| Resumo
O
autor alerta aos profissionais que trabalham com a drogadicção,
pela via psicanalítica que, em determinadas situações,
é necessária a intervenção
médica mesmo se elemento em que em questão
possa ser deduzido da relação transferencial.
Unitermos: Dependência
Química, Psicanálise, Psiquiatria
Introdução – exposição
de motivos
A
condição na qual a existência de
um sujeito, suas relações privilegiadas
de prazer, é operada pela presença ou
ausência de uma droga de efeito psíquico
recebe a denominação de toxicomania, drogadicção
ou dependência química.
A
simplicidade da definição não esconde
a multiplicidade de circunstâncias clínicas
que envolvem a apresentação dos toxicômanos.
Do usuário eventual, mas não por isso
menos fascinado ao efeito da droga, ao dependente de
uso cotidiano. Do dependente do uso cotidiano que mantém
apesar da marca de dissociação, laços
sociais, ao sujeito cuja existência exibe um evidente
prejuízo na qualidade e no prazer decorrentes
de funções e atos não associados
com a obtenção da droga. O uso da droga
pode acabar tingido com o envolvimento a circunstância
delinqüências até o rompimento dos
laços que não sejam interessantes à
continuidade da toxicomania.
Com
freqüência, estes sujeitos, ao demandar tratamento,
podem se apresentar com um pedido similar ao de um neurótico
que esconde um grande prazer e, por algum tempo, é
possível a manutenção deste semblante.
Também comuns são as demandas nas quais
o sujeito apresenta-se diagnosticado: “sou um
toxicômano”. Tanto um estilo de demanda
quanto o outro deve ser acatado com cautela. É
proposição deste escrito que a toxicomania
exerce um singular deslocamento da palavra, no que esta
se associa ao desejo e à verdade que é
mister a atenção do analista ao fato toxicomaníaco
como uma novidade no campo dos prazeres.
Como
se isso não bastasse, a clínica ainda
e permeada por situações claras de intoxicação
crônica, de episódios agudos produzidos
por excesso na dose que, com alguma freqüência
resultam em condições médicas tais
como convulsões, confusão mental e estados
comatosos que colocam a vida orgânica do sujeito
em risco. Também são acontecimentos comuns
as diversas manifestações de abstinência
que via de regra – requerem atenção
hospitalar, assim como as condições acima
citadas (a intoxicação e o excesso de
dose). A síndrome de abstinência pelo álcool,
por exemplo, leva à morte 10 a 15% dos sujeitos
que a ela chegam.
Apesar
destes eventos, nos quais as experiências médica
e psiquiátrica são bem vindas, o analista,
mesmo sem passar pela medicina, está autorizado
a não ceder diante do toxicômano. Mas,
o analista não está autorizado a apaixonar-se
pela ignorância, senão a alheia. E a Psicanálise
tem peculiaridades que, por antecipação,
sabe-se que não se aplica a toda e qualquer aventura
na qual o toxicômano se embrenha, pelo menos no
momento em que esta aventura se dá exuberantemente.
A síndrome de abstinência, os quadros agudos
de superdosagem são situações desta
natureza. É de Lacan: “Afirmamos, quanto
a nós, que a técnica não pode ser
compreendida nem corretamente aplicada... quando se
desconhecem os conceitos que a fundamentam...esses conceitos
só adquirem pleno sentido ao se orientarem num
campo de linguagem, ao se orientarem na função
da fala”. As circunstâncias presentemente
comentadas não se ordenam às funções
da fala, ordenam-se mais à possibilidade das
drogas exercerem efeitos aquém dos psíquicos.
Efeitos orgânicos, biológicos, bioquímicos,
metabólicos, o nome que desejarem. Assim é
novamente Lacan quem fala, “... originalidade
do método é feita dos meios que ela se
priva, é que os meios que ele reserva bastam
para constituir em campo...”. O psicanalista,
portanto, nada perde se saca a relatividade de sua operação.
Saber aonde vale e aonde não vale a palavra robustece
a clínica e a ética. Seria, sim, interessante,
se as outras disciplinas – notadamente, as de
tom empírico – sacassem que a lisura do
método garante a lisura do método e não
a superioridade do procedimento experimental. Este pequeno
comentário está aqui presente, em função
das críticas que a Psicanálise recebe
dos empiristas, que a consideram menos confiável
e válida por não recorrer, obrigatoriamente,
à metodologia experimental ordinária.
