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ACEPÇÃO
DE SEMIOLOGIA NO DOMÍNIO
DAS
DOENÇAS MENTAIS ( * )
(continuação
da página anterior)
Outro
passo também importante, fundamental, nessa direção
foi dado em épocas diversas por WERNICKE, MEYNERT e
KLEIST.
WERNICKE
individualizou na prática a ocorrência clínica de casos
que se iniciavam com aparência catastrófica e que entretanto
dentro de alguns meses entravam em remissão, com a restituição
integral da personalidade ao nível anterior. Faltou-lhe
apenas a base indispensável dos conhecimentos heredológicos,
então incipientes, para esclarecer doutrinariamente
esse grupo de psicoses. Por outro lado, nos casos lesionais,
pôde evidenciar que lesões das várias regiões cerebrais
acarretam distúrbios variáveis conforme atinjam de preferência
o córtex ou a zona subcortical.
MEYNERT
mostrou a influência de certas alterações cerebrais
funcionais na constituição de determinados quadros clínicos:
assim filiava a sensação de euforia – durante fases
de excitação em doentes mentais – à hiperemia funcional
do cérebro, bem como o ânimo depressivo à isquemia
acarretada pela constrição de vasos cerebrais. Anteriormente
descrevera como entidade clínica a amência, à
qual delimitou como excitação confusional onírica, curável,
de origem tóxica.
Finalmente,
KLEIST, fundamentando a apreciação clínica em elementos
muito mais diferenciados, imprimiu à psiquiatria o passo
mais importante: demonstrou que algumas doenças mentais,
independentes do grupo maníaco-depressivo, embora também
endógenas, isto é, aparecendo autoctonemente sem nenhuma
causa desencadeante evidente, podem decorrer com remissão
integral e voltar de novo aos desvios funcionais, para
depois remitir integralmente, uma série de vezes. Embora
nos períodos intervalares nada de anormal se aprecie,
esta modificação periódica da personalidade corresponde
a tendências até certo ponto endógenas, não de modo
constitucional, mas latente: constitui o substrato das
chamadas “psicoses marginais”. Mas esse grande renovador
da psiquiatria não só descreveu grupos clínicos precisos:
deu principalmente a explicação heredológica desses
quadros clínicos e evidenciou a base genética da psicopatologia.
Além disso, mostrou que não basta saber que o indivíduo
tem na família casos análogos ao seu ou então dissimilares;
é necessário conhecer a que tipo correspondem aqueles
casos clínicos, isto é, estabelecer a anamnese heredológica
com critério de diagnose diferencial. Provou que muitas
vezes a multiplicidade de “taras” representa fato benéfico,
como atenuação da sobrecarga heredológica. Mostrou ainda
que, em sentido contrário, a convergência de taras empresta
aparência de tipo endógeno a psicoses tóxicas ou infecciosas.
Essa incomparável eficiência da elaboração heredológica
dos quadros clínicos cabe a KLEIST e à sua escola. Aqui
mesmo nas reuniões anatomoclínicas dirigidas pelo Dr.
MAFFEI, tivemos
ocasião de documentar o caso de um paciente observado
pelo Dr. VIZZOTTO. Era um paciente do quarto Pavilhão,
cujas reações psicóticas coincidiam com as exacerbações
de processo reumático e remitiam completamente após
o episódio febril. O quadro clínico correspondia a “episódios
crepusculares”; a necropsia, efetuada pelo Dr.MAFFEI,
revelou alterações cerebrais características do processo
reumático e, além disso, disgenesia do sistema paleocerebral.
Portanto, os danos heredológicos devem servir para compreendermos
o quadro clínico, não para prejulgar da gravidade ou
benignidade do caso em apreço.
Outra
aquisição valiosa da psiquiatria, têmo-la na apreciação
biotipológica originada simultaneamente dos estudos
de JAENSCH e de KRETSCHMER. Com critérios diversos e
sob orientação doutrinária distinta, ambos aqueles chefes
de escola precisaram a compreensão dos tipos somatológicos
como indicativos de tendências paralelas no nível psicológico
da personalidade. Veremos oportunamente como utilizar
esses dados somatopsíquicos com finalidade semiológica.
Mas podemos de momento lembrar que a experiência pessoal
do nosso grupo já tem confirmado a veracidade dessa
variação paralela. Assim, pudemos mostrar em nosso meio
como o teste de RORSCHACH, por exemplo, que constitui
prova eminentemente psicológica, varia nos resultados
conforme o tipo somático do examinando, seja normal,
seja doente mental. É pois fato comprovado que existe
uma relação constante entre o conjunto de atributos
somáticos e o comportamento psíquico do indivíduo, e
que semelhante correlação não pode deixar de ser levada
em conta ao apreciarmos os quadros mórbidos.
Outra
orientação doutrinária que tem ponderado no setor psiquiátrico
foi a dada por MONAKOW e FREUD respectivamente, introduzindo
os dados semiológicos no âmbito da psicologia profunda.
