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PSIQUIATRIA
HOSPITALAR |
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Revista
do Departamento de Psiquiatria da Federação
Brasileira
de Hospitais - Rio de Janeiro - Outubro de 2004
Ano I |
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A
REFORMA EM DIVERSOS PAÍSES |
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ESTADOS
UNIDOS |
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| A
reforma nos Estados Unidos começou na década
de 60, quando o Governo Kennedy transferiu para
os Estados a responsabilidade de fechamento dos
hospícios públicos e o tratamento
dos doentes mentais na comunidade. O desastroso
fracasso da reforma antimanicomial americana é
muito bem sintetizado no artigo "Out of the
Asylum, Into the Cell" da psiquiatra Sally
Satel, publicado em 1 de novembro de 2003, no
New York Times.
Em 2000, nos EUA existiam
0,35 leitos de psiquiatria por 1.000 habitantes. |
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INGLATERRA |
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A reforma também ganhou espaço no
Governo conservador da Ministra Margaret Tacher.
Asilos e hospícios públicos foram
desmontados, provocando, inclusive, a redução
e desprestigio dos hospitais de psiquiatria. A
política radical de tratar doentes graves
na comunidade economizou milhões de libras,
mas também fracassou e os doentes acabaram
abandonados pelas ruas. Isso é demonstrado
no artigo "Acute hospital care in inner London"
(Psychiatric Bulletin (2003), 27,83 -86)- Londres,
do Dr. Luiz Dratcu, MD PhD Mphil MRCPsych Consultant
na Senior lecture in Psychiatry.
Em 2000, na Inglaterra
existiam 0,97 leitos de psiquiatria por 1.000
habitantes |
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SUÉCIA |
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Neste pais riquíssimo, a reforma transferiu
os doentes para a comunidade, mas pela primeira
vez na história moderna daquela nação,
surgiram nas ruas os doentes mentais abandonados.
Isso provocou uma reviravolta no modelo de saúde
mental e os leitos em hospitais de psiquiatria
foram reabertos.
Em 2000, na Suécia
existiam 0,66 leitos de psiquiatria por 1.000
habitantes. |
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ITÁLIA |
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A reforma italiana, também motivada pelo
anacronismo dos hospícios públicos
italianos, teve seu inicio com aprovação
da lei nº 180, de 13 de maio de 1978 inspirada
nas idéias fenomenológicas de Franco
Basaglia. Naquela oportunidade existiam 78.538
leitos em hospícios públicos que
não participavam dos avanços da
psiquiatria, simplesmente albergavam aqueles enfermos.
As principais características
dessa lei são: proibição
de todas as admissões em hospícios
públicos sem altas forçadas, execução
dos serviços na comunidade, prescrição
de hospitalizações, voluntárias
e involuntárias, somente em situações
de emergência. A nova política direcionou
os doentes crônicos para Residências
Terapêuticas e as internações
de emergências para as unidades psiquiátricas
de hospitais gerais.
Em 1996 compareceu no
I Congresso Nacional da Associação
de Familiares de Doentes Mentais do Brasil - AFDM
do Brasil a Sra. Anna Rosa Andretta, Presidente
da DIA.PSI.GRA (Associação de Familiares
da Itália). Ela mostrou fotos com dezenas
de doentes mentais abandonados nas ruas de Roma,
denunciando, também, o estado precário
e de depredação do interior de várias
Residências Protegidas.
O artigo "Residential
care in Italy" publicado no British Journal
of Psychiatry (2002), 181,220-225, traz dados
interessantes que mostram a existência na
Itália de 1.370 NHRFs (Residências
Terapêuticas) com um total de 17.138 leitos
com quadro de 18.666 profissionais, portanto,
mais de um por doente mental internado, sendo
que 73,4% das residências têm funcionários
nas 24 horas, 24,4% menos que 24 horas. Esta realidade
demonstra que as Residências Terapêuticas
estão estruturadas como mini hospitais
de psiquiatria com media de 12 leitos, sendo certo
que os doentes mentais entram na Residência
Terapêutica e lá permanecem por tempo
indefinido, praticamente não existe saída.
É importante observar
que o número de profissionais das Residências
Terapêuticas ltalianas é muito superior
aos recursos humanos normatizados no Brasil pelo
Ministério da Saúde para hospitais
de psiquiatria contratados ou conveniados pelo
SUS.
