TRAÇOS
DA LINHAGEM EPILÉTICA
APLICAÇÃO
DA GENÉTICA HUMANA À HIGIENE MENTAL.
REVISÃO DE 300 MATRÍCULAS DO CENTRO
DE SAÚDE DE SANTANA.
Trabalho
do Centro de Saúde de Santana (Diretor:
Dr. Philemon P. Ribeiro da Matta), Serviço
de Centros de Saúde da Capital, Departamento
de Saúde do Estado, São Paulo. Apresentado
ao X Congresso Brasileiro de Higiene, Belo Horizonte
(Minas Gerais), em 19 de outubro de 1952.
Aníbal
Silveira (a)
A
partir do início do século, quando
se reeditaram as leis de Mendel, a genética
humana começou a predominar gradativamente
no pensamento médico. É digno de
menção o fato de haverem elas sido
apresentadas então, quase simultaneamente
(em 1900), por botanistas de três países
e que trabalharam independentemente. Neste empreendimento,
que teve o mérito de despertar prontamente
o interesse do mundo científico, a prioridade
coube segundo se depreende de revisão histórica
de Caullery, a De Vries, o qual, logo depois,
publicou a obra em dois volumes "Die
Mutationstheorie" (1901 a 1903), cujo
segundo volume constitui "desenvolvimento
das leis de Mendel, reencontradas pelo próprio
De Vries"
(1).
Também não foi certamente por mera
casualidade que os princípios formulados
por Mendel tiveram de ser redescobertos para entrar
no âmbito clínico. Ao contrário,
a explicação do olvido deve procurar-se
na falta de amadurecimento do mundo médico
na época em que vieram à luz (1865).
Aliás, os autores em geral o reconhecem
e Caullery (1)
acentua textualmente: "Na realidade, os espíritos
não estavam preparados para lhes reconhecer
o alcance. A idéia tão fecunda da
pureza dos gametas, enunciada igualmente por Naudin,
publicada em um dos periódicos mais afamados
e em memória que foi consagrada pela mais
alta recompensa da Academia de Ciências
de Paris, passou também despercebida".
Da mesma forma, não foi o acaso mas a preparação
do espírito médico por quase 50
anos, o que permitiu que já desde a primeira
década deste século os estudos sobre
hereditariedade médica se constituíssem
em disciplina autônoma. E disciplina hoje
indispensável para a prática da
medicina integral. Por volta de 1920 as pesquisas
nesse campo, até então isoladas,
passaram a convergir e a se ampliar de maneira
sem precedente na história da medicina,
até se concentrarem, hoje em dia, em institutos
especializados, em toda a Europa e nos Estados
Unidos da América do Norte.
À
medida que foi deixando à margem os exageros
microbianos e o critério especialístico
para compreender as reações humanas
como expressões da personalidade em conjunto,
a medicina clínica entrou a delinear cada
vez mais claramente os fatores genéticos
da constituição. A respeito dessa
última, acentua GEDDA (3b):
"Pois que todos reconhecem a necessidade
de que este assunto passe da fase simpática
mas impraticável das histórias clínicas,
das intuições e das hipóteses,
para uma fase concreta de pesquisa e de aplicação
clínica, vale afirmar claramente –
que as leis sobre as quais a Medicina pode basear
a doutrina da constituição são
aquelas focalizadas por uma ciência, a Genética,
a qual neste setor particular de aplicação
se chama Genética Médica".
Por outro lado, como frise Snyder, força
é reconhecer que a heredologia tem muito
a lucrar com a associação à
medicina. São palavras desse autor: "A
questão do significado exato da imunidade
e da suscetibilidade em várias condições
mórbidas; os processos embriológicos
e evolutivos, pelos quais o fator hereditário
produz o caráter final; o acesso a famílias
em que se encontram os traços clínicos;
a compreensão das várias manifestações
que determinado traço pode assumir –
todas essas representam questões em que
a genética depende da apreciação
médica".
Tal
necessidade de orientar o estudo da genética
segundo as normas e a finalidade peculiares à
medicina não se entende apenas com o aspecto
doutrinário; ela prevalece exatamente na
aplicação prática da medicina
preventiva, quer individual, quer principalmente
social. De fato, o campo de ação
desse conjunto de fenômenos biológicos
se estende para muito além do plano individual.
Não há exagero em alegar que mesmo
a complexa estrutura das instituições
sociais é largamente influenciada pelos
componentes heredobiológicos. Ao apreciar
a freqüência de doenças ligadas
à hereditariedade na Dinamarca, diz Kemp:
"Dentre
esses fatores que determinam a sorte e a sobrevivência
de uma raça ou de uma nação,
um grupo muito importante se compõe de
anomalias, anormalidades, defeitos e doenças,
de origem hereditária, que ocorrem na população".
"Eis porque o estudo das lesões heredológicas
é de tão grande alcance para os
problemas da população, para a genética
humana, a estatística médica, a
saúde pública, para os ramos clínico,
preventivo e social da medicina, para a sociologia
e a política. Manifestam-se nos anos –
mais recentemente, nos países democráticos,
uma crescente consciência social, um sentimento
cada vez mais intenso de que a sociedade precisa
tornar mais tolerável para todos, as condições
de vida. Isto tem exigido o estudo das doenças
hereditárias e, não em menor escala,
o da freqüência delas na população.
É importante, para as forças governamentais
e para as autoridades públicas, conhecer
o número dos que, em razão de lesões
hereditárias, são socialmente incapazes
e necessitam de assistência social, de tratamento
ou de admissão em hospitais ou em institutos
médicos".
Não
é, entretanto, apenas este o escopo das
indagações genéticas: outro
mais amplo em finalidade, porque preventivo, se
desenvolve a partir de tal recenseamento médico.
Referimo-nos ao prognóstico quanto à
higidez de cada linhagem humana em estudo e, portanto,
dos indivíduos que a representam no momento
dado. Essa previsão, ainda naturalmente
empírica, corresponde à principal
missão do eugenista e nela se baseará
por certo, dentro em pouco, a prática de
toda a medicina. Assim, a investigação
das condições mórbidas geneticamente
transmissíveis e das circunstâncias
em que a transmissão se dá, constitui
o fundamento para o conselho eugênico. E
através deste conselho é que poderá
o médico agir preventivamente, em âmbito
social, para que o cabedal humano se depure dos
traços indesejáveis, gregariamente
considerados. Tal escopo só se atingirá
mediante a orientação médica,
no caso eugênica, quanto aos problemas pré-matrimoniais
e à composição numérica
das famílias. Assinala-o bem Osborn: "Alguns
indivíduos serão portadores de genes
defeituosos em número muito superior à
média; alguns o serão em grau muito
inferior a esta. Se o nascimento entre os piores
transmissores puder ser levado ao mínimo
haverá simultaneamente redução
em larga variedade de genes maléficos.
Se o nascimento daqueles que carregam o menor
número de genes deficitários puder
ser ampliado ao máximo, a proporção
do cabedal sadio poderá ser aumentada sem
que o índice de natalidade precise cair
aquém da proporção necessária
para a renovação. Para atingir tais
resultados seriam necessárias maiores variações
no tamanho da família do que as que hoje
existem. E variações subordinadas
não às diferenças na educação
e no padrão de vida, mas às qualidades
genéticas comprovadas".
