 |
PSIQUIATRIA
HOSPITALAR |
| |
| |
Revista
do Departamento de Psiquiatria da Federação
Brasileira
de Hospitais - Rio de Janeiro - Outubro de 2004
Ano I - Nº |
| |
| |
A
atual política de saúde mental no
País provoca o estrangulamento financeiro
dos hospitais de psiquiatria contratos pelo SUS |
| |
|
|
A
realidade dos hospitais psiquiátricos privados
no Brasil |
|
| |
Inversão
de Valores |
| |
Está
na hora de mudar |
| |
| Enquanto
na Europa e no EUA, em meados da década
de 50, ocorria a substituição dos
anacrônicos asilos públicos de doentes
mentais por um modelo comunitário, aqui,
no Brasil, os institutos de previdência,
por opção dos usuários, já
promoviam uma grande humanização
e modernização da atenção
aos doentes substituindo os desgastados hospitais
e colônias públicas pelos hospitais
de psiquiatria privados que ofereciam à
clientela os avanços dos psicofármacos
e das técnicas terapêuticas. Na década
de 70, a primeira onda da chamada antipsiquiatria
chegou ao país, mas não prosperou
no âmbito da previdência social porque
o modelo adotado já era o mais adequado.
No limiar
da década de 80, veio a segunda onda, embalada
pelo radical projeto de lei, aprovado na Câmara
Federal, que propunha a extinção
do hospital de psiquiatria porque o considerava
inadequado e gerador de doenças, como também,
impunha ao saber do Médico Psiquiatra o
controle do Poder Judiciário. No Senado
Federal, em dezembro de 1995, o projeto de lei
antimanicomial, foi rejeitado de forma acachapante
porque não atendia aos princípios
da Psiquiatria e o interesse da Sociedade. Posteriormente,
o novo projeto substitutivo do Senado Federal,
com pequenas alterações, foi aprovado
na Câmara Federal. Desta forma, surgiu a
Lei 10.216/01 tratando dos direitos dos doentes
mentais e redirecionando o modelo assistencial
no bom sentido.
Inusitadamente, a proposta plenamente derrotada
do movimento antimanicomial, não contemplada
na Lei, mereceu loas e ganhou força no
Ministério da Saúde que, através
de uma política deliberada de preços
vis, passou a desestabilizar os hospitais de psiquiatria
privados provocando uma grande redução
de leitos e o fechamento de inúmeros estabelecimentos,
que diz substituídos por modalidades comunitárias
(CAPS, Residência Protegida, etc.) que,
apesar de úteis, não têm o
condão técnico e nem capacidade
para tratar doentes mentais graves que necessitam
da estrutura especializada do hospital de psiquiatria.
É a total inversão
de valores. Os hospitais de psiquiatria, seus
médicos psiquiatras e demais profissionais,
que desenvolvem um árduo, diuturno, e dignificante
trabalho em beneficio dos doentes mentais, vêm
sendo denegridos através de imagens distorcidas
e acusações descabidas (Psiquiatra
que aplica ECT virou torturador) promovidas, especialmente,
pelos membros do Conselho Federal de Psicologia
que, depois, são recebidos e festejados
pelo Ministro da Saúde.
As conseqüências
da política oficial estão visíveis.
Milhares de doentes mentais nas ruas e nos albergues
públicos, sem qualquer atenção
ou tratamento o que, infelizmente, não
sensibiliza a mídia que, encantada com
os detratores, não enxerga o grave problema
social que atinge milhares de famílias
cujos reclamos, infelizmente, não são
ouvidos pela mídia e pelas autoridades
de saúde.
É preciso
fazer mudar a política oficial que optou
pela extinção dos hospitais, preconizada
no projeto de lei rejeitado, em vez de observar
a Lei 10.216 de 2001, para tal é necessária
a união de esforços de cada instituição,
de cada diretor, de cada médico psiquiatra
e das famílias, de todos que fazem e precisam
da Psiquiatria Hospitalar no País.
