Teoria
da Personalidade
Lucia
Maria Salvia Coelho
Epilepsia e Personalidade
I.
Fundamentos Teóricos
Toda pesquisa deve fundamentar-se
em uma concepção teórica precisa e ao mesmo
tempo suficientemente ampla, para permitir o
esclarecimento de um conjunto dado de fenômenos.
A utilidade da teoria consiste essencialmente
em orientar a colheita dos dados empíricos,
os quais de outra forma se acumulariam de modo
desconexo e inútil. Assim, ela nos fornece elementos
para questionar logicamente os eventos e em
seguida para lhes atribuir significados em um
quadro amplo de conceitos capaz de representa-los
e de elucida-los conforme o nível de expressão
do fenômeno investigado. Bertalanffy observa
que, apesar de os empiristas negarem o valor
da teoria, “a história da ciência tem demonstrado
que o progresso não consiste em mera colheita
e observação dos fatos, mas depende fundamentalmente
do estabelecimento de construções teóricas”
(5 – p.24-25).
À medida que o conhecimento evolui,
o quadro teórico deverá sofrer transformações
de ordem mais ou menos radical. Apenas deste
modo torna-se possível o progresso científico.
Murphy (16) assinala o fato de que
atualmente o progresso nas ciências consiste
essencialmente no desenvolvimento de novos métodos
e não na evolução em seus conteúdos. Assim,
no campo da Psicologia encontramos uma diversidade
de idéias e de métodos, mas que não se apóiam
em uma teoria consistente. Daí o número imenso
de trabalhos experimentais, extremamente valorizados
por sua objetividade, mas que na realidade pouco
contribuem para a compreensão mais extensa e
profunda dos fenômenos estudados.
Através de um processo de elaboração
sucessiva e de sínteses, colocando novos problemas
e atribuindo significado objetivo aos dados,
a teoria abrange um campo mais amplo de fenômenos.
Fatos e teorias são elementos inseparáveis.
As construções teóricas devem basear-se em metodologia
precisa, e as formulações não podem apresentar
contradições internas. Wolmann afirma que a
ciência deve interpretar os dados e, transcendendo
os estudos empíricos, formular uma teoria: “Uma
teoria é o resultado da reunião, do exame e
da análise cuidadosa dos dados empíricos. Uma
teoria que contradiga estes dados, afirmam os
maximalistas epistemológicos, carece de significado,
o qual exige que a teoria esteja livre de contradições
internas – verdade imanente – e livre de contradições
com a realidade – verdade transcendente” (28
– p. 593).
Uma teoria será tanto mais exata
quanto maior for a adequação de suas afirmações
às características objetivas dos fenômenos por
ela interpretados. E, ela será tanto mais rigorosa
quanto maior for a coerência lógica das deduções
efetuadas a partir de seus postulados básicos.
Deste modo devemos assinalar duas exigências
fundamentais para a construção de uma teoria
positiva: a possibilidade que ela oferece em
ser testada empiricamente – graças ao vínculo
estabelecido entre seus postulados e a realidade
objetiva – e a delimitação precisa de seu campo
de atuação e do plano em que se aplicam as suas
interpretações – através da formulação racional
dos conceitos e do encadeamento lógico de suas
proposições.
No campo da Psicologia, lembra Bertalanffy,
surgem dificuldades para o estabelecimento de
leis gerais, uma vez que as leis da natureza
apresentam um caráter estatístico, isto é, são
afirmações baseadas em um número médio de eventos.
Porém, nosso interesse pelo ser humano não pode
ser satisfeito por leis estatísticas – prossegue
o autor –, o homem deve ser estudado segundo
as características que lhe são peculiares, e
não através de normas gerais. As concepções
básicas da teoria psicológica deverão ser essencialmente
dinâmicas – embora incluindo necessariamente
um aspecto estrutural (5 –p. 26).
Assim, no campo estritamente psicológico,
não podemos atingir leis gerais que permitam
a previsão de fenômenos independentemente do
ser estudado. Porém, a constituição da Psicologia
no campo das ciências práticas exige a definição
precisa das variáveis estratégicas que intervêm
na dinâmica do comportamento objetivo e subjetivo
do ser humano. A delimitação do campo específico
ao conhecimento psicológico supõe a utilização
de dados fornecidos pela Biologia e pela Sociologia
para a investigação dos dinamismos psíquicos.