Esta
concepção relativa na apreciação
do grau de eugenismo ou de indesejabilidade constitui,
o nosso ver, o principal progresso na aplicação
social da genética humana. Realmente, o
indivíduo indiscutivelmente eugênico
e convergente quanto a todos os traços
da personalidade moral e somática não
existe senão como abstração.
Daí, a necessidade de sopesar, pelo aspecto
da transmissão biológica e do resultado
final para a espécie humana, os vários
traços da personalidade. E seguramente
isto faz com que o campo principal da genética
humana seja o mundo subjetivo, estudado na arte
médica pela psiquiatria. Muller o exprime
bem: "A maioria dentre nós concorda
em que, para o homem, o mundo da vida mental é
o que mais tem que ser levado em conta: todos
os mais aspectos ficam em plano muito subsidiário.
É, portanto, evidente que, se acaso chegarmos
a ponderar os valores relativos de diferentes
genótipos para reprodução,
a mais alta prioridade no todo, seria concedida
aos genes que entendem com a mentalidade –
se de alguma forma os pudéssemos avaliar.
Ao ler as novas concepções de Einstein,
que sentimento de insuficiência se desperta,
mesmo na maioria dos cientistas desta época
assim chamada científica! Maior capacidade
intelectual, acompanhada de mais apurados sentimentos,
constituem seguramente as maiores necessidades
biológicas de todo o gênero humano.
E assim, embora devamos assiduamente procurar
conhecer os princípios que constituem a
base genética da saúde somática
e da resistência física, bem como
os meios de melhorá-las, precisamos não
esquecer que a transmissão de uns tantos
genes de leves doenças somáticas
aqui e acolá será habitualmente
compensada de muito se ela der margem a algum
melhoramento considerável em relação
à base genética das características
mentais. Devemos ter em mente também que,
em tais casos, graças ao processo de recombinação
de genes, os genes maléficos poderão
ser eliminados e, assim, logo seremos dispensados
de manter o compromisso o oportunístico
referido, pelo preço de alguns defeitos
físicos".
Só
o prisma da genética médica permite
distinguir corretamente os traços gregariamente
indesejáveis, os que poderão ser
tolerados e os que constituem fatores convergentes.
Mesmo para o diagnóstico clínico
individual e para a prevenção imediata
essa disciplina assume valor especial. "Desvios
leves mas significativos para com a normalidade
– diz Snyder – que têm sido
desprezados pelo médico e pelo paciente
ao mesmo tempo, assumirão novo e importante
significado à luz da genética, o
que dará margem a novos critérios
diagnósticos, à identificação
precoce e, por conseguinte, a novas oportunidades
para a terapêutica e a prevenção".
Da mesma forma, correlações entre
funções mentais e particulares de
organização somática surgem
mais claras quando apreciadas à luz da
genética, quer em estado normal, quer no
plano das manifestações mórbidas.
Exemplo desta fértil indagação
médica encontramos no modelar estudo de
Kallmann: "Alguns dados clínicos registrados
na observação em longo prazo de
nossa série de pares gêmeos monozigóticos
concordantes parecem confirmar a tão discutida
teoria de que a instabilidade afetiva e a disfunção
bioquímica produzidas pelo genótipo
maníaco-depressivo podem exibir
largo âmbito de variabilidade fenotípica
e são provavelmente correlatas aos fatores
genéticos para a gota e o diabetes, especialmente
à tendência para a obesidade".
Entretanto, não é só no domínio
dos distúrbios de funções
vegetativas que a genética humana permite
conclusões de importância capital
e ao mesmo tempo indicar novos rumos para a pesquisa.
Também no setor das reações
inter-humanas – em que as solicitações
do ambiente objetivo e social desempenham o papel
aparente principal – tal investigação
se revela insubstituível. Ainda aquele
mesmo insigne pesquisador
(5a) afirma, ao resumir detido
estudo sobre problemas de ajustamento no homem:
"Em particular, pode mostrar-se facilmente
que constelações semelhantes de
experiências infantis desfavoráveis
deixam freqüentemente de produzir desvios
semelhantes da personalidade em membros geneticamente
da mesma família; ao passo que co-gêmeos
semelhantes freqüentes vezes exibem o mesmo
tipo de desajustamento, ainda quando separados
em idade muito precoce". Mesmo que os dados
originários quanto ao aspecto psicológico
sejam discordantes, a indagação
genética contribui para a compreensão
deles: "Outra explicação para
as nossas observações sobre gêmeos
– escrevem Kallmann e Anastásio –
é que o suicídio parece resultar
de fatores motivantes tão complexamente
combinados que tornam muito improvável
a repetição desta incomum constelação
mesmo em co-gêmeos que apresentam o mesmo
tipo de psicose e com privações
sociais muito similares".
Mesmo
para a compreensão dos fatos psicológicos
dentro da faixa normal a heredobiologia oferece
normas seguras: o comportamento genético
dos traços subjetivos da personalidade
é o que aí se pesquisa, conforme
precisa Schulz: "Os radicais psicológicos
não são sempre, de modo algum, heredológicos,
mas aos heredobiológicos estudamos sempre
como heredobiológicos, mesmo em relação
àquelas propriedades que unicamente pela
expressão psíquica podem ser reconhecidas.
Não vai nisto diminuição
alguma para a psicologia. Mas, da mesma forma
que a física não pode distinguir
de que modo as diversas ondas de éter são
percebidas como cores,... da mesma forma que não
é a biologia porém à psicologia
que cumpre decidir sobre a correlação
e a compreensão psicológicas de
processos psíquicos, assim somente a biologia
pode decidir quanto às correlações
biológicas de processos e particularidades
psicológicos e a heredobiologia quanto
às de ordem heredobiológicas".
Em
realidade, o estudo genético das manifestações
psíquicas promove extensa gama de fenômenos,
desde aqueles situados em âmbito normal
até os que se mostram claramente patológicos.
Estes últimos não consistem apenas
nos quadros psiquiátricos endógenos
clássicos, ditos constitucionais: mais
importantes para a prática clínica
são as psicoses reversíveis descritas
e exaustivamente estudadas por Kleist, que as
denominou "degenerativas". A identificação
de tais quadros marginais isolados pelo eminente
mestre de Frankfurt-am-Main constitui, a nosso
ver, o progresso mais relevante da psiquiatria
contemporânea. Cumpre ainda reconhecer as
reações psicopatológicas
que podem exprimir o feitio mórbido da
personalidade e, enfim, os distúrbios momentâneos
que apenas revelam, no indivíduo ademais
bem enquadrado na população média,
a predominância de certos traços
heredológicos.
Orientada
por esses conhecimentos a prevenção
eugênica pode trazer benefícios não
só imediatos para o consulente, mas futuros,
para a linhagem biológica que venha a originar.
