ESQUIZOFRENIA

ENSINANDO E APRENDENDO SOBRE ESQUIZOFRENIA
Um programa educacional WPA-ABP

NEUROPSICOLOGIA/PSICOLOGIA COGNITIVA

O OUE É NEUROPSICOLOGIA?

        Há amplas evidências, grande parte das quais foram revisadas nas seções anteriores, de que as experiências e comportamentos bizarros que definem a esquizofrenia estão associados a anomalias cerebrais funcionais e estruturais. A tarefa da neuropsicologia é demonstrar o relacionamento preciso entre processos mentais e o funcionamento do cérebro. Esta tarefa é especialmente desafiadora no caso da esquizofrenia.

Neuropsicologia Clássica

        O principal corpo de conhecimento neuropsicológico deriva do estudo de pacientes neurológicos com lesões cerebrais com uma localização conhecida e circunscrita. A partir de estudos de tais pacientes, grandes números de testes psicológicos foram desenvolvidos, os quais são sensíveis a lesões em áreas particulares do cérebro. Estes testes não podem ser usados isoladamente. Tipicamente, uma lesão cerebral circunscrita conduz a um padrão anormal de desempenho em testes. A maioria das tarefas é realizada normalmente enquanto um pequeno subconjunto é realizado de forma bastante anormal. O padrão do desempenho em testes pode ser usado para prever o local da lesão. Por exemplo, poder-se-ia verificar que um paciente com dano no lobo temporal mesial é amnésico, com desempenho grosseiramente prejudicado em testes de memória, enquanto seu desempenho em testes de QI permanece no mesmo nível normal pré-mórbido.

Neuropsicologia Cognitiva

        A neuropsicologia cognitiva enfatiza o estudo de processos cognitivos (funções mentais) ao invés do desempenho em testes de performance ou na localização de lesão. Os testes psicológicos são usados para tentar identificar, tão precisamente quanto possível, os processos cognitivos que são prejudicados em um paciente com lesão cerebral. Por exemplo, um paciente amnésico típico terá memória episódica prejudicada (o que aconteceu ontem) enquanto a memória semântica (saber o que as palavras significam), a memória operante ou working memory (lembrar de um número de telefone por alguns segundos) e a memória processual (ser capaz de andar de bicicleta) permanecem intactas. Há interesse particular em estudar dissociações entre processos (ou seja, o paciente A é prejudicado em memória episódica e não em memória processual, enquanto o paciente B demonstra o padrão inverso). Acredita-se que a identificação de tais dissociações nos capacitará a descobrir os "módulos" cognitivos fundamentais dos quais o funcionamento mental depende, Também acredita-se que estes módulos cognitivos auxiliaram no mapeamento de diferentes sistemas cerebrais. Sabe-se que o desempenho em testes psicológicos sempre dependerá de um conjunto de funções cognitivas. Sendo assim, os prejuízos cognitivos devem ser deduzidos a partir do padrão do desempenho em uma variedade de testes.

NEUROPSICOLOGIA E ESQUIZOFRENIA: OUESTÕES METODOLÓGICAS

A Lesão da Esquizofrenia

        Uma abordagem um tanto ingênua da neuropsicologia da esquizofrenia consistiria em se aplicar uma bateria de testes neuropsicológicos para um grande grupo de pacientes cuidadosamente diagnosticados e então deduzir, a partir do padrão de desempenho, se houve uma lesão em uma localização particular Esta abordagem pressupõe que os pacientes esquizofrênicos constituem pacientes com lesões discretas de localização desconhecida. Este, evidentemente, não é o caso. A partir dos estudos diretos do cérebro revisados acima, sabemos que os pacientes esquizofrênicos não apresentam lesões discretas localizadas. De fato, muitas pessoas acreditam que a alteração cerebral não é causada por uma lesão nem por uma degeneração, mas primariamente, reflete um desenvolvimento anormal. Até o momento, nós temos informações escassas sobre a relação entre o desempenho em testes psicológicos e as alterações de desenvolvimento cerebral.

