| Atualmente
estima-se que 50% da população americana nunca
fumou enquanto 25% são fumantes e 25% são ex-fumantes.
O custo social do fumo é altíssimo; 3 milhões
de pessoas morrem por ano no mundo devido ao cigarro.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS),
se a tendência atual permanecer a mesma, no ano
2020 morrerão no mundo dez milhões de pessoas
por ano. O fumo corresponde a 20% das mortes nos
EUA e representa hoje a primeira causa de mortalidade
que poderia ser prevenida, correspondendo a 450
mil mortes por ano. A dieta é a segunda causa
com 14% das mortes e o abuso de álcool a terceira
com 5%.
No
Brasil temos poucos dados registrando o custo
social dessa dependência, mas aproximadamente
35% dos homens são fumantes.
O
papel do clínico em relação ao tabagismo é por
demais importante. A Associação Médica Americana
está no momento treinando cerca de cem mil médicos
para identificar e aconselhar os pacientes com
problemas relacionados ao álcool e ao fumo. No
Reino Unido, onde os clínicos gerais têm um contrato
formal com o governo sobre as suas funções, faz
parte desse contrato perguntar e orientar sobre
álcool e fumo todos os pacientes que comparecem
à consulta. Essas ações foram conseqüências de
inúmeras pesquisas que mostraram a eficácia de
intervenções breves com fumantes feitas pelo clínico.
Assim fica claro que o fumo não é um problema
só da esfera do especialista, mas é um problema
de saúde pública a que todos os clínicos deveriam
estar atentos e com formação e informação para
orientar seus pacientes de uma forma simples e
objetiva no seu dia-a-dia.
Apesar
da importância do fumo na clínica, existe uma
grande relutância dos médicos em aconselharem
seus pacientes a parar de fumar. Existem evidências
de que basta de três a cinco minutos de aconselhamento
direto sobre o fumo para que 8% dos pacientes
parem de fumar. Muito embora esse número aparentemente
seja pequeno, quando traduzido para as milhões
de consultas feitas a cada ano, podemos ter idéia
do real impacto em termos de saúde pública. Alguns
conceitos descritos a seguir são importantes para
que o clínico possa sentir-se confortável em aconselhar
os pacientes a pararem de fumar.
DEPENDÊNCIA
DA NICOTINA
Dependência
é um comportamento de má adaptação à determinada
substância, levando a problemas clínicos importantes,
associado à dificuldade de controle do uso, apresentação
de sintomas de abstinência com a falta ou a diminuição
da droga e tolerância aos seus efeitos. Nas classificações
atuais fica claro que a droga não tem que governar
a vida de uma pessoa para ela ser chamada de dependente,
como também que dependência representa um continuum
em intensidade, ou seja, um indivíduo pode ser
mais ou menos dependente e não apenas ser ou não
dependente.
A
tabela abaixo exemplifica alguns dos critérios
de dependência para a nicotina.
|
Principais
sintomas de dependência da nicotina
|
Tolerância
- A necessidade de quantidades cada
vez maiores de uma droga para se obter
os mesmos efeitos anteriores. |
A
maioria dos fumantes começa com alguns
cigarros por dia e faz uma escala até
chegar a 20 cigarros por dia. |
Abstinência
- Presença de sintomas de abstinência
característicos da falta de nicotina. |
O
padrão típico de um fumante é acender
o primeiro cigarro na primeira hora
após o despertar. Isso se deve ao fato
de os níveis de nicotina plasmático
estarem próximos a zero e o fumante
sente alguns sintomas de abstinência
como: menor concentração e atenção,
ansiedade, vontade de fumar.Após o primeiro
cigarro do dia, ele continuará fumando
cerca de um cigarro por hora para manter
o nível plasmático de nicotina (figura
1) |
A
droga é usada em quantidades maiores
ou por um tempo maior do que o desejado. |
A
maioria dos fumantes (80%) deseja parar
de fumar, mas tem dificuldades em parar. |
O
uso da droga se mantém, independente
do conhecimento do dano físico ou psicológico
advindo dele. |
A
maioria dos fumantes já teve ou tem
algum problema físico relacionado ao
cigarro e apesar disso continua a fumar. |
Mostra
que as manifestações de dependência da nicotina
são semelhantes a todas as outras drogas. A grande
diferença é que a nicotina não produz manifestações
psíquicas com o seu uso. Por exemplo, não se fica
agressivo ou eufórico com a nicotina, mas o padrão
de consumo dos fumantes é típico de uma droga
que produz dependência.
