SÍndrome
Cognitiva
(Síndrome
Cerebral Orgânica)
Ricardo
Schmitt
.
INTRODUÇÃO:
As síndromes cognitivas eram conhecidas anteriormente (e ainda
são p/ alguns clínicos) como síndrome cerebral orgânica,
uma vez que é possível se estabelecer causas bem definidas
p/ os seus sinais e sintomas (ex. demência por TCE,
delirium por encefalopatia hepática e etc...).
O objetivo dessa nomenclatura era fazer um contraponto
aos transtornos psiquiátricos como esquizofrenia e depressão,
cujas bases orgânicas não eram bem conhecidas há alguns
anos. Atualmente, no entanto, não há mais razão para
se duvidar das causas orgânicas e modificações estruturais
nas doenças psiquiátricas, ficando portanto essa diferenciação
(divisão corpo-mente) inadequada.
CONCEITO:
São anormalidades psicológicas e/ou comportamentais, transitórias
ou permanentes, cuja principal manifestação é um comprometimento
importante na cognição. Há prejuízo principalmente em
seis áreas: Consciência, Atenção, Sensopercepção, Orientação,
Memória e Inteligência (CASOMI). Reações emocionais
como vergonha, humor deprimido, ansiedade e irritabilidade
também podem estar presentes.
CLASSIFICAÇÃO:
Delirium, Demência e Síndrome Amnéstica, sendo as duas primeiras
de maior importância clínica devido às altas prevalências.
DELIRIUM
Conceito:
O sintoma fundamental do delirium é o comprometimento
da consciência, geralmente visto em associação com
comprometimentos globais das funções cognitivas. O delirium
é uma síndrome, não uma doença e tem reconhecidamente
muitas causas que resultam em um padrão sintomático
similar. Frente a um delirium, a busca minuciosa
pelo seu fator desencadeante é mandatória. A síndrome
é conhecida por uma variedade de outros nomes, alguns
muito comuns na clínica médica: estado confusional agudo,
síndrome cerebral aguda, encefalopatia metabólica, psicose
tóxica e insuficiência cerebral aguda.
O delirium é caracterizado por :
Perturbação
da consciência
(redução da clareza da consciência em relação ao ambiente)
com redução da capacidade de direcionar, focalizar,
manter ou deslocar a atenção.
Uma alteração na cognição (tal como déficit
de memória, desorientação, perturbação da linguagem)
ou desenvolvimento de uma perturbação da percepção que
não é melhor explicada por uma demência preexistente
estabelecida ou em evolução.
A perturbação desenvolve-se ao longo de
um curto período de tempo (de horas a dias) com tendência
a flutuações no decorrer do dia.
É
a síndrome cognitiva mais comum. Cerca de 10 a 15% dos
pacientes em alas de cirurgia geral e 15 a 25% dos pacientes
em alas de medicina interna apresentam delirium durante
a sua internação. Em pacientes de unidades cardíacas,
CTI, queimados graves, idosos e crianças observa-se
uma prevalência maior do que em outros pacientes hospitalizados.
Classificação:
O
delirium é uma síndrome de etiologia multifatorial que
combina variáveis individuais, situacionais e farmacológicas.
As principais causas são: doenças do sistema nervoso
central (ex. epilepsia, TCE, infecções), doença sistêmica
(insuficiência cardíaca, encefalopatia hepática e urêmica,
pós-operatório) e intoxicação ou abstinência de agentes
farmacológicos ou tóxicos (sedativos, anti-Ach, álcool,
insulina e etc...). Dessa forma, o delirium,
é classificado conforme a sua causa base desencadeante;
assim o delirium ocasionado por encefalopatia
hepática recebe a classificação de Delirium devido
a Encefalopatia Hepática (deve-se sempre especificar
a condição médica geral responsável pelo delirium),
por exemplo.
Quadro
clínico:
Geralmente
o delirium tem um início súbito (horas ou dias),
um curso breve e flutuante e uma melhora rápida quando
o fator desencadeante é reconhecido e tratado. Pode
apresentar uma fase prodrômica com inquietude noturna,
ansiedade, medo, hipersensibilidade à luz ou sons, pesadelos,
cefaléia ou uma queixa de mal estar.
Durante
o delirium a principal alteração é uma redução
no nível de consciência, variando entre confusão e obnubilação
com uma marcada dificuldade de testar a realidade. O
paciente se distrai facilmente com estímulos externos,
tendo dificuldade na concentração (hipervigil e hipotenaz).
Alucinações
e ilusões, principalmente visuais ou auditivas, como
conseqüência de uma incapacidade generalizada para discriminar
e integrar estímulos sensoriais. Há uma perda da orientação
temporal, seguida da espacial e em casos muito graves
a orientação pessoal também é perdida.
Ocorre
prejuízo na memória recente (ex. dificuldade p/ memorizar
nomes de objetos após 5 min.) e na memória remota (ex.
não recorda eventos passados). O afeto predominante
pode ser medo ou ansiedade, estando o paciente ora irritadiço
e eufórico, ora triste.
O
pensamento pode se encontrar empobrecido, com perda
de associações, se tornando um pensamento desorganizado
ou até mesmo concreto. No conteúdo, o paciente pode
ter delírios de caráter paranóide. O juízo crítico e
a conduta também podem estar alterados comprometendo
a própria segurança do paciente. Há uma flutuação entre
estados hipoativos e hiperativos. O ciclo sono-vigília
é também bastante alterado. Os pacientes podem estar
sonolentos durante o dia e apresentar exacerbação dos
sintomas à hora de dormir, na chamada síndrome crepuscular.
