|
Consenso
dos Especialistas Brasileiros
Luiz Eduardo
Betting, Eliane Kobayashi, Maria Augusta Montenegro,
Li Li Min, Fernando Cendes, Marilsa M. Guerreiro, Carlos
A. M. Guerreiro1
RESUMO
- Epilepsia é uma condição
muito freqüente em todo o mundo. Na última
década, várias opções terapêuticas
surgiram ou foram aprimoradas. O principal método
utilizado para decisão terapêutica baseia-se
nos estudos randomizados, que representam o maior nível
de evidência. Entretanto, mesmo estes estudos
são passíveis de críticas e em
alguns casos o tratamento de escolha permanece controverso.
Nestas situações, a opinião dos
especialistas, na área da epileptologia, com
maior experiência clínica, passa a ter
grande valor. O presente estudo tem como principal objetivo
elaborar um consenso de tratamento das epilepsias, através
da opinião de experts brasileiros no assunto.
Este consenso poderá auxiliar na criação
de manuais e estratégias para o tratamento de
determinadas síndromes epilépticas, de
acordo com os padrões socioeconômicos brasileiros.
PALAVRAS-CHAVE:
epilepsia, tratamento, drogas antiepilépticas,
crises.
Treatment
of epilepsy: consensus of the Brasilian specialists
ABSTRACT
– Epilepsy is a frequent condition in
the word. Recently a study in Brasil showed prevalence
of 18/1000 inhabitants in São José do
Rio Preto State. In the last decade, new therapeutic
options were discovered or developed. The main therapeutic
decision method is based on randomized clinical trials.
This method represents the higher level of evidence.
However, even these studies have limitations and in
some cases the treatment of choice remains controversial.
In these instances, the epilepsy experts’ opinions
become hepful. In 2001 a similar study had been conducted
in USA. The aim of this study is to creat guidelines
for epilepsy treatment based on the opinion of the Brasilian
experts. These guidelines can be used to create manuals
and strategies for the treatment of some epileptic syndromes
according to Brazilian experts. As compared to the North-American
guidelines our study better reflects the resources available
in our country.
KEY
WORDS: epilepsy, treatment, antiepileptic drugs,
seizures.
OS ESPECIALISTAS - Os participantes
foram selecionados através dos seguintes critérios:
neurologistas clínicos de crianças e/ou
adultos com atuação em epilepsia; vínculo
com centros de cirurgia em epilepsia; experiência
no exterior em epilepsia e tese ou publicações
na área nos últimos anos. Portanto, eles
estão dentre as pessoas que mais entendem do
assunto em nosso país. O estudo não teve
o propósito de obter a opinião de todos
os especialistas do país. Os especialistas relacionados
representam uma amostragem de diversas regiões.
As recomendações nos guias refletem um
conjunto de opiniões não correspondendo
à opinião individual de cada especialista.
De 53 questionários enviados 27 (51%) responderam.
Os neurologistas que responderam aos questionários
foram: Américo Sakamoto, Ribeirão Preto,
SP; Fernando Cendes, Campinas, SP; Magda L. Nunes, Porto
Alegre, RS; André Palmini, Porto Alegre, RS;
George Jales Leitão, Fortaleza, CE; Maria Luiza
Manreza, São Paulo, SP; André S. Santos,
Florianópolis, SC; Gilberto Antonio Trentin,
Caxias do Sul, RS; Marielza F. Veiga, Salvador, BA;
Antonio Andrade, Salvador, BA; Gladys Martins Lentz,
Florianópolis, SC; Marilisa M. Guerreiro, Campinas,
SP; Carlos Campos, São Paulo, SP; Jaderson C.
da Costa, Porto Alegre, RS; Marly de Albuquerque, Mogi
das Cruzes, SP; Carlos A. M. Guerreiro, Campinas, SP;
Kette D. R. Valente, São Paulo, SP; Moacir Alves
Borges, São José do Rio Preto, SP; Danielle
Calado, Recife, PE; Laura M.F.F. Guilhoto, São
Paulo, SP; Rosamaria P. Guimarães, Belo Horizonte,
MG; Elza Márcia T. Yacubian, São Paulo,
SP; Li Li Min, Campinas, SP; Tonicarto Velasco, Ribeirão
Preto, SP; Fabíola Studart, Belo Horizonte, MG;
Lívia Cunha Elkis, São.Paulo, SP; Lamentavelmente,
não foi possível identificar um dos especialistas.
