Ascite
Introdução
É
a mais comum das complicações da cirrose,
ocorrendo em mais de 50% dos pacientes com 10 anos de
diagnóstico da doença.
Importante
marcador prognóstico no paciente cirrótico,
pois cerca de 50% dos pacientes que desenvolvem ascite
morrem em 2 anos.
Classificação:
- Grau
1: ascite leve, detectável apenas ao
exame ultra-sonográfico.
- Grau
2: ascite moderada, caracterizada pela distensão
moderada e simétrica do abdome.
- Grau
3: distensão abdominal importante.
Paracentese e análise do líquido ascítico
Importante
no diagnóstico da causa da ascite como também
na exclusão da peritonite bacteriana espontânea
(PBE). As complicações da paracentese
são raras e ela deve ser evitada apenas nos casos
de fibrinólise ou coagulação intravascular
disseminada clinicamente evidentes. Pacientes pIaquetopênicos
(< 50.000/mm3) devem ser avaliados caso a caso, sendo
prudente a correção com concentrado de
plaquetas nos pacientes de maior risco para sangramento.
Os
exames solicitados no líquido ascítico
variam, dependendo da suspeita diagnóstica. Os
testes mais utilizados são os seguintes:
-
Citologia total e diferencial: importante
principalmente no diagnóstico da PBE, porém
também útil no diagnóstico diferencial
de outras causas de ascite, como tuberculose peritoneal.
-
Albumina: fundamental para cálculo
gradiente soro-ascite de albumina (albumina sérica
menos a albumina do líquido ascítico),
sendo que o resultado maior ou igual a 1,1 g/dL indica
ascite por hipertensão porta com 97% de acurácia.
-
Proteínas totais, DHL, glicose e pH:
úteis principalmente na suspeita de peritonite
bacteriana secundária.
-
Cultura: principalmente para diagnóstico
PBE, devendo o líquido ser inoculado em um frasco
de hemocultura à beira do leito para aumentar
a sensibilidade da cultura.
-
Outros: citologia oncótica,
triglicerídeos, amilase, cultura para micobactérias,
ADA, entre outros, deverão ser solicitados em
condições clínicas específicas.
Tratamento
Dieta
hipossódica: medida útil principalmente
nos pacientes com excreção renal de sódio
> 40 mEq/dia. Apesar da clássica recomendação
de se restringir para 2 g/dia a ingestão de sal,
não parece haver diferenças em termos
de sobrevida quando se usa uma restrição
menos intensa. A recomendação atual é
que se permita adição de até 5,2
g/dia de sal na dieta.
Restrição
hídrica: deve ser evitada, pois pode
levar a desidratação e piora da função
renal. Só é necessária em pacientes
com hiponatremia importante (Na < 120 mEq/L). Nesse
caso, restringimos para cerca de 800 mL/dia. Vale lembrar
que os cirróticos normalmente são assintomáticos,
mesmo com níveis de Na menores que 120 mEq/L,
não necessitando, portanto, de urgência
na correção da hiponatremia na maioria
das situações.
Repouso
no leito: de eficácia controversa.
Diuréticos
- Usados
nos casos de ascite graus 2 e 3.
- Recomenda-se
iniciar com espironolactona 100 a 200 mg/dia. Pode ser
associada a furo semida na dose de 40 mg/dia. As doses
podem ser aumentadas até o máximo de 400
mg de espironolactona e 160 mg de furosemida. Classicamente
recomenda-se manter uma relação 100:40
de espironolactona furosemida no intuito de se manter
a normocalemia.
A resposta ao tratamento diurético é monitorada
por meio do peso. A perda de peso não deve ultrapassar
0,5 kg/dia nos pacientes sem edema e 1 kg/dia naqueles
com edema periférico. A resposta aos diuréticos
é lenta, esperando-se uma perda mínima
de 1 kg na primeira semana e 2 kg nas subseqüentes.
O
aparecimento de encefalopatia hepática, hiponatremia
importante (Na < 120 mEq/L) ou creatinina > 2,0
mg/dL são indicações de suspensão
dos diuréticos e reavaliação.
Paracentese
de alívio
-
Alguns estudos mostram que uma única paracentese
com retirada de 4 a 6 L pode ser feita com segurança
pacientes com ascite tensa, sem a necessidade de reposição
de colóides. No caso de paracenteses repetidas,
para tratamento da ascite refratária é
preconizada infusão de expansores plasmáticos
mesmo no caso de retirada de menos de 5 L (nesse caso
os expansores plasmáticos sintéticos são
tão efetivos quanto a albumina).
-
Recomenda-se, no entanto, no caso de retirada de mais
de 5 L de fluido, a administração de albumina
humana, 8 g/L de ascite retirada (incluindo os 5 primeiros
litros).
TIPS:
indicado no tratamento da ascite ria nos casos em que
são necessárias paracenteses freqüentes
(> 3 ao mês) ou nos casos L, que as paracenteses
são contra-indicadas ou inefetivas.