Em
certos casos, há disfunção autonômica com mudanças na
pressão arterial, pulso, freqüência respiratória e temperatura
corporal. O correto diagnóstico do delirium é fundamental
e deve alertar o médico assistente para a gravidade
do caso.
É
um sinal de mau prognóstico, pois indica a gravidade
ou evolução negativa do caso. A taxa de mortalidade
em 3 meses para pacientes que têm um episódio de delirium
está em cerca de 25%, pulando para 50% em um ano em
casos de completa impossibilidade de remoção da causa
base. De qualquer maneira, é reversível se diagnosticadas
e tratadas oportunamente as suas causas.
DEMÊNCIA
Conceito:
Perda
das capacidades intelectuais e cognitivas, sem comprometimento
da consciência, suficientemente grave para prejudicar
o desempenho profissional e/ou social. O sintoma definidor
é o comprometimento na memória. O prejuízo pode
ser progressivo, estático, permanente ou reversível.
A reversibilidade da demência está relacionada à causa
base e à disponibilidade de um tratamento eficaz. Caracteriza-se
por:
|
Comprometimento da memória
|
incapacidade p/ aprender coisas novas ou recordar-se de
coisas antigas
|
|
Uma ou mais das seguintes perturbações cognitivas
|
afasia (não consegue falar)
apraxia (não consegue realizar tarefas)
agnosia (não consegue reconhecer objetos)
perturbação do funcionamento executivo
|
Classificação:
É
uma doença que ocorre principalmente em pessoas idosas.
A sua prevalência aumenta com a idade, sendo cinco
vezes mais comum em pessoas com mais de 80 anos do
que nas com menos de 70 anos. Pode ser classificada
em dois tipos básicos :
| Tipos reversíveis |
causados por alterações sistêmicas (hiper ou hipotireoidismo,
IRC, insuficiência hepática e etc..) |
| Tipos não-reversíveis |
Progressivas: Alzheimer (causa mais comum nos EUA-65%), multinfartos
(causa mais comum no Brasil), AVC, alcoolismo.
Estáticas: hipóxia e TCE. |
Quadro
Clínico:
Consiste
de prejuízo da memória, pensamento abstrato, orientação,
julgamento e algum grau de alteração na personalidade.
Não há alteração da consciência como no delirium.
Nos casos iniciais, o paciente apresenta dificuldade
para manter o desempenho mental e pode falhar na realização
de tarefas novas, complexas ou que requerem alguma
mudança na estratégia de solução do problema. Com
a progressão da doença, o desempenho torna-se cada
vez mais difícil, impedindo até a realização de tarefas
domésticas.
O
prejuízo da memória ocorre inicialmente só p/ situações
recentes, como esquecer números de telefones, acontecimentos
do dia e conversações. No entanto, com a evolução
do quadro, ocorre também prejuízo na memória remota,
podendo o paciente esquecer nomes de parentes conhecidos,
sua ocupação ou seu próprio nome. Tal prejuízo é responsável
pela desorientação apresentada pelos pacientes, onde
primeiro surge a desorientação temporal, seguida da
espacial e por fim da pessoal. O paciente pode perder-se
em lugares familiares e não reconhecer pessoas. A
capacidade de abstração também é prejudicada. A capacidade
para solucionar problemas, raciocinar e o juízo crítico
também estão comprometidos.
Apresentam
pouco controle dos impulsos e instabilidade do humor,
manifestando conduta inadequada, súbitos ataques de
raiva ou sarcasmo. Podem ocorrer também alterações
de personalidade pré-mórbida ou acentuação de traços
anteriores à doença. A instabilidade emocional, desleixo
na aparência pessoal, comentários desinibidos, piadas
tolas ou expressão facial e maneiras apáticas e vazias
sugerem a presença de demência, especialmente quando
associados com o comprometimento de memória.
O
aparecimento pode ser súbito, como em conseqüência
de um TCE; ou de evolução gradual, como no caso de
multinfartos. No entanto, o mais comum é o aparecimento
insidioso, como no Alzheimer , por exemplo. Cerca
de 15% das demências são tratáveis e reversíveis.
A maioria, no entanto, é progressiva e incurável.
DELIRIUM
x DEMÊNCIA
| Aspecto Clínico |
Delirium
|
Demência
|
| Aparecimento
|
Abrupto (horas a dias) |
Gradual (meses a anos) |
| Duração
|
Breve (dias a semanas) |
Crônico (via de regra) |
| Consciência
|
Alterada
|
Intacta
|
| Atenção
|
Hipervigil, hipotenaz |
Intacta
|
| Sensopercepção
|
Alucinações, ilusões |
Intacta
|
| Orientação
|
Alterada p/ tempo e espaço |
Alterada c/ o avanço |
| Memória
|
Alterada
|
Alterada
|
| Inteligência
|
Preservada
|
Alterada c/ o avanço |
| Afeto
|
Labilidade emocional, medo, ansiedade |
Alterado
|
| Pensamento
|
Desorganizado
|
Pobre
|
| Conduta
|
Flutuação entre hiper e hipo atividade |
Inapropriada
|
| Linguagem
|
Taqui ou bradilalia, pode ser incompreensível
|
Vaga, imprecisa, estereotipada
|
|