Drogas e Institucionalização

        Mesmo que não possamos deduzir onde está a "lesão da esquizofrenia" a partir do padrão de desempenho em testes, as informações relacionadas ao desempenho são importantes para caracterizar os déficits cognitivos associados à esquizofrenia. Todavia, existem problemas adicionais de interpretação, que devem ser resolvidos antes que este exercício conceitual possa ser concluído. A maioria dos pacientes com esquizofrenia é fortemente medicada durante seu primeiro episódio e muitas vezes permanece sob medicação pelo resto de sua vida. Além de neurolépticos, é comum que os pacientes recebam drogas anticolinérgicas para combater os para-efeitos motores dos neurolépticos e também benzodiazepínicos para combater distúrbios de sono. É bem possível que todas essas drogas prejudiquem o desempenho nos testes psicológicos. Por exemplo, há evidências de que os anticolinérgicos e os benzodiazepínicos prejudicam a aquisição da memória. As evidências sobre os efeitos de drogas neurolépticas sobre a cognição são muito menos claras. Por razões óbvias, não há estudos sobre os efeitos em longo prazo de medicação neuroléptica em voluntários normais. Os estudos de tais efeitos em pacientes esquizofrênicos são confundidos pelos efeitos da medicação neuroléptica sobre a sintomatologia. Na fase aguda da doença, um paciente tende a ter melhor desempenho após o tratamento do que antes, devido á redução da gravidade dos sintomas.

         Antes do advento de "cuidado em comunidade" os pacientes esquizofrênicos permaneciam hospitalizados por períodos muito longos (20 a 30 anos). Durante algum tempo, acreditou-se que os prejuízos cognitivos poderiam ser causados por esta longa internação. Uma vez que há evidências de que se os pacientes são mudados de um ambiente empobrecido para um ambiente enriquecido, seus escores em testagens de QI aumentam. Em alguns pacientes o desempenho cognitivo até pode melhorar com a institucionalização, dependendo do local mais enriquecido. Todavia, estudos mais recentes mostram que pacientes cuidados na comunidade também podem apresentar prejuízos cognitivos. Claramente, os prejuízos cognitivos observados em alguns pacientes esquizofrênicos não podem ser atribuídos somente à internação.


Prejuízos específicos e não específicos

        É bem sabido que os pacientes esquizofrênicos tendem a apresentar desempenho muito fraco em testes psicológicos. Do ponto de vista da neuropsicologia, porém, uma deficiência generalizada em uma grande quantidade de testes não é muito informativa. A localização das lesões depende da identificação dos prejuízos em um domínio cognitivo, enquanto outros permanecem intactos. Os testes de QI são projetados para medir níveis gerais de desempenho cognitivo. Parece mais adequado equipar os grupos de acordo com o QI, para então estudar déficits específicos em testes e subtestes. Com isso, há uma melhor chance de identificar áreas específicas de prejuízos.

Subgrupos

        Além de apresentar prejuízos em testes, os pacientes esquizofrênicos apresentam, individualmente, um desempenho bastante variável; alguns pacientes apresentam bom desempenho enquanto outros apresentam desempenho muito deficiente. Dada esta heterogeneidade, a medida de desempenho de um grande grupo de pacientes não é suficientemente representativa. Uma grande quantidade de estudos tentou identificar subgrupos homogêneos. Este agrupamento é geralmente embasado na sintomatologia. Por exemplo, alguns dos estudos contrastaram pacientes com características negativas com pacientes com sintomas positivos. Em muitos casos, observou-se que os pacientes com características negativas apresentavam deficiências cognitivas mais marcantes. Podem-se obter muitas vantagens práticas e teóricas contrastando subgrupos de pacientes. Em primeiro lugar, é relativamente fácil equiparar subgrupos de esquizofrenia para variáveis de história prévia tais como tratamento por drogas e hospitalização. Por outro lado, é impossível encontrar controles "normais" que sejam equiparados deste modo. Em segundo lugar se um padrão particular de desempenho em testes for considerado, associado a um subgrupo de pacientes definidos em termos de sua sintomatologia persistente ou de momento, este padrão possivelmente terá implicações sobre os processos psicológicos subjacentes à sintomatologia. Uma abordagem alternativa ao exame de subgrupos de pacientes consiste em examinar subgrupos de sintomas (ou seja, dimensões de psicopatologia, conforme descritas no módulo um).