Fig.
- Algoritmo do tratamento da ascite em pacientes portadores
de hepatopatia crônica
Peritonite
Bacteriana Espontânea (PBE)
Introdução
-
Ocorre em cerca de 10 a 30% dos cirróticos com
ascite admitidos no hospital
-
A mortalidade de um só episódio é
de 20 a 40% e cerca de 65 a 70% desses pacientes morrem
dentro de 2 anos.
Apresentação
clínica
-
10% são assintomáticos
- Sinais
sugestivos de infecção peritoneal: dor
abdominal, vômito, diarréia ou íleo.
-
Sinais de infecçáo sistémica: febre,
leucocitose ou choque séptico.
-
Encefalopatia hepática ou rápida piora
na função renal, sem nenhum fator precipitante
reconhecido.
Diagnóstico
Uma
paracentese diagnóstica deve ser feita em todos
os cirróticos com ascite admitidos, mesmo naqueles
internados por outras razões. Deye ser realizada
também nos pacientes já hospitalizados
e que desenvolvam alguma das condições
descritas acima.
O
diagnóstico da PBE se baseia no encontro de mais
que 250 polimorfonucleares (PMN) por mm3 com a cultura
do líquido ascítico positiva. Porém
apenas o encontro de >250 PMN/mm3 já é
altamente sugestivo de PBE, constituindo indicação
de antibioticoterapia, pois as culturas são negativas
em cerca de 30 a 50% dos casos de PBE.
Nos
casos de ascite hemorrágica (> de 10.000 eritrócitos/mm3),
deve-se subtrair 1 PMN para cada 250 eritrócitos.
Tratamento
- Antibioticoterapia:
cefotaxima 2 g de 12 em 12 h ou ceftriaxone 2 g/dia
são a primeira escolha. A duração
é definida pela evolução clínico-
laboratorial, sendo normalmente 5 dias.
-
Paracentese de controle: a paracentese
deve ser repetida 48 h após início dos
antibióticos. Caso não ocorra um declínio
no número de PMN de no mínimo 25%, deve
ser considerada falha terapêutica e utilizados
outros esquemas antibióticos, além de
excluir a possibilidade de peritonite secundária.
-
Albumina: a administração
de 1,5 g/kg no momento do diagnóstico, seguido
de 1 g/kg 48 h depois, mostrou melhora na sobrevida
dos pacientes com PBE.
Profilaxia
-
Pacientes que se recuperaram de um episódio de
PBE são candidatos a profilaxia com norfloxacina
400 mg/dia indefinidamente.
-
Na fase aguda da HDA, todos os cirróticos, com
ascite ou não, devem fazer uso da norfloxacina
400 mg de 12 em 12 h por no mínimo 7 dias.
Encefalopatia
Hepática
Introdução
-
Distúrbio neuropsiquiátrico caracterizado
por mudanças na personalidade, cognição,
função motora ou no nível de consciência.
É usualmente reversível e decorre da insuficiência
hepática e/ou dos shunts portossistêmicos.
-
Também indicador de mau prognóstico, com
sobrevida em um ano de apenas 40%.
Graduação
da encefalopatia hepática
-
Grau I: alteração do
comportamento e do ciclo sono-vigília. Pode haver
sonolência ou euforia.
- Grau
II: igual ao anterior com maior predomínio
da sonolência e aparecimento do flapping.
- Grau
III: paciente dorme a maior parte do tempo,
mas responde a estímulos verbais. Confuso, voz
arrastada. Flapping evidente.
- Grau
IV: coma hepático. Flapping ausente.
Fatores
desencadeantes
- Hemorragia
gastrintestjnal
- Infecções:
principalmente PBE, infecções pulmonares
e urinárias.
- Distúrbios
renais e hidroeletrolíticos: incluindo insuficiência
renal, alcalose metabólica, hipocalemia, desidratação
e efeitos dos diuréticos.
- Uso
de drogas psicoativas: benzodiazepínicos e outros
sedativos.
- Constipação.
- Excesso
de proteínas na dieta.
- Piora
aguda na função hepática: hepatite
alcoólica associada, trombose de veia porta e
colocação de TIPS são exemplos.
Tratamento
Medidas
gerais
- Remover
fatores desencadeantes.
- Evitar
uso de sedativos.
- Sonda
nasogástrica nos pacientes mais comatosos.
- Suspender
uso de diuréticos.
Nutrição
- O
paciente pode ser deixado em jejum por 24 a 48 h nos
casos mais graves.
- Dieta com restrição
de 0,5 g/kg/dia de proteína, com progressivo
aumento até 1 a 1,5 g/kg/dia.
Lactulose
- Iniciar
com 20 a 40 mL VO ou por SNG, repetir dose de hora em
hora até a primeira evacuação,
então ajustar a dose para 2 a 4 evacuações
pastosas ao dia.