A
nicotina é rapidamente absorvida pelos pulmões
e mucosa oral, passa para a corrente sangüínea
e está à disposição no cérebro em 7-9 segundos.
Sua meia-vida é de duas horas. O padrão de consumo
da nicotina é um modelo de dependência de uma
droga, como mostra a figura 1, onde o consumo
do cigarro para aliviar os sintomas de abstinência
que ocorrem ao longo do dia é muito claro.

Figura
1 - Abstinência da nicotina. -Adaptada de Russel
and Feyerabend, 1978
O
fumante acorda pela manhã, quando apresenta sintomas
de abstinência (dificuldade de concentração, ansiedade
e vontade de fumar), e começa a fumar na primeira
hora do dia. Cerca de 80% dos fumantes fumam nesse
período. Durante o dia acabam fumando um cigarro
a cada hora. É por isso que 90% dos fumantes consomem
pelo menos 14 cigarros por dia.
ABSTINÊNCIA
DA NICOTINA
Muitos
fumantes tentam parar de fumar sozinhos, porém
a maioria não consegue por apresentar sintomas
de abstinência e não saber reconhecê-los como
tal. Na realidade não são todos os fumantes que
apresentam sintomas de abstinência; 70% apresentam
algum desconforto relacionado com abstinência
após a interrupção do cigarro. Os sintomas normalmente
aparecem horas após a parada do fumar e podem
durar até um mês (alguns autores relatam duração
de até oito semanas), sendo o pico de sua duração
as duas primeiras semanas. O paciente apresenta
ansiedade, fica inquieto, irritado, mais agressivo,
deprimido, refere diminuição da concentração e
atenção e aumento do apetite.
Pode-se
observar alterações do EEG, diminuição dos batimentos
cardíacos e PA, vasodilatação periférica, alterações
do sono, aumento do peso e diminuição da performance
em provas de vigilância e memória. O sintoma mais
típico é o "craving", ou seja, uma vontade
de fumar intensa e inexplicável.
COMO
MOTIVAR ALGUÉM PARA O TRATAMENTO
Por
muito tempo entendeu-se motivação como um traço
imutável, ou seja, ou alguém está motivado para
mudar seu comportamento e aí o clínico pode ajudar,
ou não está motivado, portanto nada pode ser feito.
Atualmente entende-se motivação como um processo
psicológico que pode ser acelerado ou não pela
intervenção do clínico. O primeiro estágio seria
chamado de pré-contemplação, onde o usuário de
uma droga não planeja mudar seu comportamento
num futuro próximo. Isso talvez por acreditar
que os benefícios do uso compensam um possível
e eventual custo, porque os, aspectos negativos
do uso da droga são subestimados por falta de
informação, de insight ou negação pura e simples.
O estágio seguinte é o da contemplação, que é
o período em que o custo-benefício do uso da substância
pode ser avaliado de uma forma um pouco mais realista
e a possibilidade de considerar algumas mudanças
de comportamento estaria mais presente. Este estágio
pode demorar minutos ou mesmo anos. O estágio
seguinte é o da ação, onde mudanças concretas
podem ser feitas. Estas mudanças podem ser das
mais variadas: o paciente pode tentar diminuir
o consumo por si mesmo, pode conversar com alguém
importante sobre seu problema ou pode procurar
um médico para parar de fumar. O próximo estágio
é o da manutenção, onde mudanças significativas
no estilo de vida deveriam ser feitas para ,consolidar
a nova forma de comportamento sem a substância.
Após
passar por esses estágios, é possível e bastante
provável ocorrer uma recaída. Após esta, o ciclo
se inicia outra vez, porém não necessariamente
da fase da pré-contemplação, pois ele não é linear.
Sabe-se que para uma pessoa parar de fumar de
uma forma definitiva normalmente estão envolvidas
a quatro tentativas anteriores. É fundamental
que o médico ajude seu paciente a trocar a desistência
pela persistência!
Lembre-se
dos quatro "A" do fumo: argüir,
aconselhar, assistir e acompanhar:
ARGÜIR
refere-se a perguntar sempre para o seu paciente
sobre o fumo e tentar alocá-lo em alguma das fases
citadas. Quando seu paciente está na fase de pré-contemplação
(35% dos pacientes estarão nesta fase em qualquer
tempo), seu papel é fornecer-lhe informações sobre
as vantagens de parar de fumar. Se o paciente
está na fase de contemplação (34% a 47% sempre
estarão nesta fase) seu papel é aconselhar.
Aconselhar
quer dizer explicar os malefícios, deixando bem
claro os benefícios de parar de fumar, como por
exemplo:
1.
