Fonte: Revista Ciência e Tecnologia
no Brasil Pesquisa Fapesp
Janeiro 2004 - Nº 95
Há
um século, imigrantes recém-chegados
da Europa formavam longas filas no porto de Santos
à espera de um destino. Agora, bolivianos e
peruanos atravessam as fronteiras do Brasil, brasileiros
tentam entrar nos Estados Unidos, africanos em barcos
lotados tentam alcançar a Europa,. Mudar de
país ou trocar o campo pelo cidade, ainda que
represente a busca de melhores condições
de vida, amplia o risco de surgimento da esquizofrenia.
Nos
últimos anos, amadureceu, uma série
de estudos realizados por médicos ingleses,
dinamarqueses, alemães, norte-americanos e
brasileiros relacionando causas externas, de ordem
social ou ambiental ao afloramento da esquizofrenia,
distúrbio mental até agora associado
apenas à genética ou a anomalias no
cérebro. A urbanização, movimentos
migratórios, a discriminação
racial ou traumas como abusos sexuais na infância
são vistos hoje como fatores capazes de influenciar
o surgimento dessa desordem mental caracterizada pelo
progressivo distanciamento da realidade. O que em
geral desponta como uma irritabilidade contínua,
sem razão aparente, deságua lentamente
no isolamento social, no desinteresse pela aparência,
no pensamento incoerente e nas falas desordenadas.
Nos casos extremos se manifesta por meio das falsas
convicções, a exemplo dos delírios
de perseguição ou das falsas percepções,
as alucinações, quando não segue
para o extremo oposto, o mutismo e a imobilidade quase
total, a chamada catatonia.
Até mesmo uma simples infecção
pode acionar os mecanismos biológicos que levam
à esquizofrenia, problema que atinge cerca
de 25 milhões de pessoas no mundo e, só
no Brasil, em torno de 1 milhão. Nos anos 70,
quando era ainda estudante de medicina, Wagner Farid
Gattaz ficou impressionado ao ler os estudos que relacionavam
o aumento de casos de esquizofrenia em crianças
cujas mães foram atingidas pelo vírus
da gripe durante uma epidemia ocorrida na Europa em
1957.
Alguns anos depois, como estagiário de São
Paulo, ele examinou crianças que chegavam com
vômitos e fortes dores de cabeça, atingidas
pela meningite durante a epidemia que surgiu no Estado
de São Paulo nos anos 70. Causada normalmente
por bactérias, a meningite é uma inflamação
das membranas chamadas meninges, que cobrem o cérebro
e a medula espinhal, e pode levar à morte em
poucas horas.
“Passei 30 anos me perguntando quais poderiam
ser as conseqüências da meningite naquelas
crianças que sobreviveram depois que se tornassem
adultas”, diz Gattaz. Foi já poucos anos,
como pesquisador do Instituto de Psiquiatria da Universidade
de São Paulo(USP), que ele encontrou a resposta.
Com seu aluno de pós-graduação
André Abrahão, Gattaz avaliou o estado
de saúde mental de 173 pessoas ( 77 homens
e 96 mulheres) com idade média de 30 anos que
tiveram meningite entre o nascimento e os 4 anos de
idade. Comparou com o irmãos que não
passaram pela infecção e constatou que
a ocorrência de meningite na primeira infância
aumenta em cinco vezes o risco de surgimento da esquizofrenia
na idade adulta.
Seu estudo, que está sendo publicado no European
Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience,
reforça a hipótese de que fatores infecciosos
podem interagir com o organismo de casa indivíduo,
de modo distinto , e aumentar o risco para a doença.
“Nossa tarefa, agora, é desvendar como
essa interação ocorre”, comenta.
“Conhecendo os fatores de risco biológicos
e ambientais, aumentaremos a chance de detectar a
doença mais precocemente e assim iniciar o
seu tratamento mais cedo”. Hoje, a esquizofrenia
é tratada por meio de medicamentos antipsicóticos,
associados a estratégias de reabilitação
e reintegração social e profissional.
Cidades
– A delimitação de fatores de risco
ambiente da esquizofrenia, debatidos num encontro que
reuniu os principais especialistas mundiais dessa área
em abril de 2003 no Guarujá, litoral paulista,
amplia o olhar sobre um problema mental que tende a
ser definido unicamente com base nas observações
clínicas dos pacientes. “É preocupante
notar que a urbanização e a fragmentação
social estão estimulando o avanço rápido
da esquizofrenia”, comenta o psiquiatra Glynn
Harrison, da Universidade de Bristol, Inglaterra em
um estudo apresentado no congresso do Guarajá.
“Para os médicos de todo o mundo”,diz
ele, “o desafio é abrir a caixa preta da
cultura e encontrar novas formas de lidar com esse problema”.
