INTRODUÇÃO
Epilepsia
não é brincadeira, mas também não
é o fim do mundo. Muitas pessoas famosas, pessoas
que alteraram o curso da história, tiveram epilepsia.
Você acreditaria que Júlio César
e Alexandre o Grande, para citar só dois, tinham
este problema? Eles se deram bastante bem na vida, mesmo
sem a medicação que temos hoje.
Com
o auxílio de novos medicamentos, muitas pessoas
com epilepsia têm perfeita condição
de conseguir uma boa educação, bons empregos
e vidas tranqüilas. As chances são grandes
de que qualquer paciente possa conseguir isso.
ALGUMAS
PERGUNTAS SOBRE EPILEPSIA
Enfim,
o que é epilepsia?
Para
ajudar o entendimento do que é epilepsia, é
interessante considerar o cérebro como um tipo
de computador. Como as partes de um computador as células
cerebrais são conectadas entre si e se comunicam
por impulsos elétricos. Algumas vezes, no entanto,
há atividade elétrica anormal rio cérebro:
o resultado físico visível para todos
é uma crise de epilepsia.
Quando
isto acontece a alguém várias vezes, esta
pessoa tem epilepsia, uma doença que produz crises.
Uma crise, então, é uma situação
temporária, um período curto no qual o
cérebro é “tomado” por descargas
rápidas e fortes de atividade elétrica.
Se
o distúrbio elétrico afeta somente parte
do cérebro o resultado é o que se chama
uma crise parcial. A forma mais comum de crise parcial
é chamada uma crise parcial complexa. A pessoa
pode se sentir tonta, confusa, ver manchas à
sua frente, ouvir ruídos nos seus ouvidos. Ela
pode ficar mexendo com sua roupa, movendo seus braços
e pernas de uma maneira despropositada, e não
ter consciência das suas ações e
do que está em volta de si. Freqüentemente
a pessoa não consegue lembrar o que aconteceu
quando a crise termina. Este tipo de crise pode ser
erradamente considerada de origem emocional ou mental.
Não é.
Um
outro tipo de crise parcial pode envolver a parte do
cérebro que controla um grupo específico
de músculos, por exemplo, do braço direito.
Em uma crise o braço direito pode ficar rígido
e depois se mover de maneira incontrolável. Mas
outros músculos não são afetados.
Em alguns tipos de crise o problema existe na parte
do cérebro que controla as funções
vitais automáticas. O resultado pode ser enjôo
ou cólicas, ou uma alteração na
freqüência do pulso, tudo depende de que
parte do cérebro esteja afetada.
Quando
o cérebro inteiro é afetado, o resultado
é uma crise generalizada. Um tipo de crise generalizada
é a chamada tônico-clônica; o nome
mais tradicional é crise de grande mal. Independente
do nome, este é o tipo de crise que a maior parte
das pessoas associam com epilepsia. Uma pessoa que tenha
uma crise de grande mal pode subitamente perder a consciência
e cair, todos os seus músculos se tornando rígidos,
até a fase em que o corpo todo começa
a tremer. Após dois ou três minutos, que
parecem ser muito mais longos, o tremor termina. Na
maior parte das vezes a pessoa pode, após descansar
algum tempo, levantar-se e continuar o que vinha fazendo
antes da crise.
Um
outro tipo de crise generalizada é aquela chamada
ausência (pequeno mal). Esta crise pode ser tão
rápida a ponto de nem ser notada. Pessoas com
ausência olham para o nada à sua frente
por alguns momentos, como se estivessem sonhando acordados,
e depois continuam a fazer o que estavam fazendo antes.
Não há movimentos violentos de pernas
ou de braços. A pessoa fica, no entanto, inconsciente
por um breve período de tempo.
Crises
de ausência costumam durar poucos segundos mas
podem ocorrer muitas vezes ao dia, se não tratadas.
As
crises aqui descritas são aquelas vistas mais
freqüentemente. Há alguns outros tipos de
epilepsia. O seu médico pode lhe contar mais
detalhes.
O que causa epilepsia?
