O ELETRENCEFALOGRAMA

Polígrafo

Dr. Luciano Ribeiro Pinto Jr.
   
Professor de Neurologia do

Departamento de Medicina

  

    

Em 1929 Hans Berger, professor alemão de psiquiatria em Viena, abriu as portas para um melhor conhecimento das alterações encefálicas, com a introdução da eletrencefalografia clínica. O eletrencefalograma (EEG) veio, através dos anos, se constituir num dos exames complementares mais importantes utilizados na investigação das diversas enfermidades neurológicas, particularmente da epilepsia. Observamos que atualmente, além do especialista, o EEG é também solicitado pelo médico generalista, pediatra, etc. Como essas solicitações vêm ocorrendo por vezes de maneira abusiva, notamos algumas distorções, ou seja, o médico não sabendo indicar e interpretar corretamente um EEG.

Duas questões consideramos fundamentais: o que esperar de um EEG e quando solicitar um EEG.

Antes vejamos no que consiste o eletrencefalógrafo. Trata-se de um aparelho com a função de captar a atividade elétrica cerebral e registrá-la no papel. Para que isso ocorra, eletrodos são aderidos à superfície do couro cabeludo obedecendo a uma disposição convencional. A diferença de potencial obtida entre dois eletrodos resulta no registro gráfico correspondente a uma linha ou canal. A maioria dos eletrencefalógrafos é constituída de oito canais. Conforme o programa utilizado, teremos a combinação de dois eletrodos em cada canal e as diversas combinações entre os oito canais. Os eletrodos ímpares correspondem ao hemicrânio esquerdo e os pares, ao direito. Dessa forma os denominamos de frontais (F3 e F4), centrais (C3 e C4), parietais (P3 e P4), occipitais (O1 e O2), temporais anteriores (F7 e F8), temporais medianos (T3 e T4), temporais posteriores (T5 e T6), auriculares (A1 e A2) e Czero ou Cz o eletrodo colocado no vértex.

A altura da onda corresponde à sua amplitude e o número de ondas que aparece em um segundo, nos indica a freqüência, a qual é expressa em ciclos-por-segundo (cps) ou na unidade Hertz (Hz). A freqüência considerada normal, para um adulto no estado de vigília, é a compreendida entre 8 e 13 cps, também chamada de alfa. As freqüências mais lentas são denominadas de teta (4 a 7 cps) e delta (0,5 a 3 cps). As freqüências mais rápidas, de menor significado patológico, são denominadas de beta (acima de 13 cps).  

Todo aparelho também apresenta um canal marcador de tempo, o qual registra a velocidade do papel. Como a pena sofre uma deflexão a cada segundo, a distância entre dois sinais corresponde à velocidade do papel. A maioria dos eletrencefalografistas em nosso meio, utiliza a velocidade de 3 cm/seg.

 

O QUE ESPERAR DE UM EEG

O EEG NORMAL

Em eletrencefalografia o conceito de normalidade difere em alguns aspectos se compararmos com outros exames subsidiários. O espaço compreendido por um EEG normal é muito amplo e intrinsecamente relacionado às manifestações clínicas. O mesmo acontece com o EEG patológico. Em outras palavras, um EEG normal não exclui uma patologia intracraniana e, por outro lado, um grafo-elemento anormal não necessariamente implica em disfunção encefálica. Tal conceito nos permite uma digressão a propósito de um aspecto que, freqüentemente observamos na prática diária. Indivíduos hígidos, sem nunca terem apresentado manifestações epilépticas sendo medicados desnecessariamente, simplesmente porque apresentaram um EEG “alterado”. É a “disritmia”, termo impróprio, de uso indiscriminado, que grassa no vocabulário de médicos e leigos.

O EEG normal apresenta modificações de acordo com a idade, acompanhando a maturação do sistema nervoso. Um recém-nascido apresenta um traçado eletrencefalográfico com predomínio de ondas lentas, que com o passar dos anos vão sendo substituídas par ondas mais rápidas. Assim um adulto em vigília, apresentará um EEG com ondas na freqüência alfa (Figura 1). Esse ritmo é bem definido nas áreas occipitais. Além da idade, o EEG pode sofrer algumas modificações quando utilizamos os chamados métodos de ativação, ou seja, o sono, a hiperpnéia e a foto-estimulação-intermitente. Tais variações que o traçado pode apresentar não representam patologias.

