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ACEPÇÃO
DE SEMIOLOGIA NO DOMÍNIO
DAS
DOENÇAS MENTAIS ( * )
(continuação
da página anterior)
Por
esse motivo dissemos que constitui questão assaz complexa
a colheita dos dados semiológicos que terão de ser utilizados
para tal fim. É imperativo da própria psicologia normal
– que depende de tantos níveis de integração, funcional,
estrutural e também gregária – além disso, acrescida
em complexidade pela incidência dos fatores morbígenos.
Resumindo
as revisões que deveremos fazer nas aulas subseqüentes,
enumeramos os setores a que terá de aplicar-se a semiologia:
1º
- Anamnese – Esta pode ser tomada diretamente do paciente
– anamnese subjetiva – ou colhida objetivamente, isto
é, baseada na informação da família ou dos que convivem
com o examinando. Raríssimas vezes não consegue o psiquiatra
que o próprio doente mental forneça dados aproveitáveis.
A prática demonstra que na maioria dos casos a alegação
de que o paciente não coopera ou não sabe informar deriva
da atitude cética ou apressada daquele e não da incapacidade
deste. Mesmo dados subjetivos falseados ou contraditórios
são úteis e instrutivos: e não raro a investigação da
anamnese desperta a cooperação de doentes até ali aparentemente
alheados. É sempre elucidativo comparar a anamnese subjetiva
com a objetiva. Em ambas temos que colher dados não
apenas como se faz na clínica geral – para estabelecer
em que época começou a doença atual, quais os antecedentes
mórbidos da família, que doenças ocorreram anteriormente
e qual a respectiva correlação. Cumpre que o psiquiatra
se habitue a verificar principalmente os dados heredológicos,
com técnica especial.
É
com essa técnica – à qual consagraremos alguns tópicos
oportunamente – que devemos caracterizar os antecedentes
pessoais, o ambiente psicológico em que viveu o examinando,
a maneira como se verificou o início da moléstia. Desejamos
ainda frisar este dado importante: o paciente deve também
ser registrado em ficha especial quanto à anamnese e
aos traços da personalidade, de maneira que tenhamos
posteriormente ao nosso contato direto com ele um resumo
clínico-heredológico preciso. A súmula dos dados relativos
ao paciente no respectivo ambiente doméstico e social
quando egresso deverá ser anotada nesse mesmo registro,
constituindo a catamnese. Como na anamnese as
anotações catamnésticas obtidas no meio social – seja
depois da remissão, seja em fase residual – devem focalizar
de preferência as relações genealógicas no sentido colateral
e descendente.
2º
- Dados diretos de ordem objetiva – A inspeção
já pode, de início, fazer suspeitar de condições herdadas,
mas estas não devem fazer pressupor que o quadro clínico
também o seja. Exemplo: em algumas ocorrências a deficiência
mental congênita se acompanha de má conformação somática,
de tipo disgenético; mas os distúrbios psicóticos que
trazem a nós dado paciente com disgenesias somáticas
podem ser relativos, tanto quanto toxi-infecciosos ou
devidos à neoplasia intracraniana.
De
qualquer forma, tanto as condições somáticas endógenas
quanto o estado físico atual ou a aparência estrutural
tipológica do indivíduo, devem ser pesquisados à luz
dos dados de laboratório clínico, completados por meios
paraclínicos, que permitam avaliar em que condições
se encontra o organismo realmente. Constituem elementos
semiológicos indispensáveis e por isso mesmo devem ser
interpretados com objetividade.
Cumpre
considerar os dados neurológicos – discretos como os
que decorrem da encefalite na infância, ou mais grosseiros,
que podem estar ligados a destruições mais extensas
do tecido cerebral. Ainda aqui, a finalidade é obter
mais exata compreensão do feitio clínico em apreço e
não excluir diagnósticos ou atribuir os sintomas psíquicos
à mesma gênese lesional.
Força
é recorrer aos dados subsidiários, principalmente o
exame neuro-oftamológico, sem o qual muitas vezes não
podemos estabelecer diagnose correta e portanto intervenção
terapêutica adequada. Muitas vezes são os resultados
deste precioso exame especializado que permitem distinguir
entre transtornos funcionais e por outro lado a encefalite,
ou manifestação de tipo epileptóide, ou mesmo condições
cerebrais tardiamente adquiridas, como por exemplo a
arteriosclerose cerebral. Igualmente aqui, porém, cabe
o raciocínio clínico ao psiquiatra, que não deve apelar
para o colega oftalmologista como quem apela para o
do laboratório bacteriológico. Lembremos o caso de um
paciente de cinqüenta anos que examinamos com o Dr.