Entretanto a consideração seletiva das informações
fornecidas por estas ciências ao campo psicológico
não implica em reducionismo biológico e nem
em subordinação às interpretações sociológicas.
A Psicologia se estabelece como ciência autônoma
na medida em que ela postula a natureza particular
de seu objetivo de estudo, em que ela delimita
o nível em que se expressam os fenômenos por
ela investigados, e , enfim, em que ela desenvolve
métodos e técnicas específicos.
Em outro trabalho (171) desenvolvemos
proposições concernentes às bases epistemológicas
do conhecimento psicológico.Portanto, nos parece
suficiente mencionamos aqui apenas os fundamentos
teóricos de ordem mais geral que nortearam
a presente investigação.
Toda teoria, não apenas as teorias
psicológicas, pauta-se necessariamente em posições
epistemológicas, e a teoria personalidade que
adotamos baseia-se fundamentalmente na concepção
positivista iniciada por Augusto Comte. Esta
perspectiva teórica fornece diretrizes para
a compreensão e a análise de fenômenos psicológicos
normais, patológicos, evolutivos, e de integração
do indivíduo humano na sociedade. A epistemologia
positivista, por sua vez, resulta de concepções
anteriores, especialmente de Aristóteles, Locke,
Leibnitz, Kant e Hume. Posteriormente a Comte,
Audiffrent e Laffitte, entre outros, deram um
maior desenvolvimento às formulações teóricas
do pensador. E verificamos que, embora de modo
indireto, as escolas psicológicas contemporâneas,
como as de Freud, de Pavlov, de Sullivan, de
Mead e a chamada escola holística, utilizam
métodos e postulados já estabelecidos no século
XIX por Comte. Coelho, em trabalho dedicado
à análise de Cours de Philosophie Positive,
considera Comte um precursor da Psicologia moderna:
“No tocante aos métodos, por exemplo, faz sugestões
importantes, quais sejam, a do valor diagnóstico
dos sonhos, o estudo das biografias, as pesquisas
sobre a inteligência e os costumes dos animais...”
Tudo leva a crer, no entanto, que as elaborações
posteriores desses métodos se fizeram independentemente
dele. O que demonstra que o positivismo científico
deu expressão a uma corrente profunda no pensamento
do século XIX (7 – p. 95). Em outro capítulo,
Coelho faz notar: “Deve-se levar a seu crédito
ter considerado as condutas do homem mediante
a associação da perspectiva neurofisiológica
(que, como se sabe, inclui a Psicologia) à visão
de suas dimensões coletivas. A fecundidade que
resulta da associação entre diferentes tipos
de abordagem é raramente posta em dúvida nos
dias que correm” (7 – p. 109).
A característica fundamental da teoria
de Comte consiste no estudo dinâmico do indivíduo,
o qual é considerado do ponto de vista social.
O autor toma como ponto de partida o fator social
humano. Estudou o homem segundo uma concepção
dinâmica, mas visto na perspectiva histórica,
e não apenas o homem atual. O indivíduo, isolado
no tempo e no espaço, é considerado por Comte
uma mera abstração como objetivo de estudo.
Segundo ele, só podemos compreender o ser humano
através das relações interpessoais. Conforme
dissemos, os autores mais lúcidos que forneceram
contribuições notáveis em Psicologia da Personalidade
em Psicologia Social e em Psiquiatria, na época
atual, fundamentam as próprias concepções teóricas
em princípios que já foram estabelecidos pelo
Positivismo. Assim, no campo da Psicologia Social,
George H. Mead postula que a experiência humana
só pode ser compreendida através dos veículos
que o indivíduo estabelece com o grupo onde
vive. Segundo o referido autor, não apenas os
sentimentos e as concepções mais diferenciadas
têm um caráter social: “Os impulsos e necessidades
biológicas ou fisiológicas fundamentais que
se encontram na base de todo comportamento –
especialmente os de fome e o sexo, os relacionados
com a nutrição e a reprodução – são impulsos
e necessidades que, em sentido mais amplo, Têm
caráter social ou implicações sociais uma vez
que envolvem ou exigem situações e relações
sociais para sua satisfação, por parte de qualquer
organismo individual dado. Desse modo, constituem
o alicerce para todos os tipos ou formas de
atuação social, sejam simples ou complexo, toscos
ou altamente organizados, rudimentares ou plenamente
desenvolvidos. A experiência e o comportamento
do organismo individual são sempre componentes
de um todo ou de um processo social mais amplo
de experiência e de comportamento, do que no
organismo individual considerado em si mesmo”
(13 – p.250). E conclui o autor: “Toda sociedade
humana organizada – inclusive nas formas mais
complexas e altamente desenvolvidas – em certo
sentido, não é mais que uma extensão e uma ramificação
destas simples e básicas relações sócio-fisiológicas
entre seus diferentes membros (as relações entre
os sexos, resultante da diferenciação fisiológica,
e as relações entre pais e filhos), sobre as
quais se fundamenta e das quais se origina”
(13 – p.251).