A NEUROPSICOLOGIA DA ESQUIZOFRENIA: ACHADOS

Lateralidade

        Alguns dos autores sugeriram que o padrão dos prejuízos em testes neuropsicológicos seria consistente com lesão em hemisfério esquerdo. Um problema específico com tarefas de linguagem apontaria nesta direção. No entanto, um grupo menor de autores propõe que o hemisfério direito estaria lesado. Estes autores citam uma série de evidências, como dificuldades específicas com o reconhecimento de faces conhecidas e problemas com aspectos não verbais da fala, como a prosódia, que são supostamente intermediados pelo hemisfério direito. Ainda outros autores sugeriram que o problema estaria localizado na comunicação entre os hemisférios, citando semelhanças entre pacientes esquizofrênicos e pacientes com desconexão inter-hemisfério. De qualquer maneira, as evidências a favor de quaisquer destas hipóteses permanecem fracas. Um problema significativo nesta questão é a falta de concordância entre neuropsicólogos quanto à real natureza das diferenças entre processos cognitivos nos dois hemisférios.

Lobologia

        Há provavelmente uma maior concordância quanto à função dos diferentes lobos do cérebro do que com relação às diferenças entre os hemisférios esquerdo e direito. Há alguma concordância de que testes sensíveis a dano em regiões posteriores são menos afetados na esquizofrenia do que aqueles sensíveis a dano em regiões anteriores. Sendo assim, poucos estudos mostraram evidências de dano occipital na esquizofrenia, alguns evidenciaram dano parietal, muitos detectaram evidências de dano em áreas temporais e mais estudos reivindicaram evidências de dano frontal. Estas evidências de alterações neuropsicológicas são mais bem discutidas em termos das funções cognitivas associadas a essas áreas cerebrais.

Estudos Cognitivos: Funções cognitivas

Atenção

        O desempenho pobre apresentado pelos pacientes esquizofrênicos em testes neuropsicológicos é freqüentemente atribuído a um distúrbio de "atenção". Todavia, a função da atenção apresenta muitas variedades e cada variedade tem muitos componentes. As tentativas de especificar precisamente que aspecto da atenção é prejudicado na esquizofrenia não foram muito bem sucedidas. Genericamente falando, os pacientes esquizofrênicos parecem ser mais prejudicados nos aspectos "de controle" ou “voluntários" da atenção. Eles são incapazes de manter a atenção em tarefas de vigilância; apresentam dificuldade em sustentar a atenção em uma fonte de informação em preferência a outra (sendo particularmente propensos aos efeitos da distração); e eles apresentam dificuldade particular em reter respostas inapropriadas. O problema com os resultados em relação a esta função cognitiva é que nenhum destes é específico para a esquizofrenia. Além disso, o padrão de deficiência entre os teste, de atenção pode ser descrito em termos gerais de dificuldade, ou seja, os pacientes esquizofrênicos apresentam pior desempenho nas tarefas mais difíceis. Portanto, é bem possível que os problemas de atenção façam parte de uma deficiência cognitiva indiferenciada.

Memória

        Há um crescente interesse nos processos de memória na esquizofrenia. Pode-se observar pacientes com problemas de memória suficientes para se alegar que estão sofrendo de algum tipo de amnésia. De modo geral, e particularmente com a atenção, e assim como em relação à atenção os pacientes esquizofrênicos tendem a ter prejuízos em tarefas de memória mais difíceis que requerem processamento ativo de informação. Eles apresentam maiores deficiências na evocação do que no reconhecimento e tendem a não organizar adequadamente listas aleatórias de material. Por outro lado, as memórias processual e semântica provavelmente se mantêm mais intactas.

