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ARTIGO
ORIGINAL 0RIGINAL PAPER
Alterações no metabolismo da homocisteína
induzidas por aguardente de cana-de-açúcar
em alcoólatras
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| Homocystein
metabolism alterations induced by sugar-cane liquor
in alcoholics
Rogério
Nogueira Prioste I; Cesar Iracil
Casagranda II; Christiane Martinez
Hungaro I; Demerval Antonio Nunes
III; Éder Aparecido Bueno
II; Lilian Bordin III;
Osmar Marchiotto Jr. II; Paulo
Fernando de Moraes Nicolau III;
Renê Izaias Lozano II; Victor
Andriguetti Coronado Antunes II;
Wilson Takahi Hida II; Tânia
leme da Rocha Martinez IV
I
Faculdade de Farmácia e Bioquímica de
Presidente Prudente/Universidade do Oeste Paulista (Unoeste)
II Faculdade de Medicina Dr. Domingos L. Cerávolo/Unoeste
III Hospital Psiquiátrico São João
IV Instituto do Coração (Incor), Faculdade
de Ciências Médicas/Universidade de São
Paulo
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RESUMO
O
alcoolismo está relacionado a má nutrição
e baixos níveis de várias vitaminas que
fazem parte do metabolismo da homocisteína (Hci).
O objetivo deste estudo foi analisar a prevalência
de hiper-homocisteinemia em pacientes com alta ingestão
diária de aguardente de cana-de-açúcar.
Foram incluídos neste estudo 31 homens hospitalizados
para tratamento de alcoolismo. Hci, folato (Fol), vitamina
B12 séricos e enzimas hepáticas foram
determinados e repetidos após 21 dias de abstinência
alcoólica. Os valores de Hci em µmol/l
antes e depois do tratamento foram, respectivamente,
de 24,88 ± 2,09 e 12,48 ± 0,69. A abstinência
alcoólica diminuiu significativamente os valores
de aspartato aminotransferase, alanina aminotransferase
e gamaglutamiltranspeptidase. Não houve alteração
dos níveis de hemácias, proteínas
totais e concentração de hemoglobina corpuscular
média. Os níveis de Hci antes do tratamento
se correlacionaram com os de folato (r2 = 0,333). Estes
resultados sugerem que o alcoolismo crônico está
acompanhado por perturbação do metabolismo
de aminoácidos sulfurados e que a hiper-homocisteinemia
etanol-induzida através de aguardente de cana-de-açúcar
pode ser acompanhada de níveis séricos
baixos de folato, agravando o estado nutricional destes
pacientes.
unitermos:
Homocisteína, Folato, Alcoolismo
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ABSTRACT
Alcoholism
is related to malnutrition and low levels of several
vitamins that take part in the metabolism of homocystein
(HCY). The objective of this study was to analyse the
prevalence of hyperhomocysteinaemia in patients with
heavy daily intake of sugar-cane liquor. In this study
were included 31 hospitalized man for alcoholism treatment.
Serum folate (FOL), HCY, vitamin B12 (B12) and liver
enzymes were determinated and repeated after 21 days
of alcohol withdrawal. The values of HCY in µmol/l
before and after treatment were respectivally of 24.88
± 2.09 and 12.48 ± 0.69. The alcohol abstinence
decreased significativally the values of aspartate transaminase,
alanine aminotransferase and gamma-glutamyl transpeptidase.
There were not alterations in red blood cell count,
total protein and hemoglobin corpuscular media concentration.
The levels of HCY before treatment are correlated to
the FOL (r 2 = 0.333). These results suggested that
chronic alcoholism is followed by disturbs of sulphur
aminoacid metabolism and that the hyperhomocysteinaemia
ethanol-induced by sugar-cane liquor may be accompanied
by low serum FOL levels that aggrieves the nutritional
status of these patients.
key
words: Homocystein, Folate, Alcoholism
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Introdução
O
álcool tem complexos efeitos diretos no metabolismo
da homocisteína (Hci), os quais não estão
completamente compreendidos, e efeitos indiretos mediados
por interação com o metabolismo das vitaminas
e outros folatos. Ambas as vias de transmetilação
e transulfuração são afetadas.
O abuso do álcool é uma causa comum de
hiper-homocisteinemia (3), já que o alcoolismo
está relacionado a deficiências específicas
de macronutrientes, incluindo as vitaminas envolvidas
no metabolismo do carbono, folato (Fol), vitaminas B6
e B12. A possível ligação Hci e
álcool pode se originar do fato de o metabolismo
da Hci ser fortemente ligado ao metabolismo destas três
vitaminas. De fato, a Hci representa a intersecção
de duas vias: metilação e dessulfuração.
Na metilação, a Hci adquire um grupo metil
do N-5-metiltetraidrofolato em uma reação
dependente da vitamina B12, enquanto que, na via de
transulfuração, a Hci se condensa com
a serina para formar cistationina em uma reação
catalisada pela cistationina-b-sintetase, enzima que
contém o perodoxal-5-fosfato.