A revista
PSIQUlATRIA HOSPITALAR, publicação
do Departamento de Psiquiatria da Federação
Brasileira de Hospitais, vem com o compromisso
institucional de elevar a importância do
hospital de psiquiatria e de seus profissionais
no tratamento e na recuperação de
doentes mentais graves.
A
Diretoria do Departamento de Psiquiatria da FBH |
| |
Dos
porões à humanização
do tratamento da loucura |
| |
| Para
compreender os motivos, razões e conseqüências
da atual política de saúde mental
no Brasil é preciso conhecer a história
da assistência ao doente mental e as conseqüências
de políticas semelhantes implantadas nos
Estados Unidos e em alguns países da Europa,
a partir da década de 60.
|
| |
A
ciência reconhece a loucura como doença
que deve ler cuidada e tratada pela medicina |
| |
| Por
muitos séculos, os doentes mentais viveram
relegados a própria sorte, estigmatizados
pela falta de compreensão do fenômeno
psíquico, então atribuído,
principalmente, às forças inumanas
de bestas e demônios, razão pela
qual eram confinados em celas, muitas vezes acorrentados,
como medida de proteção às
populações das cidades.
A primeira compreensão
cientifica da doença mental vem do medico
francês Philipe Pinel (1765-1826). A partir
de então, os locais de confinamento desses
doentes passaram a adotar os métodos terapêuticos
de Pinel, num primeiro passo de humanização
daquelas instituições. No mesmo
século, trinta anos depois da morte de
Pinel, nasceu Freud. Ambos desenvolveram seus
conhecimentos científicos, no campo da
neuropatologia, em importantes hospitais, que
os levaram a ampla compreensão de que a
insanidade decorria da doença do cérebro
e de seus distúrbios.
Os
hospícios e as colônias públicas
para doentes mentais
A
sociedade percebeu que era necessário abrigar
os doentes mentais que estavam abandonados nas
ruas ou nas cadeias. Muitos paises, então,
construíram enormes hospícios ou
colônias públicas que passaram a
cuidar de milhares de doentes submetidos aos incipientes
métodos terapêuticos, que não
tinham a eficácia necessária para
remissão dos quadros clínicos. A
falta de um tratamento adequado fez com que os
doentes se multiplicassem, e que essas unidades,
em todos os países, se agigantassem. Essa
política vigorou até a década
de 50, na metade do século passado.
No Brasil
não foi diferente. Em vários estados
foram construídas imensas colônias
e hospitais públicos. O caso que atingiu
maiores proporções foi a Colônia
de Juqueri, no Estado de São Paulo, que
chegou a albergar cerca de 18 mil doentes mentais.
A
"reforma psiquiátrica"
Com
o transcorrer do tempo, estes gigantescos hospícios
e colônias publicas tornaram-se absolutamente
anacrônicos e onerosos, justificando o crescimento
da antipsiquiatria que ganhou força na
década de 60, especialmente nos Estados
Unidos, que embalados pela chamada Psiquiatria
Social. Essa teoria se inspirava, basicamente,
no pensamento de que o doente mental era apenas
uma pessoa diferente, par isso, moralmente excluído
da sociedade e confinado nos enormes asilos, hospícios
e colônias públicas que abrigavam
milhares deles. Na Itália, pelas mesmas
razões, prosperou a idéia de Franco
Basaglia que, no final da década de 70,
se transformou na Lei nº 180, aprovada pelo
Parlamento Italiano. Estas propostas de reforma
também foram impulsionadas porque representavam
uma importante economia para os cofres públicos.
Nos Estados Unidos e Inglaterra foram fechados
os enormes asilos, hospícios e colônias
publicas.
A proposta de abrigar
e tratar doentes mentais graves na comunidade
fracassou e lançou nas ruas e nas cadeias
milhares deles, que passaram a ter, inclusive,
o direito de recusar o tratamento psiquiátrico,
conforme aconteceu nos Estados Unidos, caracterizando
um retorno patético e desumano às
épocas de desassistência e abandono.
|
| |
| |
|
|
|
|
|
| |
|
| |
|