| Esquizofrenia
e psicoses degenerativas de Kleist: Patogenia e Psicopatologia
Diferenciais
 |
PELO
Prof.
Dr. Aníbal Silveira («1902
V1979
)
Chefe
de Clínica Psiquiátrica do Hospital de Juqueri,
S. Paulo.
Docente-livre
de Psiquiatria, Universidade de São Paulo
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mais sobre Aníbal Silveira |
| Trabalho
inscrito no I Congresso Peruano de Neuro-Psiquiatria
(Lima, nov de 1958)
*
Docente Livre de Psiquiatria da Fac. Med.
da Univ de São Paulo; Prof. de Psicopatologia
da Fac. Filosofia, Ciências e Letras da Univ.
de São Paulo |
Ao
substituir a expressão demência precoce pelo termo esquizofrenia,
Bleuler não somente redefiniu os quadros clínicos de
Kraepelin, mas lhe ampliou ao mesmo tempo o conceito
doutrinário. Tal operação, ditada em essência pela concepção
dinâmica da psiquiatria foi saudada com entusiasmo pelos
psiquiatras, principalmente porque ajustava o conceito
diagnóstico à evolução clínica de numerosos pacientes
incluídos na categoria de demência precoce. Ademais,
como acentua Minkowski (20), o conceito afastava o pessimismo
doutrinário e abria perspectivas terapêuticas. Mais
ponderável ao nosso ver, como fator de aceitação, era,
porém o comodismo lógico. O fato de não pressupor demência
tornou mais fácil estender esse diagnóstico a casos
clínicos que antes exigiriam reflexão e suscitariam
escrúpulos.
Aquilo
que representou verdadeiro progresso na atitude médica
logo se tornou empecilho para o aperfeiçoamento diagnóstico.
Basta recordar a frouxidão de conceito revelado por
Schneider (27) no seguinte passo: “Onde existe delírio
na acepção legítima, existe assim sintomatologia esquizofrênica,
e, portanto, se não se apura nenhuma causa etiológica,
existe clinicamente esquizofrenia”. Dizemos quando psicoses
de etiologia obscura
assumem os mencionados traços, chamá-las "esquizofrênicas"
(pág.329, grifos do original). E isto na Alemanha de
quando já em vigor a “lei de combate a difusão de doenças
hereditárias”, onde se impunha esterilização em face
de uma lista de estados mórbidos na qual a esquizofrenia
representava o segundo item. Mesmo sem levar em conta
essa aberração nazista sancionada em julho de 1933,
pelo aspecto de prática clínica, tal imprecisão de conceito
se tornou prejudicial. A esquizofrenia entrou a absorver
a quase totalidade dos diagnósticos, para a grande maioria
dos psiquiatras. E dessa maneira, compatível com todos
os tipos de decurso, com todas as modalidades de aparecimento
com qualquer cabedal heredológico do paciente, com a
mais variada sintomatologia mental, perdeu por completo
o valor prognóstico, além de estimular o descaso para
com a pesquisa clínica. Por isso não se fez esperar
a reação contra a utilização do diagnóstico de esquizofrenia
simples. Para todo especialista criterioso o conhecido
tripé diagnóstico de Bleuler passou a ser insuficiente,
bem como a expressão esquizofrenia pura e simples. Daí
as dissensões teóricas e o retorno à valorização dos
dados clínicos objetivos. Mira Y Lopez (21), por exemplo,
encarece a “necessidade de buscar o maior número possível
de sintomas primários e não assentar, jamais afirmações
dogmáticas, baseadas na comprovação de dois ou três
sintomas esquizofrênicos isolados, sem tomar em consideração
o aspecto de conjunto da evolução psicótica: os antecedentes
hereditários, o tipo corporal, a caracteriologia pré-psicótica,
as possíveis causas psíquicas, a fenomenologia mórbida
inicial, hão de se completar os dados do status praesens
e integrar-se harmonicamente, antes de pronunciar-se
o diagnóstico; o qual, de outra parte, se bem fundamentado,
sempre permitirá dizer algo mais que a palavra esquizofrenia”
(pág. 554, grifos do original).