Assim,
se anteriormente o texto frisou o “risco à
vida” que se apresenta no horizonte da imprudência
toxicomaníaca, este sublinhar não foi
para emprestar ao analista a condição
de salvador de vidas. Foi um singelo alerta com a intenção
de colocar as diversas ocorrências ao redor da
toxicomania em seu devido lugar. Para quem pode, deve
ou quer ouvir. Nada em contrário à consideração
que uma passagem ao ato deste jaez possa habilitar a
relação transferencial e o psicanalista,
indubitavelmente, tem como decidir sobre a natureza
da ocorrência: se a passagem ao ato de tom transferencial
ou um acidente, fora da cadeia significante. Pelo sim
ou pelo não, pode decidir a conveniência
de incluir o dispositivo hospitalar geral ou –
especificamente – o dispositivo psiquiátrico.
O que não pode imperar é o desconhecimento
de que as drogas tem um efeito aquém do psíquico.
E é justamente este “ aquém”
que desloca o sujeito e o isola da função
da fala.
Este
escrito, mesmo com a possibilidade de desandar para
um didatismo modorrento, vem dizer algumas palavras
a respeito destes momentos encontrados no curso da existência
de um sujeito submisso à droga. Caso surjam recomendações,
elas não serão mais que recomendações.
Sirvam quem servir. E que sirva à Psicanálise
e à manutenção do sujeito inefável.
Condição ameaçada pela irresponsável
ética pós-moderna e pelo explicacionismo
biológico, tão desrresponsabilizante quanto
o “must” de nosso tempo.
Nada
mais que uma referência.
Para
esta tarefa, utilizar-se-á como guia a última
edição da seção V da décima
versão da classificação internacional
de doenças, publicado em 1992 pela Organização
Mundial de Saúde3. Esta escolha foi feita em
função desta classificação
consistir na referência mundial – exceção
feita aos Estados Unidos – quando a questão
é definir um diagnóstico e elaborar quadros
estatísticos. Além do mais, a CID-10,
como é conhecida, guarda semelhanças claras
com o DSM IV elaborado pela Associação
Psiquiátrica Americana, semelhanças de
tal monta que as críticas e os elogios a um sistema
classificatório são uma luva para o outro.
Levando
a discussão alguns pontos além, Ramadam
é bastante enfático ao lembrar que com
a Psiquiatria “inaugura-se uma nova propedêutica,
não devida, apenas, às condições
históricas apontadas, mas, principalmente, graças
a uma divergência radical entre sintomas e sinais,
até hoje persistes” 6. E completa advertindo
que “ nas grandes psicoses raramente o paciente
se queixa, não declara sintomas” 6 E quando
o faz, queixa-se “ dos outros... de perseguidores
imaginários” 6. Desta forma, o sintoma
é substituído por sua certeza de que o
jovem que procurou o otorrinolaringologista no afã
de extrair cirurgicamente do ouvido um transistor que...lhe
fazia ouvir vozes que comandavam seus atos e pensamentos”
6. Como faz Ramadam, ainda é possível
citar a convicção entrada na síndrome
de Cotard sobre o apodrecimento de seus órgãos
internos, a paralisia da histérica e a patogenia
e a medicina particular que os hipocondríacos
constituem. Tudo para demonstrar como “deslocou-se
o espaço do sintoma, extrapolando o corpo e divergindo
dela na localização e nas funções”
6 e frisar que “não há convergência
entre o foco do olhar do médico e do paciente.
Não há causalidade linear possível,
nem espaço para o reducionismo simplista”
6.
Isto
é posto para deixar bem declarado que, se a CID-10
é aqui um guia, o é pela sua popularidade,
penetração no meio médico e seu
caráter oficial e não pela reificação
de suas categorias ou por considera-las mais verificáveis
e confiáveis que qualquer outra classificação.
A toxicomania na CID-10
Abaixo estão expostos
os itens referentes à toxicomania, como apresentados
na CID-10. Com os termos a seguir pretende-se englobar
a multiplicidade de fenômenos que envolvem o uso
de drogas. Desde as condições agudas e
passageiras até a condição crônica
que inclui os estados psicóticos e demenciais.