De qualquer forma, a verdadeira higiene mental,
a que pode auxiliar a espécie a suportar
com menos sofrimento os tormentosos tempos atuais,
não se compreende sem a assistência
direta da genética humana. E é por
isso que temos orientado sob o ascendente dessa
disciplina nossa atuação no serviço
de Higiene Mental do Centro de Saúde de
Santana.
MATERIAL,
MÉTODO E RESULTADOS
Antes
de comentarmos os dados que julgamos de interesse
convém apresentar algumas rápidas
indicações sobre as condições
em que colhemos o material clínico respectivo.
Nosso serviço funciona em correspondência
com os demais, que existem em todos os Centros
de Saúde da Capital: por um lado, os Serviços
de Higiene Mental Pré-Natal, de Higiene
Infantil, de Higiene Pré-escolar e o de
Exames Médicos Periódicos; e por
outro lado o Serviço Social, a cargo das
visitadoras domiciliares. Nos Serviços
internos os médicos têm como auxiliares
educadores sanitárias, cujo conjunto recebe
a cooperação de educadora centralizadora
e a supervisão da educadora-chefe. Assim,
embora cada Serviço opere isoladamente,
em geral, o intercâmbio de consulentes e
de opiniões médicas se torna fácil
mediante o recurso à atuação
das educadoras, as quais se incubem também
de orientar os clientes quanto às prescrições
médicas. Uma das educadoras – a que
atualmente efetua a centralização
– se encarrega ainda de agrupar consulentes
para discutir problemas que lhes são comuns,
ensejo excelente para a psicoterapia coletiva.
Quanto
ao nosso trabalho nesse Serviço, devemos
assinalar que não dispomos de auxiliares
outros, além de uma educadora sanitária
em caráter permanente e da educadora centralizadora
quando haja necessidade. Assim, o registro metódico
dos consulentes e do material clínico respectivo
representa a única tarefa adicional à
sessão clínica, inicial ou de revisão.
Ainda não dispomos de auxiliar incumbido
de trabalhar estatisticamente, quanto ao aspecto
heredobiológico, os dados coligidos. A
carência deste elemento científico
faz com que os dados que hoje apresentamos em
resumo devam ser interpretativos com reserva em
referência ao significado heredobiológico,
principalmente naquilo que entendem como a incidência
percentual dos vários quadros clínicos
de ordem hereditária. Todavia, para a diagnose
clínica e para a apreciação
dos sintomas psicopatológicos não
nos valemos do critério fenomenológico,
mas sim, como temos mencionado em publicações
várias, da interpretação
genético-dinânica em sentido mais
rigoroso. Os informes clínicos, diretos
e anamnésticos, são colhidos pessoalmente
por nós e muita vez exigem, para a devida
avaliação, que, além do consulente,
entrevistemos outros membros da família
melhor informados. Por outro lado, a sessão
clínica é naturalmente demorada
devido à natureza dos dados subjetivos
correspondentes e, além disso, não
pode encerrar-se, via de regra, na primeira entrevista.
Isto explica que não possamos habitualmente
atender a mais de 8 consulentes, entre matrícula
e revisão, em cada expediente.
Entre
o período de fevereiro de 1952, data em
que iniciamos o Serviço, e 15 de julho,
atendemos a 317 matriculados. Consideramos aqui,
os dados de interesse geral relativos às
primeiras 300 matrículas consecutivas desse
cabedal clínico. Assinalamos que tais consulentes
não foram encaminhados segundo qualquer
critério prefixado: eles representam assim,
sob esse aspecto particular – pelo menos
até certo ponto – uma amostra não
selecionada da clientela que ocorre ao Centro
de Saúde de Santana. O encaminhamento,
quer por parte dos colegas de trabalho, quer por
parte das educadoras ou das visitadoras, era motivado
pela existência de dificuldades de natureza
psicológica, ora evidentes no comportamento
explícito do consulente, ora reveladas
ao exame médico. Logo a partir do segundo
mês de Serviço, é verdade,
começaram a procurá-lo espontaneamente
clientes do Centro que tomaram conhecimento da
possibilidade de assistência psicológica
direta. Mas a própria ocorrência
desta necessidade de assistência psicológica
representa um índice significativo na composição
clínica da população ali
assistida; índice real, embora antes estivesse
mascarado – como talvez suceda em outras
unidades de saúde pública –
pela não existência de Serviço
explicitamente destinado a esta classe de problemas
da personalidade. Mesmo a predominância
de manifestações clínicas
filiáveis a determinada linhagem heredológica
não nos parece resultar aí de artifício
na seleção do material clínico
– como diremos oportunidade – mas
antes corresponder à expressão intrínseca
da população média.
Cumpre
ainda fazer a ressalva de que apenas em algumas
instâncias pudemos examinar diretamente
membros da família imediata do probando,
os quais nesse caso, como regra geral, ficaram
registrados em fichas "estrondosas"
com a do cliente respectivo. Vale dizer que apenas
nessa eventualidade dispomos de elementos diretos
para avaliar a freqüência de manifestações
clínicas em pessoas da família do
examinado. Na quase totalidade das vezes a ocorrência
de tais traços – mencionada na ficha
do examinando – se deduziu do informe anamnéstico
das pessoas consideradas aqui na coluna 1 da tabela
1:
TABELA
1
CONDIÇÕES
CLÍNICAS VERIFICADAS EM 300 MATRÍCULAS
CONSECUTIVAS.
| Incidência |
Entre
os consulente síndice |
|
Entre
os consangüíneos |
| 1.
“Ausência” psíquica |
97 |
- |
34 |
| 2.
Irritabilidade |
62 |
- |
52 |
| 3.
Enxaqueca |
60 |
- |
38 |
| 4.
Equivalentes comiciais vários |
38 |
- |
25 |
| 5.
Hiperemotividade |
33 |
- |
9 |
|
6.
Aborto espontâneo
|
32 |
(em
115 matriculadascom mais de1 gestação,
donde 32:115) |
49 |
| 7.
Terror noturno |
32
|
(em
84 menores, 32:84) |
12 |
| 8.
Convulsões apenas na infância
|
27 |
- |
51 |
| 9.
Convulsões atuais |
26 |
- |
31 |
| 10.
Desajustamento |
18 |
- |
19 |
| 11.
Ligações ilegítimas |
16 |
- |
12 |
| 12.
Neurose |
15 |
- |
05 |
| 13.
Parto de natimorto |
15
|
(como
sub 6, donde 15:115) |
26 |
| 14.
Hiperatividade |
14
|
(como
sub 7, donde 14:84) |
01 |
| 15.
Sonambulismo |
10 |
- |
19 |
| 16.
Disgenesia do sistema nervoso |
08 |
- |
16 |
| 17.
Disgenesia somática |
07 |
- |
12 |
| 18.
Casamento consangüíneo |
07 |
- |
06 |
| Dizigótico |
01 |
1:115 |
39 |
| Monozigóticos |
04 |
2:115 |
17 |
| 19.
Gêmeos zigoticidade ignorada |
- |
Partos
gemelares(como sub 6) |
03 |
| Trigêmeos |
- |
- |
- |
| Total |
06 |
11:115 |
125 |
| 20.
Deficiência Mental |
06 |
- |
05 |
| 21.