Porém, a ênfase no social não exclui
a consideração da peculiaridade individual:
“A origem social e a constituição comum dos
indivíduos e de suas estruturas não exclui a
existência de amplas diferenças e variações
individuais entre elas, nem contradiz a individualidade
peculiar e mais ou menos distinta que cada uma
delas possui na realidade” (13 – p.226). Esta
peculiaridade seria explicada como decorrente
da perspectiva diferente, que cada indivíduo
possui, em relação ao processo social total.
Gino Germani caracteriza o pensamento de Mead
como fundamentado em três aspectos principais:
A historicidade do indivíduo como
autoconsciência, isto é, a anterioridade histórica
da sociedade sobre cada pessoa.
Formulação de uma hipótese naturalista
sobre o desenvolvimento do indivíduo autoconsciente,
a partir da matriz das relações sociais.
Função essencial que na formulação
do eu se liga à adoção de papéis e à
internalização do elemento sócio-cultural.
Através destes três pontos, a superação
da antinomia entre indivíduo e sociedade articula-se
uma série de formulações teóricas que permitem
uma vasta gama de desenvolvimentos para a investigação
da realidade social; e é justamente nesta possibilidade
de expansão ulterior que residem a validade
e a importância cientifica de uma teoria (13
– p.141). Em seguida, acrescenta Germani: “O
mérito de Mead consiste em ter proporcionado
uma hipótese coerente sobre este desenvolvimento
(do indivíduo) e, sobretudo, de haver mostrado
como este se pode conceber, senão a partir de
uma vida social preexistente. Tal é o primeiro
ponto fundamental do ensino de Mead: o indivíduo,
como pessoa auto-consciente, apenas é admissível
em termos de sua participação na sociedade”
(13 – p.141). Ora, como sabemos, este é o aspecto
essencial da teoria de Comte, e Mead apenas
desenvolveu, nesse ponto, sem o conhecer, o
pensamento positivista.
Sullivan, discípulo de Freud, desenvolveu
igualmente, em suas formulações teóricas, as
implicações psicológicas das relações inter-pessoais
que considerava camo decisivas para compreender
as fases de desenvolvimento, a adaptação e as
perturbações psíquicas do homem. Desenvolve
de modo extremamente frutífero e objetivo o
estudo da evolução dos sentidos e da adaptação
intelectual do ser humano à realidade – em função
do tipo de relação interpessoal estabelecida
nas diferentes fases de desenvolvimento. Entretanto,
não chega a construir uma teoria suficientemente
ampla, que permita abranger todos os fatores
associados às funções psíquicas. Sullivan não
aprofunda, nas deduções teóricas, a análise
do substrato biológico do comportamento humano.
Não podendo deixar de admitir os instintos,
limita a atuação destes apenas à satisfação
dos impulsos básicos do homem, deixando de considerar
a necessária relação entre as funções psicológicas
mais diferenciadas, de caráter social, e as
resultantes de impulsos básicos ligados à estrutura
neurofisiológica da espécie humana: “A base
mais geral para classificar os fenômenos e os
estados finais resultantes do grupo que dominamos
satisfação e aqueles que decorrem do
grupo de segurança ou de manutenção da
segurança. As satisfações, neste sentido especializado,
são todos os todos os estados finais que estão
estreitamente ligados à organização física do
homem”. / ... / “Por outro lado, a busca de
segurança pertence mais intimamente ao contingente
social do homem do que a organização física.