W. de CARVALHO neste hospital. Apresentava alterações
características no setor neuro-ocular, a confirmar os
sinais clínicos; entretanto, o quadro mental correspondia
a reações obsessivo-ansiosas que datavam de uns trinta
anos e que foram agravadas por problemas atuais – estes
ligados à arteriosclerose encefálica – os quais determinaram
o episódio reativo de situação.
Dentre
os exames paraclínicos, é indispensável para nossa especialidade
o exame de líquor.
Também
a bioquímica do sangue nos revela uma série de condições
importantes, quer ligadas à própria gênese do quadro,
quer de tipo ocasional. Citemos a dosagem do colesterol
e suponhamos uma eventualidade que ocorre com freqüência:
a de um epilético com crises espaçadas, as quais em
dado momento se intensificaram; o exame clínico faz
suspeitar de hipertireoidismo, o qual se confirma ante
a bioquímica pela baixa do colesterol sanguíneo – o
qual a seu turno representa elemento protetor contra
convulsões, até ali compensadas, e permitiu assim restabelecer
– com a correção do hipertireoidismo – o nível de resistência
eficiente às tendências convulsivas.
Igualmente
valioso é o concurso de hematologia, que ao denunciar
as várias modalidades de anemia ou ao revelar desvios
de tipo tóxico, agudo ou crônico, no hemograma pode
com isso atestar a etiologia geral de determinadas ocorrências
psiquiátricas. Mas não é somente como auxiliar na interpretação
patogenética do quadro clínico, e sim para avaliar as
condições somáticas em que se encontra o paciente, e
que urge sejam corrigidas, que devemos recorrer à hematologia.
Os
elementos diagnósticos da radiologia neurológica e o
eletrencefalograma fornecem ao psiquiatra importantes
ensinamentos de aplicação diária.
3º
- Em seguida, como parte central do exame psiquiátrico,
há a considerar os dados subjetivos que compõem
a observação direta. Como questão de método e de importância
semiológica vem em primeiro lugar a orientação psíquica
do paciente: constituem modalidades independentes a
noção de tempo, de ambiente, de local e o reconhecimento
da própria personalidade. O indivíduo pode, por exemplo,
estar perfeitamente orientado quanto ao meio e aos dados
cronológicos e no entanto não se identificar como o
mesmo indivíduo que anteriormente, por ter perdido ou
falseado a noção subjetiva da personalidade. Isto deve
ser levado em conta como elemento prognóstico, porquanto
a perda das noções referentes à personalidade subjetiva
indica tratar-se de processo mais grave do que nos casos
em que ocorre perda da orientação no mundo objetivo
ou no tempo.
Outro
dado diferencial importante, a noção de doença: é comum
o doente apresentar alterações psicóticas graves e entretanto
ter consciência do próprio estado mórbido, podendo revelar
esta eventualidade de duas maneiras: quer referindo-o
ao médico, explicitamente ou mediante alegações que
denotem reconhecer as modificações, quer fazendo alusões
evasivas e tentando sonegar por meio de justificativas
os dados correspondentes.
Deve-se
pesquisar em seguida os distúrbios de percepção, setor
esse no qual a semiologia terá de aplicar-se com esmero.
Deveriam ser objeto de várias revisões, pois abrangem
gama extensa e cada tipo de distúrbio oferece significado
diagnóstico e prognóstico diverso; além do mais são
possíveis – e infelizmente mesmo freqüentes – apreciações
errôneas dos fatos nesse domínio. Não obstante, devido
à exigüidade do tempo, teremos que resumi-los em duas
aulas apenas.
Ao
examinar o trabalho mental, cumpre que se analisem separadamente
os dois aspectos: o formal, isto é, como se processa
o trabalho elaborativo; e o que entende com a elaboração,
intrinsecamente, a qual independe de haver ou não distúrbios
no raciocínio e mesmo do nível intelectual. Verificamos
então como se estabelecem os pensamentos: se a construção
dos conceitos obedece à “lógica racional” peculiar ao
adulto, ou à “lógica afetiva”, impropriamente – a nosso
ver – denominada “pensamento mágico”.