Aproximadamente
50 milhões de pessoas no mundo sofrem de epilepsia.
Epilepsia é considerada a segunda causa mais
freqüente de distúrbio neurológico
em adultos jovens1,2. É um sério
problema de saúde acometendo indivíduos
de todas as idades, raças e classes socioeconômicas.
Na última década observamos um grande
avanço no tratamento das epilepsias incluindo
as novas drogas descobertas, novas formulações
de antigas drogas, estimulação vagal,
dieta cetogênica e o tratamento cirúrgico3-15.
Apesar do crescente número de publicações
científicas, algumas questões abrangendo
o tratamento das epilepsias permanecem sem resposta
ou controversas.
Os estudos randomizados são considerados como
os de maior nível de evidência e de menor
tendenciosidade. Nestes estudos, determinada terapia
é comparada com um placebo ou com outra terapia
previamente estabelecida e considerada útil.
A principal desvantagem dos estudos randomizados é
que raramente eles comparam dois tratamentos já
bem estabelecidos6. Alguns autores propõem
o uso da meta-análise na tentativa de contornar
esse problema. Contudo, a meta-análise está
associada com algumas falhas relacionadas à comparação
entre diferentes doses, escalonamentos e populações17,18.
Estudos não randomizados ou não controlados,
revisões, séries e relatos de caso também
podem auxiliar na decisão terapêutica.
Entretanto, os dados destes estudos são obtidos
de forma menos fidedigna que nos estudos clínicos
randomizados. Entre as principais desvantagens encontramos
a ausência de controles, o pequeno número
de pacientes e uma possível tendenciosidade do
investigador.
Frente à persistência de questões
clínicas não respondidas ou que permanecem
controversas apesar dos estudos disponíveis na
literatura, a opinião de especialistas torna-se
de grande valor. Existem várias formas de conseguir
a opinião de especialistas. As mais simples seriam
as discussões ou mesas redondas disponíveis
em reuniões e congressos. No entanto, acredita-se
que esta seja pouco válida devido ao pequeno
número de pacientes e à influência
de opiniões entre os participantes19-22.
O método do consenso dos especialistas utilizado
neste estudo foi usado com especialistas norte-americanos
em epilepsia e vem sendo aplicado em relação
a várias patologias psiquiátricas23-34.
A técnica baseia-se na resposta a questões
clínicas específicas enviadas pelo correio,
minimizando assim a interação entre os
participantes. Desta forma, profissionais de várias
regiões do país são agrupados e
a resposta de cada um recebe o mesmo valor. Posteriormente,
o sumário destas respostas é organizado
de forma prática, constituindo guias em que recomendações
terapêuticas são apresentadas em um formato
de fácil interpretação19.
Os
guias atualmente disponíveis foram elaborados
de acordo com a prática médica norte-americana.
Apesar da maioria dos guias estabelecidos pelo consenso
destes especialistas para o tratamento das epilepsias16
serem úteis para a prática clínica
diária em locais fora dos Estados Unidos e Canadá,
alguns deles não são. O tratamento da
epilepsia tem muitas variantes e, provavelmente, o custo
é uma das mais sérias limitações.
Não é todo o paciente que pode sustentar
os vários tipos de tratamento, especialmente
nos países em desenvolvimento. O objetivo deste
estudo é estabelecer guias para preencher de
forma mais ampla as necessidades dos neurologistas brasileiros.