Nós
sabemos que na epilepsia algumas células cerebrais
estão descarregando energia elétrica quando
não deveriam, mas muitas vezes nós não
sabemos por quê. Freqüentemente não
há explicação óbvia para
o fato de alguém ser portador de epilepsia. A
epilepsia pode aparecer após um trauma craniano
ou pode ser causada por problemas de saúde durante
a gravidez, ou ainda pode ser um efeito tardio de doenças
da infância, como sarampo. Deficiências
nutricionais ou tumores cerebrais (muito raramente)
podem ser a causa.
No
entanto, na maior parte dos casos não é
possível determinar especificamente a causa da
doença. Neste caso o problema é chamado
epilepsia idiopática. Significa somente que a
causa é desconhecida.
A quem eu devo contar
e o que eu devo dizer?
Partindo
do ponto de vista de que a epilepsia não é
nada que possa causar vergonha, não há
razão por que as pessoas que você vê
no dia-a-dia ou que são importantes para você
deixem de saber que você tem uma doença
que produz crises. Amigos mais próximos e parentes,
vizinhos, seus colegas, seus professores, seu dentista,
seu técnico ou professora de dança, todos
deveriam ser informados. Com o progresso da cultura
muitas pessoas sabem um pouco sobre epilepsia. Eles
entenderão o seu problema e aceitarão
você como “uma pessoa que tem epilepsia”.
O que é importante é que eles entenderão
que, exceto pela epilepsia, você deve ser como
qualquer outra pessoa da sua idade.
 |
Infelizmente,
outras pessoas ainda não entendem. Elas acham
que uma pessoa com epilepsia é um ser diferente,
e de alguma maneira desagradável. Elas podem
rejeitar a pessoa com epilepsia por razões pelas
quais não conseguem entender. Considere isto
como sendo azar delas. Fique com pessoas que entendem
a sua situação e gostam de você
pela pessoa que você é. Existem muitos
assim em torno de você, O que você diz às
pessoas sobre um problema seu, particular, especificamente
no caso da epilepsia, em geral depende de com quem você
está falando. Você terá que usar
seu próprio julgamento. Seus pais e médicos
podem ajudá-lo. Você pode certamente aprender
alguma coisa com outras pessoas que tenham encarado
o mesmo problema.
Sua
sociedade local de epilepsia pode ter um grupo de que
você possa participar. Ou seu médico talvez
possa lhe colocar em contato com alguém como
você, para que possam trocar idéias.
Sobre
quanto dizer a outras pessoas, um adulto responsável,
tal como seu professor ou orientador da escola, deve
saber suficiente sobre a sua situação
para orientá-lo. Seus professores provavelmente
apreciarão se você e seus pais se sentarem
com eles para uma troca de idéias. Existem Organizações
Internacionais de Epilepsia que preparam material educacional
para professores. No Brasil este aspecto é pouco
desenvolvido pela falta de voluntários dispostos
a adaptar este material para nossas condições.
Amigos
devem ter uma idéia do que seja epilepsia, pelos
menos superficial, e saber o que fazer se eles estão
perto de alguém com uma crise. Observar uma crise
pode assustar muito a alguém que não sabe
o que está acontecendo.
Obviamente,
você não pode contar a todas as pessoas
que você encontra e a todos os seus colegas tudo
sobre epilepsia. Mas o pessoal conversa, e se você
contar de maneira direta quando julgar necessário
as chances são de que eles entendam da maneira
como você conta.
Como a epilepsia
afeta a minha vida?
É
bom enfrentar o problema: a epilepsia vai afetar a sua
vida.., mas não demais. Como um adulto você
não poderá se tornar um piloto de avião
ou trabalhar em alturas desprotegido. Mas você
pode ir à escola, inclusive universidade. Não
há razão pela qual você não
possa ser um médico, advogado, pessoa de negócios,
qualquer coisa. Na verdade há muito pouco que
você não pode fazer. As pessoas com epilepsia
podem casar, ter filhos e levar vidas normais.
Enquanto
você é jovem não há diferença
com outras pessoas da sua idade. Você pode namorar
e se divertir em festas. Pode ir à praia, a excursões
ou passar o tempo com os seus amigos, como qualquer
outro.
Pode
ser formada uma sociedade de epilepsia na sua cidade
onde pessoas do seu grupo de idade possam aprender com
os problemas dos outros. Pode ser uma grande ajuda saber
como outra pessoa, muito parecida com você, conseguiu
conviver com a sua epilepsia.