/.../ Todos os movimentos, ações, palavras,
pensamentos, devaneios, que pertencem mais à
cultura que foi assimilada pelo indivíduo em
particular do que à organização de seus tecidos
e glândulas, podem ser incluídos neste grupo
de busca de segurança” (25 – p. 12-13).
Um dos discípulos mais importantes
de Sullivan – Mullahy – afirma: “As teorias
de Sullivan sobre a conduta interpessoal têm
suas raízes na Biologia. Mas se nos permitirmos
usar uma metáfora algo tosca, a raiz não é a
árvore plenamente desenvolvida. Por outro lado,
a árvore depende das raízea para viver. A energia
de um ser humano, por mais transformada que
esteja em sua expressão em decorrência da aculturação,
permanece, evidentemente, biológica. Há uma
continuidade entre o biológico e o cultural.
O ser humano é um organismo biológico, incorporado
a uma cultura” (25 – p. 244-45). Portanto, o
postulado de Sullivan de que o homem é uma combinação
do biológico e do cultural, concorda plenamente
com a acepção de Comte. Apenas, Sullivan não
utiliza suficientemente os aspectos subjetivos
do comportamento humano em suas concepções teóricas.
Apesar desta ressalva, utilizamos para nossos
estudos e pesquisas os trabalhos de Sullivan,
que nos parecem extremamente úteis para compreender
a adaptação humana ao ambiente social.
Antecipando-se ao desenvolvimento
da Psicologia Comparada, Comte nega a solução
de continuidade no estudo do comportamento do
animal ao homem, quando encarado do ponto de
vista biológico: “A passagem do estado animal
ao humano ou social se realiza de uma maneira
mais direta e mais nítida, limitando-se a desenvolver
as funções internas cerebrais. Estas funções
elevadas, tanto morais quanto intelectuais,
constituem sempre o centro necessário de vida
de relação, como término das impressões externas
e como origem das reações voluntárias. Mas,
entre a maioria dos animais, o seu exercício
é extremamente pessoal e se refere sempre às
necessidades orgânicas, de modo a assegurar
a conservação do indivíduo e, periodicamente,
a da espécie. Embora muitas espécies sejam dotadas
de sociabilidade, essa eminente aptidão só se
desenvolve realmente no ser humano. Somente
aí ela apresenta os dois atributos característicos,
uma total solidariedade e, principalmente, uma
continuidade permanente” (9 – p. 620).
Porém, dentro do campo específico
da Psicologia e da Psiquiatria, quem realmente
fornece contribuições decisivas – atualizando
e sistematizando as interpretações dos fenômenos
psíquicos aa luz da filosofia positivista –
é Silveira. A ligação entre o objetivo e subjetivo,
entre o estrutural e o dinâmico, que Pavlov
considera como sendo o problema fundamental
da Ciência – é plenamente realizada por Silveira
no campo da psicologia e da Psiquiatria. Em
seu trabalho sobre sistemas cerebrais, ao qual
nos referiremos posteriormente, o autor aplica
esta correlação para o diagnóstico e o tratamento
das moléstias mentais (23). E, em seu trabalho
Psicologia Fisiológica, Silveira considera
como fundamentos para a teoria psicológica os
seguintes postulados:
“No domínio cerebral, como nos demais
setores do organismo, existe íntima correlação
entre o plano funcional e o plano estrutural:
no caso, funções neuropsíquicas e organização
anatômica do encéfalo.”
A partir desta concepção, Silveira
desenvolve suas investigações sobre os sistemas
cerebrais – estabelecidos através de correlações
cortiço-corticais e, em parte, subcórtico-corticais.
Estes sistemas resultam de interligações específicas
que se estabelecem entre diferentes áreas do
encéfalo e que se expressam através de processos
psíquicos relativamente distintos. Deste modo
o autor critica as antigas teorias organicistas
que pretendiam isolar “centros cerebrais” autônomos.
Além disso, graças à correlação entre o plano
funcional e o plano estrutural é que se torna
possível distinguir a patogênese dos distúrbios
mentais – quer da natureza dinâmica, quer de
ordem lesional ou anatômica – através da análise
clínica que evidencie o sistema cerebral particularmente
atingido e a esfera psíquica predominantemente
comprometida.