Agressividade acentuada |
05 |
- |
15 |
| 22.
Parto operatório |
04 |
(como
sub 6, donde 4:115) |
04 |
| 23.
Eclâmpsia |
04 |
(como
sub 6, donde 4:115) |
09 |
| 24.
Cataplexia do despertar |
03 |
- |
02 |
| 25.
Psicose |
02 |
- |
28 |
| 26.
Prematuros |
01 |
Partos
prematuros, 11:115 |
20 |
| 27.
Homicídio |
01 |
- |
08 |
| 28.
Alcoolismo grave |
00 |
- |
15 |
| 29.
Suicídio |
00 |
- |
06 |
| 30.
Morte durante o parto |
00 |
- |
17 |
| 31.
Longevidade (além de 98 anos) |
00 |
- |
05 |
| Dados
ainda insuficientes |
52 |
- |
84 |
| Fichas
entrosadas e, por isso, não incluídas
na segunda coluna |
- |
- |
37 |
Como
decorrente dessa tabela, anotamos, entre os 300
consulentes – índice, considerados
em conjunto, uma série de manifestações
clínicas, dentre as quais figuram com maior
freqüência as que são reconhecidamente
filiáveis ao ciclo heredológico
da epilepsia: assim, por ordem decrescente, encontramos
aí "ausência" psíquica
em 32%, irritabilidade em 20,6%, enxaqueca em
20%, equivalentes vários, de modalidade
atípica e de significado claramente epileptóide,
em 12,6%, além de convulsões francas
em 8,6% e convulsões apenas na infância
em 9%. Ao lado dessas expressões clínicas
já estabelecidas quanto à diagnose
heredológica, outras ocorrências
assumem freqüência tal que merecem
ser focalizadas mais detidamente; a elas nos reportaremos
dentro em pouco. A indagação da
anamnese heredológica nesse grupo total
de 300 consulentes revelou a incidência
em proporção digna de nota daqueles
mesmos traços, embora em ordem diversa.
Alinhamos tais freqüências, em números
absolutos, na coluna 2 da mesma tabela. Vemos
aí que, entre os 300, se arrolam irritabilidade
mórbida na família de 52 (17,3%),
convulsões durante a infância na
de 51 (17%), aborto espontâneo na de 16,3%
dos consulentes, enxaqueca entre os consangüíneos
de 12,6%, "ausência" psíquica
em relação a 11,3%, convulsões
com referência a 10,3%. Segundo assinalamos
há pouco, esta revisão de dados
clínicos baseada na anamnese dos consulentes
– índice envolve necessariamente
importante causa de erro. Este se verifica, porém,
no sentido da omissão, pois, por um lado,
se trata de características facilmente
acessíveis à observação
do leigo e, por outra parte, só consideramos
presente a condição respectiva quando
o informante não hesita em mencioná-la,
em geral espontaneamente, e quando a ocorrência
era assaz acentuada para não padecer dúvida.
Alguns
dos traços acima referidos se limitam forçosamente
a um grupo particular de consulentes e por isso
só figuram englobados na tabela 1 devido
ao fato de incidirem também na família
dos examinados. Aludimos aos que entendem com
as mães, ou as gestantes que transpuseram
a primeira gravidez – no total de 115 entre
as 300 matrículas aqui consideradas. Neste
conjunto peculiar de consulentes arrolamos dados
que ultrapassam de muito, ao que parece, a incidência
média: respectivamente, aborto espontâneo
em 27,8%, parto de natimorto em 13%, parto operatório
em 3,5% e eclâmpsia igualmente em 3,5%.
Apenas esta última condição
se filia atualmente sem dificuldade ao ciclo heredobiológico
da epilepsia. Mas, o fato de que, entre as consulentes
aí consideradas, predominam elementos a
nosso ver epileptóides, nos leva a supor
que também aquelas três primeiras
ocorrências possam entrar para o mesmo ciclo.
Cumpre ainda salientar duas anotações
relativamente muito freqüentes nessa série
de 115 matriculadas: parto de prematuro e parto
de gêmeos, cada qual com a incidência
de 9,6%. Não dispomos ainda de cifra de
referência para com a primeira ocorrência,
mas podemos afirmar que o nascimento de gêmeos
é muito mais comum nesse grupo do que na
população média.
Assim
é que encontramos, nas estatísticas
correspondentes que fazem fé, a proporção
de 1,2% de gêmeos sobre o total de partos:
a de Hellin, em 1895, estabelece – segundo
refere Mayer – a freqüência de
1:80 e a de Stock a de 1:83. O fato de ser esta
última computada sobre quase 29 milhões
de partos registrados em países diversos
– Inglaterra e Gales, Canadá, Estados
Unidos da América do Norte – e entre
1931 e 1978, e o de concordar com o postulado
de Hellin, mostram que este assinala fenômeno
biológico não sujeito a variações
regionais. Comparado a esta proporção
de 1,2% o índice de geminação
que anotamos entre as 115 matriculadas da tabela
1 aparece muito elevado. Efetivamente, revendo
as fichas anamnésticas sob esse aspecto
particular, apuramos até agora 11 partos
de gêmeos no total de 325
(b) , o que perfaz a proporção
de aproximadamente 3,4%. Embora o material clínico
aqui considerado seja muito pequeno e ainda careçamos
de análise estatística, supomos
que o desvio não deva ser atribuído
a fatores meramente ocasionais.
Igualmente
digno de nota parece-nos o índice de natimortos
em relação a essas 115 consulentes:
a revisão, ainda não ultimada, revela
28 ocorrências dessa ordem sobre o total
de 325 partos, donde a incidência de 8,6%.
Devemos lembrar que tal fenômeno pode estar
ligado a causas eventuais, como a nosso ver o
indica o recente trabalho de Stock acima citado:
para o total de partos revisados ali no período
de 5 anos, ocorriam 26% de natimortos em Inglaterra
e Gales e 2,0% no Canadá. Portanto, para
avaliarmos o significado do número de natimortos
– mencionados naquelas nossas matrículas
dependemos ainda de estatísticas locais.
Essa
incidência elevada de natimortos, de abortos,
de distocia fetal, deve ser analisada detidamente
em relação aos fatores genéticos,
principalmente devido à tendência
médica ainda acentuada em nosso meio para
interpretar as duas primeiras condições
como devidas à sífilis – mesmo
ante a negatividade de reações sorológicas
– e a última como causa de deficiência
mental ou de epilepsia. Não só,
portanto, a assistência médica direta,
mas principalmente a possibilidade de prevenção
eugênica, tornam indispensável à
correta apreciação heredobiológica
de tais fenômenos patológicos. Por
ora, e salvo correção dos achados
mediante a indispensável análise
estatística, a nós nos parece provável
que tais tendências se prendam ao ciclo
de epilepsia.
Outro
grupo que podemos desmembrar do material clínico
aqui considerado, é o dos menores. O estudo
dos traços da personalidade e das várias
ocorrências clínicas correspondentes
é o que resumimos na tabela 2:
Tabela
2
CONDIÇÕES
CLÍNICAS VERIFICADAS EM 84 MATRÍCULAS
DE MENORES.
| Incidência |
Em
números absolutos |
%
sobre o grupo |
| 1.