F10-F19
Transtornos mentais
e de comportamento decorrentes do uso de substâncias
psicoativas
Visão
geral deste bloco. |
F10
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso do álcool. |
F11
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de opióides. |
F12
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de canabinóides. |
F13
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de sedativos ou hipnóticos. |
F14
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de cocaína. |
F15
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de outros estimulantes, incluindo
cafeína. |
F16
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes ao uso de alucinógenos. |
F17
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de tabaco. |
F18
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de solventes voláteis. |
F19
– Transtornos mentais e de comportamento
decorrentes do uso de múltiplas drogas
e do uso de outras
substâncias psicoativas. |
Códigos
quatro a cinco dígitos podem ser usados para
especificar as condições clínicas,
como se segue:
F1x.0
Intoxicação aguda |
.00 Não complicada |
.01
Com trauma ou outra lesão corporal |
.02
Com outras complicações médicas
|
.03
Com “delirium” |
.04
Com distorções perceptivas |
.05
Com coma |
.06
Com convulsão |
.07
Intoxicação patológica |
|
F1x.1
Uso nocivo |
|
F1x.2
Síndrome de dependência |
.20
Atualmente abstinente. |
.21
Atualmente abstinente, porém em ambiente
protegido. |
.22
Atualmente em regime de manutenção
ou substituição clinicamente supervisionado
(dependência
controlada). |
.23
Atualmente abstinente, porém em tratamento
com drogas aversivas ou bloqueadoras. |
.24
Atualmente usando a substância (dependência
ativa). |
.25
Uso contínuo |
.26
Uso episódico (dipsomania) |
|
F1x.3
Estado de abstinência |
.30
Não complicado |
.31
Com convulsões |
|
F1x.4
Estado de abstinência com “delirium” |
.40
Sem convulsões |
.41
Com convulsões |
|
F1x.5
Transtorno psicótico |
.50
Esquizofreniforme |
.51
Predominantemente delirante |
.52
Predominantemente alucinatório |
.53
Predominantemente polimórfico |
.54
Predominantemente com sintomas depressivos |
.55
Predominantemente com sintomas maníacos |
.56
Misto |
|
F1x.6
Síndrome amnéstica |
|
F1x.7
Transtorno psicótico residual e de início
tardio |
.70
“Flashbacks” (revivescências)
|
.71
Transtorno de personalidade e de comportamento |
.72
Transtorno afetivo residual |
.73
Demência |
.74
Outro comprometimento cognitivo permanente |
.75
Transtorno psicótico de início tardio |
|
F1x.8
Outros transtornos mentais ou de comportamento |
|
F1x.9
Transtorno mental e de comportamento não
especificado |
Estes
são os termos pelos quais a Psiquiatria tem codificado
os acontecimentos em torno das vicissitudes da toxicomania.
Alguns deles são de conhecimento comum, outros
tem a especificidade própria dos conceitos médicos.
E, por mais que não seja possível e nem
recomendável a reificação destes
conceitos, estão expostos, pelo menos, para que
eles sejam conhecidos. Se ao psicanalista estes conceitos
são úteis, não há como fazer
uma afirmação peremptória.
Acontecimentos toxicomaníacos e a Psicanálise
Estando
o psicanalista dirigindo a cura de um sujeito submisso
à droga, obviamente, aquele não escolhe
e nem determina quais manifestações acabam
por ocorrer durante o percurso de seu analisante. Não
obstante, é interessante que este psicanalista
possa perceber que não se deduz todos os acontecimentos
que se dão com o toxicômano da transferência,
da resistência, da inibição ou do
recalque. Como proposto em trabalho anterior, as drogas
introduzem o psicanalista em uma novidade: a constituição
de uma fantasmagoria em curto-circuito entre o Real
e o Imaginário que prescinde do Ouro8.
Assim,
entre as manifestações clínicas
não escolhidas pelo analista estão aquelas
que dependem mais decisivamente da ação
bioquímica da droga ou das drogas em questão.
Não obstante, nem sempre esta advertência
teve valor. Em um passado não muito distante,
notadamente no final dos anos 50 e primeira metade dos
anos 60, alguns psiquiatras e psicoterapeutas de má
orientação psicanalítica imaginaram
que o uso de psicotrópicos – em especial,
os alucinógenos – favorecia o acesso ao
recalcado e ao não realizado, driblando as formações
do inconsciente, apressando e facilitando a fala e a
cura. Uma posição tão curiosa quanto
desconhecedora da natureza linguageira da inconsciente.
