MANUAL
DO AUXILIAR PSIQUIÁTRICO
Tradução
e adaptação autorizadas do
“Handbook for psychiatric aides”
The Nationa Association for Mental Heath, Inc.
New York, U.S.A.
Hospital
das Clínicas – Clínica Psiquiátrica
Departamento de Neuropsiquiatria da FMUSP
Tradução:
Edith M. Natividade
Nota: o termo AUXILIAR PSIQUIÁTRICO
usado neste Manual refere-se a todas as pessoas que
trabalham junto ao doente mental, com a finalidade de
contribuírem para a sua recuperação.
1.
O Paciente e Você
Você
é Importante
No
hospital psiquiátrico – quer você
seja estudante de enfermagem, auxiliar, atendente ou
técnico – poderá exercer grande
influência no sentido de contribuir para a melhora
do paciente e sua adaptação ao ambiente
hospitalar. Ao contrário dos médicos,
supervisores e enfermeiros-chefe, obrigados a atender
a muitos pacientes e obrigações, você
está em contato diário e constante com
determinados pacientes. Daí o representar papel
importante no ambiente desses pacientes. Você
pode fazer com que o doente se sinta estimado e útil,
pode encorajá-lo constantemente nesses dias,
para ele tão difíceis e penosos. A maneira
pela qual Você o tratar acarretar-lhe-á
saúde ou doença, alegria ou tristeza.
Seja
qual for o seu trabalho, você representa, para
o paciente, muitas coisas – enfermeiros, guarda,
companheiro, conselheiro, instrutor e mensageiro. A
maneira pela qual você desempenhar suas funções
influirá muito sobre o paciente. Com alguns doentes,
conseguirá apenas que cuidem devidamente das
suas necessidades físicas. Quanto a outros, poderá
contribuir para que voltem curados a seus lares, onde
levarão vida normal. Na maioria das vezes, os
resultados obtidos situam-se entre esses dois extremos.
Você precisa ser realista e compreender que não
é possível curar todos os pacientes, mas
se abordar o problema corretamente, terá oportunidade
de elevar o nível de vida de cada um dos pacientes.
Sim,
você é importante na equipe hospitalar.
O seu papel é relevante, não só
na observação como também no tratamento.
Essa importância, entretanto, depende da sua integração
na equipe, nessa organização que luta,
freqüentemente sob condições difíceis,
para aliviar o sofrimento e restabelecer a saúde.
Para que sua contribuição seja realmente
valiosa, você terá necessidade de lançar
mão da sua personalidade, inteligência
e intuição, pois se trata de tarefa que
exige considerável controle emocional, bondade
e capacidade profissional.
Abandone
estas idéias
Ao
começar a trabalhar num hospital psiquiátrico,
talvez você tenha, acerca das doenças mentais,
certas idéias errôneas que deve procurar
corrigir. Se os seus conhecimentos se assemelham aos
da maioria das pessoas, você terá bastante
que aprender, a fim de se por a par dos ensinamentos
científicos atuais neste campo.
| Abandonar
a idéia de: |
E
compreender: |
1.
Que a doença mental seja um mal misterioso,
que não pode ser evitado ou curado. |
1.
Que a doença mental é um tipo
de doença que necessita de tratamento
precoce e adequado, tal qual a moléstia
cardíaca. Ninguém, pois, deve
envergonhar-se dessa doença. |
| 2.
Que a doença mental seja de uma única
modalidade e sempre muito grave. |
2.
Que existem muitas variedades de doenças
mentais; algumas mais, outras menos graves;
algumas que podem ser tratadas a domicílio,
outras em ambulatórios e outras ainda
cujo tratamento requer hospitalização. |
3.
Que a doença mental aparece de repente,
sem aviso prévio. |
3.
Que a doença mental, na maioria das vezes,
desenvolve-se gradualmente, com sintomas premonitórios. |
| 4.
Que as doenças mentais não podem
ser evitadas. |
4.
Que os sintomas de uma doença mental
geralmente podem ser percebidos e que, se lhes
for concedida pronta atenção,
a doença mental poderá freqüentemente
ser evitada. |
5.
Que o choque emocional – com a perda de
entes queridos, as desilusões amorosas,
os desastres financeiros e outras desventuras
– seja a causa das doenças mentais. |
5.
Que os choques emocionais podem favorecer a
instalação da doença, mas,
em tais casos, as suas sementes já estavam
lá, embora ainda não houvessem
despontado; as causas verdadeiras são
muitas vezes ignoradas. |
| 6.
Que os “hospícios” sejam
lugares horríveis e que ser internado
num deles significa nunca mais sair. |
6.