Linguagem

        Há poucas evidências de que os pacientes esquizofrênicos apresentem quaisquer problemas na compreensão da linguagem. Ao contrário, os problemas ocorrem com as dificuldades que as outras pessoas têm em entender o que os pacientes estão dizendo. Os estudos de produção de linguagem na esquizofrenia sugerem que os níveis mais básicos de processamento permanecem em grande parte intactos. Sendo assim, a fonologia, a semântica e a sintaxe são geralmente normais. As alterações surgem em níveis mais superiores, como os envolvidos no planejamento da fala e no uso da linguagem para a comunicação. Estes problemas serão discutidos com maior detalhamento na seção sobre interação social,
Há também algumas evidências de que os pacientes mais crônicos ou "negativos" apresentam sinais de diminuição de complexidade de fala em nível de sintaxe.

Processos Executivos

        Um modelo popular atual de funcionamento psicológico propõe que o ser humano apresenta diversos módulos cognitivos que podem funcionar de forma mais ou menos independente. Estes módulos servem a muitas funções, incluindo aspectos de percepção, atenção, memória e linguagem. O uso destes módulos e a coordenação do seu funcionamento são controlados por um sistema (ou sistemas) de nível superior intitulado sistema "executivo central" ou “sistema de atenção supervisora". A partir da descrição anterior das alterações cognitivas na esquizofrenia fica evidente que grande parte destes problemas pode ser atribuída a este sistema(s) de alto nível.

MODELOS DE SINAIS E SINTOMAS

        Uma nova abordagem do estudo da esquizofrenia consiste no que, às vezes, é rotulado de "neuropsiquiatria cognitiva". Esta abordagem tenta explicar em termos neuropsicológicos os sinais e sintomas específicos, ao invés de explicar a esquizofrenia em geral.

Características Negativas

        Muitos levantamentos a respeito do estado mental atual em pacientes esquizofrênicos mostraram que eles, muitas vezes, apresentam características negativas, tais como deficiência de fala, embotamento de afeto e retardo psicomotor. Estes sinais contêm uma notável semelhança com o comportamento observado em alguns pacientes neurológicos após dano aos lobos frontais. A semelhança básica encontra-se na ausência de comportamento espontâneo ou "vontade", que Kraepelin considerou como um aspecto fundamental do distúrbio. Os pacientes com estes sinais tendem a apresentar desempenho particularmente baixo em testes "frontais". Um padrão semelhante de comportamento também é observado em alguns pacientes com doença de Parkinson, que é associada a dano ao núcleo estriado. Há importantes ligações anatômicas entre o córtex frontal e o estriado, as quais foram descritas como "circuitos funcionais". Portanto, é plausível que as características negativas da esquizofrenia estejam associadas a uma disfunção frontoestrial. A patologia específica seria diferente da associada a lesões frontais ou doença de Parkinson, porém, o efeito seria sobre o mesmo tipo de circuitos corticais-subcorticais.

Características Positivas

Alucinações e Delírios

        As alucinações são os sintomas psicóticos mais característicos. Esses sintomas raramente são vistos em pacientes com distúrbios neurológicos. Isto provê pouca base para especulação sobre mecanismos neuropsicológicos da esquizofrenia a partir de modelos neurológicos.

         A maior parte das alucinações assume a forma de vozes falando com ou sobre o paciente. Hoje em dia, os melhores relatos cognitivos bem sucedidos a respeito de alucinações auditivas propõem que estas experiências estão associadas à própria "fala interna" do paciente. Embora (surpreendentemente) não haja qualquer levantamento sistemático em grande escala, há muitos relatos de casos individuais citando a ocorrência de fala subvocal (sussurrada) simultânea aos mesmos conteúdos da "voz" relatada pelo paciente. A "fala interna" desempenha um papel significativo na cognição normal. Ela é usada na memória verbal de curta duração e em vários tipos de solução de problemas. De fato, a fala interna como a base para a maioria dos processos de pensamento, é uma boa hipótese. Há algumas evidências de que a ocorrência de alguns tipos de alucinações (ex., eco de pensamento) interfere de forma marcada nos processos cognitivos que dependem da "fala interna".