Exemplarmente, Melechi9 diz que a literatura com a qual
o laboratório Sandoz apresentou, em 1947, a dietil-amida
do ácido lisérgico (LSD) para a comunidade
psiquiátrica, supunha que esta droga seria terapeuticamente
útil em duas vias: para facilitar a manifestação
do material reprimido em pacientes que sofrem de ansiedade
e perturbações obsessivas e por habilitar
os psiquiatras a um “insight” do mundo de
idéias e sensações mentais dos
pacientes. Ainda nos anos 50, Sandison em um entusiasmado
estudo intitulado “Psychological aspects of the
LSD treatment of the neurosis” 10 expunha a vantagem
desta “nova droga para auxiliar o inconsciente
a revelar seus segredos” 10. É claro que
uma leitura com estes traços inclui uma noção
de “inconsciente” que guarda a verdade como
que encaixotada, á espera da chave que a abrirá.
Não se trata de um inconsciente estruturado tal
como a linguagem, que põe a sua verdade em jogo
por meio dos equívocos aos quais a palavra está
destinada.
Pensar
e propor uma cumplicidade entre a droga e a falta neste
teor é, evidentemente, discorrer em um diapasão
oposto ao produzido na presente linha de pesquisa. É
como encampar o dito popular sobre a verdade inequívoca
que é revelada durante os estados de embriaguez.
Nada em contrário à consideração
de que o uso de drogas pode servir à pusilanimidade
e representar uma declarada vantagem nas circunstâncias
onde alguma acusação ao sujeito pode vir
a embaraçá-lo, no registro jurídico
ou não. A confissão de que “encontrava-se”
sob o efeito de drogas” pode converter-se em argumento
atenuante quanto à responsabilidade de um sujeito
pilhado em ato desvairado. Isto é para frisar
que a “novidade clínica” que o toxicômano
apresenta não é uma categoria que venha
ensurdecer o analista e transformá-lo em parceiro
da mentira e da justificativa irresponsável.
Importante é o psicanalista, se algum sentido
a proposta faz, saber que algumas das circunstâncias
que ocorrem no percurso de seu analisante não
são imediatamente acessíveis à
palavra. E esta proposição, a meio passo
entre a constatação e a invenção
de um conceito, que sirva à manutenção
do psicanalista com o toxicômano. Exatamente para
que este ser não fique à mercê dos
psiquiatras biológicos e do exército disciplinador
de mútua ajuda. A Psicanálise deve manter
viva uma resposta ao mal-estar da pós-modernidade.
Recorrendo,
então, à CID-10 é interessante
notar que as intoxicações agudas acompanhadas
pelo “delirium”, distorções
perceptivas, coma ou convulsões (categoria F1x.0)
estão entre as manifestações não
imediatamente acessíveis à palavra e,
dependendo da intensidade do quadro, caberia ao psicanalista
sustentar o encaminhamento do analisante e tratamento
de emergência, sem considerar-se derrotado. Há
que não esquecer que, por vezes, ocorrem acidentes
não dedutíveis do campo transferencial.
E, mesmo quando da transferência os deduzimos,
ainda resta a autonomia própria do efeito das
drogas. Por mais que fosse auspicioso que o drogadicto,
ao procurar tratamento, já diminuísse
ou suspendesse o uso das drogas, estaríamos no
seio de uma contradição clara: se tal
é possível, para quê a cura? De
onde a demanda “preciso parar com as drogas”?
Certamente, não estaria em tratamento um legítimo
toxicômano. Além do mais, se o psicanalista
supõe o sujeito, não precisa obrigar o
ser a uma disciplina férrea e propor a aceitação
no tratamento apenas se o indivíduo parar com
o uso das drogas. E isto, sem mostrar minimamente cúmplice
com as sucessivas passagens ao ato de seu paciente.
Há que considerar que a Psinálise deve
propor à cultura uma via distinta para o tratamento
do toxicômano. Este estilo que propõe a
abstinência desde o início, como condição
para o tratamento, caracteriza mais os grupos de mútua
ajuda e as abordagens psiquiátricas por eles
inspirados. Falta a estes a noção de sujeito.