Em 1984 uma pesquisa
da CENSIS, na Itália, constatou que existiam
675 serviços de comunidade, 236 unidades
psiquiátricas em hospitais gerais com 3.113
leitos, 2.901 leitos em Residência Protegidas,
e uma redução de 60.000 para 30.000
leitos em hospícios públicos. Entre
1996 e 1998 um total de 26 hospícios públicos
fecharam e o número de doentes internados
caiu de 17.068 em dezembro 1996 para 7.704 em
2000, dos quais, 4.769 leitos em hospitais de
psiquiatria públicos e 2.935 leitos em
hospitais de psiquiatria privados.
Segundo consta no artigo
"Therapeutic communities and Italian Law
180: how they affected each other?" de Aldo
Lombardo", no ano de 2000, existiam 17.373
leitos de psiquiatria em Residência Terapêutica,
4.400 leitos em hospital de psiquiatria público
e 5.600 leitos em hospitais de psiquiatria privados.
Uma observação
importante mostra que na Itália, de 1996
a 2000, os leitos em hospitais de psiquiatria
privados aumentou de 2.935 para 5.600, representando
urna variação de quase 100% no período
de quatro anos.
Em 2000, na Itália,
existiam 0,39 leitos de psiquiatria por 1.000
habitantes.
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FRANÇA |
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O jornal "Le Monde", em 7 de junho de
2003, publicou o editorial "Psiquiatria em
perigo" que mostra que a política
de saúde mental da França não
prestigiava os hospitais de psiquiatria e os psiquiatras.
"A psiquiatria francesa
vai mal e os psiquiatras do país estão
deprimidos. Reunidos pela primeira vez num congresso
que buscou arrebanhar a maior quantidade possível
de representantes da profissão, em Montpeilier
(no centro sul), todas as especializações
juntas - o que inclui os psiquiatras do setor
público ou privado, os psicólogos,
os enfermeiros psiquiátricos ou ainda os
trabalhadores sociais - eles afirmam em alto e
bom som que estão cansados ou revoltados
com o silêncio que sempre tem respondido
aos seus gritos de alarme há muito tempo.
Tratando-se de médicos que se dedicam a
amenizar o sofrimento dos outros, o fato de vê-los
exporem dessa forma o seu próprio mal-estar
não e pouca coisa.
É verdade que
o balanço que eles estão apresentando
não é brincadeira. De um lado, os
meios de atendimento e de acompanhamento dos pacientes
no campo da psiquiatria vem sendo reduzidos de
forma inexorável, alcançando níveis
irrisórios mais de 125 mil vagas de hospitalização
foram suprimidas entre 1970 e 2000, numa tendência
que tem sofrido uma aceleração brutal
ao decorrer da última década. Após
ter sido considerada por muito tempo, a criação
de diversos setores permitiu a criação
de estruturas de tratamento adaptadas às
necessidades dos pacientes, desde as etapas iniciais
da hospitalização até às
mais complementares.
Mas esta política,
mais maleável e mais humana que a dos antigos
sanatórios, também serviu de pretexto
para os poderes públicos que se aproveitaram
dela para fazer economias drásticas."
No entanto, durante esse
período, a demanda explodiu. Além
das patologias tradicionais da loucura - psicose,
demência e alcoolismo - acrescentaram-se
progressivamente as neuroses, as depressões
e novas formas de ansiedade e de perturbações
do comportamento ou da alienação.
A evolução da sociedade também
contribuiu muito para essa situação.
Com a desagregação das antigas redes
de sociabilidade, a precariedade do trabalho e
as mais diversas rupturas do tecido social que
ocorreram ao longo das Ultimas décadas,
não faltaram fatores que contribuíssem
para acentuar as fraturas individuais e psíquicas.
A tal ponto que os psiquiatras estão sendo
treinados para incluir na sua rotina de trabalho
uma parte cada vez maior do sofrimento social.
Ora, os poderes públicos
e além deles, a sociedade como um todo,
parecem estar fazendo vistas grossas em relação
a uma situação que e considerada
intolerável, não só pelos
profissionais, mas também pelas famílias
dos pacientes. Será mesmo normal ter que
driblar as disposições dos regulamentos
e ter que passar por cima da penúria para
poder hospitalizar um doente em regime de urgência?
Será mesmo aceitável obrigar pacientes
a esperar durante meses até conseguirem
agendar uma consulta num consultório privado
ou uma internação numa instituição?
Por quanto tempo teremos
que lidar com uma situação na qual
raríssimas instituições aceitam
assumir o tratamento de crianças autistas
as quais estão reduzidas a se inscrever
em listas de espera intermináveis? Não
será indigno para uma sociedade desenvolvida
constatar que ela não é mais capaz
sequer de atender aos loucos no sanatório,
assim como ela tem feito ao longo de décadas
(mesmo que em condições geralmente
desumanas), e que ela se contenta, na maioria
dos casos, de rejeitá-los e deixá-los
vagando pelas ruas?