Terror noturno |
28 |
33,3 |
2."
Ausência" psíquica |
27 |
32,1 |
| 3.
Convulsões sem desencadeante evidente |
22 |
26,2 |
4.
Hiperatividade |
21 |
25,0 |
| 5.
Irritabilidade |
20 |
23,8 |
6.
Sono agitado |
15 |
17,8 |
| 7.
Crises de “birra” |
13 |
15,4 |
8.
Enxaqueca |
13 |
15,4 |
| 9.
Equivalentes comiciais atípicos |
13 |
15,4 |
10.
Hiperemotividade |
13 |
15,4 |
| 11.
Retardo Escolar |
11 |
13,0 |
12.
Rebeldia |
10 |
12,0 |
| 13.
Timidez |
09 |
10,7 |
14.
Repentes de agressividade |
08 |
9,5 |
| 15.
Sonambulismo |
08 |
9,5 |
16.
Déficit de desenvolvimento intelectual |
07 |
8,3 |
| 17.
Convulsões esporádicas |
06 |
7,1 |
18.
Imaturidade afetiva |
06 |
7,1 |
| 19.
Perda de fôlego |
06 |
7,1 |
20.
Reação de pânico |
06 |
7,1 |
21.
Desordens neurológicas discretas |
05 |
6,0 |
22.
Terror noturno pregresso à primeira
consulta |
04 |
5,0 |
23.
Desordens metabólicas |
03 |
3,5 |
24.
Disgenesia do sistema nervoso |
03 |
3,5 |
25.
Enurese noturna |
02 |
2,4 |
Existência
de gêmeos na família |
26 |
30,9 |
Probandos
gêmeos |
03 |
3,5 |
Considerados
esses consulentes como grupo, arrolamos 25 itens
clínicos diversos, dos quais 12 figuram
na tabela 1. Dentre as condições
que se apresentam em mais de um décimo
do grupo (em número de 13), figura em primeiro
lugar o terror noturno, o qual ocorre em mais
de um terço dos matriculados; seguem-se
em freqüência os lapsos de "ausência"
psíquica, as crises convulsivas espontâneas,
a hiperatividade, esta última comum à
quarta parte dos menores. Irritabilidade acentuada
e agitação durante o sono eram mencionadas
em relação, respectivamente, a 21
e 20 dos examinados, ao passo que crises de "birra",
enxaqueca, equivalentes atípicos de natureza
comicial, hiperemotividade, incidiam 13 vezes
cada qual; a seguir, como se vê na tabela
2, arrolam-se, respectivamente, em 11, 10 e 9
instâncias o retardo escolar, a rebeldia
e a timidez.
TABELA
3
DISTRIBUIÇÃO
CRONOLÓGICA DAS MATRÍCULAS DE MENORES
GRUPO CRONOLÓGICO MENINOS MENINAS TOTAL.
| GRUPO
CRONOLÓGICO |
MENINOS |
MENINAS |
TOTAL |
| Anos
e Meses |
Matrícula |
Nº |
Matrícula |
Nº |
|
|
I
N
F
A
N
T
I
L
|
De
1 a 2 anos |
56
80
218 |
3 |
280 |
1 |
4 |
De
2a-1m a 2a-6m |
31
287 |
2 |
175
224 |
2 |
4 |
| De
2a-7m a 3 anos |
52
241 245 288 292 |
5 |
64
137 185 198
293 |
5 |
10 |
De
3a-1m a 3a-6m |
246 |
1 |
39
271 282 |
3 |
4 |
| Total
do Grupo |
11 |
|
11 |
22 |
| |
| P
R
É
-
E
S
C
O
L
A
R |
De
3a-7m a 4 anos |
127
260 |
2 |
153
258 285 |
3 |
5 |
De
4a-1m a 5anos |
21
140
259 300 |
4 |
279
291 |
2 |
6 |
| De
5a-1m a 6anos |
34
201 210 268 269 275 |
6 |
164
254 |
2 |
8 |
De
6a-1m a 7anos |
125
242 299 |
3 |
278 |
1 |
4 |
| Total
do Grupo |
15 |
|
8 |
23 |
| |
| E
S
C
O
L
A
R |
De
7a-1m a 8 anos |
208
227 |
2 |
60
81
142 159 165 186
239 |
7 |
9 |
De
8a-1m a 10 anos |
15
55 98
170
221 230 247
284 286 294 297 |
11 |
9
67
124 154 183 191 |
6 |
17 |
| De
10a-1m a12 anos |
27 |
1 |
90
176 188
232 261 265 277 |
7 |
8 |
De
12a-1m a 14 anos |
41
225 |
2 |
46
235 238 |
3 |
5 |
| Total
do Grupo |
16 |
|
23 |
39 |
| Total
Geral |
42 |
|
42 |
84 |
Tabela 4
CONDIÇÕES CLÍNICAS
SEGUNDO OS GRUPOS DE IDADE MENORES.
|
CONDIÇÕES
CLÍNICAS |
Até
3a-6m |
De
3a-7m a 7a |
De
7a-1m a 14a |
| Total |
% |
Total |
% |
Total |
% |
1.
Terror Noturno |
14 |
77,3 |
9 |
39,1 |
2 |
5,1 |
| 2.
"Ausência" Psíquica |
4 |
18,1 |
6 |
26,0 |
17 |
43,5 |
3.
Convulsões sem desencadeante evidente |
8 |
36,3 |
8 |
35,0 |
6 |
15,4 |
| 4.
Hiperatividade |
12 |
54,5 |
5 |
21,7 |
4 |
10,2 |
5.
Irritabilidade |
2 |
9,0 |
5 |
21,7 |
13 |
33,3 |
| 6.
Sono agitado |
7 |
31,8 |
3 |
13,0 |
5 |
12,8 |
7.
Crises de "birra" |
12 |
54,5 |
1 |
4,2 |
- |
- |
| 8.
Enxaqueca |
- |
- |
1 |
4,2 |
12 |
30,8 |
9.
Equivalentes comiciais atípicos |
4 |
18,1 |
1 |
4,2 |
8 |
20,4 |
| 10.
Hiperatividade |
- |
- |
1 |
4,2 |
12 |
30,8 |
11.
Retardo Escolar |
- |
- |
- |
- |
11 |
28,2 |
| 12.
Rebeldia |
1 |
4,5 |
1 |
4,2 |
8 |
20,4 |
13.
Timidez |
- |
- |
2 |
8,6 |
7 |
17,9 |
| 14.
Repentes de agressividade |
- |
- |
- |
- |
8 |
20,4 |
15.
Sonambulismo |
- |
- |
1 |
4,2 |
7 |
17,9 |
| 16.
Déficit de desenvolvimento intelectual |
2 |
9,0 |
- |
- |
5 |
12,8 |
17.
Convulsões esporádicas |
4 |
18,1 |
2 |
8,6 |
- |
- |
| 18.
Imaturidade afetividade |
- |
- |
- |
- |
6 |
15,4 |
19.
