A
ATUAL POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL NO PAÍS
E O DELIBERADO ESTRANGULAMENTO FINANCEIRO DOS HOSPITAIS
DE PSIQUIATRIA CONTRATADOS PELO SUS.
Para
melhor compreensão das motivações,
das razões, e das conseqüências da
atual política de saúde mental no Brasil
exige-se uma brevíssima digressão histórica
da assistência ao doente mental e das conseqüências
de políticas semelhantes implantadas na América
do Norte a partir da década de 60 e, em alguns
países da Europa.
1. O FENÔMENO DA LOUCURA É CIENTIFICAMENTE
RECONHECIDO COMO UMA DOENÇA A SER CUIDADA E TRATADA
PELA MEDICINA.
Por
muitos séculos, os doentes mentais viveram relegados
à própria sorte, estigmatizados pela falta
de compreensão do fenômeno psíquico,
então atribuído, principalmente, às
forças inumanas de bestas e de demônios,
razão pela qual eram confinados em celas, muitas
vezes acorrentados, como medida de proteção
às populações das cidades.
A
primeira compreensão científica da doença
mental vem do médico francês Philipe Pinel
(1765-1826) sintetizada, a partir de então os
locais de confinamento de doentes mentais passaram a
adotar os métodos terapêuticos de Pinel
num primeiro passo de humanização dessas
instituições. No mesmo século,
trinta anos depois da morte de Pinel, nasceu Freud,
ambos desenvolveram seus conhecimentos científicos
no campo da neuropatologia em importantes hospitais,
e que levaram à ampla compreensão
de que a insanidade decorria da doença do cérebro
e de seus distúrbios.
2. OS HOSPÍCIOS E AS COLÔNIAS
PÚBLICAS PARA DOENTES MENTAIS.
Desde
então, até o final da segunda metade do
século passado, década de 50, muitos países
resolveram abrigar os doentes mentais que se encontravam
em pleno abandono nas ruas ou nas cadeias e para tal
construíram gigantescos hospícios
ou colônias públicas que passaram
a cuidar de milhares de doentes submetidos aos incipientes
métodos terapêuticas que não tinham
a eficácia necessária para remissão
dos quadros clínicos, razão pela qual
os hospícios e as colônias públicas
em todos os países foram se agigantando.
No Brasil
não foi diferente e em diversos Estados foram
construídos enormes hospícios e colônias
públicas que, pelas mesmas razões, se
agigantaram chegando a de Juqueri, no Estado de São
Paulo, a albergar aproximadamente 18.000 (dezoito mil)
doentes mentais.
3. AS
CONDIÇÕES DOS HOSPÍCIOS E DAS COLÔNIAS
PÚBLICAS PASSARAM A JUSTIFICAR A CHAMADA “REFORMA
PSIQUIÁTRICA” PORQUE GIGANTESCOS, ANACRÔNICOS
E ONEROSOS PARA OS COFRES DOS GOVERNOS.
Com
o transcorrer do tempo, estes gigantescos hospícios
e colônias públicas tornaram-se absolutamente
anacrônicos e onerosos. Esta situação
abriu espaço para o crescimento da antipsiquiatria
que ganhou força na década de 60, especialmente
na América do Norte, embalada pelo que se denominou
de Psiquiatria Social inspirada, basicamente,
no pensamento de que o doente mental era, apenas,
uma pessoa diferente e por isso, moralmente excluído
da sociedade nos enormes asilos, hospícios e
colônias públicas que abrigavam milhares
deles. Na Itália pelas mesmas razões
prosperou a idéia de Franco Basaglia que, no
final da década de 70, se transformou na Lei
nº 180 aprovada pelo Parlamento Italiano. Estas
propostas de reforma também foram impulsionadas
porque representavam uma grande economia financeira
para aqueles países, como a Inglaterra e os países
da América do Norte que, assim, trataram de fechar
os enormes asilos, hospícios e colônias
públicas.