Como
ilustração, reproduz-se a descrição
da intoxicação alcoólica aguda,
não complicada, encontrada no texto de Mayer-Gross,
Slater e Roth12 : “Depois de curto estágio
de “excitação” devido à
remoção das influências inibitórias
dos centros superiores, há uma redução
da eficiência psicológica. A falta de controle
muscular, a atenção reduzida, a percepção
sensorial embotada e a lentidão do pensamento
tornam-se óbvias. As associações
são superficiais;...; a fixação
é enfraquecida e a memória para acontecimentos
é fragmentária e incerta.
As
inibições adquiridas, o autocontrole e
a discrição desaparecem ou são
submergidas em ondas de emoção de um primitivo
tipo... . No campo consideravelmente reduzido da atividade
mental, o desempenho [social] é fácil
e considerado com desprendimento... a enganadora sensação
de calor..., a insensibilidade à dor... [e] uma
sensação de superioridade e força...
[este
estado pode ser] seguido de uma narcose mais profunda;
andar cambaleando, fala perturbada, ataxia geral, tremor,
vertigem, vômito e inconsciência. No lado
mental, as mais severos níveis de intoxicação
são...acompanhados por aumento de irritabilidade,
explosões de raiva e violência. ...E, completando,
não é impossível chegar à
abolição radical do fenômeno consciente
e o alcoolismo penetrar no coma alcoólico”
12.
Um
outro exemplo é a intoxicação pela
cocaína. Segue a descrição de Kaplan
e Sadock 13: “ A intoxicação por
cocaína pode causar ausência da sensação
de fadiga, agitação, ansiedade, fala-se
muito e apressadamente. É possível o aparecimento
de ideação paranóide, agressividade,
aumento do interesse sexual, elevado senso de consciência
[de um saber], sensação de grandiosidade
e hiperatividade como manifestações psíquicas.
Os sinais físicos incluem taquicardia, hipertensão,
dilatação pupilar, calafrios, insônia
e movimentos estereotipados. O uso da cocaína
também está associado à morte súbita
por complicações cardíacas e “delirium””13.
Estes
dois exemplos bastam para o reconhecimento de que, durante
o efeito da droga, aparece uma estrutura que mais do
que realçar os traços particulares e privados
de um sujeito singular, na verdade, o submerge em uma
generalização uniformizante. É,
certamente, neste sentido que não é conveniente
julgar a droga um auxiliar de qualquer espécie
para o psicanalista. Não há a revelação
de nenhum discurso inconsciente e nem o sujeito torna-se
pré-disposto à verdade. A cena é
melhor definida pela estereotipia. E, ao mesmo tempo,
os exemplos acima demonstram o quanto o efeito das drogas
não se limita ao psiquismo e coloca em campo
o corpo total.
Não
obstante, precisando o escrito acima, o reconhecimento
de que a intervenção química desloca
o sujeito da singularidade não é para
que o psicanalista tome o rumo da desculpabilização,
da aceitação ingênua da justificativa
que irresponsabiliza. Nem sugere que o psicanalista
– mestre das funções da fala –
mergulhe na concepção própria àqueles
que vêm na linguagem apenas a função
instrumental e unidimensional, que supõe uma
relação biunívoca entre as palavras
e os referentes 14,15, sem salientar a condição
autônoma das leis da linguagem. O que diz deve
ter como conseqüência a modulação
da escuta do psicanalista. Assim, se o alcoolista ou
o cocainômano afirma que não se lembra
de um ato específico transcorrido durante a intoxicação,
que está declaração seja –
via de regra – posta em dúvida, por mais
que todo o discurso neuropsiquiátrico afirme
que, nos estados agudos de intoxicação,
a memória de fixação esteja prejudicada.
No texto anteriormente citado 8, a fantasmagoria que
é constituída na relação
do sujeito com o efeito da droga após sucessivas
intoxicações e a linguagem, a existência
e as marcas significantes e desejantes não abole
definitivamente a topologia borromeana que o define.
Esta lá está obscurecida em graus variáveis
mas não desconstruída.
Posto
isto, é posição deste que os estados
agudos de intoxicação pelas drogas não
reúne todos os elementos que permitem à
escuta do psicanalista sacar a verdade que surge da
inevitável predestinação da palavra
ao equívoco. Isto é, a presença
do sujeito sob o efeito de drogas na sessão deve
produzir um peculiar estado de atenção
não flutuante em que escuta. E não se
desconhece, ao fazer esta afirmação, qual
é a regra fundamental ao psicanalista durante
o ato analítico. Salvo, claramente, se o psicanalista
em questão está entre aqueles que vêm
nas drogas um meio interessante de revelação...