VOCÊ
PODE FAZER MUITO PARA SE AJUDAR
Pessoas
com epilepsia
Você
vai ficar agradavelmente surpreso com o que pessoas
com epilepsia fazem hoje. Há alguns no Congresso,
outros trabalhando como físicos. Eles sobem montanhas,
praticam esportes profissionais e dançam ballet,
até andam de asa deita. Não há
razão pela qual a epilepsia deva impedi-lo de
levar uma vida ativa.
Algumas
das pessoas mais famosas da História, grandes
generais como Júlio César, Alexandre Magno
e Napoleão Bonaparte; grandes escritores como
Feodor Dostoievski, Gustave Flaubert e Dante Alighieri
tiveram epilepsia. Alfred Nobel, dos prêmios Nobel,
tinha epilepsia. Também Peter Tchaikovski, Vincent
Van Gogh, Budha e São Paulo. Precisamos dizer
alguma coisa mais sobre seu futuro?
Sobre a sua medicação
Seu
médico escolheu seu medicamento baseado na sua
idade, condição física e tipo de
crise. É importante que você tome sua medicação
regularmente e de acordo com a receita do médico.
Na infância os pais tomam conta da medicação.
Mas à medida que se vai tornando adulto, você
deve assumir esta responsabilidade.
Lembre
que o medicamento que você toma não vai
curar a epilepsia, mas ajuda a eliminar as crises ou
reduzir seu número. Algumas vezes a medicação
termina completamente com as crises, por muitos meses.
Novamente isto não significa que a epilepsia
esteja curada; você não deve parar de tomar
a medicação ou diminuir a quantidade mesmo
que você tenha estado livre de crises por muitos
meses. Somente um médico pode decidir quando
é a hora de parar ou alterar a medicação.
Você pode ajudar seu médico mantendo a
agenda de quaisquer crises que você tenha e trazendo-a
quando for visitar seu médico. Desta maneira
ele poderá decidir se você está
tomando a quantidade correta da medicação.
Embora
seja importante a tomada regular dos remédios,
perder uma dose não é um problema enorme.
Só tenha certeza que a próxima dose seja
tomada na hora correta. Se houver dificuldade de lembrar
quando tomar a próxima dose, é útil
preparar todas as doses antes marcando as horas ao lado.
Tenha certeza de que o remédio esteja onde crianças
não possam achá-lo!
Dieta, exercício,
atividades
Uma
pessoa com epilepsia necessita o mesmo tipo de dieta
que todas as outras deveriam utilizar. Não há
necessidade especial de vitaminas ou minerais por causa
da epilepsia. Exercício é bom para todos.
Porém, se você não tem estado ativo,
comece lentamente. E existem alguns tipos de atividade
física dos quais você pode não querer
tomar parte, a menos que suas crises estejam bem controladas.
A
maior parte dos médicos permite que um paciente
com crises bem controladas vá nadar numa piscina
ou na praia, desde que haja um bom nadador por perto.
Andar de bicicleta novamente não é um
problema se as crises estiverem bem controladas. Esportes
onde não há grande risco, como tênis
ou futebol, são provavelmente mais seguros do
que mergulho, andar a cavalo ou esqui. Na verdade, quanto
mais uma pessoa com epilepsia participar em atividades
com amigos, melhor.
A adolescência
Ser
adolescente é difícil. Ser adolescente
com epilepsia é um pouco mais difícil,
mas não impossível. A maior fonte de problemas
para a maioria dos adolescentes é a sua vida
social. Como já mencionado, a epilepsia não
é nada que possa causar vergonha, você
não tem nada a esconder. Explique sua situação
às pessoas que se tornarem seus amigos. Muitos
deles ficarão surpresos inicialmente, mas quando
entenderem seu problema o aceitarão pela pessoa
que você é, alguém como eles que
por acaso tem epilepsia. Não há razão
pela qual sua epilepsia deva impedir que você
namore, vá a festas, vá ao clube, visite
seus amigos, participando da maior parte dos esportes
e simplesmente vivendo bem. Mas não exagere.
Muitas
pessoas com epilepsia têm crises mais freqüentes
quando eles estão cansados ou após dormir
mal.