Mas
a intenção de abrigar e tratar doentes
mentais graves na comunidade fracassou e lançou
nas ruas e nas cadeias os doentes mentais que passaram
a ter, inclusive, o direito de recusar o tratamento
psiquiátrico, conforme aconteceu nos Estados
Unidos da América, caracterizando um retorno
patético e desumano às épocas de
desassistência e abandono.
4. AS CONSEQÜÊNCIAS DA REFORMA EM DIVERSOS
PAÍSES.
Estados
Unidos da América.
A reforma
no USA começou na década de 60 quando
o Governo Kennedy transferiu para
os Estados a responsabilidade de fechamento dos hospícios
públicos visando o tratamento de doentes mentais
na comunidade. Muito se poderia dizer e escrever
sobre o desastroso fracasso para os doentes mentais
da reforma antimanicomial americana, porém o
artigo “Out of the Asylum, Into the Cell”
da psiquiatra Sally Satel (Anexo I), publicado
em 1 de novembro de 2003 no New York Times, bem sintetiza
a questão.
Em
2000, na USA existia 0,35 leito de psiquiatria por 1.000
habitantes.
Inglaterra.
No Governo
conservador da Ministra Margaret Tacher a reforma ganhou
espaço e, pelas mesmas razões, provocou
o desmonte dos asilos e dos hospícios públicos,
inclusive, redução e desprestígio
dos hospitais de psiquiatria. A política
radical de tratar doentes graves na comunidade economizou
milhões de libras, mas também fracassou
e os doentes acabaram abandonados pelas ruas.
É o que mostram as informações
a respeito, que vêm de Londres no artigo “Acute
hospital care in inner London” (Psychiatric
Bulletin (2003), 27, 83 –86) do Dr. Luiz
Dratcu, MD PhD Mphil MRCPsych Consultant na Senior lecture
in Psychiatry.
Em
2000, na Inglaterra existia 0,97 leito de psiquiatria
por 1.000 habitantes.
França.
Na França,
foi publicado no jornal “Le Monde”, em 7
de junho de 2003, o editorial “Psiquiatria em
perigo” que bem expressa uma política de
saúde mental que não prestigia os hospitais
de psiquiatria e os psiquiatras, conforme o resumo daquele
jornal.
Psychiatrie
en péril
Article publié le 7 Juin 2003
par
Taille de l'article: 482 mots
LA PSYCHIATRIE française va mal. Et les psys
dépriment. Réunis pour la première
fois en états généraux, à
Montpellier, tous métiers confondus - psychiatres
en secteur public ou libéraux, psychologues,
infirmiers psychiatriques ou travailleurs sociaux -,
ils le disent haut et fort, las ou...
Source: LE MONDE
Assim, traduzido:
“A
psiquiatria em perigo.
A
psiquiatria francesa anda mal das pernas e os psiquiatras
do país estão deprimidos. Reunidos
pela primeira vez num congresso que buscou arrebanhar
a maior quantidade possível de representantes
da profissão, em Montpeilier (no centro sul),
todas as especializações juntas –
o que inclui os psiquiatras do setor público
ou privado, os psicólogos, os enfermeiros psiquiátricos
ou ainda os trabalhadores sociais – eles
afirmam em alto e bom som que estão cansados
ou revoltados com o silêncio que sempre tem respondido
aos seus gritos de alarme há muito tempo. Tratando-se
de médicos que se dedicam a amenizar o sofrimento
dos outros, o fato de vê-los exporem dessa forma
o seu próprio mal-estar não é pouca
coisa.
É
verdade que o balanço que eles estão apresentando
não é brincadeira. De um lado, os meios
de atendimento e de acompanhamento dos pacientes no
campo da psiquiatria vêm sendo reduzidos de forma
inexorável, alcançando níveis irrisórios
mais de 125 mil vagas de hospitalização
foram suprimidas entre 1970 e 2000, numa tendência
que tem sofrido uma aceleração brutal
ao decorrer da última década.