Recentemente
alguns trabalhos têm demonstrado que o tipo de
bebida alcoólica ingerida pode ser um fator que
influencia os níveis de Hci, vitaminas e ácido
fólico no sangue (7). Consumidores de cerveja
têm significativamente concentrações
menores de Hci quando em comparação com
consumidores de vinho ou destilados (4). Indivíduos
que ingerem mais de um litro de cerveja por dia têm
significativamente menor concentração
de Hci e maior concentração de folato
no sangue do que os consumidores de menores quantidades
de cerveja (9). O objetivo deste trabalho foi investigar
o efeito do uso crônico em altas quantidades de
aguardente de cana-de-açúcar, bebida popular
entre os brasileiros e que não apresenta ácido
fólico em sua composição, sobre
o metabolismo da homocisteína.
Métodos
Este
estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética
da Universidade do Oeste Paulista e do Hospital Psiquiátrico
São João, local onde foi realizado o estudo,
e todos os sujeitos deram por escrito seu consentimento
livre e esclarecido.
O
presente estudo inclui 31 homens alcoólatras
com idade média (± EPM) de 40 ±
1,4 anos entre 24 e 57 anos. Todos os pacientes ingeriam
destilado alcoólico em forma de aguardente de
cana-de-açúcar e tiveram diagnóstico
de dependência alcoólica estabelecido de
acordo com o Diagnostic and Statistical Manual for Mental
Disorders (DSM-IV) da American Psychiatric Association,
com ingestão de 300g a 750g diários de
álcool (média de 420g), avaliado de acordo
com Cravo et al. (4).
Os
pacientes internados para tratamento de desintoxicação
pararam de ingerir álcool imediatamente após
a admissão e não estavam ingerindo suplementos
vitamínicos ou outros medicamentos antes de serem
internados. As amostras de sangue (~ 10ml) foram coletadas,
por técnico experiente, na manhã seguinte
à admissão e 21 dias após, usando-se
tubos estéreis siliconizados e com vácuo
(Vacutainer System, Becton Dickinson, Rutheford, NJ,
EUA) entre 7 e 8 horas para evitar variação
circadiana dos parâmetros. A amostra coletada
foi dividida em dois tubos: ~ 4ml em um, com anticoagulante
(K3-EDTA), e em outro tubo com vácuo (Vacutainer),
que foi deixado à temperatura ambiente e depois
centrifugado a 3.000g por 15 minutos para obtenção
do soro, que foi armazenado a -60oC até o momento
da análise. Homocisteína, Fol e B12 foram
dosados usando-se kits comercialmente disponíveis
em um analisador automático (IMX, Abbot Diagnostics,
Illinois, EUA).
Os
parâmetros aspartato aminotransferase (AST), alanina
aminotransferase (ALT), gamaglutamiltransferase (g-GT)
e proteínas totais (PT) foram dosados através
de kits comerciais (Sera-Pack, NY, EUA) em analisador
automático (Opera, Tarrington, EUA). Todas as
amostras foram processadas simultaneamente com controle
Precinorm e Precipath (Sera-Pack, Tarrytown, NY, EUA)
e variação intra-ensaio e interensaio
calculada (dados não-mostrados).
A
amostra com anticoagulante foi processada imediatamente
para contagem de glóbulos vermelhos (Hem) e concentração
de hemoglobina corpuscular média (CHCM) usando-se
analisador hematológico automático Cell-Dyn
3000 (Abbot Diagnostics, Illinois, EUA). Estas análises
foram feitas em triplicata e com uso do controle Cell-Dyn
3000 Tri (Abbot Diagnostics, Illinois, EUA).
A
associação entre as variáveis foi
verificada através da análise de correlação,
e os resultados são apresentados com média
± erro padrão da média (EPM). Um
valor p < 0,05 foi considerado significante.
Resultados
Como
mostrado na figura 1, as amostras de soro de pacientes
com dependência alcoólica tiveram na admissão
(dia 0) níveis endógenos aumentados de
Hci (valores de referência de 5-15µmol/l).
O valor médio (± EPM) no dia 0 foi de
24,88 ± 2,09 (mediana: 21,08; extremos: 12,89µmol/l/50µmol/l).
A concentração plasmática de Hci
diminuiu durante o período de observação.
Assim, o valor médio diminuiu para 12,48 ±
0,69 no 21o dia (mediana: 11,65; extremos: 7,65µmol/l/25,04µmol/l).
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A figura 2 mostra uma significativa correlação
negativa entre Hci e folato séricos na admissão,
este último com valores (média ±
EPM) de 4,34ng/l ± 0,36ng/l (valores de referência:
4ng/l-20ng/l), sendo que 48,3% dos pacientes tinham
valores abaixo dos de referência.
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Não foi encontrada correlação significativa
entre os níveis de Hci e idade, ou B12. O nível
desta vitamina foi de (média ± EPM) 597,2ng/l
± 56,51ng/l (valores de referência: 170ng/l
a 850ng/l) no dia 0 e 537,5 ± 58,3 no dia 21,
não havendo diferença estatística
significativa.