Dirigir
Quase
todos dirigem veículos hoje em dia. Em alguns
locais não há outra maneira de se movimentar.
E se suas crises estiverem sob controle completo você
pode dirigir também. No Brasil não há
leis claras sobre carteiras de motorista para portadores
de epilepsia. Seu médico é a pessoa mais
indicada para lhe aconselhar sobre quanto tempo você
deve estar sem crises para depois guiar. Se você
tem crises durante o dia ou se sua medicação
está sendo alterada, você não deve
dirigir, O risco para você ou para outros na rua
é muito grande, e você será o responsável
por quaisquer acidentes.
A faculdade, e depois,
a luta por um emprego
A
maior parte das pessoas com epilepsia tem perfeita capacidade
de freqüentar universidade e conseguir aprovação.
Se forem satisfeitos os outros requisitos escolares
não há problema quanto a ser aceito. Você
talvez tenha que dar esta informação à
escola, e talvez seja melhor ter uma carta de seu médico
descrevendo sua história médica e a medicação
que você toma.
Quando
chega na questão de empregos, a melhor atitude
é a recomendada a todos. Você deve pensar
muito seriamente sobre o que gostaria de fazer, e sobre
o que tem condições de fazer, considerando
quão bem suas crises estejam controladas. Há
vários órgãos governamentais que
podem ajudar o paciente a ser treinado para emprego
apropriado, e a Coordenadoria Regional de Reabilitação
Profissional do INPS existe com esta finalidade.
Casamento
A
primeira coisa que você deve saber é que
epilepsia por si mesma não tem efeito na capacidade
sexual de uma pessoa, nem há qualquer razão
para que pessoas com epilepsia deixem de usar pílulas
anticoncepcionais. Se você tiver alguma dúvida,
converse com seu médico.
Não
deixe a timidez tomar conta; ele já ouviu tudo
o que você perguntar mais do que uma vez.
Pessoas
com epilepsia imaginam se alguém “normal”
casará com eles. Todo tipo de questões
aparecem, a maioria relacionada com a dúvida
de contar ou não a outra pessoa. A resposta é
sim. Um casamento baseado em menos do que 100% de confiança
já está em perigo a partir do início,
isto não significa que você deve contar
a alguém com quem tenha um encontro casual sobre
o seu problema. Mas quando um relacionamento começa
a ficar sério, é tempo de que seja completamente
honesto. Não fique surpreso se isso levar ao
fim do relacionamento. Mas quase com certeza era a melhor
saída, de qualquer maneira.
E
sobre crianças? Será que eles terão
epilepsia? As chances são pequenas de que os
seus filhos venham a ter uma doença que produza
crises, a menos que ambos os pais venham de famílias
com muitos membros que tenham epilepsia. Faz sentido,
no entanto, procurar um médico que entenda de
aconselhamento genético antes de ter crianças.
Ajudando os outros
a entender
Como
mencionado antes, e vale a pena repetir, epilepsia não
é uma condição que cause vergonha.
Não há nada a esconder. Infelizmente,
no entanto, algumas pessoas ainda vêem epilepsia
como algo muito estranho e diferente, e rejeitarão
um indivíduo com epilepsia. Você pode ajudar
a alterar as noções erradas das outras
pessoas. Se você fizer uma única pessoa
entender que gente com epilepsia é semelhante
a todos, então você estará fazendo
a vida um pouco mais fácil para todos seus companheiros
de crises. Você deve isso a si mesmo e a todos
com epilepsia. Lembre que qualquer pequena ajuda é
de grande valia.
Muitas pessoas se
preocupam com você
Epilepsia
não é nenhuma brincadeira, mas também
não é o fim do mundo. Seria muito difícil
para você se tivesse que fazer tudo por sua conta.
Mas você não tem: Há muitas pessoas
ao seu lado.
Seu
médico é a pessoa com quem você
deve falar sobre sua condição física,
mas quando se tratar de questões de aconselhamento
sobre escola, empregos, seus direitos legais, carteira
de motorista, todas as coisas que fazem uma vida, você
deve fazer contato com sua sociedade de epilepsia, embora
no Brasil estas ainda estejam em fase inicial de desenvolvimento,
com falta de gente que queira trabalhar, e também
de recursos.
|