MÉTODOS
Os especialistas
- Selecionamos um grupo de 53 especialistas em
epilepsia. Todos são médicos neurologistas,
pediátricos ou de adultos no Brasil. A seleção
levou em conta o vínculo com centros de cirurgia,
experiência no exterior em epilepsia e teses ou
publicações na área nos últimos
anos.
O
questionário - O questionário foi
feito baseado no estudo de Karceski et al.16, com algumas
modificações. O número total de
questões foi 16, com 510 opções
de tratamento, abrangendo três principais cenários
clínicos: epilepsia generalizada idiopática,
epilepsia focal sintomática e epilepsia generalizada
sintomática. Para cada diagnóstico sindrômico,
uma primeira questão com estratégias gerais
de tratamento foi proposta, seguida da escolha de terapias
específicas.
O método do consenso dos especialistas é
baseado em dois tipos de questões. O primeiro
leva em conta a estratégia geral. Neste tipo
de pergunta os especialistas deveriam indicar a ordem
mais apropriada entre algumas propostas terapêuticas
(Fig. 1).
1)
Epilepsia generalizada idiopática: estratégia
geral. Um adolescente saudável
recebe o diagnóstico de epilepsia generalizada
idiopática. Nenhuma terapia para as crises foi
tentada. Considere que o paciente aceitará e
aderirá a todas as terapias propostas e cada
tratamento será utilizado até a toxicidade
(máxima dose tolerada).
Usando
as letras listadas à esquerda de cada opção,
indique a ordem em que você usaria os tratamentos
para este paciente. Passo 1 é o seu tratamento
de escolha. Se o tratamento de escolha falhar no controle
adequado das crises, indique o que você usaria
como segunda escolha (passo 2). Para cada passo, você
poderá listar mais de uma alternativa se achar
que as terapias têm chances iguais de seleção.
As letras deverão ser utilizadas apenas uma vez.
Não deixe os passos em branco.
a) Monoterapia |
|
b)
Monoterapia (segunda droga) |
|
c)
Monoterapia (outras tentativas) |
Passos 1______ |
d) Combinação de duas drogas antiepilépticas
(DAE) |
Passos 2______ |
e)
Combinação de duas DAE (segunda
combinação) |
Passos 3______ |
f)
Combinação de duas DAE (outras tentativas) |
Passos 4______ |
g)
Combinação de três DAE |
Passos 5______ |
h)
Combinação de três DAE (segunda
combinação) |
Passos 6______ |
i)
Combinação de três DAE (outras
tentativas) |
Passos 7______ |
j)
Combinação de quatro DAE |
|
k)
Combinação de quatro DAE (outras
tentativas) |
|
Fig.
1 Questão tipo 1.
O segundo tipo de questão utiliza perguntas,
com uma escala de 9 pontos, desenvolvida pela Rand Corp.
(Fig. 2). A escala era informada aos participantes com
as devidas instruções. A Figura 3 mostra
as graduações utilizadas. Para cada tratamento
deveria ser atribuída uma nota, de acordo com
a situação proposta. Para opções
em que os especialistas consideraram como 7, 8 ou 9
eles deveriam indicar entre três opções
(literatura, experiência ou ambos) o motivo da
escolha.
2)
Epilepsia generalizada idiopática: terapia inicial.
Um adolescente ou adulto saudável recebe o diagnóstico
sindrômico de epilepsia generalizada idiopática
(por exemplo, epilepsia mioclônica juvenil, epilepsia
ausência juvenil, ou crises tônico-clônicas
generalizadas ao despertar). O paciente está
iniciando o tratamento. Considere que você irá
iniciar com monoterapia e que o paciente aceitará
e aderirá a todas as terapias possíveis.