“A
cada função psíquica simples corresponde necessariamente
um órgão cerebral distinto.”
Quanto a este aspecto convém salientar que o órgão se
define como o conjunto estrutural específico
que se traduz em peculiaridades de citoarquitetonia
e de mieloarquitetonia. Não existe aí individuação
que o torne isolável como unidade separada,
em contraposição ao que se passa com os outros
órgãos viscerais. Mas a já verificada especificidade
dos órgãos encefálicos mostra quanto é ilusória
a concepção da chamada “plasticidade cerebral”.
“A identidade prévia da função psíquica
é indispensável à pesquisa do órgão correspondente,
da mesma forma que a estática se depreende da
dinâmica.”
Assim, apenas a apreciação da dinâmica
cerebral nos permitirá distinguir as diferentes
funções psíquicas. Cada função se expressa como
uma relação específica estabelecida entre o
meio e o organismo.
“Tanto no plano dinâmico quanto no
plano estrutural, a pesquisa só se torna eficaz
quando procede do complexo para o simples ou
do todo para as partes”.
Deste modo tanto ao nível do exame
das correlações do substrato
cerebral como na verificação da própria
expressão dos fenômenos psíquicos, Silveira
deduz as funções elementares a partir do sistema
total. Assim, cada função psíquica apenas adquire
significado através das articulações dinâmicas
que elas estabelecem entre si e com o sistema
cerebral considerado em sua unidade complexa.
Evita-se, deste modo, a concepção metafísica
de unidades distintas e que apresentariam qualidades
e natureza intrínsecas. Segundo a teoria positivista,
a caracterização das funções básicas se faz
através da própria verificação de suas expressões
objetivas.
“A estrutura e as condições anatômicas
dos órgãos cerebrais permitem compreender-lhes
as funções psíquicas; porém, estas obedecem
a leis próprias e não são redutíveis a fenômenos
de outra categoria qualquer, nem mesmo aos fisiológicos”
(23 – p.212).
Este postulado nos parece especialmente
elucidativo para expressar o pensamento de Silveira.
Longe de adotar a posição mecanicista – reducionista,
ele a condena. Embora demonstre ser possível
e mesmo indispensável efetuar-se a distinção
dos vários níveis de expressão da dinâmica do
encéfalo, Silveira considera ingênua e irracional
toda tentativa de interpretação dos fenômenos
subjetivos a partir da investigação dos processos
bioquímicos ou dos mecanismos fisiológicos da
atividade cerebral. Como positivista este autor
reconhece que, em cada nível de expressão dos
fenômenos, a intervenção de novas variáveis
significativas e a constelação específica que
resulta na recombinação dos fatores considerados,
exigem a formulação de novos conceitos teóricos,
o exercício de procedimentos adequados ao grau
de complexidade dos fenômenos e ainda a utilização
de métodos de investigação distintos.
O estudo dinâmico dos fenômenos psíquicos,
realizado por Silveira, estabelece a primazia
do todo para a compreensão das partes. Se tivermos
uma idéia precisa do conjunto, podemos compreender
o significado dos elementos constituintes. Utiliza,
portanto, um método de observação que se baseia
predominantemente na indução e nos aspectos
globais do comportamento do indivíduo no ambiente
em que se encontra: tal método naturalista resulta
da apreciação dos seres ou objetos de estudo,
da verificação das condições em que se processam
os fenômenos e suas inter-relações, não se preocupando
em conhecer a finalidade das funções psíquicas,
mas apenas os seus resultados objetivos — o
que exclui as concepções teleológicas encontradas
em outras teorias da personalidade. Portanto,
as concepções psicológicas desenvolvidas por
Silveira baseiam-se fundamentalmente no método
subjetivo estabelecido por Comte. As relações
entre os seres ou fenômenos do mundo exterior
sempre implicam, para o fundador da Sociologia,
em um indivíduo que as observa e interpreta.
Assim, estabelece Corote: "Em síntese,
todo fenômeno supõe um espectador, uma vez que
ele consiste sempre em uma relação específica
entre um objeto e um sujeito" (9 — p. 439).