Mais
do que qualquer outra ocorrência clínica, a esquizofrenia
exige diferencial. E tal cuidado se impõe não só em
função dos diversos métodos terapêuticos (Neele 23ª,
Silveira 32, b, f) como principalmente pelo que tal
eventualidade implica para a corrente genética, segundo
acentuam Faust Kleist e Wissman (16), Leonhard (18),
bem como nós mesmos tivemos ocasião de discutir (32
h, j). Em realidade o problema conceptual da esquizofrenia
não consiste em encontrar definições que adaptem o diagnóstico
à multiplicidade de decursos clínicos e portanto se
aplique a qualquer caso. Essa foi a solução encontrada
por Bleuler ao rejeitar a denominação demência precoce.
Ao contrário, tal problema reside em depurar o critério
diagnóstico de modo a não se confundir a entidade mórbida
em causa com outros quadros que com ela se parecem apenas
pelo aspecto fenomenológico. Para isto é indispensável
que o diagnóstico se apóie na psicopatologia e na patogênese
dos sintomas mórbidos, em sentido diferencial. Semelhante
alvo só foi plenamente atingido, em nosso entender,
por Kleist e pela escola de Frankfurt em Main.
ESQUIZOFRENIA
SEGUNDO KLEIST E ESCOLA
Tomando rumo diverso do de Kraepelin, que procurou reunir
em um único grupo a hebefrenia, a catatonia e as demências
primárias, Kleist procurou separar no âmbito de cada
uma delas o quadro propriamente endógeno e os quadros
afins meramente sintomáticos que com ele se confundiam.
Pôde então estabelecer critério nosológico rigoroso
e distinguir, dentro da entidade descrita por Hecker,
o que era hebefrenia e o que eram os quadros sintomáticos
aparentemente hebefrênicos; dentro da entidade mórbida
de Kahlbaum, o que deveria conservar o diagnóstico de
catatonia e o que deveria ser afastado como simulacro
clínico de catatonia. Igualmente, entre as formas mentais
delirantes, descreveu as que ofereciam decurso progressivo,
como transtorno endógeno de tipo demencial 9d, e as
outras análogas transitórias ou mesmo de origem meramente
ocasional. Cinco anos mais tarde reuniu no grupo de
“embotamentos endógenos” as várias condições patológicas
que levam ao estado demencial, quer primariamente ligadas
à elaboração delirante, quer consistentes de início
em desordens afetivas ou em desordens motoras 9e. Já
por essa época demonstrava, por essa forma, não somente
que devia manter-se autônomas a catatonia e a
hebefrenia – devidamente depuradas – mas também que
era necessário estabelecer a mesma distinção no domínio
das formas restantes da esquizofrenia, mesmo quando
consideradas doenças progressivas, constitucionais,
desvencilhadas das doenças sintomáticas.
Note-se
a diferença essencial entre a concepção de Kleist e
a diretriz tomada por kraepelin e depois por Bleuler.
O crivo da patogênese permitiu como que separar o joio
e o trigo, ao passo que as tendências para a síntese
e para a simplificação levaram a agravar o erro originário,
a partir de material já heterogêneo. O material de Erlangen
e principalmente o de Rostock levaram Kleist a restringir
o diagnóstico de esquizofrenia em sentido próprio ao
“embotamento incoerente” e a considerar mais seis formas
acessórias, entre as quais a esquizofasia. Torna-se
o grupo mais numeroso das formas mórbidas progressivas,
pois que na catatonia divisava quatro modalidades, e
três na hebefrenia (quadro 1). Ao estudar a patogenia
dos sintomas na esquizofasia, resultou que algumas vezes
os pacientes se distinguiam pela “incoerência do fluxo
ideativo e pelas paralogias”. A sistematização destas
pesquisas deu origem, mediante revisão catamnéstica,
ao desmembramento das formas confusionais entre as do
grupo paranóide. Ao mesmo tempo a noção dos sistemas
cerebrais - que permitia distinguir desordens da linguagem
e desordens intrínsecas do pensamento - constituiu o
fundamento da concepção da esquizofrenia 9g. Os vários
sistemas que explicam as diversas expressões, clínicas
da esquizofrenia são, no caso, atingidos por déficit
biológico 9k. Os distúrbios são do pensamento de ordem
paralógica ou de tipo primário, alógico 9l, representam
sintoma distintivo na esquizofrenia.
A
segurança com que foram estabelecidas as diversas formas
esquizofrênicas no material clínico de Erlangen e de
Rostock foi posta em evidência pelo notável estudo de
Leonhard (16c) relativo a esquizofrênicos em fase residual.