Lembre-se do tipo principal de crises que o paciente
tem, indicado acima de cada coluna. Indique a propriedade
para cada terapia circulando os números correspondentes
("9" seria uma terapia extremamente apropriada
e "1" muito pouco útil). Não
marque sua alternativa no espaço em branco, pois
sua finalidade será descrita abaixo.
|
|
Tônico-clônica
generalizada |
Ausência |
Mioclônica |
a. |
Carbamazepina |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
| b. |
Clobazam |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
c. |
Clonazepam |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
| d. |
Divalproato |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
e. |
Etossuximida |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
| f. |
Fenitoína |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
g. |
Fenobarbital |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
| h. |
Gabapentina |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
i. |
Lamotrigina |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
| j. |
Nitrazepam |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
k. |
Oxcarbamazepina |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
| l. |
Topiramato |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
m. |
Valproato |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
123 |
456 |
789 |
- |
| Após
ter marcado cada terapia apropriada circulando
os números, retorne ao topo da lista. Para
as escolhas em que você assinalou "7",
"8", ou "9", use o espaço
em branco abaixo dos números para indicar
o porquê de cada resposta. Marque com as
seguintes letras. a = evidência em literatura
médica; b = experiência; c = ambos. |
Fig. 2. Questão
tipo 2.
| 9 |
Extremamente
apropriado |
=
este seria o tratamento de escolha |
| 7,8 |
Geralmente
apropriado |
=
outras drogas de primeira linha que freqüentemente
podem ser usadas |
| 4,6 |
Intermediário |
=
medicamentos de segunda linha que podem ser
em algumas ocasiões usados |
| 2,3 |
Geralmente
inapropriado |
=
drogas de terceira linha que seriam utilizadas
raramente ou em ocasiões especiais |
| 1 |
Extremamente
inapropriada |
=
o tratamento nunca seria utilizado |
Fig 3. Escala
utilizada nas questões tipo 2.
O segundo
tipo de questão utiliza perguntas, com uma escala
de 9 pontos, desenvolvida pela Rand Corp. (Fig 2). A
escala era informada aos participantes com as devidas
instruções. A Figura 3 mostra as graduações
utilizadas. Para cada tratamento deveria ser atribuída
uma nota, de acordo com a situação proposta.
Para opções em que os especialistas consideram
como 7, 8 ou 9 eles deveriam indicar entre três
opções (literatura, experiência
ou ambos) o motivo da escolha.
Análise dos dados
Intervalo de confiança de 95%. Durante a
análise dos resultados, primeiro calculamos para
cada opção a média, o desvio padrão
(DP) e o intervalo de confiança (IC). O IC indica
que, se a pesquisa fosse novamente realizada, haveria
chance de 95% das respostas caírem naquele intervalo.
Definimos a presença ou ausência de consenso
realizando o teste X2 (p < 0,05)
considerando a distribuição dos pontos
através dos três campos (1-3, 4-5 e 7-9).
Categorias.
Cada opção foi classificada de acordo
com a faixa inferior do seu IC. Desta forma, definimos
quatro categorias diferentes da seguinte forma:
Primeira
linha (IC > 6,5). Tratamentos de primeira linha
são aqueles que os especialistas indicaram como
extremamente ou geralmente apropriados para uma determinada
situação (graduações 7,8
e 9).
Segunda linha (IC entre 3,5 e 6,49). As terapias
de segunda linha são opções razoáveis
em situações nas quais as terapias de
primeira linha falharam ou são contra-indicadas
(graduações 4,5 e 6).
Terceira linha (IC < 3,5). Terapias de terceira
linha são geralmente inapropriadas, mas podem
ser consideradas em situações especiais.
Sem consenso. Quando ocorre uma distribuição
randômica das respostas indicada pelo teste X2.
Patrocínio
Este
estudo não teve patrocínio de qualquer
instituição pública ou privada.
Os especialistas participaram espontaneamente da enquete
não recebendo qualquer honorário pela
atividade.
RESULTADOS
Resposta
do questionário
Vinte e sete
(51%) dos 53 questionários enviados foram respondidos.
Análise
dos dados e organização dos guias
Após
a avaliação dos dados, os resultados foram
usados para criar uma série de guias sumariando
as recomendações dos especialistas. O
consenso foi atingido em 86% das questões de
9 pontos. Os guias foram organizados primeiro com a
estratégia geral de tratamento seguido pelos
resultados das questões de 9 pontos com as terapias
específicas.