Após ter sido considerada por muito tempo, a
criação de diversos setores permitiu a
criação de estruturas de tratamento adaptadas
às necessidades dos pacientes, desde as etapas
iniciais da hospitalização até
às mais complementares.
Mas
esta política, mais maleável e mais humana
que a dos antigos sanatórios, também serviu
de pretexto para os poderes públicos que se aproveitaram
dela para fazer economias drásticas”.
No
entanto, durante esse período, a demanda explodiu.
Além das patologias tradicionais da loucura –
psicose, demência e alcoolismo – acrescentaram-se
progressivamente as neuroses, as depressões e
novas formas de ansiedade e de perturbações
do comportamento ou da alienação.
A evolução da sociedade também
contribuiu muito para essa situação. Com
a desagregação das antigas redes de sociabilidade,
a precariedade do trabalho e as mais diversas rupturas
do tecido social que ocorreram ao longo das últimas
décadas, não faltaram fatores que contribuíssem
para acentuar as fraturas individuais e psíquicas.
A tal ponto que os psiquiatras estão sendo rotinados
para assumir daqui para frente uma parte cada vez maior
do sofrimento social.
Ora,
os poderes públicos e além deles, a sociedade
como um todo, parecem estar fazendo vistas grossas em
relação a uma situação que
é considerada intolerável não só
pelos profissionais, mas também pelas famílias
dos pacientes. Será mesmo normal ter que driblar
as disposições dos regulamentos e ter
que passar por cima da penúria para poder hospitalizar
um doente em regime de urgência? Será mesmo
aceitável obrigar pacientes a esperar durante
meses até conseguirem agendar uma consulta num
consultório privado ou uma internação
numa instituição?
Por
quanto tempo teremos que lidar com uma situação
na qual raríssimas instituições
aceitam assumir o tratamento de crianças autistas
as quais estão reduzidas a se inscrever em listas
de espera intermináveis? Não será
indigno para uma sociedade desenvolvida constatar que
ela não é mais capaz sequer de atender
aos loucos no sanatório, assim como ela tem feito
ao longo de décadas (mesmo que em condições
geralmente desumanas), e que ela se contenta, na maioria
dos casos, em rejeitá-los e deixá-los
vagando pelas ruas?
Por
fim, após décadas de avanços importantes
nos campos da psiquiatria e da psicanálise, será
mesmo aceitável constatar que, diante da falta
de meios, os médicos recorrem cada vez mais maciçamente
aos medicamentos – no caso, é melhor falar
em drogas – para apagar o sofrimento psíquico
sem cuidar verdadeiramente do paciente nem lhe permitir
refletir sobre o sentimento de seu sofrimento? Pois
o risco maior se dá exatamente neste ponto, a
socialização da doença mental,
assim como o seu tratamento farmacêutico, conduz
quase sempre a aquele antigo reflexo que consiste em
ocultar a loucura, em vez de tentar curá-la”.
No resumo
de artigo “Grandes et petites misères
de la psychiatrie française” (Article publié
le 7 Juin 2003, Par Plantu Taille de l'article :214
mots), indica a severa crise na assistência
ao doente mental.
“Extrait:
LA PSYCHIATRIE française traverse une crise sévère.
Toujours plus sollicitée, elle doit faire face
à une baisse drastique de moyens qui remet en
cause les fondements même de la spécialité.
Réunis à Montpellier du 5 au 7 juin pour
les premiers Etats généraux de la discipline,
1 500 à 2 000 médecins, infirmiers et
travailleurs sociaux entendent alerter l'opinion et
les pouvoirs publics sur la gravité de la situation.
La politique de «sectorisation»
et d'ouverture vers l'extérieur, a abouti à
une chute considérable du nombre de lits dans
les hôpitaux.”