Que os antigos “hospícios”
se transformaram hoje em hospitais, para onde
os pacientes são encaminhados a fim de
se curarem e de receberem cuidados médicos
e de enfermagem. |
7.
Que a droga mental seja sempre hereditária
– uma tara, reveladora de predisposição
constitucional familiar. |
7.
Que algumas modalidades de doenças mentais
têm realmente fundo hereditário,
mas que a maior parte decorre de outras causas,
biológicas, psicológicas e sociais. |
Os
Pacientes são Pessoas Humanas
É
importante que você compreenda como a ciência
considera a doença mental, pois o êxito
do seu trabalho, como auxiliar psiquiátrico,
depende mais da sua atitude do que de qualquer outra
coisa. Embora você possa iniciar o seu trabalho
sem conhecer exatamente a natureza e os métodos
de tratamento da doença mental, importa livrar-se,
desde logo, de idéias errôneas e compenetrar-se
de uma verdade primordial: os pacientes são seres
humanos.
Os
pacientes sob os seus cuidados não são
totalmente diferentes de você e, em muita coisa,
se assemelham. O paciente tem emoções
e idéias, gostos e aversões, esperanças
e receios, tais como os seus. Cada paciente tem sua
personalidade própria e, como todos nós,
passa por fases de alegria e de tristeza, de jovialidade
e de aborrecimento, de amor e de ódio. Bem fará
você, se adotar, em relação aos
doentes, o ponto de vista recomendado pelo Dr. Earl
D. Bond, no “The Attendant”: “Se eu
fosse atendente... estudaria os delírios dos
doentes e tentaria saber no que eles diferem dos meus
próprios devaneios... estudaria a sua obstinação
e teimosia, e as compararia com meu próprio comportamento.
Teria interesse em desvendar os mundos irreais que os
pacientes para si constroem, em saber o que os sonhos
proporcionam àqueles que não conseguem
satisfazer de outra forma os seus anseios... observaria
como, na exaltação, o raciocínio
do paciente fica a mercê de suas emoções,
e me poria a imaginar quantos votos nas eleições
são realmente fruto da lógica e do bom-senso...
Depois de conversar com pacientes vítimas do
delírio de perseguição, por-me-ia
a pensar como qualificar muitas das idéias de
certas pessoas consideradas normais”.
 |
Todos
nós temos as mesmas tendências observadas
nos doentes mentais, com a diferença de que somos
capazes de controlar essas tendências e mantê-las
dentro de limites razoáveis, ao passo que os
pacientes perderam essa capacidade.
Objetividade
– Sensibilidade
Se
for capaz de perceber essas semelhanças e diferenças,
existentes entre você e o doente mental, estará
bem próximo de adotar a atitude que, mais do
que qualquer outra coisa, constitui a chave do êxito
de um auxiliar psiquiátrico. Porque os pacientes
se assemelham a você, ser-lhe-á mais fácil
compreendê-los; porque de você diferem,
ser-lhe-á possível ser objetivo e eficiente
ao atender às suas necessidades.
Durante
o seu primeiro dia de trabalho num hospital psiquiátrico,
você, se for como a maioria das pessoas, ficará
surpreso e comovido – surpreso, com o estado a
que chegaram certos pacientes; comovido, com a sua premente
necessidade de auxílio. Passada a primeira impressão,
a maioria das pessoas não mais se surpreende
e o mesmo lhe acontecerá. A sua eficiência
será prejudicada se você for demasiado
sensível ao sofrimento dos pacientes, se sentir-se
deprimido com o estado dos doentes, perturbado por medo
ou preocupação. É preciso, pois,
que você supere sua hipersensibilidade e se torne
objetivo.
Algumas
pessoas, entretanto, inclinam-se insensivelmente para
a frieza e insensibilidade, atitude esta que você
deverá ter o máximo cuidado de evitar.
A sua eficiência será prejudicada se você
encarar as necessidades e condições do
paciente apenas objetivamente, sem levar em consideração
as suas esperanças e sentimentos, se considerar
o seu trabalho apenas como uma tarefa qualquer. Cedo
você estará fechando os olhos à
negligencia e aos maus tratos, e logo mais, com surpresa
sua estará neles tomando parte. Continue, pois,
a ser sensível.
Atitude
Equilibrada
Você
deverá esforçar-se por adquirir uma atitude
intermediária – nem inteiramente objetiva,
nem inteiramente subjetiva ou sensível em relação
ao seu trabalho. É o equilíbrio a Regra
de Ouro; nem uma, nem outra atitude, mas ambas fundidas
numa disposição harmônica. Ninguém
lhe pode ensinar essa atitude. Mas, você, conhecendo
o perigo de qualquer exagero, poderá adquiri-la
a força de bom-senso. Uma vez atingido esse equilíbrio,
verificará que a maioria das qualidades do bom
auxiliar psiquiátrico se assenta nessa atitude
básica.