Os
resultados foram organizados em cinco guias - Guia 1:
Epilepsia generalizada idiopática; Guia 2: Epilepsia
focal sintomática; Guia 3: Epilepsia generalizada
sintomática; Guia 4: Terapia combinada; Guia
5: Tratamento em situações especiais.
Como
ler os resultados
Para
cada questão colocamos a forma em que ela foi
colocada para os especialistas e as opções
terapêuticas ordenadas de acordo com a opinião
dos mesmos.
Algumas
convenções gráficas foram utilizadas
para facilitar a interpretação dos resultados
das questões de 9 pontos. Uma barra horizontal
é utilizada para representar o IC de cada opção.
As terapias de primeira linha estão indicadas
pelas barras de coloração mais escura,
as de segunda linha pelas barras de cor média
e as de terceira linha pelas de cor clara. As barras
que não estão preenchidas (brancas) indicam
que, para aquela terapia, não foi atingido consenso.
Uma tabela ao lado do gráfico apresenta os valores
numéricos da média, DP, porcentagem dos
especialistas que graduaram determinada terapia como
droga de escolha, ou seja, 9 nas questões de
9 pontos (ESC), porcentagens dos especialistas que classificaram
as drogas como de primeira (7-9), segunda (4-6) ou terceira
linha (1-3).
Resumo dos resultados
Estratégia geral para o tratamento de todas as
epilepsias. Como primeira tentativa de tratamento
para as 3 principais síndromes, praticamente
todos os especialistas sugerem a mesma estratégia:
monoterapia. As próximas alternativas são
semelhantes para epilepsia generalizada idiopática
(EGI) e para epilepsia focal sintomática (EFS).
Uma segunda tentativa de monoterapia seguida de uma
terceira ou combinação de duas drogas
seriam as opções seguintes, porém
já com opiniões divididas. As opções
seguintes não são claras. Contudo para
EFS, após a segunda monoterapia e a combinação
entre duas drogas, uma segunda combinação
e o início da avaliação cirúrgica
passam a ser as opções seguintes. Para
epilepsia generalizada sintomática (EGS), após
uma primeira tentativa com monoterapia as opiniões
divergem entre uma segunda monoterapia, e a combinação
entre duas drogas. A partir de então, as combinações
passam a ser a opinião da maioria.
Epilepsia generalizada idiopática. Independentemente
do tipo predominante de crises, o valproato foi a primeira
droga escolhida pela maioria dos especialistas. O divalproato
foi a segunda droga, com perfil semelhante ao valproato.
Para os tipos de crises tônico-clônica generalizada,
ausência e mioclônica, as terceiras opções
foram respectivamente lamotrigina, etossuximida e clonazepam;
apenas este último foi classificado como droga
de segunda linha. Para mulheres jovens não grávidas,
o valproato e o divalproato também foram as drogas
escolhidas como de primeira linha, seguidas pela lamotrigina.
Para mulheres grávidas ou amamentando, divalproato,
lamotrigina e valproato apresentaram perfis semelhantes
de escolha, porém classificados como de segunda
linha. Para indivíduos idosos e com depressão,
as mesmas drogas permanecem como de primeira linha,
sendo divalproato melhor classificado.
Epilepsia focal sintomática. Carbamazepina
e oxcarbamazepina foram as drogas de primeira linha
para crises parciais simples, parciais complexas ou
secundariamente generalizadas. A terceira e a quarta
droga mais bem classificadas foram fenitoína
e o valproato, respectivamente; a fenitoína foi
classificada como de primeira linha para crises parciais
simples e secundariamente generalizadas. Para crises
parciais complexas, a fenitoína caiu para segunda
linha, porém no limite superior. O Valproato
foi considerado como de segunda linha para os três
tipos de crises. Se a monoterapia inicial falhar, uma
segunda monoterapia com os outros medicamentos melhor
classificados para a primeira monoterapia seria a escolha
mais apropriada. Para mulheres saudáveis, gestantes
ou amamentando, em indivíduos idosos, assim como
nos pacientes com depressão como comorbidade,
oxcarbazepina e carbamazepina também foram considerados
como de primeira linha.
