traço
anormal da personalidade, ou esquizofrênico, na acepção
genética desta doença, e então constituiria psicose
situada em outro nível do ciclo.
DISTÚRBIOS
AFETIVO-CONATIVOS POR ENCEFALITE NA INFÂNCIA
O
dinamismo patogênico é aqui “Lesional”, pois são alterações
histológicas da encefalite, a causa fundamental do quadro.
Os distúrbios não decorrem diretamente das lesões —
e estas são limitadas apenas a alguns núcleos do tronco
cerebral e não progressivas. Entretanto, o quadro que
se apresenta no adolescente, ou no adulto, toma o mesmo
aspecto do desvio global que o de PP perversa.
O
que explica o fato é, certamente a patogênese: 1)
tal processo mórbido incide sobre regiões centro-cerebrais
ligadas com as vias neurais, que medeiam entre a individualidade
e a sociabilidade; 2) isto ocorre na época em
que tais dinamismos normais se estão processando. Daí
a subversão de “juízo de realidade” e o fato de se caracterizarem,
mais tarde, por atos anti-sociais e pela exacerbação
sexual, os desvios da personalidade.
Assim,
embora de origem lesional, o quadro clínico é dinâmico,
e o paciente poderá ser reeducado pela psicoterapia,
inclusive psicanalítica.
Tipos
de PP – Quadro Comparativo
| Kraepelin
(Bleuler) |
Mira
y Lopes |
K.
Schneider |
A.
Silveira
(patogên) |
| Anti-social |
Perverso
|
Insensível
|
Perverso
(mitômano) (individualidade) |
| Impulsivo |
Compulsivo
|
Depressivo
|
| Extravagante
|
Esquizóide
|
Abúlico
|
Hiperemotivo
(mitômano) (sociabilidade) |
| Nervoso
|
Ciclóide
|
Hipertímico
|
| Perverso
|
Histérico
|
Depressivo
|
| Sexual
|
Ptiático
|
Ávido
de apreço |
Instável
(distúrbio
firmeza) |
| Instável
|
Instável
|
Ansioso,
lábil |
| Embusteiro
|
Mitômano
|
Inseguro
|
| Irritável
|
Explosivo
|
Explosivo
|
Explosivo
(distúrbio coragem)
|
| Litigante
|
Sensitivo-paranóide
|
Fanático
|
| Astênico
|
Astênico
|
Astênico
|
Astênico
(distúrbio prudência) |
P.P.
– Patogênese
| Esfera
|
Nível
distúrbio |
Tipo
personalidade |
| Conativa
|
Prudência
|
Astênico
|
| Firmeza
|
Instável
|
| Coragem
|
Explosivo
|
| Afetiva
|
Sociabilidade
|
Hiperemotivo (c/
mitomania) |
| Individualidade
|
Perverso
(c/ mitomania) |
|