         No entanto, a anomalia em um paciente com alucinações não é a ocorrência de fala interna, mas a experiência que o paciente tem dela (e também possivelmente do seu conteúdo) como estranha. Hoffman sugeriu que a fala do paciente é percebida como estranha por ser desorganizada. Isso resulta na ocorrência de pensamentos que são inesperados por não se encaixarem no plano normal. Sendo inesperados, eles são percebidos como estranhos.
Outros (ex., Frith) explicaram as alucinações em termos de uma falha de automonitoração. Normalmente, nós não temos que esperar pelas conseqüências de nossas ações para saber o que pretendemos fazer ou dizer. Nós estamos conscientes de nossas intenções antes de agir. Uma falta deste tipo especial de percepção (automonitoração) resultaria na ocorrência de fala ou no pensamento sem intenção. Tal fala poderia ser percebida como estranha. Esta explicação também se aplicaria a determinados delírios, tais como a inserção de pensamento e delírios de controle.

         Há algumas evidências experimentais de que os pacientes com esses tipos de sintomas apresentam dificuldade em tarefas que requerem monitoração central da ação. A automonitoração tem sua contrapartida fisiológica na descarga (ou referência) corolária. Este é um mecanismo por meio do qual sinais são enviados de áreas motoras para sensoriais. Tais sinais possibilitam que as conseqüências sensoriais de ações motoras (tais como movimentos de olhos ou movimentos de membros) sejam levadas em consideração. Tais mecanismos claramente existem no cérebro humano, porém, pouco conhecemos sobre eles.

Inibição Latente

        Gray e colegas desenvolveram um relato dos sintomas positivos que também tenta unificar níveis de descrição cognitivos e fisiológicos. Este relato baseia-se no fenômeno da inibição latente (e outros efeitos relacionados), que foram extensamente estudados em animais e relacionados a sistemas fisiológicos particulares. Durante uma tarefa de inibição latente, o sujeito é solicitado a escutar e contar sílabas sem sentido; ao mesmo tempo o estímulo alvo (ex., uma erupção de "ruído branco") também é apresentado. O indivíduo normal que foi pré-exposto a um ruído repentino requer um tempo mais longo para reconhecê-lo, refletindo uma indução de inibição latente, enquanto os pacientes esquizofrênicos são capazes de reconhecê-lo mais rapidamente, sugerindo que eles não desenvolvem inibição latente. Isso pode refletir uma outra forma de dificuldade no processamento de informações na esquizofrenia. Esta falta de "inibição latente" poderia explicar determinados problemas de atenção e, em particular, os problemas do paciente para distinguir estímulos relevantes de irrelevantes e agir de forma apropriada ao contexto presente.

Interações Sociais

        Muitas características da esquizofrenia podem ser descritas como alterações na esfera das interações sociais. Os delírios paranóides, por exemplo, resultam de deduções incorretas do paciente a respeito das intenções das outras pessoas ou do significado dos estímulos no ambiente que o cerca. Além disso, muitos dos distúrbios de linguagem exibidos por alguns pacientes surgem devido a uma falha destas em levar em consideração as necessidades do ouvinte para que este entenda aquilo que o paciente está falando. Recentemente esta habilidade de deduzir as crenças e intenções de outras pessoas (às vezes referida como "mentalizar" ou "possuir uma teoria da mente") foi estudada de forma intensiva em crianças. Há evidências de que as crianças com autismo falham em desenvolver esta habilidade ou a desenvolvem muito lentamente. Com base no estudo do autismo foi sugerido que há provavelmente um módulo cognitivo distinto, com um sistema cerebral distinto por trás da habilidade de mentalização. Pouco se sabe sobre este sistema cerebral. Visto que a mentalização é provavelmente uma habilidade particular dos seres humanos, estudos com animais podem apenas proporcionar indícios indiretos. Brothers especulou sobre a base fisiológica da "cognição social". Ela propõe que a amídala, o córtex temporal superior e o córtex frontal orbital podem ser os principais componentes deste sistema. Se alguns pacientes esquizofrênicos apresentam de fato uma perturbação "adquirida" da habilidade de fazer deduções sobre as crenças e intenções dos outros, então estas parecem ser as áreas prováveis de se encontrar anomalias no funcionamento cerebral. Os novos desenvolvimentos no estudo de imagem funcional cerebral apresentam o potencial de fazer progresso considerável na ligação destes processos cognitivos de alto nível a sistemas cerebrais específicos.