Em Montpellier,
5 a 7 junho de 2003, as entidades francesas agrupadas
no Estado Maior da Psiquiatria Francesa ( Lês
Etats Généraux de La Psychiatrie) constituído
por: •La Fédération
Française De Psychiatrie (FFP): Elle regroupe
les associations scientifiques françaises de
psychiatrie. • LES SYNDICATS DE PSYCHIATRES:
Le Comité d'Action Syndical de la Psychiatrie
(CASP): Le Syndicat des Médecins Psychiatres
des Organismes Publics, Semi-publics et Prives; Le Syndicat
National des Psychiatres Privés; Le Syndicat
des Psychiatres Français; Le Syndicat des Psychiatres
des Hôpitaux; Le Syndicat Universitaire de la
Psychiatrie; L'Union Syndicale de la Psychiatrie; L’Intersyndicale
de Défense de la Psychiatrie Publique (IDEP):
Le Syndicat des Psychiatres d’Exercice Public;
Le Syndicat des Psychiatres de Secteur; Avec la Conférence
des Présidents de CME des CH(S) • AVEC:
• L’Association pour la Formation Française
et Européenne en Psychiatrie (internes); •
Le Syndicat National des Psychologues; • L’Association
des Cadres et Infirmiers en Santé Mentale; •
L’Association Nationale Française des Infirmiers-Infirmières
Diplômés et des Etudiants; • Le Comité
d'Etudes des Formations Infirmières et des Pratiques
en Psychiatrie • Soins Etudes et Recherche en
Psychiatrie; • La Fédération d’Aide
à la Santé Mentale Croix Marine; •
L’Union Nationale des Cliniques Psychiatriques
Privées; • Groupe d’Etudes et de
Recherches sur le Service Social en Psychiatrie; •
CFDT Santé Sociaux; • CGT santé
Action Sociale; • SUD Solidaires, Unitaires et
Démocrates, devido à severa
crise na saúde mental decorrente de política
irresponsável de desospitalização
e redução de leitos de psiquiatria desenvolvida
nos últimos 30 anos, a semelhança do Ministério
da Saúde do Brasil iniciada nos últimos
8 anos, reunidos em Assembléia Geral,
decidiram pleitear um orçamento nacional específico
para a psiquiatria e 22 medidas urgentes, entre elas:
- garantir condições de hospitalização
e acolhimento decente, aumento do número de
leitos e de estruturas extra-hospitalares;
- aumento dos orçamentos das clínicas
a fim de alinhar os salários dos profissionais
de saúde mental com os demais do setor público;
e
- restaurar as condições de hospitalização
regulando o número de leitos em função
das reais necessidades da população concernente.
Em
2000, na França existia 1,18 leito de psiquiatria
por 1.000 habitantes.
Suécia.
Neste
país riquíssimo a reforma
também atingiu os hospitais de psiquiatria transferindo
os doentes para a comunidade, mas pela primeira
vez na história moderna daquele país,
surgiram nas ruas os doentes mentais abandonados.
O fato ensejou uma reviravolta no modelo de saúde
mental com a reabertura de leitos em hospitais de psiquiatria.
Em
2000, na Suécia existia 0,66 leito de psiquiatria
por 1.000 habitantes.
Itália.
A reforma
italiana, também motivada pelo anacronismo dos
hospícios públicos italianos, teve seu
início com aprovação da lei nº
180 de 1978 inspirada nas idéias fenomenológicas
de Franco Basaglia. Naquela oportunidade existiam 78.538
leitos em hospícios públicos que não
participavam dos avanços da psiquiatria, simplesmente
albergavam aqueles enfermos.
As principais
características da lei 180 de 13 de maio de 1978
são: proibição de todas as admissões
em hospícios públicos sem altas forçadas,
execução dos serviços na comunidade,
prescrição de hospitalizações,
voluntárias e involuntárias, somente em
situações de emergência. A nova
política direcionou os doentes crônicos
para Residências Terapêuticas e as internações
de emergências para as unidades psiquiátricas
de hospitais gerais.
Em 1996
compareceu no I Congresso Nacional da Associação
de Familiares de Doentes Mentais do Brasil - AFDM do
Brasil a Sra. Anna Rosa Andretta, Presidente
da DIA.PSI.GRA (Associação de Familiares
da Itália), que, na oportunidade, denunciou
com exibição de fotografias dezenas de
doentes mentais abandonados nas ruas de Roma, como também,
o estado precário e de depredação
do interior de várias Residências Protegidas.