Laffitte caracteriza o método subjetivo de Comte
da seguinte maneira: "As aquisições da
inteligência humana compreendem duas partes:
uma que provém de nossas sensações e é, portanto,
obtida do mundo externo — é o domínio objetivo;
a outra, que parte da inteligência, que é criada
diretamente por ela, em virtude de seu próprio
exercício — é o domínio subjetivo. Pode-se então
dizer que o obJetivo é o mundo, e o subjetivo
é o homem. Temos assim dois modos de filosofar,
duas maneiras de regular e de coordenar nossos
conhecimentos; pelo relacionamento com o mundo
e pelo seu relacionamento com o homem, e, portanto,
temos dois métodos: o método obJetivo e o método
subJetivo” (9— p. 3). E em seguida: ”Coordenar
as relações com o mundo, através do método obJetivo,
é procurar, na multiplicidade e na complexidade
dos fenômenos exteriores, aqueles em tomo dos
quais se deverão agrupar todos os outros; é
preciso, portanto, conhecer o meio externo nas
menores particularidades, e nada omitir. Tal
coordenação não é possível porque nunca poderemos
conhecer completamente o mundo externo. A única
consideração viável é aquela que toma o homem
como ponto de partida, que faz convergir em
torno deste conhecimento fundamental todos os
outros conhecimentos, considerados como acessórios.
Esta sistematização é subjetiva porque ela depende,
não de um fenômeno necessariamente designado
pelo meio externo, mas de um fenômeno escolhido
por nós mesmos segundo nossa liberdade, e a
nosso serviço” (11 — p. 4).”O conhecimento da
Humanidade e do homem supõe, com efeito, o conhecimento
do mundo externo. / ... / Longe de nos afastar
do estudo do mundo, ligando-nos ao do homem, o ponto de vista subjetivo tem
por efeito, ao contrário, estimulá-lo, dando-lhe
uma direção e uma finalidade” (11 —-p. 5). Comte
estabelece a prioridade das concepções dinâmicas
sobre as estáticas no campo da Biologia, do
seguinte modo: **No estado normal da Biologia,
continuarão a ser apreciadas com cuidado as
relações especiais entre as funções e os órgãos.
Mas estes estudos parciais deixarão de ser isolados;
serão sempre instituídos e prosseguidos, diretamente
em vista da observação sintética, para melhor
conceber a relação geral entre o organismo e
o meio, única que constituí o verdadeiro tema
do pensamento biológico “(9 — p. 642).” As relações
especiais entre os órgãos e as funções, estando
doravante concebidas como desenvolvendo a relação
geral entre o organismo e o meio, o espírito
científico da Biologia atinge, portanto, uma
completa unidade. As pesquisas sobre elas tenderão
sempre, direta ou indiretamente, a fazer melhor
concordar o estado dinâmico com o estado estático,
determinando as funções de todos os órgãos e
estes, as de todas as funções* (9 — p. 645).
"A íntima harmonia entre a concepção estática
e a concepção dinâmica caracteriza sempre a
verdadeira maturidade das noções sobre a vida"
(9 — p. 647).
A importância e a eficiência do método
subjetivo não foram apreciadas apenas pelos
positivistas, mas também por outras escolas
psicológicas. Por exemplo, Andras Angyal, um
dos principais representantes da escola holística,
estabelece para sua teoria exatamente os mesmos
princípios que foram apresentados por Comte:
"O organismo é considerado não como estrutura
estática, mas como uma organização dinâmica,
já que a forma essencial da existência individual
é a dinâmica. O processo vital ocorre sempre
entre o organismo e o ambiente" (l — p.
50). E em outro passo: "As características
essenciais do organismo são mais claramente
reveladas em suas funções do que em suas características
morfológicas. A estrutura morfológica está subordinada
à organização funcional que tem uma primazia
lógica" (2).
Note-se a plena concordância entre
as afirmações de Angyal e as de Audiffrent,
discípulo de Comte: "A nova teoria cerebral
será então essencialmente sintética, isto é,
considera sempre o conjunto do organismo. O
cérebro não deverá ser considerado isoladamente
do corpo, o qual influencia sempre, embora secundariamente,
suas operações. /.../ As noções estáticas serão
sempre subordinadas às dinâmicas" (9 —
p. 71).