ALGUNS TESTES COGNITIVOS AMPLAMENTE USADOS

        As funções neuropsicológicas e cognitivas são freqüentemente avaliadas com uma variedade de testes padronizados de amplo uso. Alguns destes testes foram cuidadosamente normatizados a fim de controlar o efeito de fatores tais como idade e sexo, e apresentam correções embutidas para estes fatores. Outros não sofreram a mesma avaliação psicométrica, mas são amplamente usados devido a sua comprovada utilidade clínica percebida nos mesmos. Por fim, outros foram validados através do estudo de pacientes com tipos específicos de lesões cerebrais.

         De forma geral, é melhor conceituar esses diferentes testes como ferramentas exploratórias úteis com um significado atribuído (ex: testes de função executiva, fluência, atenção) que, na melhor das hipóteses, é provisório. Eles são divididos em categorias muito mais por conveniência, e não por ter sido mostrada de forma definitiva que avaliavam uma capacidade específica.

Testes Gerais

WAIS-R: o WAIS-R é talvez o método mais amplamente usado para avaliar o funcionamento intelectual em adultos. Na maioria dos centros, a versão revisada no momento suplantou a forma anterior. O WAIS-R está incorporado em algumas baterias de avaliação padronizadas, como a Halstead-Reitan e usá-lo permite comparação com dados coletados em outros centros. O WAIS-R é uma ferramenta abrangente e flexível para avaliar a cognição, pois permite a comparação do funcionamento verbal com o perceplo-motor (de execução) e examina aspectos de atenção, percepção, velocidade motora, julgamento social e a habilidade de pensar de forma abstrata.

"Raven Progressive Matrices": As Matrizes Raven foram desenvolvidas como uma alternativa para testes padronizados de funcionamento intelectual como o WAIS-R, visando obter um teste independente dos efeitos da cultura. O WAIS depende da avaliação de vocabulário, informações gerais e outras habilidades que podem ser fortemente influenciadas pela experiência pessoal e pelo educacional. As Matrizes Raven apresentam uma série de "padrões tipo quebra-cabeça" de complexidade crescente e o sujeito é solicitado a identificar o item final necessário para concluir o padrão em uma matriz de nove itens (agrupados três por três). Existem conjuntos regulares e avançados disponíveis para adultos, assim como uma versão para crianças. Todavia, o teste ainda não foi tem normatizado.

"Multilingual Aphasia Battery": Este teste foi desenvolvido para avaliar as funções de linguagem em indivíduos que poderiam estar sofrendo de afasia. Contêm componentes que testam a habilidade sintática e semântica, repetição, leitura, fluência e outras funções de linguagem. Em alguns casos, ele pode ser um instrumento útil de avaliação para pacientes esquizofrênicos, particularmente aqueles com fala desorganizada.

"Mini-mental Status Exam": Este é um instrumento de triagem muito simples usado para avaliar o estado mental de um modo padronizado. Ele cobre funções como orientação, memória, habilidade de leitura e habilidade de seguir um comando simples. Ele provê um escore resumido que pode ser usado como uma medida quantitativa da integridade das funções mentais.

Atenção

"Continuous Performance Task": O CPT é talvez o teste de atenção mais amplamente usado. O CPT foi originalmente desenvolvido para detectar "déficits" em manutenção da atenção em pacientes com lesão cerebral. Algumas versões diferentes desta tarefa também se encontram disponíveis, porém a maioria envolve tarefas de atenção nas quais os pacientes são expostas a séries de letras ou números apresentados muito rapidamente, um por vez, a intervalos relativamente curtos e nos quais o sujeito deve pressionar um botão cada vez que aparece um estímulo alvo em uma série aleatória.

"Trails A and B": estes testes são componentes Halstead-Reitan Batlery amplamente usados para avaliar atenção e seqüenciamento. O indivíduo é solicitado a ligar itens em uma série (ou seja, A a 1,B a 2, etc., entre itens aleatoriamente apresentados em uma página.)


Funcionamento Executivo

"Wisconsin Card Sorting Test": este teste é amplamente considerado como importante para avaliar a habilidade de solução de problemas e a capacidade de alteração do padrão de resposta. O teste envolve a escolha de cartões, de acordo com a cor, a forma ou o número. Sem advertência, o indivíduo é “corrigido" enquanto usa uma estratégia de classificação e, neste ponto, deve reconhecer que precisa mudar o padrão de resposta.