O artigo
“Residential care in Italy” publicado
no British Journal of Psychiatry (2002),
181, 220-225, traz dados interessantes que mostram a
existência na Itália de 1.370 NHRFs (Residências
Terapêuticas) com um total de 17.138 leitos com
quadro de 18.666 profissionais, portanto, mais de um
por doente mental internado, sendo que 73,4% das residências
têm funcionários nas 24 horas, 24,4% menos
que 24 horas. Esta realidade demonstra que as
Residências Terapêuticas estão estruturadas
como mini hospitais de psiquiatria com média
de 12 leitos, sendo certo que os doentes mentais entram
na Residência Terapêutica e lá permanecem
por tempo indefinido, praticamente não existe
saída.
Chama
atenção que o número de profissionais
das Residências Terapêuticas Italianas é
muito superior aos recursos humanos normatizados no
Brasil pelo Ministério da Saúde para hospitais
de psiquiatria contratados ou conveniados pelo SUS.
Em 1984
uma pesquisa executada na Itália pela CENSIS
constatou que existiam 675 serviços de
comunidade, 236 unidades psiquiátricas em hospitais
gerais com 3.113 leitos, 2.901 leitos em Residências
Protegidas, e uma redução de 60.000 para
30.000 leitos em hospícios públicos.
Entre 1996 e 1998 um total de 26 (vinte e seis) hospícios
públicos fechou e o número de doentes
internados caiu de 17.068 em dezembro 1996 para 7.704
em 2000 sendo 4.769 leitos em hospitais de psiquiatria
públicos e 2.935 leitos em hospitais
de psiquiatria privados.
Segundo
consta no artigo “Therapeutic communities
and Italian Law 180: how they affected each other?”
de Aldo Lombardo, no ano de 2000, existiam 17.373
leitos de psiquiatria em Residência Terapêutica,
4.400 leitos em hospital de psiquiatria público
e 5.600 leitos em hospitais de psiquiatria privados.
Uma
observação importante mostra que na Itália,
de 1996 a 2000, os leitos em hospitais de psiquiatria
privados aumentou de 2.935 para 5.600, representando
uma variação de quase 100% no período
de 4 (quatro) anos.
Em
2000, na Itália existia 0,39 leito de psiquiatria
por 1.000 habitantes.
5. A ASSISTÊNCIA AOS DOENTES MENTAIS NO BRASIL
E OS HOSPITAIS DE PSIQUIATRIA.
5.1
- DOS PRIMÓRDIOS DA ASSISTÊNCIA.
No ano
de 1543, na cidade de Santos, foi fundada a primeira
Santa Casa no país, depois em 1582, na cidade
de São Sebastião do Rio de Janeiro surgia
a segunda Santa Casa organizada pelo Padre Anchieta
para atender aos enfermos da tripulação
da esquadra espanhola de Diogo Valdez com destino ao
Estreito de Magalhães.
Em
1830 foi promulgado o Código Criminal do Império
do Brasil que afirmava, de acordo com os artigos 10
e 11 que "os loucos de todo o gênero, salvo
se tiverem lúcidos intervalos e nele cometerem
o crime" não seriam julgados criminosos.
Ainda no artigo 12 estabelecia-se que "os loucos
que tiverem cometido crimes, serão recolhidos
às casas para eles destinadas, ou entregues às
suas famílias, como ao juiz parecer mais conveniente"
(ENGEL, 1995, 251), em razão dos loucos perturbarem
a cidade, em especial, o funcionamento do Porto do Rio
de Janeiro.
Assim
os denominados loucos passaram a ser recolhidos das
ruas da cidade e levados para albergues, inclusive,
utilizando-se os porões da Santa Casa do Rio
de Janeiro.
Posteriormente,
os denominados loucos passaram a ser considerados doentes
mentais e a Irmandade, com apoio do Imperador, construiu
na Praia Vermelha o Hospício Pedro II
visando introduzir os métodos terapêuticos
preconizados por Pinel.
