Psiquiatria
Clínica
Apanhado
Geral das Condições Mórbidas
(continuação
da página anterior)
A
alopsique subentende fundamentalmente os sentidos. Todos
eles têm uma representação cortical e têm uma representação
na esfera afetiva. Kleist demonstrou em relação à olfação,
uma representação cortical ligada fundamentalmente à
parte afetiva do indivíduo e ao mesmo tempo ligada à
noção do mundo exterior. Então, na alopsique há sempre
um aspecto ligado fundamentalmente à parte afetiva e
um aspecto ligado com o mundo exterior, em segundo lugar.
Foi interessante porque quando se estabeleceu a localização
no cérebro, estabeleceu-se a olfação na parte primitiva
do cérebro – corpo caloso, parte que corresponde ao
lobo piriforme do cérebro e à parte posterior do temporal
– são duas zonas, uma ligada à parte paleocerebral e
outra à neocerebral e ambas ligadas à olfação. Foi Kleist
quem primeiro demonstrou este fato.
A
ligação no mundo exterior, mesmo no plano instintivo,
como por exemplo nos animais menos diferenciados, a
relação sexual, decorre muito dos estímulos olfativos
que surgem como código, como informação para zona afetiva
do cérebro, de modo que todas as esferas alopsíquicas
têm uma parte que corresponde a uma zona básica, situada
na parte mais primitiva – olfativa, gustativa, depois
de uma parte ligada com o mundo exterior – audição,
visão, tato – na parte da convexidade. A cenopsique
já é uma parte mais diferenciada pois se refere às relações
interpessoais – o eu social – mas também tem uma parte
na zona primitiva do cérebro orbitária e a parte da
regência está na convexidade cerebral.
Só
Kleist fez essas verificações que hoje nos permitem
o estudo da fisiologia comparada e do estudo da personalidade
também no sentido comparado. De modo que a própria relação
com o mundo exterior em um plano mais diferenciado como
na cenopsique (ego social) traz um componente que é
ligado com a zona orbitária do cérebro. Isso é muito
importante na clínica – paciente com graves distúrbios
sociais que apresentam alterações na zona orbitária
do cérebro.
A
alopsique está também ligada com o mundo abstrato do
indivíduo, então esta seria, apenas, uma função cortical
da convexidade cerebral. As zonas que perfazem funções
abstratas, envolvem as mesmas áreas que as da autopsique,
logo, não há uma localização exclusiva para um aspecto
ou para outro. A zona cortical frontal é que perfaz
a abstração de todos os dados ligados com o mundo exterior.
Essa distribuição em esferas de Kleist não é a mesma
das esferas de Conte. Nós consideramos três esferas:
a da afetividade, a da atividade e a intelectual. Mas
podemos perfeitamente compreender as esferas de Kleist
interpretando de acordo com as esferas de Conte. Não
há incompatibilidade entre ambas, é apenas o modo de
interpretar. O fenômeno fundamental é o da observação
dos fatos, agora, sua interpretação pode ser de uma
maneira ou de outra, dependendo da teoria que usamos
para interpretá-los. Mas, se os fatos contradizem a
teoria, então a teoria deve ser reformulada. No caso,
nem a de Kleist nem a de Conte necessitam reformular-se,
pois, correspondem perfeitamente ao quadro clínico,
inclusive verificado experimentalmente.
Essa
distinção de Kleist foi um, desdobramento do estudo
clínico das esferas de Wernicke. E ele procurou situar
as várias psicoses como distúrbios fundamentalmente
estabelecidos em uma dessas zonas da personalidade,
mas que também repercute sobre as demais. Logo, é necessário
em cada quadro clínico, fazermos uma distinção dos sintomas
que compõem o quadro clínico, interpretá-los depois
em função da patologia cerebral e da fisiologia cerebral.
Podemos então, reconstituir o quadro clínico de modo
a possuirmos o prognóstico e fazermos a terapia adequada.
Essa maneira de encarar corresponde à escola de Kleist
e à escola de Conte e de Audiffrent.
