Episódio Hipomaníaco

Características do episódio

        Um Episódio Hipomaníaco é definido como um período distinto, durante o qual existe um humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, com duração mínima de 4 dias (Critério A). O período de humor anormal deve ser acompanhado por pelo menos três sintomas adicionais de uma lista que inclui auto-estima inflada ou grandiosidade (não-delirante), necessidade de sono diminuída pressão por falar, fuga de idéias, distratibilidade, maior envolvimento em atividades dirigidas a objetivos ou a agitação psicomotora, e envolvimento excessivo em atividades prazerosas com um alto potencial para conseqüências dolorosas (Critério B). Se o humor é irritável em vez de elevado ou expansivo, pelo menos quatro dos sintomas anteriores devem estar presentes. Esta lista de sintomas adicionais é idêntica à que define o Episódio Maníaco, exceto pela ausência de delírios ou alucinações. O humor durante um Episódio Hipomaníaco deve estar nitidamente diferente do humor não-deprimido habitual do indivíduo, e deve haver uma nítida alteração no funcionamento, que não é característica do funcionamento habitual do indivíduo (Critério C). Uma vez que as alterações no humor e funcionamento devem ser observáveis por terceiros (Critério D), a avaliação deste critério freqüentemente exigirá a entrevista de outros informantes (p. ex., membros da família). A história obtida a partir de outros informantes é particularmente importante na avaliação de adolescentes. Comparado com um Episódio Maníaco, um Episódio Hipomaníaco não é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou ocupacional ou de exigir a hospitalização, nem existem características psicóticas (Critério E). A alteração no funcionamento em alguns indivíduos pode assumir a forma de um aumento acentuado na eficiência, realizações ou criatividade. Entretanto, em outros, a hipomania pode causar algum prejuízo social ou ocupacional.

        A perturbação do humor e outros sintomas não devem ser decorrentes dos efeitos fisiológicos diretos de uma droga de abuso, de um medicamento, outro tratamento para a depressão (terapia eletroconvulsiva ou fototerapia) ou exposição a uma toxina. O episódio também não deve ser decorrente dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral (p. ex., esclerose múltipla, tumor cerebral) (Critério F). Sintomas como são vistos no Episódio Hipomaníaco podem ser devidos aos efeitos fisiológicos diretos de um medicamento antidepressivo, terapia eletroconvulsiva, fototerapia ou medicamentos prescritos para outras condições médicas gerais (p. ex., corticosteróides). Estes quadros não são considerados Episódios Hipomaníacos e não contam para um diagnóstico de Transtorno Bipolar II. Por exemplo, se uma pessoa com Transtorno Depressivo Maior recorrente desenvolve sintomas de um episódio do tipo hipomaníaco durante um curso de medicamento antidepressivo, o episódio é diagnosticado com Transtorno do Humor Induzido por Substância, com Características Maníacas, não se modificando o diagnóstico de Transtorno Depressivo Maior para Transtorno Bipolar II. Algumas evidências sugerem a possível existência de uma “diátese” bipolar em indivíduos que desenvolvem episódios do tipo maníaco ou do tipo hipomaníaco após um tratamento somático para a depressão. Esses indivíduos podem ter uma maior probabilidade de futuros Episódios Maníacos ou Hipomaníacos não relacionados a substâncias ou a tratamentos somáticos para a depressão.

       O humor elevado em um Episódio Hipomaníaco é descrito como eufórico, incomumente bom, alegre ou excitado. Embora o humor da pessoa possa ter uma qualidade contagiante para o observador sem envolvimento, ele é reconhecido como uma alteração do humor habitual da pessoa por aqueles que a conhecem bem. A qualidade expansiva da perturbação do humor é caracterizada pelo entusiasmo por interações sociais, interpessoais ou profissionais. Embora o humor elevado seja considerado prototípico, a perturbação do humor pode ser irritável ou alternar entre euforia e irritabilidade. Caracteristicamente, está presente uma auto-estima inflada, geralmente em nível de uma autoconfiança sem crítica em vez de grandiosidade acentuada (Critério B1). Existe, com bastante freqüência, uma necessidade de sono diminuída (Critério B2): a pessoa desperta antes do horário habitual com maior energia. A fala de uma pessoa em um Episódio Hipomaníaco pode ser um pouco mais alta e mais rápida do que o habitual, mas não é tipicamente difícil de interromper. Ela pode apresentar-se repleta de piadas, trocadilhos, jogos de palavras e irrelevâncias (Critério B3). A fuga de idéias é incomum e, se presente, dura por períodos muito breves (Critério B4).

     A distratibilidade também está freqüentemente presente, evidenciada por rápidas mudanças na fala ou atividade em conseqüência da resposta a vários estímulos irrelevantes (Critério B5). O aumento da atividade dirigida a objetivos pode envolver planejamento e participação de múltiplas atividades (Critério B6). Essas atividades com freqüência são criativas e produtivas (p. ex., escrever uma carta ao editor, colocar papéis em ordem). A sociabilidade geralmente está aumenta e pode haver um aumento da atividade sexual. Pode haver atividade impulsiva, como surtos de compras, direção imprudente ou investimentos financeiros insensatos (Critério B7). Entretanto, essas atividades em geral são organizadas, não bizarras, e não acarretam o nível de prejuízo característico de um Episódio Maníaco.

Características e transtornos associados

       As características associadas a um Episódio Hipomaníaco lembram os de um Episódio Maníaco. O humor também pode ser caracterizado como disfórico se sintomas irritáveis ou depressivos são mais proeminentes do que a euforia no quadro clínico.