O EEG PATOLÓGICO

Os grafo-elementos podem se alterar na morfologia, amplitude e freqüência, de maneira localizada ou difusa, contínua ou intermitente, circunstâncias que podem caracterizar diversas patologias do sistema nervoso central.

  1. Grafo-elementos epileptiformes: comumente relacionados com epilepsia. São representados pelas ondas agudas ou ondas sharp (Figura 2), as pontas ou espículas, as polipontas e as pontas-ondas (combinação de uma ponta com onda lenta) (Figura 3).
       

  2. Ondas lentas: a presença de uma atividade elétrica lenta (principalmente ondas delta) (Figura 4), geralmente está relacionada com enfermidades que ocasionam sofrimento cerebral. Podem ocorrer nas neoplasias, enfermidades vasculares, enfermidades inflamatórias, particularmente nas encefalites.
      

  3. Outras alterações eletrencefalográficas: podem ocorrer caracterizando determinadas doenças neurológicas ou sistêmicas. E  o caso de certos distúrbios metabólicos (Figura 5) e de algumas doenças degenerativas.

 

QUANDO SOLICITAR UM EEG
   

  1. Nas epilepsias: entre as diversas patologias que determinam disfunções encefálicas, a epilepsia ocupa o primeiro lugar na indicação de um EEG, particularmente no que se refere ao seu diagnóstico. O EEG também pode fornecer outras informações do doente epiléptico, como o tipo de epilepsia e a localização da descarga epileptogênica, sendo também de grande valia no prognóstico e orientação terapêutica. Para o diagnóstico etiológico da epilepsia, utilizamos outros exames complementares, como a tomografia axial computadorizada.
       

  2. Nas enfermidades que além de alterações estruturais provocam principalmente disfunções encefálicas: tais eventualidades ocorrem particularmente nas enfermidades inflamatórias, principalmente nas encefalites e nas enfermidades vasculares, sobretudo nos casos em que não ocorre dano estrutural, como a insuficiência vascular cerebral transitória. Nessas duas eventualidades as alterações anatômicas que poderiam ser evidenciadas através de exames adequados, são relativamente raras, o que torna o EEG um exame de grande valia.
      

  3. Outras indicações: certas enfermidades sistêmicas, distúrbios metabólicas, intoxicações, podem provocar alterações eletrencefalográficas, orientando o médico no seu diagnóstico e tratamento. O EEG passou a ser de grande utilidade na diagnóstico de morte cerebral, contribuindo nos transplantes de órgãos.

Pudemos ver que o EEG tem a sua indicação em diversas doenças e uma vez bem interpretado será de grande valia, caso contrário, será uma catástrofe para o médico e para o doente. Se Berger abriu as portas com a eletrencefalografia clínica, cabe a nós ampliá-las e não fechá-las. Aqui, mais do que nunca, cabe o postulado de Claude Bernard:

“Quem não sabe o que procura, não interpreta o que acha”.  

 

    Para ampliar clique sobre a figura
Figura 1
Adulto em vigília. 
EEG normal apresentando ritmo alfa.
    

     

   

   
Para ampliar clique sobre a figura

Figura 1
Corte em tamanho original  

  

   

    
Para ampliar clique sobre a figura
Figura 2
EEG patológico com presença de ondas "sharp" ou agudas.
    

     

      

   
Para ampliar clique sobre a figura

Figura 2
Corte em tamanho original  

  

   

    
Para ampliar clique sobre a figura
Figura 3
Paciente em vigília. 
EEG patológico com presença de ondas pontas-agudas.
   
    

     

      

   
Para ampliar clique sobre a figura

Figura 3
Corte em tamanho original  

  

      

    
Para ampliar clique sobre a figura
Figura 4
Adulto em vigília. 
EEG patológico com presença de ondas lentas.
    

     

      

   
Para ampliar clique sobre a figura

Figura 4
Corte em tamanho original  

  

 

    
Para ampliar clique sobre a figura
Figura 5
EEG na insuficiência hepática.
    

     

      

   
Para ampliar clique sobre a figura

Figura 5
Corte em tamanho original