Pessoas que param de fumar aos 50 anos diminuem
pela metade a chance de morrer nos próximos 15
anos, comparadas aos que não param de fumar;
2.
Apenas um ano após a parada, o risco de problemas
cardíacos diminui pela metade;
3.
Grávidas que param de fumar no primeiro trimestre
evitam que o feto tenha baixo peso. Nessa fase
também é importante discutir com o paciente sobre
barreiras para a parada e mitos que se conta,
por exemplo: não vou me concentrar no trabalho,
vou engordar muito etc.
Quando
o paciente encontra-se na fase da ação(15% estão
nesta fase) o papel do médico é assisti-lo. Assistir
refere-se a ajudá-lo a decidir o dia "D"
da parada e discutir com ele sobre os sintomas
de abstinência e a correta utilização da reposição
de nicotina. Aqui também é importante explicar
que a tosse e o catarro matinais podem piorar
no início do tratamento, pois com a ausência da
fumaça os batimentos ciliares da árvore brônquica
retornarão, o que movimenta a secreção.
Alguns
conselhos úteis para o paciente:
1.
Informar aos amigos, à família e aos colegas de
trabalho da tentativa de parar de fumar, pedindo
ajuda e apoio;
2.
Remover cigarros de casa, carro e local de trabalho,
bem como cinzeiros e qualquer outro utensílio
que lembre o fumo;
3.
Rever tentativas de parar de fumar anteriores
e lembrar dos fatores que ajudavam e dos fatores
que atrapalhavam;
4.
Antecipar as eventuais dificuldades em parar de
fumar e buscar contorná-las;
5.
A abstinência total é a melhor forma de efetivamente
parar de fumar; o paciente deve programar-se para
evitar mesmo uma simples tragada;
6.
Evitar beber álcool, pois facilita a recaída.
Finalmente
vem a fase da manutenção em que seu papel é acompanhá-lo.
Acompanhar
significa providenciar um seguimento adequado;
a primeira consulta após a parada não pode exceder
duas semanas; as consultas subseqüentes ou telefonemas
devem ficar combinados para que o status do não
fumante fique cuidado. O médico deve estar preparado
para conversar abertamente sobre a recaída e orientar
o paciente sobre essa possibilidade. Não pode
nem ficar ofuscado com o eventual sucesso inicial
nem desanimado pela possível recaída. A recaída
ocorre com muita freqüência, portanto a melhor
atitude do clínico deve ser pragmática. Se o paciente
fumou, deve-se conversar em qual situação isso
ocorreu e pensar em estratégias alternativas.
Lembrar o paciente de que a recaída, muito embora
indesejável, pode ocorrer, mas que de forma alguma
deve-se desviar do objetivo final de abstinência
total. Deve-se parabenizá-lo pelo sucesso de uma
forma clara e com entusiasmo.
A
figura 2 mostra as possíveis ações em cada fase.

Figura
- 2 Modificada de "How to help patients stop
smoking", American Medical Association.
REPOSIÇÃO
DA NICOTINA
O
objetivo da reposição da nicotina é o de diminuir
os sintomas de abstinência, aumentando a adesão
do paciente. Vários estudos têm comprovado a eficácia
da reposição da nicotina, mostrando que pelo menos
dobram os índices de sucesso ao longo dos meses.
Os estudos mostram também que um aconselhamento
mínimo por parte do médico é necessário para que
o efeito da nicotina ocorra. O grupo que mais
se beneficia da terapia de reposição é aquele
representado pelos fumantes pesados, ou seja,
aqueles que vão apresentar muitos sintomas de
abstinência. Aconselhamos o uso de reposição em
todos os pacientes:
a)
que fumam mais que 15 cigarros por dia;
b)
que fumam seu primeiro cigarro até 60 minutos
após acordarem;
c)
que apresentaram sintomas de abstinência em tentativas
de parar anteriores;
d)
que fizeram várias tentativas anteriores para
parar de fumar;
e)
pacientes altamente motivadas para parar de fumar
e que não estão grávidas no momento.
Existem
no nosso meio duas formas de reposição da nicotina.
ADESIVO
DE NICOTINA
O
adesivo permite a absorção da nicotina através
da pele; aproximadamente 0,9 mg de nicotina são
absorvidos por hora. Deve ser aplicado logo pela
manhã em qualquer região do corpo onde não existam
pêlos. Deve-se orientar o paciente a variar os
locais de aplicação para evitar pruridos. Os efeitos
colaterais mais comuns do adesivo incluem insônia,
pesadelos, prurido e edema no local da aplicação;
se esta não for variada. Todos eles são transitórios.