Finalizando
o grupo das manifestações ligadas com as funções intelectuais
em sentido aferente há a considerar a evocação e a identificação
como funções paralelas, entrelaçadas tão intimamente
que no estado normal só artificialmente podem ser estudadas
em separado. Por efeito do processo patológico darão
margem a distúrbios variáveis, desde a desorientação,
o falso reconhecimento, até a fabulação, a estranheza,
a própria despersonalização.
A
expressão, atributo intelectual eferente com relação
ao mundo externo, pode ser alterada – em qualquer das
modalidades, mímica, verbal e gráfica – em conseqüência
de transtorno intrínseco, o que como regra indica lesões
focais do cérebro. O que é mais comum, porém é que os
distúrbios expressivos decorram de desmantelo em outras
funções: na percepção – tal como a mudez secundária
à surdez congênita; na elaboração, o que se exemplifica
com o “agramatismo”; na conação como, a nosso ver, é
o caso da parafasia.
O
exame subjetivo deve apurar em seguida como se comporta
o paciente sob o aspecto da afetividade e da emotividade,
da mesma forma que pelo aspecto conativo. De fato nossa
função imediata, como psiquiatra, é conhecer-lhe a personalidade
integral. Não podemos ater-nos apenas à maneira como
o doente raciocina, às concepções que emite, ou aos
distúrbios que acaso apresente na esfera perceptiva.
Temos que julgar de que modo e até que ponto dá vazão
à necessidade de agir; e a justificativa das próprias
ações – não só a concordância ou a discordância destas
– põe por vezes a descoberto sistemas delirantes ou
desvios relacionáveis a outros distúrbios, como os afetivos,
de outra forma não evidenciáveis.
4º
- Finalmente, havemos de levar em conta na observação
clínica, o comportamento explícito do paciente
no meio objetivo: constituem dado de particular relevância,
as reações desencadeadas pelo estímulo externo, quer
no meio pregresso social, quer no ambiente hospitalar.
Se
não levarmos em consideração todos os dados que passamos
em revista e aos quais pretendemos analisar no decorrer
destas reuniões, não estaremos praticando a semiologia
adequadamente. Aplicando-os sistematicamente na prática
hospitalar verificaremos que a semiologia como meio
de acesso à personalidade nos conduz mais a fundo aos
problemas mesmo somáticos do examinando. Ela fornece
ao psiquiatra dados mais compreensíveis e em conjunto
muito mais complexos do que, infelizmente, nos outros
setores de medicina. Dizemos infelizmente, porque o
clínico geral, ainda hoje, imbuído do espírito da especialização
mal compreendida, tende a considerar o paciente como
máquina em que há peças desarranjadas cujo funcionamento
deve ser corrigido. O internista, ou o cirurgião, comumente
não leva em consideração na prática, embora o admita
em tese, que distúrbios mesmo orgânicos na vida vegetativa
podem ser conseqüência de perturbações psicológicas
não suspeitadas. Esquece-se, via de regra, de que por
trás de sintomas clínicos pode haver problemas domésticos
– não reveláveis porque o médico não cogita deles –
ou situações angustiantes de fundo sociogênico em geral.
Não recorre por isso ao trabalho da assistente social,
como não cuida de investigar no paciente o comportamento
psicológico que lhe é peculiar. Daí a grande messe de
clientes que “não reagem à terapêutica” embora adequada
ao diagnóstico clínico. É que os sintomas em tais casos
não mais representam que defesas inconscientes para
com problemas “psicogênicos”. Não no sentido habitual
de conflitos psíquicos acessíveis ao próprio ambiente,
mas na acepção de causa psicológica profunda, que somente
desmontada analiticamente pode ser conhecida e eliminada.
Portanto,
deve partir da Psiquiatria, coroamento indispensável
ao conhecimento da Medicina, o movimento orientado para
a modificação do pensamento médico geral. Torna-se indispensável
que o psiquiatra amplie o raio de ação e colabore com
o clínico geral no sentido de que este possa incluir
na observação de rotina os dados relativos ao mundo
psíquico. É tempo de cooperarmos todos para a compreensão
da Medicina como arte que focalize a personalidade humana
integral.
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