Consta
no Dicionário Histórico-Biográfico
das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)
o seguinte:
“Em
2 de julho de 1840 foi lançada a pedra fundamental
do edifício, onde seria instalado o citado Hospital,
na rua Santa Luzia. A solenidade contou com a presença
do Imperador Pedro II, ainda menor de idade, das Princesas
e do Regente do Império, Pedro de Araújo
Lima. Inaugurado em 27 de julho de 1852, sua planta
original, de autoria do engenheiro Domingos Monteiro,
foi modificada em alguns pontos por José Maria
Jacinto Rebelo, discípulo do artista francês
Grandjean de Montigny, que adotou um estilo neoclássico.
Com fins de fornecer acomodações
mais apropriadas para os doentes mentais que se encontravam
em precárias condições na enfermaria
daquele Hospital, Clemente Pereira durante sua gestão
promoveu também a construção de
um hospício para acolhê-los, situado na
Praia Vermelha. Em 1842, foi iniciada a construção
do prédio, inaugurado em novembro de 1852 com
o nome de Hospício de Pedro II, onde funcionam
hoje algumas dependências da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ).
A
partir da metade do século XIX os alienados foram
considerados doentes mentais e passaram a contar com
hospitais especiais para seu acolhimento no Brasil.
O Hospício de Pedro II foi o primeiro a propiciar
um tratamento mais humano a esses doentes, à
base de sedativos e de métodos terapêuticos
preconizados pelo médico francês Philippe
Pinel, que substituíram os métodos corretivos
e de coerção. A Santa
Casa do Rio de Janeiro foi, assim, pioneira na aplicação
desses métodos de tratamento dos alienados, considerados
mais modernos na época. Em 1844, durante
a gestão de Clemente Pereira, foi enviado à
Europa o médico Antônio José Pereira
das Neves para visitar os manicômios e estudar
os novos processos terapêuticos de Philippe Pinel.
Com a República, o Hospício foi desvinculado
da Santa Casa, passando à administração
federal, quando seu nome foi mudado para Hospital Nacional
dos Alienados”.
5.2
- DOS ASILOS PARA OS HOSPÍCIOS E COLÔNIAS.
Até
o final do século XIX, o saber psiquiátrico
brasileiro seguiu a linha da escola francesa de Philippe
Pinel, depois, no século XX, por intermédio
do médico Juliano Moreira, passou a sofrer influência
da escola de psiquiatria alemã.
No
período de transição da escola
francesa para a alemã surgiram, no Rio de Janeiro,
os primeiros estabelecimentos públicos especializados
que adotaram uma concepção mais avançada
no tratamento aos doentes mentais, inclusive, substituindo-se
os asilos da Ilha do Governador, que se encontravam
em precárias condições, pela Colônia
Juliano Moreira, localizada na longínqua região
de Jacarepaguá, cujo modelo espalhou-se por todo
o país.
O
trabalho intitulado “Cronologia: História
da Psiquiatria e Saúde Mental no Brasil”
mostra uma seqüência histórica da
criação de hospitais de psiquiatria no
BRASIL, de 1800 a 1954, e propicia uma visão
interessante do desenvolvimento da assistência
aos doentes mentais no país.
Cabe
destacar que no ano de 1945 a publicação
da reforma do Código Brasileiro de Saúde
condenou as denominações de hospício,
asilo, retiro e recolhimento para os novos estabelecimentos
de tratamento de doentes mentais, recomendando a
denominação de Hospital como mais adequada
às funções médicas.
(SAMPAIO, 1988, 28).
5.3 - DAS MUDANÇAS PROVOCADAS
PELOS INSTITUTOS DE PREVIDÊNCIA SOCIAL.
No
ano de 1860, para atender os doentes mentais vinculados
ao Instituto de Aposentadoria e Pensões do Comerciário
-IAPC, foram criados estabelecimentos e unidades de
psiquiatria privados, por exemplo, uma enfermaria com
40 leitos na Casa Dr. Eiras no aristocrático
bairro de Botafogo, na Cidade do Rio de Janeiro.