Os
resultados dos parâmetros bioquímicos de
avaliação hepática e hematológica
estão na tabela. A abstinência alcoólica
diminuiu significativamente os valores de AST, ALT e
g-GT. Não houve alteração dos níveis
de Hem, PT e CHCM.
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Discussão
O
grupo de alcoólatras estudado apresentou altos
níveis de aminotransferases (AST e ALT) com relação
AST/ALT superior a 2:1, sensíveis indicadores
de injúria celular hepática. Houve aumento
na concentração sérica de g-GT,
enzima encontrada nos hepatócitos e células
biliares epiteliais, muito usada como marcadora de uso
crônico de álcool (10). Estes resultados
confirmam laboratorialmente o diagnóstico de
abuso de álcool nestes pacientes.
Foram
verificados altos níveis de Hci nos pacientes
alcoólatras no início da internação.
A Hci é um aminoácido produzido a partir
do ciclo de metilação da metionina, um
aminoácido essencial contendo tiol, sendo totalmente
ausente de qualquer fonte da dieta (6). A Hci é
metabolizada por remetilação em metionina;
conversão catalisada pela metionina-sintetase,
ou em cisteína por transulfuração.
Esta última reação é catalisada
pela cintationina-b-sintetase. As vitaminas B12 e B6
são co-fatores essenciais, e o ácido fólico
(folato) é um co-substrato essencial nestes processos
(8). Devido à necessidade do folato na remetilação
da Hci, é plausível que a concentração
tissular de folato esteja fortemente associada com a
regulação do metabolismo e das concentrações
de Hci, e as concentrações plasmáticas,
inversamente correlacionadas com as vitaminas mencionadas
acima (8, 5). Portanto o aumento de Hci pode ser explicado
pela deficiência nutricional de ácido fólico
nestes pacientes.
A
não-diminuição do nível
sérico de B12 pode ser explicada, já que
vários estudos têm enfatizado que os níveis
séricos ou plasmáticos de vitamina B12
não são inteiramente confiáveis
como guia para deficiência tecidual de vitamina
B12 e folato, e mostrou-se que a concentração
de Hci pode ser um indicador funcional sensível
da deficiência de folato e vitamina B12 (5).
A
ingestão de determinados tipos de bebida alcoólica
está relacionada positivamente com as concentrações
sangüíneas de folato e vitamina B12, e negativamente
de Hci (9), possivelmente devido ao alto conteúdo
de folato em bebidas como vinho tinto e cerveja. Recentemente,
Bleiche et al. relataram elevados níveis de homocisteína
após três dias de abstinência alcoólica,
porém com níveis normais de folato sangüíneo
na admissão, diferentemente dos resultados deste
trabalho. Nos sujeitos deste estudo verificou-se que
a bebida alcoólica ingerida em todos os casos
era aguardente de cana-de-açúcar, bebida
que não contém folato, justificando os
48,3% dos pacientes que apresentaram baixos níveis
de folato sangüíneo na admissão.
Estes
resultados sugerem que o alcoolismo crônico está
acompanhado por perturbação do metabolismo
de aminoácidos sulfurados e que a hiper-homocisteinemia
etanol-induzida através de aguardente de cana-de-açúcar
pode ser acompanhada de níveis séricos
baixos de folato, agravando o estado nutricional destes
pacientes.
Agradecimentos
Os
autores agradecem o suporte financeiro da Universidade
do Oeste Paulista e do Hospital Psiquiátrico
São João.
Referências
1.
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical
Manual of Mental Disorders. 4. ed. Washington, DC: American
Psychiatric Association Press, 1994.
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Bleich, S. et al. Elevated homocysteine levels in alcohol
withdrawal. Alcohol Alcohol, 35: 351-4, 2000.
3.
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cause of severe hyperhomocysteinemia. Nutr. Rev., 60(7
Pt 1): 215-21, 2002.
4.
Cravo, M.L. et al. Hyperhomocysteinemia in chronic alcoholism:
correlation with folate, vitamin B-12, and vitamin B-6
status. Am. J. Clin. Nutr., 63: 220-4, 1996.
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Finkelstein, J.D. Methionine metabolism in mammals.
J. Nutr. Biochem., 1: 228-37, 1990.
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8.
Kang, S.S.; Wong, P.W.K. & Norusis, M. Homocysteinemia
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[ Medline
]
9.
Mayer Jr., O.; Simon, J. & Rosolova, H. A population
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and homocysteine concentrations. Eur. J. Clin. Nutr.,
55(7): 605-9, 2002.
10.
Pratt, D.S. & Kaplan M.M. Evaluation of abnormal
liver-enzyme results in asymptomatic patients. NEJM,
27: 1266-71, 2000.
Endereço para correspondência
Rogerio Nogueira Prioste
Rua Atílio Fabris 62
CEP 19053-380 – Presidente Prudente-SP
Recebido
em 16/09/02
Aceito para publicação em 10/02/03
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