Em suma, a teoria da personalidade
por nós utilizada baseia-se essencialmente na
consideração do homem como ser social e, portanto,
na interação dinâmica com o ambiente, e permite
ao mesmo tempo a correlação entre os fenômenos
psíquicos e o seu substrato anatômico. Neste
sentido, as investigações de Silveira consideram
dois aspectos: um psíquico, que é subjetivo,
e um somático, referido ao encéfalo. Deste modo,
podemos considerar os fatores biológicos, que
estão correlacionados à estrutura da mente.
O indivíduo toma contato com o meio externo,
evidentemente porque o cérebro está funcionando,
mas os processos psíquicos não se reduzem aos
de ordem neurofisiológica, pois possuem diretrizes
próprias em seu dinamismo. Silveira aplica o
princípio de Comte, de que é indispensável o
conhecimento prévio das funções que correspondem
à mente, ao psiquismo, para verificar os órgãos
que preenchem essas funções. Parte da observação
clínica para a anatomia patológica. O imperativo
do conhecimento das funções psíquicas para o
estudo da personalidade foi igualmente reconhecido
por Angyal, que, embora pertencendo à escola
holística, não chega a concepções extremas de
outros autores da mesma escola. Assim, o mencionado
autor reconhece a relativa autonomia das funções
psíquicas, em relação ao organismo total.
De modo a precisar os fundamentos
da teoria da personalidade. Silveira realiza
um estudo comparado, relativo à evolução do
sistema nervoso humano na escala animal (24).
Correlaciona, igualmente, o amadurecimento psicológico
do indivíduo à formação das bainhas mielínicas
que envolvem os feixes cerebrais das diversas
áreas corticais (24), de acordo com Flechsig.
Antes de desenvolvermos a concepção
de personalidade adotada por Silveira, cabe
ainda fazer uma observação. Em sua elaboração
precisa da teoria da personalidade, baseada
em sólidos conhecimentos filosóficos, psicológicos,
psiquiátricos e em investigações em neurofisiologia,
citoarquitetonia, anatomia comparada à genética
humana. Silveira mantém a terminologia adotada
por Comte. Pondera que não se faz necessário
criar novos termos em Psicologia, uma vez que
em certos campos da Medicina — como na anatomia
e na fisiologia geral — os termos utilizados
no século passado ainda permanecem. Assim, por
exemplo, a denominação artéria significa
elemento condutor de ar, o qual era considerado
como representante do espírito que mantinha
o homem vivo. Embora desde Harvey ninguém admita
tal interpretação, o termo ainda é mantido,
porém agora definido de modo científico. Também,
não foi abolido o termo respiração que
implicava absorção daquele espírito.
Acreditamos que a adoção de uma terminologia
leiga não oferece qualquer prejuízo aos diversos
ramos da Biologia — já que se trata de conhecimentos
especializados e precisos, que dificultam a
interferência de Juízos de valor por parte do
especialista. Ora, o mesmo não ocorre em Psicologia.
Termos como bondade, orgulho, vaidade,
por exemplo, possuem conotação assaz valorativa
para o leigo, e têm igualmente sofrido interpretações
vagas e diversas por parte de diferentes psicólogos,
os quais ignoram que na teoria de Comte esses
termos correspondem a funções psíquicas bem
definidas, que traduzem o trabalho de órgãos
corticais identificáveis. Utilizá-los para nomear
funções psíquicas poderá acarretar confusões
e interpretações falseadas do próprio especialista.
Mesmo que se defina, como o faz Silveira, o
significado preciso da função subjetiva bondade,
sempre permanecerá o juízo de valor associado
ao termo. O próprio autor não tem empregado
o termo alma adotado às vezes por Comte,
e também pela Psiquiatria e Psicologia alemãs
("Seele"). Recorre à expressão, que
também foi estabelecida por Comte e por Audíffrent:
funções cerebrais. E, ainda, a acepção
em que usa o termo personalidade é mais
ampla do que aquela desenvolvida por Comte.
Preferimos simplesmente definir cada função
psíquica, segundo sua característica básica,
adotando apenas a terminologia mais específica
do campo psicológico. Além de evitarmos mal-entendidos,
poderemos correlacionar o significado de cada
função, mencionado por Silveira, às concepções
de outros autores que secundariamente influenciaram
as nossas investigações.
|