Perda de fôlego |
6 |
27,3 |
- |
- |
- |
- |
| 20.
Reação de Pânico |
3 |
13,6 |
2 |
8,6 |
1 |
2,5 |
21.
Desordens neurológicas discretas |
3 |
13,6 |
1 |
4,2 |
1 |
2,5 |
| 22.
Terror noturno pregresso à primeira
consulta |
- |
- |
- |
- |
4 |
10,2 |
23.
Desordens metabólicas |
- |
- |
- |
- |
3 |
7,7 |
| 24.
Diagenesia do sistema nervoso |
2 |
9,0 |
- |
- |
1 |
2,5 |
25.
Enurese noturna |
- |
- |
1 |
4,2 |
1 |
2,5 |
Existência
de gêmeos na família |
5 |
22,7 |
4 |
17,4 |
17 |
43,5 |
Probandos
gêmeos |
- |
- |
2 |
8,6 |
1 |
2,5 |
Diversas
dessas manifestações clínicas
estão plenamente reconhecidas como integrantes
de constelação heredológica
epiléptica: tais as "ausências"
psíquicas, as convulsões, a irritabilidade
fácil, a enxaqueca, os equivalentes comiciais,
enumerados na tabela 2 sob números 2, 3,
5, 8 e 9. Outras, dessa mesma faixa da tabela,
coincidem na anamnese de nossos examinados, tanto
em referência aos dados pessoais quanto
à luz dos achados familiais – com
numerosos indícios de tendência epileptóide.
Daí a impressão pessoal de que correspondem
também à carga genética dessa
modalidade. Referimo-nos aos itens 1, 4, 6, 7
e 10: terror noturno, hiperatividade, sono agitado,
crises de "birra", hiperemotividade.
Tal hipótese provisória nos guiou
no manejo dos casos clínicos em apreço,
conforme teremos ocasião de salientar adiante,
e com resultados satisfatórios. Entretanto,
repetimos, só nos será dado apreciar
essas correlações adequadamente
quando dispusermos de maior cabedal objetivo e
o houvermos analisado estatisticamente. O mesmo
raciocínio se aplica naturalmente a outras
condições anotadas nessas fichas
com menor freqüência – como registra
a tabela 2 – e cuja significação
heredológica poderá talvez se afirmar
mediante o ajuste estatístico: assim a
imaturidade efetiva, as crises de perda de fôlego
e as reações de pânico. Tais
condições apareceram em menores
em que outras séries de sintomas e traços
de personalidade levavam a suspeitar de carga
epileptóide: em várias dos consulentes
em causa, que já retornaram para a revisão
clínica, a medicação orientada
nesse sentido produziu efeitos benéficos.
Dessa forma, a escassa incidência de tais
condições no grupo a que se refere
a tabela 2 pode depender de fator meramente acidental
e sobretudo do reduzido número de examinados
considerados.
De
fato, a distribuição das várias
condições clínicas entre
os menores matriculados em nosso Serviço,
estudados englobadamente, não exprime de
modo adequado o valor relativo de cada uma delas.
Por esse motivo dividimos os consulentes desse
grupo em três categorias de idade, o que
já nos permite – mesmo carecendo
de apreciação estatística,
segundo já acentuamos – avaliar melhor
o significado clínico de cada uma daquelas
ocorrências. É o que ressalta do
confronto estabelecido na tabela 4, a qual se
refere aos três subgrupos cuja distribuição
por ordem de idade aparece na tabela 3.
Dessa
forma, podemos notar que, no subgrupo médio
da tabela 4, só aparecem as manifestações
clínicas arroladas também em uma
das categorias cronológicas vizinhas; ao
passo que os dois extremos compreendem itens que
lhes são próprios. Ademais, consideradas
as cinco incidências percentuais mais freqüentes
em cada divisão da tabela 4, evidencia-se
maior concordância, grosso modo, entre as
duas primeiras, enquanto a de 7 a 14 anos tende
a aproximar-se, pelo grau de incidência
das rubricas, da disposição encontrada
no grupo geral de 300 consulentes e resumida na
tabela 1. Até o 5º lugar de ocorrência
percentual contam-se, para cada subgrupo, 6 itens,
devido à igualdade de freqüência
de dois destes. A categoria de 3 anos e meio a
7 anos exibe apenas 2 itens em comum com a terceira:
"ausência" psíquica e irritabilidade;
e a que figuram no subgrupo de menor idade –
terror noturno, convulsões, hiperatividade,
sono agitado. Peculiares ao termo cronológico
inicial aparecem aí as crises de "birra"
e de perda de fôlego; e ao de 7 a 14 anos,
enxaqueca, hiperemotividade, retardo escolar,
rebeldia, repentes de agressividade.
Comparada
a ocorrência proporcional dos vários
itens da tabela 4, nota-se que ela assinala a
diversidade de reação entre os três
subgrupos a que nos referimos. No primeiro predominam
os fatores terror noturno (77,3%), hiperatividade
(54,5%), crises de "birra" (54,5%),
convulsões espontâneas (36,5%), sono
agitado (31,8%) e perda de fôlego (27,3%);
no segundo, terror noturno em 39,1%, convulsões
espontâneas em 35,0%, "ausências"
psíquicas em 26,0%, hiperatividade e irritabilidade,
cada qual em 21,7%, sono agitado em 21,7%. Finalmente,
na categoria de 7 a 14 anos, deparamos a seguinte
gradação dos dados principais: "ausência"
psíquica em 43,5%, irritabilidade em 33,3%,
enxaqueca em 30,8%, hiperemotividade igualmente
em 30,8%, retardo escolar em 28,2% e, em cada
qual em 20,4%, rebeldia e repentes de agressividade.
Também entre os menores aqui considerados
se aprecia em percentagem elevada (30,9%) a menção
de gêmeos na família. Esta particularidade
de nosso material clínico nos leva a estudar
mais detidamente semelhante problema, o qual assume,
aliás, importância fundamental nas
pesquisas de genética humana. Desde os
trabalhos iniciais relativos à heredobiologia
e à heredopatologia, os quais dentro em
pouco adquiriram tal predominância nos conhecimentos
científicos que levaram von Verschuer a
erigir a gemelologia em campo médico especial,
até os mais recentes, põem em evidência
a fertilidade de semelhantes verificações.
Elas ensejaram, por um lado, a distinção
entre fatores endógenos e causas ambienciais
em medicina interna, a compressão de entidades
clínicas como a epilepsia e, por outro,
demonstrar que fenômenos biológicos
especiais como a própria geminação
dependem de tendência genética. Em
nosso cabedal clínico aqui mencionado os
dados gemelológicos estão ainda
em início e, por isso, nos limitaremos
a essas alusões incidentes acima.
Ainda
é cedo para avaliarmos objetivamente, mediante
as anotações clínicas sobre
os consulentes a que hoje aludimos, a eficácia
dessa orientação heredobiológica
no setor da higiene mental. Entretanto, os resultados
até agora consignados nas fichas de revisão
nos parecem sugestivos e de molde a justificar
algumas considerações a respeito.
Restringiremos os comentários às
matrículas dos menores porque os fatos
aí aparecem com mais nitidez e se reportam
a menor número de manifestações
clínicas.