- Pode ser
feita por enema (300 mL de lactulose em 1 L de água)
que deve ser retido por 1 h com o paciente na posição
de Trendelenburg (para facilitar o acesso ao cólon
direito).
Antibióticos
- Podem
ser usados como alternativa a lactulose.
- Neomicina
3 a 6 g/dia VO divididos em 4 tomadas diárias.
- Metronidazol
1,2 a 1,6 g/dia.
Flumazenil
- Somente
indicado nos casos em que há suspeita do uso
de benzodiazepínicos.
Hemorragia Digestiva Alta Varicosa
Introdução
- 10
a 30% de todos os casos de hemorragia digestiva alta
(HDA) são causados por varizes de esôfago.
- Cerca de
30% dos episódios são fatais e cerca de
70% dos que sangraram vão apresentar um novo
episódio de HDA.
- É possível
reconhecer os pacientes de maior risco para o primeiro
sangramento por meio de alguns preditores:
- Clínicos:
doença hepática avançada (classificação
de Child-Pugh) e manutenção do etilismo.
-
Endoscópicos: varizes de grosso calibre
e sinais da cor vermelha (p. ex., red spots).
CLASSIFICAÇÃO
DE CHILD-PUGH DE GRAVIDADE DA HEPATOPATIA CRÔNICA
| Variável |
|
Pontuação
* |
|
| |
1
ponto |
2
pontos |
3
pontos |
Encefalopatia |
Ausente |
Leve
a moderada |
Grave
a coma |
Ascite
|
Ausente |
Discreta |
Moderada |
Bilirrubina
(mg/dL) |
<
2 |
2
a 3 |
>
3 |
Albumina
(g/L) |
>
3,5 |
2,8
a 3,5 |
<
2,8 |
Tempo
de protrombina
(segundos acima do
controle) |
1
a 4 |
4
a 6 |
>6 |
Tratamento
Medidas
gerais
- Proteção
das vias aéreas e oxigenoterapia se indicado.
Pacientes comatosos podem ser candidatos a intubação
traqueal, principalmente antes da endoscopia para evitar
aspiração.
- Monitoração
cardíaca, oximetria, PA não invasiva e
controle de diurese.
- 2
acessos venosos calibrosos e reposição
volêmica com SF 0,9%. Colher sangue para tipagem,
prova cruzada, Hb/Ht, coagulograma e outros.
- Sonda
nasogástrica de grosso calibre, principalmente
nos pacientes mais comatosos, com HDA de grande volume
ou com sangramento ativo. A presença de varizes
não contra-indica a passagem da SNG.
- Avaliar
gravidade do sangramento por meio de parâmetros
clínicos como taquicardia ao repouso e hipotensão
postural. (Ver Capítulo de Choque.)
- Antibioticoterapia
profilática: norfioxacina 400 mg VO de 12 em
12 h ou cefalosporinas de 3ª geração
como ceftriaxone 2 g EV uma vez ao dia por no mínimo
7 dias.
- Correção
da coagulopatia se sangramento ativo: manter número
plaquetas acima de 50.000/mm3 e TP no máximo
1,5 vez o número do controle.
- Suporte
transfusional visando manter Ht em torno de 30%.
Tratamento
farmacológico
- Deve
ser iniciado imediatamente quando há suspeita
de HDA por varizes.
- Terlipressina
e somatostatina mostraram eficácia comparável
ao tratamento endoscópico, com menor taxa de
complicações. Porém raramente estão
disponíveis em nosso meio.
- Octreotide:
não deve ser usado como única terapia,
porém em associação com o tratamento
endoscópico mostrou melhora no controle do sangramento
agudo quando comparado com o tratamento endoscópico
isoladamente. Dose: bolus de 50 mcg em 10 min, seguido
de 50 mcg/h por no mínimo 48 h (diluir 12 ampolas
de 100 mcg em 250 mL de SG 5% e correr todo o volume
em 24 h).
Tratamento
endoscópico
-
É capaz de interromper o sangramento em 80 a
90% dos casos.
- Tanto
a escleroterapia quanto a ligadura elástica são
eficazes, sendo que a última apresenta menor
incidência de complicações.
Tamponamento
por balão
-
Se usado da maneira correta, é capaz de interromper
o sangramento na maioria dos casos, porém o ressangramento
é comum.
- Deve
ser usado apenas como ponte para procedimentos mais
definitivos em pacientes com hemorragia não controlada.
Outros
métodos
-
TIPS: reservado para os pacientes com
falha do tratamento farmacológico/endoscópico
e é capaz de parar o sangramento em praticamente
todos os casos. Tem as desvantagens de não ser
disponível em muitos centros, leva à encefalopatia
em cerca de 35% dos pacientes e tem alta taxa de trombose
e estenose da prótese.
- Tratamento
cirúrgico: reservado para casos refratários
onde não há disponibilidade do TIPS. |