O
bom auxiliar psiquiátrico
| Por
sua objetividade |
Por
sua sensibilidade |
Não
mais despreza ou condena os pacientes por seus
atos. |
Lembra-se
de que os pacientes são seres humanos e
os trata como tais. |
| Demonstra
confiança e habilidade profissional. |
Atende
aos pacientes, sem pressa e individualmente. |
Não
se envolve em amizades particulares com pacientes. |
Trata
a todos com cordialidade. |
| Não
dá valor demasiado às observações
dos pacientes. |
Procura,
freqüentemente, ouvir os pacientes com interesse
especial. |
Mantém
serenidade. |
Manifesta
interesse cortês. |
| Cultiva
a paciência, que procede da compreensão. |
Cultiva
a paciência, que também procede do
interesse pelo paciente. |
Controla-se
sem sentimentalismo. |
Manifesta
simpatia e interesse. |
| É
sincero. |
Sem
tacto. |
Estas
são as qualidades importantes que caracterizam
o bom auxiliar psiquiátrico, e todas têm
sua origem numa atitude fundamental em relação
ao seu trabalho: o equilíbrio entre a objetividade
e a sensibilidade.
Sugestões
Afora
certas generalidades, muito pouco você poderá
aprender de seu mister, a não ser trabalhando
na sua própria enfermaria. Auxiliares psiquiátricos
de longa prática elaboraram a lista de sugestões
abaixo, que lhe poderão ser úteis. Você
terá de adaptá-las ao seu caso particular
e às peculiaridades de cada doente, mas as idéias
gerais são boas e úteis.
1.
De seu paciente, seja amigo e não “colega”,
conselheiro e não feitor.
2. Procure imaginar como se sentiria, se fosse um doente
mental e estivesse num hospital psiquiátrico.
3. Lembre-se de que sugestões e pedidos conseguem
muito mais do que ordens.
4. Não se esqueça nunca de que, apesar
da aparência normal de alguns, todos os seus pacientes
são doentes mentais.
5. Aprenda a ouvir bem e com freqüência,
e também com discernimento.
6. Ao dar instruções ao paciente, faça-o
com clareza e à altura de sua compreensão.
7.
Procure conseguir, por todos os meios ao seu alcance,
que os pacientes façam com boa vontade o que
devem fazer.
8. A princípio, sua tendência será
pensar acerca de um paciente, depois passará
a pensar por ele e, finalmente, poderá atingir
a atitude ideal de pensar com ele.
9. Seja sincero e verdadeiro, a fim de que o paciente
possa ter confiança em você. Nunca faça
ameaça ou promessa que não tencione cumprir.
10. O tratamento dos pacientes nunca deverá ser
feito à base do suborno; recompense, mas nunca
procure subornar.
11. Procure conhecer bem seu paciente e disponha-se
a auxiliá-lo a sair do estado em que se encontra.
12. Verifique quais os pacientes que podem cuidar de
si e quais os que não o podem; estimule a independência,
a iniciativa e a auto-suficiência, sempre que
possível.
13. Procure conhecer bem seu paciente, a fim de que
este não lhe cause surpresa. Mesmo assim, de
vez em quando, ele o surpreenderá. Lembre-se
de que, sem ocorrências imprevistas, a rotina
é monótona.
14. Respeite o paciente como a seu semelhante –
não faça observações a seu
respeito quando ele as possa ouvir, não faça
pouco caso de suas solicitações, a menos
que tenha em mira objetivo terapêutico.
15. Respeite o paciente – e também se comporte
de maneira a ser respeitado. Você deverá
ser, para os pacientes, um exemplo: na aparência,
no bom-humor, no autocontrole, no comportamento.
16. Dê atenção a todos os seus pacientes,
inclusive aos que não requerem atenção
especial.
17. Elogie os pacientes quando conseguem realizar algo
de acordo com suas possibilidades.
18. Trabalhe juntamente com os pacientes – a boa
vontade que você manifestar em seu trabalho lhes
servirá de exemplo e os estimulará a maiores
esforços.
19. Não deixe de transparecer diante dos pacientes
reação emocional que venha a sentir –
medo, compaixão, repugnância, irritabilidade,
preocupação.
20. Nunca toque, a menos que seja absolutamente necessário,
em um paciente suscetível de agitar-se; e, quando
o fizer, faça-o com naturalidade e tanta confiança
e cordialidade que o orgulho do paciente não
se sinta ofendido.
