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CONCEITOS
BÁSICOS EM EEG
Departamento
de Neurofisiologia da Faculdade de Ciências Médicas
da
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Maria
Augusta Montenegro
Fernando Cendes
Marilisa M. Guerreiro
Carlos A. M. Guerreiro
Os
neurônios têm a habilidade de se comunicar
de forma extremamente rápida e precisa, por longos
trajetos. Em média, um neurônio forma mil
sinapses e recebe mais de 10 mil conexões. A
integração sináptica neuronal ocorre
por meio de dois mecanismos, elétricos e químicos.
No sistema nervoso, sinapses elétricas são
usadas primariamente para produzir despolarização
e não têm ação inibitória
ou prolongada. Na sinapse elétrica ocorre o fluxo
de corrente através da membrana pré-sináptica
e de canais que conectam as células pré
e pós-sinápticas (Kandel & Siegelbaum,
1995).
Para
compreensão dos mecanismos de registro do EEG,
é necessário o conhecimento de princípios
básicos de eletrônica, pois o EEG consiste
no registro da atividade elétrica cerebral.
Corrente
elétrica: é o fluxo de elétrons
através de um condutor. Para que haja movimento
dos elétrons, é preciso que exista diferença
de potencial entre as duas extremidades do condutor.
Os elétrons são induzidos a deixar suas
órbitas e fluir na direção em que
existe carga menos negativa, ou seja, mais positiva
(Misulis, 1989). Entretanto, convencionalmente se considera
o “fluxo positivo da corrente” para determinar
a direção da corrente, pois no passado
acreditava-se que as cargas positivas é que se
moviam. A unidade de medida da corrente é o Ampère.
Circuito
elétrico: para que a corrente elétrica
possa fluir, é preciso que haja uma alça
de material condutor conectada a uma fonte de energia,
ou seja, um circuito. Se nas extremidades dessa alça
for aplicada uma diferença de potencial, haverá
corrente elétrica. A fonte de energia pode ser
de corrente contínua (p. ex. bateria) ou corrente
alternada (p. ex. energia produzida em hidrelétricas).
Um circuito pode conter resistores, capacitores e indutores,
dispostos de várias maneiras, conforme o objetivo
de cada circuito.
Condutores
e isolantes: a força com que os elétrons
se ligam é diferente de acordo com cada material.
Em elementos que são bons condutores, os elétrons
estão ligados frouxamente (elétrons podem
se mover facilmente) e, nos isolantes, os elétrons
estão ligados fortemente (não permitindo
movimento de elétrons). Para que os elétrons
em um condutor possam se mover, é preciso que
uma força seja aplicada, gerando uma diferença
de potencial entre as duas extremidades do condutor
(Misulis, 1989).
Resistor:
impede o fluxo de elétrons, convertendo a energia
em calor. Quando a corrente passa pelo resistor, a voltagem
diminui, porque parte da energia é dissipada.
Quando um circuito possui mais de um resistor, eles
podem estar dispostos em série ou em paralelo,
e a resistência total do circuito é calculada
conforme a disposição dos resistores.
-
Resistores em série: a resistência
total é igual à soma de cada resistência
individual.
-
Resistores em paralelo: a resistência total
é sempre menor que a resistência individual
de qualquer dos resistores. Funciona como se houvesse
um caminho alternativo para o fluxo da corrente, diminuindo
a resistência.
A
resistência é medida em Ohms .
A
lei de Ohm descreve a relação entre corrente
(I), resistência (R) e voltagem (V) ou diferença
de potencial que é medida em volts.
Lei
de Ohm
Voltagem (Volts) = Corrente (Ampères) x
Resistência (Ohms)
V = I X R
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Isso
quer dizer que, para determinada diferença de
potencial, a corrente dependerá da resistência
do circuito.
Capacitor:
é composto por dois condutores separados por
um isolante. Sua função é armazenar
energia na forma de cargas separadas, ou seja, (-) de
um lado e (+) do outro lado do capacitor. A corrente
elétrica flui na direção da placa
do capacitor, entretanto não atravessa a outra
placa devido à camada isolante. Isso faz com
que o capacitor acumule cargas, ficando carregado até
atingir voltagem semelhante à da bateria que
produz a corrente elétrica. À medida que
as cargas vão carregando o capacitor, elas se
opõem ao fluxo de corrente e isso faz com que
a velocidade de corrente que chega ao capacitor diminua
exponencialmente. Os elétrons fluem para uma
placa, o que, por sua vez, causa movimento de elétrons
da outra placa na direção oposta, produzindo
aparente fluxo de corrente através do capacitor,
embora esta não seja composta pelos mesmos elétrons,
pois eles não têm como “pular”
o isolante (Misulis, 1989). Quando a bateria é
desligada, a corrente flui na direção
oposta, descarregando o capacitor, pois este só
permanece carregado se estiver ligado à fonte
de energia.
A
capacitância de um capacitor é medida em
farads e reflete a quantidade de carga que ele pode
armazenar. A capacidade depende do tamanho das placas
e do fluxo de cargas (corrente) que chega a elas. Quanto
maior for a capacitância, maior a corrente que
terá de fluir para carregar o capacitor.
Constante
de tempo (CT): é o tempo que a corrente
leva para fazer 63% de sua transição total
do estado inicial ao equilíbrio, ou seja, é
o tempo em que a corrente é de apenas 37% de
seu valor inicial. Em outras palavras, a CT é
o tempo que leva para o capacitor se carregar em 63%
da carga total gerada pela diferença de potencial
aplicada ao circuito.
A
constante de tempo depende da resistência e da
capacitância. Quanto maior a capacitância
do circuito, maior o tempo para o capacitor se carregar.
