Aprenda Semiologia com Dr. Joubert Barbosa (1942)

"Maneiras de examinar as funções mentais"

MEMÓRIA

        Memória é a faculdade de reter, recordar e reconhecer fatos psicológicos (afetivos, intelectuais ou volitivos) experimentados.

         Admitem-se, pois, três subfunções da memória: fixação, recordação e reconhecimento.

         A memória pode ser:
a) tenaz, quando fixa por muito tempo;
b) pronta, quando se recorda sem esforço;
c) fiel, quando reconhece com exatidão.

        A memória é mecânica quando apenas reproduz as qualidades dos objetos (figuras, números, palavras). É o que se observa nos imbecis.

        A memória intelectual reproduz os fatos revelando intervenção do juízo e do raciocínio.

         Diz-se que há memória total quando há capacidade para fixar, recordar ou reconhecer qualquer tipo de fatos psicológicos.

         Há memória parcial quando existe apenas uma aptidão especial mnésica para determinados fatos. Pode ser visual, auditiva, etc.

         Segundo a lei de Ribot os fatos fixados mais recentemente se perdem mais facilmente que os fixados em época mais remota.

PATOLOGIA DA MEMÓRIA

        Hipomnésia – É a diminuição da função mnésica. Observa-se, sobretudo, nas psicoses toxinfecciosas, nos estados depressivos, na psicose por arteriosclerose, nos estados psiconeuróticos, na fase inicial da paralisia geral, etc.

         Amnésia de fixação ou anterógrada – É a incapacidade de guardar fatos novos. É comum na confusão mental, na psicose polineurítica de Korsacow, nos estados senis. Nestas condições o doente é incapaz de reproduzir uma frase que acaba de ouvir, mas repete com exatidão uma poesia que aprendeu na mocidade.

         A amnésia lacunar é uma variedade de amnésia de fixação. Refere-se a certo período da vida quando, então, houve um verdadeiro íctus amnésico. Nos estados epiléticos, por exemplo, se observa amnésia lacunar referente a um período de crise convulsiva.

         Amnésia de recordação ou retrógrada - Caracteriza-se pela perda de fatos já fixados. É própria dos estados demenciais. Em sua forma pura surge geralmente depois de traumatismos cranianos, infecções encefálicas, crises epilépticas subintrantes.

         Amnésia retroanterógrada – É a incapacidade de fixar, recordar e reconhecer. Observa-se nos processos demenciais.

         Hipermnésia – É a capacidade de mnésica elevada. É comum nos casos de excitação maníaca, na fase da iniciação de toxicomanias, etc. Quando a hipermnésia é parcial, pode-se suspeitar de oligofrenia. Algumas vezes os pacientes falam sobre inúmeros assuntos como se os recordassem. Trata-se de “pseudo-hipermnésia”, observada nos delirantes perseguidos.

         Paramnésia – É uma perturbação do reconhecimento em virtude da qual o fato evocado não corresponde ao objeto original da percepção, embora não repugne isto à razão. Assim, o paciente revendo um irmão, considerará seu pai.

         Outras vezes a paramnésia consiste no processo mental segundo o qual uma atividade de imaginação seria considerada atividade mnésica.

         Em virtude da paramnésia surge o fenômeno do já visto: pessoas observadas pela primeira vez surgem aos olhos do paciente como antigos conhecidos. Há também o fenômeno do nunca visto: um antigo objeto, que o paciente já viu inúmeras vezes, é considerado pelo paciente como coisa inteiramente nova.

         Observa-se a paramnésia na psicastenia, na confusão mental, na demência senil, na arteriosclerose cerebral, na histeria.

SEMIOLOGIA DA MEMÓRIA

        Não é raro o paciente alegar perturbações da memória. Algumas vezes, entretanto, isto é uma falsa interpretação e decorre de um estado de depressão, por exemplo, que não permite os estímulos necessários à atividade mnésica.

         Outras vezes a debilidade da memória é aparente e corre por conta da labilidade da atenção ou de condições afetivas especiais.

         Durante a conversação é possível surpreender inúmeras perturbações da memória, mas a exploração pode ser feita mediante certas provas.

        Provas para memória de fixação:

PROVA DOS NÚMEROS

        MATERIAL – Utilizam-se três séries de números: a primeira consta de três números de quatro algarismos, a segunda de três números de cinco e a terceira de três de seis algarismos.

        APLICAÇÃO – Pronunciam-se com voz clara e monótona as três séries de números com intervalo de um segundo entre cada algarismo. Imediatamente depois de ter ouvido um número, o paciente deve repeti-lo. Terminada a repetição, passa-se ao número seguinte. Entre cada série, aguarda-se o intervalo de dez segundos, advertindo-se que a próxima série será mais difícil.

         Vejamos os números escolhidos:

7-3-8-1
7-2-1-9-3
5-1-8-3-4-6
9-4-2-5
2-4-5-8-6
1-8-6-2-7-4
1-8-3-9
3-5-9-2-4
3-6-4-9-5-2

         APURAÇÃO – Os indivíduos normais e cultos repetem corretamente todas as séries. Os não-alfabetizados repetem séries de quatro números, dois ou três números da série de cinco e um ou dois da última série.

        Quando o algarismo equivocado ocupa sempre o mesmo lugar, ou se o erro se localiza de preferência no primeiro e último algarismos, devemos pensar em simulação.

PROVA DA NOTÍCIA

        MATERIAL – Consta de uma pequena notícia redigida com 50 palavras e contendo 20 idéias:

Recife – 5 de setembro. – Um incêndio – destruiu – durante a noite – três casas – da rua da Glória. – Demorou algum tempo – a extinguir-se.
Os prejuízos – foram de 150 mil reais– e dezessete – famílias – ficaram sem abrigo. – Ao salvar – uma criança – que estava dormindo – em sua cama – um bombeiro – queimou as próprias mãos.

         APLICAÇÃO – Lê-se ou pede-se que leia a notícia e em seguida solicita-se que a reproduza, advertindo-se previamente que não omita nenhum detalhe e que utilize tanto quanto possível as mesmas palavras.

         APURAÇÃO – Concede-se um ponto para cada idéia corretamente reproduzida.

        Geralmente se retêm os assuntos principais da notícia e não se fixam grandes números de detalhes. Os débeis mentais procedem de maneira inversa. O adulto normal retém cerca de 13 idéias.

PROVA PARA MEMÓRIA DE RECORDAÇÃO

        MATERIAL E APLICAÇÃO – Pede-se ao paciente que repita, inicialmente na ordem habitual, depois na ordem inversa:
1º) as letras do alfabeto;
2º) os dias da semana;
3º) os meses do ano;
4º) os números simples.

        APURAÇÃO – Deve-se levar em conta o grau de cultura do paciente e o tempo gasto para as respostas.

        Uma modificação da prova consiste em pedir que dê informações sobre fatos da História do Brasil, sobre acidentes geográficos, etc.

PROVA PARA MEMÓRIA DE RECONHECIMENTO

        Utilizam-se antigos retratos de pessoas da família, objetos antigos de uso do paciente, etc.