"Stroop Test": Este teste também avalia a capacidade de mudar o padrão de resposta, assim como a atenção e o controle mental.

"Porteus Mazes": Este é um teste de labirinto padronizado, no qual a habilidade de planejar do sujeito é avaliada pela tarefa de descobrir um caminho entre a entrada e a saída de um labirinto.

"Tower of London": Esta é uma tarefa de planejamento que requer que o sujeito desenvolva uma estratégia para mover esferas alinhadas sobre varetas de uma posição inicial para uma posição alvo final.

Fluência

        Muitos pacientes sofrendo de esquizofrenia apresentam um prejuízo em sua habilidade de gerar idéias ou atividades espontâneas. Correlatos clínicos deste prejuízo são sintomas como alogia e avolição. Diversos testes são usados para avaliar a fluência, que é muitas vezes considerada como uma função "frontal" (de lobos frontais).

"Controlled Oral Word Association Test": O COWA avalia a fluência verbal do sujeito através de tarefas, como pedir que o sujeito nomeie tantas palavras quantas for capaz começando com a letra D. Este teste tem sido amplamente usado como parte do Multilingual Aphasia Examination.

"Category Fluency Test": Esta tarefa avalia a fluência do sujeito pedindo-lhe que nomeie tantas palavras quantas puder pertencentes a uma categoria semântica específica (ex: animais, frutos, vegetais), O sujeito deve utilizar um minuto para cada categoria semântica.

Memória Verbal

        A memória verbal é uma importante função temporolímbica, portanto, pode ser importante avaliar suas dimensões em pacientes esquizofrênicos.

"Logical Memory" (Wechsler Memory Scale): Este teste de memória envolve fazer o sujeito escutar uma história completa e então recordar tantos detalhes da história quantos forem possíveis. Tanto a memória imediata como a remota são avaliadas nesta tarefa.

"Rey Auditory Verbal Learning Test": Este teste determina a capacidade do sujeito de decorar mecanicamente uma lista de palavras. Tanto a memória imediata como a remota são avaliadas. Uma curva de aprendizagem também é estabelecida.

"Paired Associate Learning": Este é um teste de memória um pouco mais complicado que pede que o sujeito decore uma lista de palavras associadas a um conjunto de palavras (ex., metal-ferro, nenê-choro).

Memória Reconstrutiva Visual

        Embora na esquizofrenia a maior parte da literatura teórica e da pesquisa embasada em dados indique uma anomalia do hemisfério esquerdo, é importante estudar também o funcionamento do hemisfério direito, Freqüentemente considera-se que os testes de memória reconstrutiva visual a seguir descritos avaliam o funcionamento do hemisfério direito.

"Rey-Osterreith Complex Figure": Esta tarefa envolve mostrar para o sujeito uma figura complexa, fazê-lo, copiá-la e desenhá-la novamente de memória imediatamente e após algum tempo. Embora esta tarefa seja algo difícil de administrar, pode ser aplicada de modo confiável e padronizada, dando ao sujeito lápis coloridos em uma seqüência de tempo pré-estabelecida.

"Benton Visual Retention Test": Este teste é também amplamente usado e examina a habilidade de copiar e evocar uma variedade de formas e figuras.

Funcionamento Motor

        Pode ser importante avaliar o funcionamento motor em pacientes esquizofrênicos, porque a lentidão motora pode tanto ser um correlato dos sintomas negativos quanto ser devida a efeitos colaterais da medicação neuroléptica.

"The Finger Oscillation Test": Este teste mede a velocidade ao tamborilar com as mãos esquerda e direita. Ele proporciona uma medida da velocidade motora geral, assim como uma avaliação das assimetrias laterais no desempenho motor.

"Purdue Pegbord": Este teste foi desenvolvido para avaliar a destreza manual. O desempenho motor fino é avaliado com a mão direita, a mão esquerda e então com ambas as mãos simultaneamente. Ele provê uma medida útil da lateralização hemisférica.