.
Outro
momento no qual o psicanalista deve estar atento, a
seus limites corresponde ao estado de abstinência.
Genericamente, o estado de abstinência, também
denominado síndrome de abstinência, é
um grupo de sintomas que aparecem horas ou dias após
o uso da última dose. Usualmente, a abstinência
manifesta, como nos estados de intoxicação
aguda, uma boa mescla de sintomas mentais e físicos.
Como exemplo, estão descritos a seguir os estados
de abstinência associados ao uso de álcool
e da heroína.
Segundo
Walter1, após algumas horas da última
ingestão alcoólica, surgem as manifestações
de hiperatividade autonômica “com pulso
rápido, sudorese, tremores”. Este quadro
pode acompanhar-se de “pesadelos e alucinações
visuais ou táteis”. A principal complicação,
neste período, é a ocorrência de
convulsões. Este estado pode evoluir para um
genuíno “delirium tremens”. O “delirium
tremens” implica em uma intensificação
dos sintomas acima referidos, aos quais somam-se a obnubilação
da consciência, a desorientação
têmporo-espacial, além do agravamento dos
fenômenos orgânicos com a possível
ocorrência de “desidratação,
hipertermia e [risco de] colapso circulatório”.
O “delirium tremens” alcança o índice
de mortalidade “mesmo em condições
ideais de tratamento [de] 10 a 15%”.
Ritson
e Chuck 16 descrevem como segue a síndrome de
abstinência de heroína. “A síndrome
consiste na sensação de cansaço,
fadiga e medo concomitante a sintomas físicos
desprazerosos como dores abdominais, cólicas,
náuseas, desmaios, sudorese, insônia, irritabilidade,
rinorréia, excessivo lacrimejamento e soluços.
Os sintomas aumentam a intensidade por 48 horas e são
extremamente desconfortáveis, entretanto raramente
vão além destes sintomas físicos”.
Um intenso furor para repetir o consumo da droga acompanha
este estado.
Se
as descrições acima indicam que a síndrome
de abstinência pelo álcool é mais
grave que a pela heroína, isto não permite
uma conclusão imediata simplista que vise a categorização
das drogas em mais e menos graves. Se há aqueles
que verão neste ato, classificar as drogas em
relação à periculosidade, um campo
interessante é mister lembrar o que ocorre com
o usuário da cocaína. É sabido
que o uso constante da cocaína pode trazer dificuldade
marcantes à existência do sujeito e não
é acompanhado por um estado de abstinência
que traga, em si, algum risco à integridade do
ser, Kaplan e Sadock 13 assim o caracterizam: “O
sinal mais proeminente da abstinência à
cocaína é o desejo intenso pelo droga”.
Isto é, distintamente do álcool e da heroína,
a abstinência da cocaína resume o problema
do adicto e não introduz novidades ao curso da
questão.
Por
outro lado, drogas de efeito psíquico identificadas
com a terapêutica dos distúrbios mentais
são capazes de induzir estados de abstinência
mesmo quando corretamente prescritas por médico
competente. Os antidepressivos e benzodiazepínicos
comumente utilizados para o tratamento farmacológico
de quadros ansiosos e depressivos, além de coadjuvantes
na terapêutica de quadros esquizofrênicos,
delirantes e maníacos, estão listados
entre elas. No caso dos antidepressivos, que foram reconhecidos
como causadores de abstinência mais recentemente,
é curioso o uso de eufemismos como “síndrome
de retirada” ou “síndrome de interrupção
do uso” 17,18 para a referência a um simples
e corriqueiro estado de abstinência com “sintomas
provavelmente leves e de breve duração”17.
Segundo Calil e colaboradores17, os sintomas mais freqüentes
“agrupados em seis categorias principais, foram:
1. gerais: tonturas, vertigens, sudorese, cefaléia,
insônia; 2. transtornos sensitivos ou sensoriais:
parestesias, torpor, transtornos visuais, 3. motores:
falta de equilíbrio e tremores; 4. neuropsiquiátricos/psicológicos:
ansiedade, agitação, alucinações,
confusão e mudanças na estado de ânimo;
5. gastrintestinais: fundamentalmente, náuseas;
6. outros: palpitações. Apesar da diversidade
dos sintomas notificados, os mais freqüentes foram
tonturas, parestesias, tremores, ansiedade náuseas
e palpitações”17.