Estudos recentes confirmam a impressão de que
não é mesmo muito saudável viver
em metrópoles. O risco de problemas mentais cresce
com os níveis de urbanização, definidos
de acordo com a densidade de domicílios por quilômetro
quadrado, numa escala com cinco categorias ( de menos
de 500 casas até mais de 2.500 numa mesma área),
segundo um estudo coordenado por Jim van Os, da Universidade
de Mastricht, Holanda, com 7.076 pessoas de 18 a 64
anos. Esse mesmo estudo deixa claro a alta incidência
de doenças mentais em indivíduos com traumas,
como abusos sexuais ou perda prematura dos pais, especialmente
da mãe, ou em imigrantes, provavelmente por causa
da discriminação que sofreram nos países
para onde se mudaram.
Em um levantamento feito com 2,1 milhões de suecos
nascidos entre 1954 e 1983, Elizabeth Cantor-Graee,
da Universidade de Lund, demonstrou que os que emigraram
para a Dinamarca apresentam uma probabilidade 2,5 vezes
maior desenvolver esquizofrenia do que os suecos que
permaneceram no país. Segundo esse estudo, publicado
em 2003 no British Journal of Psychiatry, dinamarqueses
que viveram fora do país e retornaram têm
quase duas vezes mais risco de desenvolver esse distúrbio
mental do que seus irmãos que permaneceram na
terra natal.
Em outro estudo, publicado em 2001 na mesma revista
, Carsten Bocher Pedersen e Preben Bo Mortensen relataram:
os moradores de Copenhague, capital da Dinamarca, estão
sujeitos a um risco de duas vezes maior de se tornarem
esquizofrênicas do que seus conterrâneos
que moram no campo. Os resultados preliminares de um
estudo conduzido pela Organização Mundial
de Saúde (OMS) em 19 nações mostram
que a taxa de casos graves é maior nos países
classificados como desenvolvidos (40%) do que nos países
em desenvolvimento (24%).
O
PROJETO
Metabolismo
dos Fosfolípides na Esquizofrenia e na
Doença de Alzheimer |
Modalidade
Projeto Temático |
Coordenador
Wagner Farid Gattaz -
Faculdade de Medicina da USP |
Investimento
R$ 1.590.193,43 |
Fragilidades-
Por enquanto
só há relações um tanto
vagas sobre as formas como os episódios de vida
desfazem o equilíbrio mental das pessoas. “A
urbanização interage com as vulnerabilidades
de cada individuo e com os riscos familiares para as
doenças mentais”, diz Van Os, da Holanda.
Os fatores ambientais devem influenciar diretamente
o funcionamento dos neurônios (células
nervosas) do cérebro, alterando as ligações
– ou sinapses – entre eles. Essas modificações
na comunicação entre os neurônios
abalariam o funcionamento do cérebro, aumento
a probabilidade para os desequilíbrios mentais
severos.
As causas externas podem também atuar de outra
forma, num plano mais profundo, como um gatilho que
aciona um ou mais das cerca de 30 genes de algum modo
já relacionados a esse problema. Ativados, os
genes podem agir sobre os neurônios cerebrais
direta ou indiretamente, por meio de alterações
metabólicas que danificam as conexões
entre as células nervosas. Mas apenas a predisposição
genética à esquizofrenia não parece
ser suficientes para explicar a alteração
das sinapses. Há décadas descobriu-se
algo importante em estudos com gêmeos idênticos:
se um deles se torna esquizofrênico, o outro tem
50% de risco de também desenvolver a doença.
Pode ser muito, diante da probabilidade de 1% a esquizofrenia
surgir em uma pessoa sem nenhum caso da doença
na família. Mas, se a causa da esquizofrenia
fosse puramente genética, seria de esperar que
esse risco fosse de 100%, uma vez que os gêmeos
idênticos portam genes iguais. Mesmo assim, entre
genes compartilhados, os genes pesam mais.
De dez anos para cá, psiquiatras e neurologistas
descobriram algumas peculiaridades do cérebro
dos esquizofrênicos que refletem essa teia de
reações entre ambiente, genes e processos
bioquímicos. Há, por exemplo, alterações
de dopamina e glutamato, moléculas de comunicação
entre neurônios, e uma circulação
menor de sangue em algumas áreas, em comparação
com o cérebro das pessoas mentalmente saudáveis.
Nos esquizofrênicos, as cavidades do meio do cérebro
chamadas ventrículos são maiores e o hipocampo,
chave para a memória e aprendizagem, é
menor – e os neurônios do hipocampo ficam
mais excitados do que em outras pessoas. Além
disso, acrescenta o psiquiatria Stephan Heckers, do
Hospital Geral de Massachusetts, Estados Unidos, “falta
um tipo de célula nervosa chamada interneurônio,
que controla a atividade de outros neurônios do
hipocampo”.
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