Dentre
os menores a que correspondem as tabelas 3 e 4,
64 puderam ser revistos satisfatório número
de vezes porque matriculados antes de julho: desses,
figuram 16 no 1º grupo da tabela 4; 14 no
2º e 34 no 3º. Cotejando as anotações
de revisão com as da respectiva ficha clínica
inicial obtivemos os dados que resumimos a seguir.
Ao
primeiro exame apuráramos a incidência
de terror noturno em 17, dos quais 12 no primeiro
grupo cronológico, 3 no segundo e 2 no
último; havia agitação durante
o sono em 10, dos quais, respectivamente, 5, 2
e 3 naquelas categorias de idade; reações
de pânico em 6 (respectivamente 3, 2 e 1
quanto à distribuição nos
subgrupos); "ausências" psíquicas
em 20 (2: 4: 14), convulsões espontâneas
em 17 (5: 6: 6) e equivalentes diversos, atípicos,
em 9 (3: 0: 6). Em todas essas ocorrências
concluíramos que o essencial era a medicação
tendente a diminuir a excitabilidade do sistema
nervoso: empregamos não só os barbitúricos
menos tóxicos, em doses pequenas e fracionadas,
mas também os derivados hidantoínicos
e a fenilpropana, bem como sedativos preparados
com o grupo urêico (bromural e nevanida).
Igualmente a medicação nos pareceu
fundamental nos 6 consulentes do grupo de 1 ano
a 3,5 sujeitos a crises de perda de fôlego,
bem como para aqueles dos dois grupos seguintes
– respectivamente 1 e 8 – em que diagnosticáramos
enxaqueca: para estes consulentes, da mesma forma
que em referência aos adultos, o preparado
tri-orto-toloxi-propanadiol (Tolserol) foi de
notável eficiência. Em todos os menores
incluídos neste parágrafo os exames
subseqüentes registraram o desaparecimento
da condição mórbida em causa.
Em quatro outras ocorrências clínicas
foi necessária a atuação
medicamentosa, porém, para completar a
orientação psicológica ou,
melhor dito, psicoagógica para com o ambiente
familial. Foram elas a hiperatividade (em que
aquelas subdivisões cronológicas
estavam representadas, respectivamente, com 8,
4 e 3 menores na revisão), as reações
de "birra" (10: 1: 0) e, apenas dentro
da faixa de 7 a 14 anos, repentes de agressividade
em 6 menores, retardo escolar em 9. Dentre os
9 matriculados aqui mencionados, 6 se haviam beneficiados
com a ação terapêutica combinada,
até a data da última revisão.
Com referência a todas as restantes rubricas
o resultado favorável se assinalou para
com a totalidade dos consulentes. A medicação
instituída foi, aqui também, dirigida
principalmente aos componentes epileptóides,
os quais estavam em causa em quase todas as instâncias.
Finalmente,
consideramos o subgrupo de manifestações
em que não havia indicação
para prescrições medicamentosas
e nas quais a reorientação do ambiente
domiciliar e a psicoterapia superficial foram
suficientes. Uma e outra, entretanto, - convém
frisar – se desenvolveram de modo assaz
precário devido a vários fatores:
o escasso nível cultural, o desconforto
e o desamparo econômico do lar proletário
em nosso meio – e é onde provém
a maioria dos consulentes – a inviabilidade
de psicoterapia individual em ambulatório
público do tipo do nosso. Na realidade,
a atuação do Serviço em relação
a este grupo de consulentes consistiu antes em
explicar aos pais o modo de tratá-los nas
diferentes situações de conflito.
Por exemplo, entre os que revelavam hiperatividade,
ao todo 15 (8 na 1ª categoria cronológica,
4 na 2ª, 3 na 3ª) conforme referimos
há pouco, a repressão a todo instante
e o excesso de proteção por parte
dos pais constituíam o principal fator
pelo aspecto ambiental. Na presente rubrica mencionaremos
a rebeldia, a timidez, o desajustamento que se
traduzia em deficiente aprendizado escolar e em
enurese noturna. Com exceção da
primeira condição – que abrangia
consulentes das três subdivisões
de idade (respectivamente – na proporção
de 1:1:5) e da última, em que havia 1 menor
na faixa intermediária – tratava-se
aqui de crianças maiores. Pudemos anotar
melhora acentuada da timidez em 5 dos 6 consulentes
revistos, do contacto com a família e o
ambiente escolar em 3 dos 4 que se haviam mostrado
desajustados – ao passo que o 4º necessitava
do Serviço de Higiene Mental Escolar, para
onde o encaminháramos; desapareceu a enurese
noturna em um dos dois consulentes reexaminados
e a rebeldia, antes acentuada, desapareceu ou
se atenuou marcadamente nos sete que haviam figurado
inicialmente no item respectivo. Seria prematuro,
porém julgar da estabilidade dos resultados.
Desejamos assinalar, a propósito dessas
manifestações clínicas, que
não consideramos essencial aí o
resultado direto acaso conseguido, mas a oportunidade
que oferecem ao Serviço para contatar com
a família do consulente. Esse contato serve
para pôr em evidência, muita vez,
a necessidade de examinar, aconselhar pelo prisma
eugênico e mesmo medicar as pessoas que
nem de leve tomam consciência desses problemas
heredológicos, tais pessoas procuram conselhos
e orientação – quanto ao modo
pelo qual devem nortear as relações
de família e as diferentes questões
relativas à natalidade. E – o que
julgamos de alcance muito maior – não
raro indicam o Serviço a parentes e conhecidos
que necessitam de assistência e orientação
eugênica pré-matrimoniais.
Esta última, a ministração
de conselhos eugênicos pré-nupciais,
deve limitar-se a esclarecer os aspectos heredobiológicos
da união conjugal em perspectiva, sem se
imiscuir em problemas de outra alçada.
É necessário deixá-lo bem
patente. E assim o fazem, em exposição
recente, Gianferrari e Morganti (4):
"Força é, pois, repetir que
aqui consideramos apenas a consulta eugênica
propriamente dita, isto é, relativa à
prognose da transmissão de doenças
hereditárias em senso estrito e entendida
como atuação especialistica médica,
excluída toda outra atividade consultiva
conjugal pré-matrimonial atinente a outras
especialidades médicas ou de ordem moral
ou jurídica".
Com esse espírito procuramos assistir mediante
a orientação eugênica os consulentes
do Serviço de Higiene Mental nos quais
a indagação heredológica
evidencia ser ela oportuna. Na grande maioria
das vezes nossos esclarecimentos são mais
no sentido de tranqüilizar o entrevistado,
pois a apreensão – quase sempre baseada
nos preconceitos leigos ou médicos sobre
transmissão hereditária –
constitui o motivo principal para a consulta espontânea
a nosso Serviço. Assim a genética
humana pode servir à higiene da mente em
duplo sentido: mediante o afastamento direto das
causas de apreensões e a orientação
quanto aos conflitos que originam tensão
emocional e insegurança, mas principalmente
através da profilaxia eugênica.