Trabalhando com pacientes de ambos os sexos e de várias
procedências, chegou Leonhard às mesmas subdivisões
– Kleist, salvo pequenas modificações em parte devidas
ao estudo mórbido, em parte como expressão de diferenças
que apenas a fase crônica permitiria evidenciar. A este
respeito diz este autor, ao comparar as sistemáticas:
“Na denominação teria sido possível em parte uma nova
assimilação, porém eu quis que em geral transparecessem
também na designação das formas os sintomas mais marcantes,
uma vez que estabeleci inicialmente em sentido puramente
descritivo os quadros clínicos em estado residual. A
indicação “progressiva” na acepção de Kleist já não
poderia empregar, dado que tinha diante de mim somente
estados terminais não mais em progresso” (pág. 111).
As
formas atípicas pela fisionomia clínica encontraram
no estudo de Leonhard a explicação genética. Ao passo
que na maioria dos casos, em cerca de 440, foi possível
classificar sem hesitação em uma das subformas descritivas,
em 90 não se verificou tal facilidade. Pesquisando os
antecedentes genealógicos em ambos os grupos, sentiu
logo a necessidade de tornar mais exigente e aprofundada
a investigação heredológica. Restringindo o material
àqueles pacientes cujos parentes haviam sido internados,
a fim de ter em mãos a respectiva descrição médica,
e pondo de parte os protocolos em que a psicose em causa
fora de origem lesional, obteve para estudo 55 esquizofrênicos
índice. Destes, 33 eram de forma atípica, enquanto que
o total dos casos, esta assumia apenas a proporção de
1/5. Quase sem exceção as formas esquizofrênicas neste
rol de parentes eram também atípicas, “Essas formas
atípicas pertencem a um grupo de doenças esquizofrênicas
que pode ser separado do das esquizofrenias residuais
típicas não somente pelo quadro clínico senão também
pelo decurso periódico com entrada, muitas vezes tardia,
para o estágio residual – nem sempre muito acentuado
– e por uma forma peculiar de hereditariedade” (16d)
(pág. 131).
A
concepção de que nas formas típicas estão em jogo sistemas
cerebrais definidos encontrou apoio em outras pesquisas
genealógicas e catamnésticas da escola de Kleist: algumas
formas se evidenciaram do mesmo passo complexas quanto
à sintomatologia e constantes através da progressão
para a fase crônica. Daí considerarem-se como devidas
à combinação de sistemas no processo mórbido e, portanto
como formas combinadas. A importância fundamental dessa
concepção de sistemas cerebrais, já comprovada nos quadros
lesionais, assim chamados orgânicos (32ª), fora em parte
ressaltada no material clínico de ferimentos cerebrais
de guerra. Porém, como o reconhece Kleist, somente as
psicoses endógenas, com as finas dissociações do dinamismo
cerebral a poderiam pôr em plena evidência. E entre
estas figuram, em primeiro plano, a esse respeito, as
modalidades esquizofrênicas. Por outro lado esta base
fisiopatológica cerebral, é que confere ao estudo das
doenças mentais, mesmo as de tipo funcional ou dinâmico
a precisão e a limpidez de raciocínio das quais até
então só o neurologista dispunha. Por isso julgamos
necessárias algumas indicações a respeito.
Kleist
divide o manto cortical em 9 esferas, cada uma das quais
abrange vários campos arquitetônicos. Na convexidade
do hemisfério (fig.1) situam 5 delas, assim distribuídas:
a visual, compreende as áreas de 17 a 19, como é clássico;
a esfera auditiva, corresponde à região temporal (campos
de 20 a 22, 37, 38, 41, 42, 52); a táctil (áreas de
1 a 3, 5, 7, 19 a 40); também se estende para a região
pré-central, campos 4 e 6a; a gustativa se reduz ao
campo subcentral 43; finalmente a proprioceptiva ou
labiríntico-miostética é formada pelas áreas 6ab, 8
a 10, 44, 46. Na figura 2 aparecem as esferas da face
inter-hemisférica com as regiões que lhe são peculiares,
de VI a IX, em cuja concepção Kleist revela notável
originalidade, para o que se apóia na experimentação
e na clínica. As áreas do lobo orbitário e do cíngulo
(11 fg e fh, 23, 24, de 29 a 32) compõem a esfera cenestésica;
as regiões VIII e IX, esfera olfativa, englobam os campos
Fd, CA, 25, 27, 28 e de 33 a 35 situados nos lobos periforme
e armônico. Em todas essas esferas os campos se dividem,
segundo Kleist, em tipos funcionais motor, sensorial,
psíquico, ou mistos (sensório-motor, psico-sensorial).
continua...
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