Epilepsia generalizada sintomática. Nos
pacientes com epilepsia generalizada sintomática,
as três drogas mais indicadas seriam valproato,
divalproato e lamotrigina. A lamotrigina segue na terceira
opção sendo considerada de segunda linha
apenas para o tratamento de crises mioclônicas.
Para mulheres grávidas ou amamentando, não
houve droga classificada como de primeira linha. Valproato,
oxcarbamazepina, carbamazepina, divalproato e lamotrigina
permanecem com perfis semelhantes na segunda linha.
Epilepsia focal sintomática - terapia adjuvante.
Como droga adjuvante em pacientes já em uso de
carbamazepina e fenitoína foram consideradas
como de primeira linha as seguintes drogas: clobazam,
divalproato, lamotrigina e valproato. As associações
carbamazepina valproato e fenitoína clobazam
são as melhores na opinião dos especialistas.
Para pacientes em uso de valproato, as duas drogas escolhidas
como de primeira linha para associação
foram o clobazan e a lamotrigina.
Com
relação às drogas escolhidas como
de primeira linha, 16% das respostas foram baseadas
apenas em evidências apresentadas pela literatura,
8% foram respondidas com a experiência do especialista
e em 76% os especialistas utilizaram as evidências
na literatura associadas à experiência
particular.
Guia
1. Epilepsia generalizada idiopática
1)
Epilepsia generalizada idiopática: estratégia
geral. Um adolescente saudável recebe o diagnóstico
de epilepsia generalizada idiopática. Nenhuma
terapia para as crises foi ainda tentada. Considere
que o paciente aceitará e aderirá a todas
as terapias propostas e cada tratamento será
utilizado até a toxicidade (máxima dose
tolerada) (Tabela 1).
Tabela
1. Epilepsia generalizada idiopática: estratégia
geral. As terapias estão ordenadas de acordo
com a opinião dos especialistas. A média
de cada opção escolhida está mostrada
à direita da tabela. O total de respostas para
cada terapia e passo estão listados. N = número.
| |
Total |
Total
N para cada passo |
|
| Terapia |
N |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
Média |
| Monoterapia |
27 |
27 |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
1,00 |
| Monoterapia (segunda
droga) |
27 |
- |
25 |
1 |
1 |
- |
- |
- |
2,11 |
| Monoterapia (outras
tentativas) |
19 |
- |
- |
18 |
- |
1 |
- |
- |
3,10 |
| Combinação
de duas drogas antiepilépticas (DAE) |
28 |
- |
2 |
10 |
15 |
1 |
- |
- |
3,53 |
| Combinação
de duas DAE (segunda combinação) |
26 |
- |
- |
2 |
10 |
14 |
- |
- |
4,46 |
| Combinação
de duas DAE (outras tentativas) |
22 |
- |
- |
- |
1 |
8 |
13 |
- |
5,54 |
| Combinação
de três DAE |
27 |
- |
- |
- |
- |
4 |
10 |
13 |
6,33 |
| Combinação
de três DAE (segunda combinação) |
13 |
- |
- |
- |
- |
- |
4 |
9 |
6,69 |
| Combinação
de três DAE (outras tentativas) |
5 |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
5 |
7,00 |
| Combinação
de quatro DAE |
1 |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
1 |
7,00 |
| Combinação
de quatro DAE (outras tentativas) |
0 |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
Comentário: Os resultados desta tabela podem
ser avaliados de duas formas: seguindo as linhas ou
as colunas. A primeira avaliar cada terapia e mostra
uma "média" usando o número
do passo multiplicado pelo número de vezes que
determinado tratamento foi escolhido naquele passo e
dividido pelo número total de especialistas que
escolheram aquela opção independente do
número do passo. Esta média é mostrada
na coluna da direita. A análise pelas colunas
leva em conta quais opções terapêuticas
que aparecem com maior freqüência naquele
passo. Como primeiro e segundo passo monoterapia é
sem dúvida, a opção na opinião
dos especialistas. No terceiro passo, 61% (19/31) consideram
nova monoterapia enquanto 39% (12/31) preferem a combinação
entre duas drogas antiepilépticas. A maioria
96% (26/27) e 85% (24/28) considera a combinação
de duas drogas como os passos seguintes. O algoritmo
abaixo resume os resultados.