Com
o grande anatomopatologista de Zürich, vemos a interpretação
dos quadros psicóticos baseada na dinâmica instintiva.
As inter-relações anatomofuncionais
e principalmente a introdução do fator cronológico,
bem como os conceitos filosóficos sobre a dinâmica dos
instintos, colocam os problemas da clínica psiquiátrica
em base segura.
FREUD
revolucionou a técnica psicoterápica instituindo normas
precisas para investigação dos fatos inconscientes,
as quais habilitam o médico a identificar os problemas
profundos da personalidade, desmontando-os a partir
da exteriorização sintomatológica atual. Graças às grandes
aquisições psicológicas iniciadas pela escola Freudiana
foi possível restaurar em muitos doentes o nível de
maturação afetiva que deviam ter e, portanto, liberar
esses pacientes de perturbações funcionais que não seriam
acessíveis às modalidades psicoterápicas que precederam
a psicoanálise .
Tornou-se
mesmo possível corrigir psicoterapicamente, no estado
atual dos conhecimentos, graves alterações da personalidade
– que não se supunham passíveis de tratamento, e ante
os quais falham as terapêuticas comuns – tais os casos
em que elas derivam, em última análise, de lesões anatômicas
cerebrais, como as da encefalite na infância, para exemplificar.
Como
orientação psiquiátrica mais recente, a concepção genético-dinâmica
de ADOLF MEYER estendeu também a atuação médica para
o meio social. Com esse autor entra decididamente na
psiquiatria, como técnica, o ecletismo, procurando investigar
de modo sistemático as correlações entre indivíduo e
ambiente, quer nas fases que precederam ao desajustamento
“psicobiológico”, quer na gênese das alterações tanto
orgânicas como funcionais.(ver fig.2).
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| Fig
2 - Adaptação do esquema de BILLINGS (1, pág
21): Fatores que interferem no desenvolvimento
da personalidade humana e nas reações normais
ou patológicas |
O
psiquiatra já não se pode considerar como investigador
isolado, mas por força da própria doutrina passa
a receber o concurso da assistente social. Em nenhuma
outra corrente foram assim precisadas a parte que deve
caber ao médico e aquela que compete à assistente social
psiquiátrica. É da escola de ADOLF MEYER que decorre
a sistematização do trabalho da assistente social. Dela
deriva a organização deste ramo fundamental da atuação
psiquiátrica; e ainda dela se originou a concepção hoje
fortemente sedimentada, nos Estados Unidos, a da “ortopsiquiatria”,
na qual se conjugam os esforços do psiquiatra, do psicólogo
e da assistente social.
Do
que resumidamente dissemos se depreende que a concepção
da psiquiatria como especialidade que se limita a tratar
os doentes mentais constitui imperdoável anacronismo.
Após a longa e penosa evolução só é possível encará-la
como conjunto de normas de investigação do mundo subjetivo,
organizadas em sistema eminentemente dinâmico e com
finalidade principalmente preventiva. Ela assume dessa
maneira feitio eclético por isso que resume em si uma
série de tendências doutrinárias diversas, às quais
foi sucessivamente incorporando (ver fig. 3).
Eclética nesse bom sentido e não no sentido de aglomerar
métodos díspares como meios de investigação da personalidade.
Ao contrário, só é possível chegar ao diagnóstico psiquiátrico
dando a cada fenômeno o devido valor. Assim, por exemplo,
numerosos pacientes patenteiam transtornos “neurológicos”
evidentes, que entretanto não tem nenhum substrato anatômico
lesional: é o caso de tics ou de certos rituais compulsivos
graves, exibidos mesmo em público, que ao exame psiquiátrico
não correspondem a uma doença mental nem a alteração
orgânica. Por outro lado, doentes que tiveram encefalite
na infância, por vezes exibem atos aparentemente pitiáticos
ou compulsivos, os quais, entretanto dependem de lesões
em estruturas anatômicas especiais. A priori não é possível,
portanto, decidir se em determinado caso os distúrbios
correspondem a lesões orgânicas de cérebro ou simplesmente
a desvios de ordem funcional. E é para que o médico
se liberte do apriorismo e da improvisação diagnóstica
que a semiologia tem de ser apurada.
Assim,
norteada pela concepção hodierna, a semiótica em psiquiatria
corresponde ao estudo sistemático do comportamento dos
vários elementos clínicos, com a finalidade imediata
de estabelecer o diagnóstico diferencial e – principalmente
– com as finalidades mediata e remota de orientar a
terapêutica e de estabelecer a previsão psicobiológica
do caso clínico em apreço, tendo sempre em vista a reintegração
funcional do indivíduo no ambiente objetivo e a atuação
dele através das correntes genéticas.
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| Fig
3 - Escolas psiquiátricas contemporâneas.
Em traços interrompidos a orientação que adotamos |
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