Características específicas de cultura e idade

        As considerações culturais sugeridas para os Episódios Depressivos Maiores valem também para os Episódios Hipomaníacos. Em pessoas mais jovens, os Episódios Hipomaníacos podem estar associados com gazeta à escola, comportamento anti-social, repetência ou uso de substâncias.

Curso

        Um Episódio Hipomaníaco inicia tipicamente com um rápido aumento dos sintomas dentro de um ou dois dias. Os episódios podem durar várias semanas a meses e em geral têm um início mais abrupto e são mais breves do que os Episódios Depressivos Maiores. Em muitos casos, o Episódio Hipomaníaco pode ser precedido ou seguido por um Episódio Depressivo Maior. Estudos sugerem que 5 a 15% dos indivíduos com hipomania acabam desenvolvendo um Episódio Maníaco.

Diagnóstico diferencial

        Um Episódio Hipomaníaco deve ser diferenciado de um Transtorno do Humor Devido a uma Condição Médica Geral. O diagnóstico é de Transtorno do Humor Devido a uma Condição Médica Geral se a perturbação do humor é considerada conseqüência fisiológica direta de uma condição médica geral específica (p.ex., esclerose múltipla, tumor cerebral, síndrome de Cushing). Esta determinação fundamenta-se no histórico, achados laboratoriais ou no exame físico. Se o clínico julgar que os sintomas hipomaníacos não são conseqüência fisiológica direta da condição médica geral, então o Transtorno de Humor primário é registrado no Eixo I (p.ex., Transtorno Bipolar I)e a condição médica geral, no Eixo III (p. ex., infarto do miocárdio).

        Um Transtorno de Humor Induzido por Substância é diferenciado de um Episódio Hipomaníaco pelo fato de que uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento ou exposição a uma toxina) está etiologicamente relacionada à perturbação do humor. Sintomas como os que são vistos em um Episódio Hipomaníaco podem ser precipitados por uma drogas de abuso (p. ex., os sintomas hipomaníacos que ocorrem apenas no contexto da intoxicação com cocaína são diagnosticados como Transtorno do Humor Induzido por Cocaína, Com Características Maníacas, Com Início Durante a Intoxicação). Sintomas como os que são vistos em um Episódio Hipomaníaco também podem ser precipitados por um tratamento antidepressivo tal como medicamentos, terapia eletroconvulsiva ou fototerapia. Estes episódios também são diagnosticados como Transtornos do Humor Induzidos por Substâncias (p. ex., Transtorno do Humor Induzido por Amitriptilina, Com Características Maníacas, Transtorno do Humor Induzido por Terapia Eletroconvulsiva, Com Características Maníacas). No entanto, o julgamento clínico é essencial para determinar se o tratamento é realmente o causador ou se um Episódio Hipomaníaco primário coincidentemente teve seu início enquanto a pessoa estava recebendo o tratamento.

       Os Episódios Maníacos devem ser distinguidos dos Episódios Hipomaníacos. Embora Episódios Maníacos e Episódios Hipomaníacos tenham listas idênticas de sintomas característicos, a perturbação do humor nos Episódios Hipomaníacos não é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou ocupacional ou de exigir hospitalização. Alguns Episódios Hipomaníacos podem evoluir para Episódios Maníacos.

      O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade e o Episódio Hipomaníaco são caracterizados por atividade excessiva, comportamento impulsivo, fraco julgamento e negação dos problemas. O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade distingue-se de um Episódio Hipomaníaco pelo início caracteristicamente precoce (i. e, antes dos 7 anos), curso crônico em vez de episódio, ausência de inícios e remissões relativamente nítidos e ausência de um humor anormalmente expansivo ou elevado.

        Um Episódio Hipomaníaco deve ser diferenciado da eutimia, particularmente em indivíduos cronicamente deprimidos que não estão acostumados à experiência de um estado de humor não-deprimido.

Critérios para Episódio Hipomaníaco

A. Um período distinto de humor persistentemente elevado, expansivo ou irritável, durante todo o tempo ao longo de um período mínimo de 4 dias, nitidamente diferente do humor habitual não-deprimido.

B. Durante o período da perturbação do humor, três (ou mais) dos seguintes sintomas persistiram (quatro se o humor for apenas irritável) e estiveram presentes em um grau significativo:
(1) Auto-estima ou grandiosidade.
(2) Redução da necessidade de sono (p. ex., sente-se refeito depois de 3 horas de sono).
(3) Mais loquaz do que o habitual ou pressão por falar.
(4) Fuga de idéias ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão correndo.
(5) Distratibilidade (i. e, a atenção é desviada com demasiada facilidade por estímulos externos insignificantes ou irrelevantes).
(6) Aumento da atividade dirigida a objetivos (socialmente, no trabalho, na escola ou sexualmente) ou agitação psicomotora.
(7) Envolvimento excessivo em atividades prazerosas com alto potencial para conseqüências dolorosas (p. ex., envolver-se em surtos desenfreados de compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros insensatos)

C. O episódio está associado com uma inequívoca alteração no funcionamento, que não é característica do indivíduo quando assintomático.

D. A perturbação do humor e a alteração no funcionamento são observáveis por terceiros.

E. O episódio não é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou ocupacional, ou de exigir hospitalização, nem existem características psicóticas.

F. Os sintomas não se devem aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou de uma condição médica geral.

    Nota:
Os episódios do tipo hipomaníaco nitidamente causados por um tratamento antidepressivo somático (p. ex., medicamentos, terapia eletroconvulsiva e fototerapia) não devem contar para um diagnóstico de Transtorno Bipolar II.