Ainda não está claro se a insônia é sintoma do
adesivo ou da abstinência de nicotina. A duração
média do tratamento é de quatro semanas, não devendo
ultrapassar 12. Recomendamos usar o adesivo de
30 mg, e somente no caso de o paciente experimentar
algum sintoma colateral, como náusea, podemos
cortá-lo com a tesoura e usar a metade, ou seja,
uma dose menor. O adesivo só deve ser iniciado
no dia seguinte após o abandono do cigarro, ou
seja, se eu vou parar de fumar hoje, eu começo
a usar o adesivo amanhã. Não existe necessidade
de se fazer um esquema de retirada do adesivo,
ele pode ser retirado abruptamente. Existem dois
produtos vendidos no nosso meio o Nicotinel e
o Nicolam.
GOMA
DE MASCAR DE NICOTINA
A
primeira medicação aprovada pelo FDA(1984) para
a reposição de nicotina foi o chiclete de nicotina
de 2 mg; a formulação de 4 mg que ajuda os pacientes
a atingirem uma concentração plasmática mais alta
com menos esforço foi aprovada em 1992. O chiclete
de nicotina normalmente libera 50% da sua concentração
de nicotina na boca. Assim, 10 a 12 doses por
dia vão nos fornecer mais ou menos 10 mg de nicotina
por dia do chiclete de 2 mg e 20 mg do de 4 mg,
ou seja, um terço da quantidade de uma pessoa
que fuma 30 cigarros por dia. A absorção do chiclete
é diminuída com bebidas ácidas como café. Os efeitos
colaterais mais comuns com o chiclete são cansaço
mandibular, soluços e náusea. Existem poucos trabalhos
comparando a eficácia do adesivo versus chiclete,
ainda com resultados inconclusivos. O cuidado
importante no uso do chiclete é de que o paciente
não necessita mascar, o melhor é que ele masque
por alguns minutos e deixe o chiclete entre a
bochecha e a gengiva para facilitar a absorção.
No nosso meio existe um produto Nicogom com 2
mg de nicotina.
Uma
estratégia usada, principalmente com pacientes
mais dependentes, é aplicar o adesivo de 24 horas
e fornecer-lhes alguns chicletes para que sejam
usados se sentirem algum sintoma de abstinência
desconfortável, principalmente "craving".
Teoricamente não existe contra-indicação ao uso
de reposição de nicotina aos fumantes, porém não
existem trabalhos suficientes em relação a sua
reposição em gestantes. Cabe ao clínico pesar
os riscos e os benefícios.
EFICÁCIA
Muitos
estudos demonstram redução dos sintomas de abstinência,
como ansiedade, irritabilidade, depressão e dificuldade
de concentração com a reposição de nicotina. A
orientação feita pelo clínico, associada à reposição
de nicotina, diminuem os índices de recaída a
longo prazo. Com a reposição da nicotina, as porcentagens
de abandono do fumo são dobro das normalmente
encontradas.
SITUAÇÕES
QUE DIFICULTAM O PARA DE FUMAR
a)
Ganho de peso:
Um
grande número de fumantes que param de fumar ganham
peso. No geral este ganho é menor do que 5kg,
mas algumas pessoas podem chegar a 15kg. As mulheres
tendem a ganhar mais peso do que os homens e isso
pode ser um impedimento importante para buscar
uma abstinência total em relação ao fumo. Ao paciente
Deve-se enfatizar que o beneficio em termos de
saúde em parar de fumar é muitas vezes maior do
que os riscos de se ganhar transitoriamente alguns
quilos a mais. Para os pacientes com maiores riscos
de ganho de peso, aparentemente o chiclete de
nicotina é a melhor opção, pois o ganho de peso
é menor. O clínico não deve minimizar os riscos
de ganho de peso e também não deve dar muita importância.
A busca de uma dieta balanceada, acompanhada de
atividades físicas moderadas, ajudam a controlar
o ganho de peso.
b)Sintomas
de depressão e ansiedade:
Depressão
e ansiedade têm uma prevalência maior em fumantes
do que na população geral. Quando esses pacientes
tentam parar de fumar existe uma chance maior
de que os sintomas depressivos ou de ansiedade
tornem-se mais intensos e um obstáculo para a
abstinência. Nessa situação, o clínico deve considerar
a possibilidade de usar um antidepressivo. Os
benzodiazepínicos aparentemente não são muito
úteis; a combinação da reposição de nicotina com
um antidepressivo parece ser a mais conveniente.
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