Os
Institutos de Previdência passaram a multiplicar-se
com a Lei Eloy Chaves (1923) e seus associados passaram
a exigir uma assistência diferenciada para seus
doentes mentais e, assim, começaram a surgir
os hospitais de psiquiatria privados que se destacavam
dos hospícios e colônias públicas
pela incorporação das terapêuticas
decorrentes dos avanços da Psiquiatria e de outras
ciências, inclusive, colaborando com a pesquisa
de psicofármacos que começaram a surgir,
principalmente, a partir da década de 50, representando
o maior avanço no tratamento dos doentes.
Os hospitais
de psiquiatria passaram a incorporar rapidamente os
avanços da psicofarmacologia e assim, ganharam
a preferência dos Institutos de Previdência
e da População em detrimento dos hospícios
e colônias públicas que, desprestigiadas,
se deterioram e passaram a expressar um modelo anacrônico.
5.4
- DA EXPANSÃO DOS HOSPITAIS DE PSIQUIATRIA PRIVADOS.
A partir
da década de 60 ocorreu uma expansão dos
hospitais de psiquiatria privados em função
da exigência dos segurados dos diversos Institutos
de Previdência Social que optaram pela contratação
de novos serviços em vez de utilizarem os hospícios
públicos.
Na
década seguinte, o Ministério da Saúde
em consonância com as recomendações
constantes do Plano Decenal de Saúde para as
Américas, aprovado na III Reunião Especial
de Ministros de Saúde das Américas, realizada
no Chile, em outubro de 1972 e com as diretrizes da
Política Nacional de Saúde, baixou a portaria
GM/MS nº 32/BSB, de 22 de janeiro de 1974
(Diário Oficial Seção I -Parte
I de 31 de janeiro de 1974), deu “ênfase
aos princípios que orientam a psiquiatria de
comunidade” e entre os diversos aspectos
tratou de:
a)
incrementar a criação de unidades de saúde
mental nas cidades com mais de 100.000 habitantes;
b)
dar prioridade ao tratamento ambulatorial e prioridade
para hospitalização curta, de preferência
em hospitais gerais, e
c)
“estabelecer uma relação de 1 leito
para 1.000 habitantes nas zonas urbanas e 1 leito para
2.000 habitantes nas zonas rurais para hospitais de
psiquiatria”.
Caracterizada
a necessidade de demanda e definido o parâmetro
de leitos em hospitais de psiquiatria os Institutos
de Previdência passaram a contratar os hospitais
que se implantaram em diversas regiões do país
configurando-se uma rede assistencial cujo número
total de leitos nunca atingiu o parâmetro de cobertura
recomendado pelo Ministério da Saúde.
Os diversos
Institutos de Previdência fundiram-se no INPS
que normatizou a psiquiatria hospitalar de forma exemplar
e, assim, os hospitais privados foram classificados
pela RECLAR e passaram a oferecer ambientes terapêuticos,
equipe multidisciplinar, terapia ocupacional, passeios,
etc tudo aquilo que anos depois foi feito no Hospital
de Goriza, na Itália, como modernidade e inovação
proposta por Franco Basaglia.
5.5
DA NECESSIDADE DE LEITOS DE PSIQUIATRIA POR MIL HABITANTES.
Recentemente,
o Ministério da Saúde registrou a existência
de 247 hospitais privados e públicos
vinculados ao SUS com o total de 54.578 leitos, o que
representa uma média de 220 leitos por unidade
hospitalar.
Em 2002,
a portaria GM/MS nº 1.001, de 12 de junho
de 2002, estabeleceu o parâmetro de cobertura
de leitos hospitalares por 1000 habitantes no país
definindo para os leitos de psiquiatria 0,45 por 1.000
habitantes.