Naturalmente, o que temos conseguido – escasso
no tocante à qualidade e também
quantitativamente – vale apenas como indício
de quanto a genética médica poderá
realizar quando aplicada ao exame pré-matrimonial.
Por sua vez, este deverá entender-se como
medida sistemática – embora nunca
coercitiva – e entrosada em atuação
preventiva mais ampla, a fim de se tornar eficiente.
Assim procuramos caracterizá-lo em 1945:
"O exame médico pré-matrimonial
deve, pois, a nosso ver, enquadrar-se num tríplice
plano de ação eugênica:
1º) - educar o público,
dando-lhe conhecimentos práticos e acessíveis
sobre a heredologia humana, esclarecendo-o sobre
a função da família como
unidade biológica, econômica e propriamente
social, guiando-o quanto aos meios eficientes
para proteger a caudal biológica da nação;
2º) - modificar, mediante
a colaboração de grupos médicos
propriamente clínicos e higienistas ou
de estudiosos da economia social, o nível
de vida material e social da população;
3º) - agir permanentemente
junto aos poderes públicos para que os
postulados eugênicos possam entrar em ação,
mediante as organizações assistenciais
– especialmente em relação
à família do alienado – ou
a instituição de leis não
draconianas, mas ao contrário, aceitáveis
pelo ambiente como proteção real".
Como
é evidente, o referido programa eugênico
não poderá ser executado desde já
senão quanto à primeira, modalidade.
Torna-se mister que a opinião pública
seja preparada para sentir a necessidade das realizações
que dependem dos poderes governamentais. E essa
fase preparatória, que envolve ao mesmo
tempo assistência médica e esclarecimento,
terá de se desenvolver em Serviços
como o que temos a nosso cargo, enquanto não
haja organizações especialmente
dedicadas à pesquisa médica nesse
domínio particular.
Esperamos
que os dados aqui apresentados possam atrair a
atenção dos colegas para o setor
genético da higiene mental e mostrar a
oportunidade de semelhante método de estudo
e de ação preventiva.
RESUMO
Nos
últimos 25 anos a genética humana
tem assumido importância crescente na medicina
geral e particularmente em psiquiatria. E, a nosso
ver, a higiene mental só se torna eficiente
quando norteada por aquela disciplina. Por ela
orientamos nosso Serviço de Higiene Mental
no Centro de Saúde de Santana, cujos dados
clínicos apresentamos em resumo. Correspondem
eles às primeiras 300 matrículas
no Serviço, dentre as 317 efetuadas de
fevereiro a 15 de julho de 1952
(c). Frisamos que, embora tais
dados sejam coligidos com critério clínico
rigoroso, não foram ainda avaliados estatisticamente
quanto ao aspecto heredobiológico; portanto,
nossas conclusões devem ser encaradas com
as devidas reservas.
Todavia, merecem menção algumas
ocorrências clínicas aí anotadas.
Analisamos hoje apenas o ciclo epileptoide, que
se revelou como predominante na linhagem dos consulentes,
quer adultos, quer menores. Para os demais ciclos
heredológicos ainda não dispomos
de dados suficientes, como indica a tabela 1,
as condições clínicas mais
freqüentes foram "ausências"
psíquicas (32%), irritabilidade (20,6%),
enxaqueca (20%), equivalente comiciais diversos,
atípicos (12,6%), hiperemotividade (11%);
o diagnóstico de neurose ocorreu 15 vezes,
ou seja em 6,9% dos adultos. Os índices
relativos são, porém, mais expressivos:
entre as 115 consulentes que ultrapassaram a primeira
gravidez anotamos aborto espontâneo em 27,8%,
parto de natimorto em 13%, parto operatório
e eclâmpsia, cada qual, em 3,5%. Duas outras
condições merecem relevo neste grupo
especial; parto de prematuro em 9,6% e parto de
gêmeos também em 9,6%. O total de
11 pares de gêmeos se reporta a uma série
de 325 gestações terminadas (d),
o que perfaz o índice de 3,4%, quando na
população média este é
de 1,2%. A tabela 2 reúne as manifestações
mais freqüentes nos 84 menores, 42 de cada
sexo: terror noturno, "ausências"
psíquicas, convulsões, hiperatividade,
irritabilidade aí predominam. Mas as tabelas
3 e 4 mostram que, no grupo cronológico
de 1 ano a 3,5 (22 menores), dominam o terror
noturno (71,3%) a hiperatividade (54,5%), as crises
de "birra" (54,5%), as convulsões
(36,3%); ao passo que no de 7 a 14 anos, com 39
consulentes, prevalecem as "ausências"
psíquicas (43,5%), a irritabilidade (33,3%),
a enxaqueca (30,8%), a hiperemotividade (30,8%).
A compreensão heredobiológica desses
vários elementos clínicos tem permitido
orientar melhor a psicoterapia e o reajustamento
familiar, bem como recorrer simultaneamente à
medicação necessária. A revisão
de 64 menores matriculados até o fim de
junho de 1952 revelou:
1) a psicoagogia foi eficiente
quanto à rebeldia, à timidez, ao
desajustamento, em parte à enurese noturna;
2) foi mister associar-lhe a
medicação nas crises de "birra",
no retardo escolar, na agressividade;
3) a simples medicação
foi eficaz nas "ausências", no
terror noturno, nas reações de pânico,
nas convulsões, na perda de fôlego,
nos distúrbios durante o sono.
BIBLIOGRAFIA
(1)
CAULLERY, M. – Les Conceptions Modernes
de l’Hérédité. Flammarion,
Paris, 1947.
(2) DAHLBERG, G. – Die Tendez zur
Zwillingsgetburt. Acta Genet. Med. Gemellol.,
1:80, 1952.
(3) GEDDA, L. – a)
Studio dei Gemelli. Orizonte Medico. Roma, 1951;
b) Genética, Medicina
e Constituzione. Acta Genet. Med. Gemellol., 1:1,
1952.
(4) GIANFERRARI,L., MORGANTI, G. –
Apunti per uma organizazione eugênica in
Itália. Acta Genet. Med. Gemellol., 1:212,
1952.
(5) KALLMANN, F.J. – a)
Twin studies in relation to adjustive problems
in man. Tr. New York Acad.
(a)
Docente-Livre de Psiquiatria na Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo encarregado
do Serviço de Higiene Mental no Centro
de Saúde de Santana.
(b) Ao enviarmos os originais
para a presente publicação, tal
revisão abrangia 2018 gestações
terminadas, das quais 57 gemelares: o índice
respectivo caíra, portanto, para 2,8%,
conservando-se, todavia, ainda elevado. Devemos
mencionar que várias dentre as consulentes
aí compreendidas – no total de 512
– já haviam completado nova gravidez
por ocasião da revisão (30-12-1955)
– e ainda não tinham comparecido
para verificação.
(c) O total de matrículas
no Serviço era de 2.060 em 31 de dezembro
de 1955.
(d) A proporção
era de 57 partos gemelares - inclusive abortos
- correspondentes a 2.018 gestações
terminadas, quando da revisão das 512 consulentes
desta rubrica, realizada em 30/12/1955. Logo,
índice de 2,8%. |