Vemos
que as várias psicoses podem ser compreendidas primeiramente
pelo aspecto geral, genético. Se quisermos utilizar
o critério etiológico, anatomopatológico ou o evolutivo,
como fazem os autores em geral, nunca poderemos chegar
a uma classificação satisfatória, porque sempre há um
entrelaçamento dos vários fatores que estabelecem nexo
entre si e uns implicam no existência de outros. Se
quisermos atribuir ao quadro clínico um valor não somente
descritivo, mas, patogênico poderemos filiar os vários
quadros às varias zonas cerebrais que correspondem ao
dinamismo particular. Kleist chamou um grupo da timopsique
de “triebich”, isto é, a parte instintiva, impulsiva
e outro que se refere à parte mais afetiva, ligada com
os demais que corresponde de certa maneira à cenopsique.
Nós dizemos, de acordo com Conte, uma parte afetiva
que envolve os instintos fundamentais – a individualidade;
e outra que envolve a sociabilidade, que já é um conjunto
mais complexo e mais dependente. Esse aspecto que Kleist
chamou de alteração do ego, de si próprio ou de ich,
abrange uma série de quadros clínicos que vão desde
uma preocupação somática com o corpo, com o soma, como
se verificou na hipocondria até à noção de si próprio
em relação ao mundo exterior, incluindo as aspirações,
as tendências, enfim, a maneira com que o indivíduo
se liga com o mundo exterior. Mas, situamos todas elas
na esfera da afetividade fizemos uma pequena modificação
na divisão de Kleist em relação a uma série de modificações
que se situava como sendo instintivas ou impulsivas
no “triebich” – zona instintiva da personalidade.
O nome de “trieb” em alemão corresponde a impulso
ou a “drive” em inglês ou ainda, fatores, motores
afetivos na concepção de Conte. Quer dizer, são elementos
que impulsionam, que impelem o indivíduo. Esse termo
também é empregado para a moda. Há, então, uma série
de alterações da personalidade que estão ligadas com
esta parte instintiva e nós podemos conciliar esse aspecto
com a teoria de Conte – as esferas da personalidade.
Então, um dos aspectos seria este, da afetividade. A
parte ligada com a conação, que é a parte motora propriamente
dita, envolve mais que a esfera motora de Kleist da
motilidade, porque para Conte, a atividade abrange um
aspecto de ligação direta com o mundo exterior, dirigindo
os atos, adequando os atos às situações e outra que
é subjetiva, que se refere ao estímulo do trabalho mental.
Então, a conação no sentido de Mc Dougall que corresponde
aproximadamente, não totalmente, ao dado por Conte,
tem um aspecto subjetivo que corresponde ao trabalho
mental, que é impossível sem a conação sem a atividade
e um fator que é exteriorizado através dos atos. Logo,
nosso conceito de motilidade é um pouco diverso de Kleist,
porque chamamos motilidade, apenas, esta parte que se
refere ao mundo exterior, aos atos, ao passo que o conceito
ao qual Kleist se refere, também engloba o aspecto subjetivo
– ele não distinguiu esses dois aspectos da atividade
e da motilidade (motórica dos alemães). Então,
Psicose da Motilidade fundamentalmente, se refere à
exteriorização motora do indivíduo mas, há um aspecto
psicológico que reflete, também, essa alteração da motilidade,
porque para nós não é só motilidades, mas, também, uma
evidência exterior de um estado subjetivo que prepara
a ação, que orienta a ação.
Na
esfera intelectual nós incluímos nesse grupo as alterações
da percepção, portanto, alucinações, automatismo mental,
que Kleist também coloca nessa zona, mas que será classificada
em uma das esferas dele – alopsíquica – e, também, os
delírios, portanto, alteração da elaboração intrínseca
ou extrínseca, conforme o quadro clínico. Logo, percepção
e elaboração e depois comunicação são as funções globais
que correspondem ao trabalho intelectual. Nós podemos,
então, distinguir mais pormenorizadamente do que Kleist
tinha feito, as psicoses e as condições normais (que
não são psicoses) que envolvem os vários níveis de trabalho
intelectual.