Quanto maior a resistência, menor a corrente que
fluirá para o capacitor e também maior
será o tempo para o capacitor se carregar. Assim,
quando a resistência e a capacitância são
altas, a corrente cai lentamente a zero e, quando são
baixas, a corrente cai mais rapidamente (Misulis, 1997).
Constante
de Tempo (CT) = Resistência (R) x Capacitâcia
(C)
CT (segundos) = R (Ohms) x C (Farads)
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Circuito
R-C: trata-se de um circuito composto por resistor
e capacitor. Toda vez que uma diferença de potencial
(DP) é aplicada ao circuito R-C, a mesma DP medida
em volts pode ser detectada imediatamente nas extremidades
do resistor (ou resistência). Entretanto, como
o capacitor precisa de um tempo para se carregar, a
DP aplicada ao sistema só será medida
nas extremidades do capacitor após este estar
carregado. Conforme a voltagem (DP) aumenta no capacitor,
diminui no resistor. Tanto a curva de aumento de DP
através do capacitor quanto a curva de diminuição
de DP através do resistor são exponenciais
e são medidas em segundos. Assim, a DP é
maior no resistor logo que o circuito é ligado
a uma bateria ou fonte de energia, e a DP é maior
no capacitor quando o sinal dado pela bateria já
foi transferido ao circuito e este está estável.
Os circuitos R-C constituem a base para o entendimento
dos filtros.
Filtros:
existem três tipos de filtros importantes para
o aparelho de EEG: o filtro de alta freqüência,
o de baixa freqüência e o de incisura (60
Hz). Eles proporcionam a seletividade do aparelho em
relação à freqüência
das voltagens captadas, com o uso de circuitos contendo
resistores e capacitores (circuitos R-C). Os filtros
são programados de forma a aceitar apenas uma
banda de freqüência específica, bloqueando
as freqüências indesejadas. Nos filtros de
baixa freqüência (passa alta), o componente
mais importante é o resistor, pois este responde
principalmente a mudanças na voltagem (Misulis,
1989). No filtro de alta freqüência (passa
baixa), o componente mais importante é o capacitor,
pois este responde a voltagens em equilíbrio
(steady state). O filtro de incisura bloqueia apenas
freqüências de 60 Hz, correspondentes à
freqüência da energia elétrica, sendo
importante quando existe artefato de 60 Hz difícil
de ser corrigido devido às dificuldades técnicas
(Figura 1.1).
Figura
1.1 - Filtro de alta freqüência.
Esta figura mostra o mesmo traçado realizado
com filtro de alta freqüência em 70 Hz (A)
e 15 Hz (B). Observe em (A) o registro de atividade
muscular e, em (B), essa mesma atividade com filtro
de 15 Hz, o qual distorce o traçado e simula
uma onda aguda com reversão de fase em T3 (seta).
O uso indevido dos filtros pode mascarar alguns achados,
comprometendo a interpretação correta
do EEG.
O
intervalo entre o filtro de baixa freqüência
e o filtro de alta freqüência é chamado
de faixa espectral de freqüência ou banda
passante. Tradicionalmente, a banda passante vai de
0,5 Hz até 70 Hz (Luccas et al., 1995).
A
freqüência de corte (cutoff) de cada filtro
pode ser alterada de acordo com a necessidade do exame.
Importa, porém, o conhecimento de que a mudança
de filtros levará ao corte de ondas fisiológicas
e isso poderá alterar significativamente o produto
final.
Como
mostra a fórmula apresentada anteriormente, a
freqüência de corte (f0) é
inversamente proporcional à CT, ou seja, à
resistência e à capacitância. Isso
indica como se pode alterar a f0 de um filtro,
isto é, aumentando-se ou diminuindo-se a resistência
ou a capacitância do circuito. Vale lembrar que
a resistência de um circuito pode ser aumentada
adicionando-se resistores em série. Por outro
lado, aumenta-se a capacitância do circuito adicionando
capacitores em paralelo.
Constante
de tempo maior faz com que a f0 seja menor
tanto para filtros de alta quanto de baixa freqüência.
Na
prática, muitos aparelhos de EEG apresentam em
seu painel apenas filtro de alta freqüência
(para corte de altas freqüências) e constante
de tempo (para corte de baixas freqüências).
Vale ressaltar que, quando se altera a constante de
tempo, a freqüência de corte (f0)
se altera de forma inversamente proporcional (Figuras
1.2 e 1.3).
Figura
1.2 - Constante de tempo 0,3. Idade 13 anos.
Estágio 4 do sono. Observe esta amostra de sono
lento caracterizada por ondas lentas de alta amplitude,
difusas, na faixa dela. Compare este achado com o mesmo
traçado realizado com constantes de tempo de
0,03 (Figura 1.3)
Figura
1.3 - Constante de tempo 0,03. Observe a mesma
atividade da figura 1.2 registrada com constante de
tempo de 0,03. Essa alteração da constante
de tempo faz com que o traçado seja distorcido,
e as ondas mais lentas acabam sendo cortadas, dando
a falsa impressão de um traçado com menos
lentificação. O uso indevido da constante
de tempo pode mascarar alguns achados, comprometendo
a interpretação correta do EEG.
Indutor:
é composto por um pedaço de fio enrolado
como se fosse uma mola, e a passagem de energia através
desse sistema cria um campo magnético. O indutor
armazena energia na forma de campo magnético.
Sua função é manter o fluxo de
elétrons estável caso haja uma variação
na corrente. O aumento da corrente provoca um aumento
no campo magnético, com o gasto de energia pelo
indutor. A diminuição da corrente faz
com que parte da energia do indutor seja utilizada para
manter a corrente estável (Misulis, 1989).
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