 |
Guia
1A. Epilepsia generalizada idiopática:
estratégia
geral (Fig 4)
2)
Epilepsia generalizada idiopática: terapia
inicial. Um adolescente ou adulto saudável recebe
o diagnóstico sindrômico de epilepsia generalizada
idiopática (por exemplo, epilepsia mioclônica
juvenil, epilepsia ausência juvenil, ou crises
tônico-clônicas generalizadas ao despertar).
O paciente está iniciando o tratamento. Considere
que você irá iniciar com monoterapia e
que o paciente aceitará e aderirá a todas
as terapias possíveis. Lembre-se do tipo principal
de crises que o paciente tem, indicado acima de cada
coluna. Indique a propriedade para cada terapia circulando
os números correspondentes ("9" seria
uma terapia extremamente apropriada e "1"
muito pouco útil).
Comentário: Para os três tipos de crise,
valproato e divalproato foram considerados como primeira
escolha. Para crises tônico-clônicas generalizadas,
a lamotrigina é considerada de primeira linha.
Etossuximida, juntamente com a lamotrigina, também
foi classificada como de primeira linha para crises
de ausência. Nenhuma outra droga foi considerada
de primeira linha para crises mioclônicas. O clonazepam
vem como droga de segunda linha, seguida pela lamotrigina.
Estes achados refletem o que é referido na literatura
médica, visto que a etossuximida é considerada
excelente droga para ausências típicas35.
A lamotrigina é menos efetiva para crises mioclônicas
em comparação com o valproato36,37
(Fig
5).
3)
Epilepsia generalizada idiopática: monoterapia
secundária após tentativa inicial com
valproato. Duas medicações que são
freqüentemente utilizadas como monoterapia para
as epilepsias idiopáticas são valproato
e lamotrigina. Considere que a primeira terapia que
você selecionou foi o valproato e que com ele
as respostas foram insatisfatórias, sem redução
nas crises. Considere que a próxima escolha será
uma nova tentativa com monoterapia. Como na questão
número 2, de acordo com o tipo predominante de
crises acometendo o paciente, classifique as terapias
como monoterapia secundária.
Comentário: Quando o valproato falha, a lamotrigina
passa a ser a principal escolha para crises tônico-clônicas
generalizadas, seguida pelo fenobarbital, considerado
como de primeira linha. Para crises de ausência,
a etossuximida é a droga de escolha seguida pela
lamotrigina. Para crises mioclônicas, os especialistas
não consideram nenhuma droga como de primeira
linha. A lamotrigina, seguida pelo clonazepam, aparecem
na segunda linha tratamento (Fig
6).
4) Epilepsia generalizada idiopática:
monoterapia secundária após tentativa
inicial com lamotrigina. Agora, assuma que a primeira
droga escolhida foi a lamotrigina e com ela a resposta
foi insatisfatória, sem redução
no número de crises. Qual seria a sua segunda
escolha como monoterapia? Como na questão número
2, baseado no tipo predominante de crises acometendo
o paciente indique sua escolha como monoterapia secundária
para as seguintes opções.
Comentário: Caso o uso da lamotrigina como monoterapia
inicial falhe, os especialistas consideram o valproato
e o divalproato como a segunda tentativa para todos
os tipos de crise. Ainda como drogas de primeira linha
encontram-se: fenobarbital e etossuximida, para crises
tônico-clônica generalizada e ausência
respectivamente (Fig
7).