Por fim, após
décadas de avanços importantes nos
campos da psiquiatria e da psicanálise,
será mesmo aceitável constatar que,
diante da falta de meios, os médicos recorrem
cada vez mais maciçamente aos medicamentos
- no caso, e melhor falar em drogas para apagar
o sofrimento psíquico sem cuidar verdadeiramente
do paciente nem lhe permitir de refletir sobre
o sentimento de seu sofrimento? O risco maior
se dá exatamente neste ponto, a socialização
da doença mental, assim como o seu tratamento
farmacêutico, conduz quase sempre, ao antigo
reflexo que consiste em ocultar a loucura, em
vez de tentar curá-la."
No resumo de artigo "Grandes
et petites misères de la psychiatrie française"
(Article publié le 7 Juin 2003, Par Plantu
Taille de l'article:214 mots), indica a severa
crise na assistência ao doente mental.
"Extrait: LA PSYCHIATRIE
française traverse une crise sévère.
Toujours plus sollicitée, elle doit faire
face à une baisse drastique de moyens qui
remet en cause les fondements même de la
spécialité. Reunis à Montpellier
du 5 au 7 juin pour les premiers Etats généraux
de la discipline, 1500 a 2000 médecins,
infirmiers et travailleurs sociaux entendent alerter
l'opinion et les pouvoirs publics sur la gravité
de la situation. La politique de «sectorisation»
et d'ouverture vers I'exterieur, a abouti Ii une
chute considérable du nombre de lits dans
les hôpitaux."
Em Montpellier, 5 a 7
junho de 2003, as entidades francesas agrupadas
no Estado Maior da Psiquiatria Francesa ( Les
Etats Généraux de La Psychiatrie)
constituído por: .La Federation Française
De Psychiatrie (FFP): Elle regroupe les associations
scientifiques françaises de psychiatrie.
. LES SYNDICATS DE PSYCHIATRES: Le Comité
d'Action Syndical de La Psychiatrie (CASP): Le
Syndicat des Médecins Psychiatres des Organismes
Publics, Semi-publics et Prives; Le Syndicat National
des Psychiatres Privés; Le Syndicat des
Psychiatres Français; Le Syndicat des Psychiatres
des Hôpitaux; Le Syndicat Universitaire
de la Psychiatrie; L 'Union Syndicale de la Psychiatrie;
L'lntersyndicale de Défense de la Psychiatrie
Publique (IDEP): Le Syndicat des Psychiatres d'Exercice
Public; Le Syndicat des Psychiatres de Secteur;
Avec la Conference des Presidents de CME des CH(S)
. AVEC: . L'Association pour la Formation Française
et Européenne en Psychiatrie (internes);
. Le Syndicat National des Psychologues; . L 'Association
des Cadres et Infirmiers en Santé Mentale;
. L 'Association Nationale Française des
Infirmiers-Infirmèeres Diplômés
et des Etudiants; . Le Comité d'Etudes
des Formations Infirmières et des Pratiques
en Psychiatrie . Soins Etudes et Recherche en
Psychiatrie; . La Federation d 'Aide a La Santé
Mentale Croix Marine; . L 'Union Nationale des
Cliniques Psychiatriques Privees; . Groupe d'Etudes
et de Recherches sur le Service Social en Psychiatrie;
CFDT Santé Sociaux; . CGT santé
Action Sociale; . SUD Solidaires, Unitaires et
Démocrates, devido à severa crise
na saúde mental decorrente de política
irresponsável de desospitalização
e redução de leitos de psiquiatria
desenvolvida nos últimos 30 anos, a semelhança
do Ministério da Saúde do Brasil
iniciada nos últimos 8 anos, reunidos em
Assembléia Geral, decidiram pleitear um
aumento nacional especifico para a psiquiatria
e 22 medidas urgentes, entre elas:
- garantir condições
de hospitalização e acolhimento
decente, aumento do número de leitos e
de estruturas extra hospitalares;
- aumento dos orçamentos
das clínicas a fim de alinhar os salários
dos profissionais de saúde
mental com os demais do setor publico;
e
- restaurar as condições
de hospitalização regulando o número
de leitos em função das reais necessidades
da população concernente
Em 2000, na França,
existiam 1,18 leitos de psiquiatria por 1.000
habitantes.
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