No
caso dos benzodiazepínicos, os sintomas que compõem
a síndrome de abstinência são, principalmente,
manifestações autonômicas como tremores,
taquicardia, sudorese. Podem ocorrer espasmos musculares,
cefaléias além de distúrbios gastrintestinais
e insônia. A hipersensibilidade a som e luz, parestesias
e hiperosmias eventualmente incomodam, ao lado da perda
de peso e hipertensão. No lado mais propriamente
psíquico, ideação paranóide,
ansiedade, fenômenos de despersonalização
e desrealização 19,20.
É
de conhecimento geral, que a abordagem farmacológica
do sofrimento humano tem ocupado uma dimensão
exageradamente ampla no arsenal terapêutico dos
psiquiatras. A referência a problemas similares
entre as drogas terapêuticas e as uso ilegal não
deve surpreender a ninguém, se bem que não
é recomendável atribuir, genericamente
à comunidade psiquiátrica, despreocupação
com este fator. A referência à história
vai encontrar que tanto o ópio quanto a cocaína
foram largamente testados e usados como terapêuticos
e o tetra-hidrocanabinol, princípio ativo da
maconha, tem sido recomendado, atualmente, para o tratamento
de náuseas decorrentes da quimioterapia. A referência
ao sítio de ação destas drogas
e sua relação com os neurotransmissores,
é evidente que os fármacos psicoativos
e as drogas ilegais devem exercer efeitos em sistemas
bioquímicos similares. A condição
jurídica de droga “legal” ou “ilegal”
não diz nada sobre o impacto delas na subjetividade
e na organicidade. E, para lançar uma pergunta,
não é importante que os psiquiatras se
interroguem se a alta estimação da função
dos fármacos na terapêutica não
traz como conseqüência funesta a colaboração
com uma cultura cada vez mais toxicomaníaca e
menos interpessoal?
Além
das condições acima citadas – a
intoxicação aguda e a síndrome
de abstinência – encontramos associados
ao uso de drogas transtornos psicóticos, afetivos
e demenciais. Estas condições também
podem ser incluídas entre as circunstâncias
onde o psicanalista deve estar razoavelmente alertado
sobre o fracasso dos poderes da palavra na constituição
do atravessamento do fantasma. E sem que tal cuidado
signifique deixar o sujeito à própria
sorte ou submisso a um único discurso de tom
tão falso quanto triunfalista.
Conclusões
Este
texto é dirigido aos psicanalistas que não
cedem diante do toxicômano e têm a intenção
de fazer falar o evanescente sujeito deslocado e enevoado
pela drogadicção. Sujeito que, muitas
vezes, parece radicalmente submergido.
Esta
constatação clínica obrigou a teorizações
que, senão toma o organismo como fundamento de
sua intervenção (e não há
como ser de outro jeito, se estamos no campo da Psicanálise!),
admite que a toxicomania escapa aos esquemas clássicos
das explicações psicanalíticas.
E isto se deve ao detalhe de que quando o símbolo
interpelou a carne, não desfez em letras. A carne
acompanha o símbolo enquanto o corpo vive. E
é com o corpo que a droga opera, por mais que
favorecem ou dificultam que certas respostas ao mal
estar sejam mais encontradas que outras. E, apesar da
discussão não ter chegado ao fim, habitamos
uma cultura onde a resposta toxicomaníaca –
oficial ou não – tem o estatuto de discurso
válido.
E
não é conveniente que o psicanalista se
esqueça que, ao ouvir e falar com o toxicômano,
fala e ouve com quem crê que sabe onde o corpo
goza mais e este saber é efeito do curto caminho
constituído entre a falta e o prazer que prescinde
do significante e que é cuidadosamente pavimentado
pelo drogadicto.
Assim,
está aqui mais um exemplo da qualidade de questões
que envolvem o uso das drogas. Não há
pensamento linear que encampe e responda da característica
própria às drogas que é exercer
efeitos psíquicos, produzir um discurso e uma
ideologia, a partir da intervenção primária
no arcabouço neurobioquímico do organismo,
apesar da totalidade das manifestações
do toxicômano não ser explicada por este
fato. Há ali, por baixo do pó, da pedra,
da seringa, do selo, do charuto, o sujeito. É
o tempo para a escuta que dirá até quando
ele pode falar.
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