Guia
1 B. Epilepsia generalizada idiopática:
seleção
de monoterapia inicial (Tabela 2)
Tabela 2. Guia 1 B.
Epilepsia generalizada idiopática: seleção
de monoterapia inicial.
|
Situação
clínica |
Medicações
de primeira linha para os principais tipos de
crises |
| Tônico-clônicageneralizada |
Ausência |
Mioclônica |
Monoterapia
inicial |
Valproato
Divalproato
Lamotrigina |
Valproato
Divalproato
Etossuximida
Lamotrigina
|
Valproato
Divalproato |
| Monoterapia
secundária após iniciar com valproato |
Lamotrigina
Fenobarbital |
Etossuximida |
Lamotrigina
Clonazepam
Divalproato
Clobazam
Nitrazepam |
Monoterapia
secundária após iniciar lamotrigina |
Valproato
Divalproato
Fenobarbital |
Valproato
Divalproato
Etossuximida |
Valproato
Divalproato |
Guia
2. Epilepsia focal sintomática
5)
Epilepsia focal sintomática: estratégia
geral. Um adolescente ou adulto saudável
recebe o diagnóstico de epilepsia sintomática
focal (por exemplo, esclerose mesial temporal). Imagine
que o paciente está de acordo e com boa aderência
a todas as terapias. Quando aplicável, leve em
conta que a terapia será utilizada até
a máxima dose tolerada antes de prosseguir ao
próximo passo (Tabela 3).
Tabela
3. Epilepsia focal sintomática: estratégia
geral. As terapias estão ordenadas de acordo
com a opinião dos especialistas. A média
de cada opção está mostrada à
direita da tabela. O total de respostas para cada terapia
e passo estão listados. N = número.
| |
Total |
Total
N para cada passo |
|
| Terapia |
N |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
Média |
| Monoterapia |
27 |
27 |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
1,00 |
| Monoterapia (segunda
droga) |
23 |
- |
22 |
- |
- |
1 |
- |
- |
2,13 |
| Monoterapia (outras
tentativas) |
15 |
- |
- |
14 |
1 |
- |
- |
- |
3,06 |
| Combinação
de duas drogas antiepilépticas (DAE) |
28 |
- |
6 |
10 |
9 |
3 |
- |
- |
3,32 |
| Combinação
de duas DAE (segunda combinação) |
24 |
- |
- |
3 |
8 |
10 |
3 |
- |
4,54 |
| Iniciar avaliação
para cirurgia |
19 |
- |
- |
4 |
7 |
3 |
1 |
4 |
4,68 |
| Combinação
de duas DAE (outras tentativas) |
20 |
- |
- |
- |
1 |
4 |
13 |
2 |
5,80 |
| Combinação
de três DAE (segunda combinação) |
6 |
- |
- |
- |
- |
3 |
1 |
2 |
5,83 |
| Combinação
de quatro DAE |
1 |
- |
- |
- |
- |
- |
1 |
- |
6,00 |
| Combinação
de três DAE |
22 |
- |
- |
- |
3 |
1 |
5 |
13 |
6,27 |
| Combinação
de três DAE (outras tentativas) |
5 |
- |
- |
- |
- |
- |
3 |
2 |
6,40 |
| Combinação
de quatro DAE (outras tentativas) |
1 |
- |
- |
- |
- |
- |
- |
1 |
7,00 |
Comentário:
Os resultados desta questão foram semelhantes
aos da questão 1. Monoterapia é considerada
como o primeiro passo, seguido pela segunda monoterapia.
No passo seguinte, 45% (14/31) das respostas foram a
favor de nova monoterapia, 42% (13/31) combinação
de duas drogas e 13% (4/31) iniciariam a investigação
para o tratamento cirúrgico. No quarto passo,
62% (18/29) combinaram duas drogas (primeira, segunda
e outras combinações) e 24% (7/29) optaram
por iniciar a avaliação cirúrgica.
A partir de então, as opiniões divergem
permanecendo entre outras tentativas de combinação
entre duas e três drogas.
|