LEITOS
PSIQUIÁTRICOS POR MIL HABITANTES
| Ano |
População |
Parâmetros* |
LEITOS
DE PSIQUIATRIA |
| |
Total
|
Urbana |
Rural |
|
Preconizados |
Existentes |
Déficit |
Censo
1991
|
146.825.475 |
110.990.990 |
35.834.485 |
1
leito por 1000 habitantes urbano e 2000 rural** |
128.907 |
91.330 |
37.577 |
| Contagem
1996 |
157.070.163 |
123.076.831 |
33.993.332 |
1
leito por 1000 habitantes urbano e 2000 rural |
140.072 |
72.514 |
67.558 |
Censo
2000
|
169.872.856 |
137.925.238 |
31.947.618 |
1
leito por 1000 habitantes urbano e 2000 rural |
153.898 |
60.868 |
93.030 |
| Estimativa
2003 |
177.758.088 |
|
|
0,45
leito por 1000 habitantes*** |
79.991 |
54.578 |
25.413 |
*Parâmetros para cálculo da necessidade
de leitos por 1.000 habitantes.
**Portaria GM/MS nº 32/BSB, de 22 de janeiro de
1974.
***Portaria GM/MS nº 1101, de 12 de junho de 2002.
5.6
- A REDUÇÃO DE LEITOS DE PSIQUIATRIA NO
PAÍS.
Em
2000, no Brasil existia 0,35 leito de psiquiatria por
1.000 habitantes.
A
população de 2003 está estimada
em 177.758.088 habitantes e existe
o total de 54.578 leitos de psiquiatria
em 247 hospitais privados e públicos vinculados
ao SUS o que representa 0,30 leitos por mil
habitantes. Em termos absolutos o número
de leitos de psiquiatria no país reduziu-se de
91.330 (ano de 1991) para 60.868 (ano 2000) e para 54.578
leitos (ano 2002) conforme as fontes DATASUS E PNASH
2002.
5.7 - AS PRINCIPAIS RAZÕES PARA NÃO
SE CONTINUAR NO PAÍS UMA REFORMA PSIQUIÁTRICA
À MODA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA INICIADA
NOS IDOS DE 60 E DA ITALIANA A PARTIR DA DÉCADA
DE 80 - LEI Nº 180, DE 1978 FRANCO BASAGLIA.
a) a reforma italiana foi realizada exclusivamente em
hospícios públicos anacrônicos
enquanto aqui está sendo encima de hospitais
de psiquiatria modernos e eficazes que a cada ano, na
época desinstitucionalizavam ou desospitalizavam
mais de 500.000 doentes mentais, tudo que gostariam
de ter na Itália;
b)
a reforma italiana substituiu leitos de hospícios
públicos tenebrosos por leitos em residências
protegidas. Foi um caos, depois, transformaram
as residências em mini hospitais com 12 leitos
em média e com staff superior a 1 profissional
por leito;
c) a reforma italiana transferiu a institucionalização
dos doentes mentais nos hospícios públicos
para as residências protegidas que não
dão alta e quando dão é 1 ou 2
por ano;
d)
a reforma italiana fechou leitos em hospícios
públicos anacrônicos reduzindo o total
de leitos para quase 30.000 enquanto no Brasil a proporção
de leitos por mil habitantes já é menor
que a Italiana;
e)
a reforma italiana fechou os hospícios públicos
enquanto no Brasil os hospícios públicos
semelhantes ainda existem e nenhum deles foi fechado;
f)
a reforma italiana provocou o surgimento de 5.600 leitos
privados de psiquiatria em diversos hospitais e clínicas
distribuídos pela Itália;
g)
a reforma italiana quando aplicada em outros países,
p. ex Suécia, foi um fracasso ao reduzir leitos
de hospitais e transferir doentes para residências
na comunidade que acabaram por fazer aparecer, pela
primeira vez nas ruas da rica capital Estocolmo, os
doentes mentais mendigos; e
h)
A reforma americana que deu uma suposta cidadania aos
doentes mentais acabou por transformá-los em
mendigos nas ruas ou prisioneiros nas cadeias.
|