Mas,
a classificação que fizemos se baseia, fundamentalmente,
nesse aspecto de ligação com a estrutura cerebral –
as esferas de Conte, outro aspecto que levamos em conta,
além da esfera psíquica, são os sistemas funcionais,
quer dizer, os sistemas cerebrais que dão resultado
a esse trabalho. Portanto, são os dois aspectos a serem
considerados em um estudo patogênico.
Os
sistemas cerebrais encontrados em Kleist, estão bem
definidos também, embora, com uma colocação um pouco
diferente da de Conte. Mas, Kleist estabeleceu, também
o sistema como o elemento que nos permite trabalhar
no quadro clínico, fazendo o prognóstico e o diagnóstico
adequados.
Agora,
a esfera psíquica e os sistemas funcionais correspondem
ao quadro clínico geral e o quadro particular com que
se manifesta cada quadro clínico. Por exemplo, na p.m.d.,
um indivíduo apresenta um distúrbio, fundamentalmente,
da esfera afetiva no sentido da depressão ou da expansão
– mas, pode apresentar também, conceitos delirantes
e, na fase depressiva, alucinações ou alterações que
são englobadas na reação afetiva como uma dificuldade,
um transtorno que aparece no contato com o mundo exterior,
embora seja, originalmente, afetiva - na esfera da afetividade.
Essa
concepção de esfera psíquica como expressão da carga
genética nos permite deduzir o quadro clínico geral
que a pessoa apresenta. Então, temos como conseqüência
da esfera psíquica pelo aspecto patogênico correlato
à esfera psíquica os grandes grupos: I – Grupos das
Psicoses endógenas, que são clássicos e até hoje são
consideradas, só que com uma distinção mais precisa
da que foi dada por Kleist principalmente, quer dizer,
nem toda forma que atinge a esfera afetiva é uma p.m.d.
Então, temos uma característica que se relaciona com
as esferas psíquicas e que de modo global dá as várias
esferas;
1.
P.M.D.
2.
Epilepsia
3.
Esquizofrenia – que é uma ou outra esfera que
pode ser atingida
4.
Oligofrenia – que não corresponde a uma psicose,
mas que seriam alterações fundamentais no sentido do
distúrbio fundamental de aquisição, de desenvolvimento
e não como uma coisa que apareça no decurso da vida
do indivíduo.
Esses
4 grupos são estudados pela participação genética do
indivíduo que atinge, de preferência, uma esfera psíquica.
Veremos depois que Kleist completou esse critério estabelecendo
as formas mistas em que há mais de um aspecto participando
do processo clínico. Daí, ele dividiu os diversos quadros
clínicos em qualquer das categorias, em formas típicas
e formas atípicas, ou sistemáticas e assistemáticas,
adotando uma sugestão de Leonhard. Mas, nós vemos, então,
que esta distribuição dos quadros clínicos, assim de
modo global dá o sentido geral que constitui o quadro
clássico das psicoses constitucionais. Mas, desde 1908,
Kleist se dedicou a distinguir em cada grupo, aqueles
quadros que correspondem ao núcleo da alteração, que
são realmente um quadro clínico dessa ordem, daqueles
que aparentam ser porque tem um aparentamento, uma ligação
genética. Então, chamou esses grupos de marginais. Nesse
grupo Kleist distinguiu:
1.
Ciclóides – que estão ligadas com as formas cíclicas
da p.m.d.
2.
Epileptóides – ligadas à epilepsia.
3.
Paranóides – ligadas à esquizofrenia.
Chamou
de marginais porque, geneticamente, estão ligados com
os outros, que são conhecidos desde o início da psiquiatria
sistematizada, ao passo que as marginais surgiram apenas
com Kleist, por isso ele chamou de marginais. Nessa
descrição, ele aproveitou o que se achava na literatura,
mas, quem definiu, quem estabeleceu o nexo genético,
o critério cérebro-patológico e deu o prognóstico exato
foi Kleist. De modo que realmente se deve a Kleist a
criação do grupo ciclóide, epileptóide e paranóide.
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