21. Depois de qualquer atrito com um paciente, reflita
e estude a situação, para verificar como
a poderia ter conduzido com mais acerto.
22. Lembre-se de que os internados são doentes
e não devem ser censurados por seus atos mórbidos,
do mesmo modo que você não pode ser censurado
por espirrar quando está resfriado.
23. Não discuta com os pacientes os seus negócios
e as suas preocupações.
24. Não se esqueça de que um bom auxiliar
psiquiátrico deve ser, para cada um dos pacientes
da enfermaria, um amigo com senso de responsabilidade.
Quanto
a Você Mesmo
Embora
a sua atitude em relação ao paciente tenha
grande influência sobre o seu trabalho num hospital
psiquiátrico, a sua atitude em relação
a si próprio também é importante.
Você só conseguirá incutir asseio,
segurança ou quaisquer outras boas tendências
em seus pacientes quando demonstrar possuir em si mesmo
essas qualidades. Você deve praticar o que ensina.
Boa
aparência e higiene pessoal são de especial
importância, tanto para o seu próprio bem-estar
como para o de seus pacientes. Esteja sempre asseado,
limpo e bem arrumado; troque freqüentemente de
roupas; evite qualquer vestígio de mau odor corporal
ou de mau hálito; durma com regularidade; reserve
tempo para fazer suas refeições, sem pressa
e descansadamente. Estas são regras simples que
devem ser seguidas por todos e que são de especial
importância para o auxiliar psiquiátrico,
pois se refletem diretamente no exemplo e na paciência
que terá de dispensar aos que estão sob
os seus cuidados. Os distúrbios mentais não
são contagiosos e você não precisa
recear as infecções comuns se se mantiver
asseado e observar as precauções especiais
recomendadas pelo hospital.
Entretanto,
não lhe basta apenas saúde física.
Nada perturba tanto o ambiente hospitalar como um auxiliar
psiquiátrico cuja personalidade seja desarmônica
e impulsiva. Logo observará que os pacientes
reagem de acordo com a sua atitude, devolvendo-lhe o
que você lhes dá. Se de manhã os
tratar com impaciência e, irritabilidade, também
eles as manifestarão o resto do dia; se você
os tratar com bom-humor e cordialidade, eles o tratarão
da mesma forma. A sua adaptação pessoal
é, pois, de extrema importância. Para mantê-la
você deverá levar, fora do seu trabalho,
uma vida equilibrada, que lhe proporcione ampla oportunidade
de recreação, com atividades físicas,
mentais, espirituais e sociais. Esses quatro tipos de
recreação são desejáveis,
embora você possa dedicar-se mais a um deles.
Conquanto tais atividades recreativas sejam importantes,
elas não substituem um bom ajuste pessoal ao
trabalho. Por algum tempo, você conseguiria fugir
à necessidade de se adaptar ao trabalho com os
pacientes, procurando satisfazer-se em atividades externas;
mas no fim de algum tempo, teria de escolher entre adotar
as atitudes e práticas recomendadas ou fracassar
em suas funções.
Lembre-se
de que, como auxiliar psiquiátrico, você
é um elemento básico no hospital - se
você fracassar, isto se refletirá no hospital,
e a saúde física e a felicidade de muitos
serão prejudicadas.
2. Tipos Comuns
de Doenças Mentais
Conheça
seus Pacientes
A
compreensão, essencial a toda relação
construtiva entre seres humanos, é indispensável
no trato com doentes mentais. Uma das principais obrigações
do auxiliar psiquiátrico é aprender a
conhecer os seus pacientes - não apenas de vista
e pelo nome, mas por suas reações e peculiaridades.
Convém observar que nenhum grupo de seres humanos
é tão difícil de se conhecer e
compreender como o dos doentes mentais.
Até
mesmo psiquiatras experientes, de longa prática
e com todos os recursos modernos ao seu alcance, encontram
dificuldade em obter informes precisos sobre o passado
e também sobre as condições atuais
do doente mental comum. Os psiquiatras verificaram que
as doenças mentais podem ser classificadas em
diferentes tipos gerais, aos quais foram dadas denominações
apropriadas (diagnósticos). Os psiquiatras lançam
mão dessas denominações não
tanto para classificar os doentes mentais, que nem sempre
se enquadram exatamente dentro dos diagnósticos
estabelecidos, mas, sobretudo para facilitar a compreensão
dos pacientes e assinalar as características
principais de suas desordens psíquicas.
Assim
é que convém dispor de, pelo menos, alguns
conhecimentos acerca dos vários tipos de doenças
mentais, pois tais noções poderão
auxiliá-los a compreender os pacientes sob os
seus cuidados. Geralmente, você poderá
saber qual o diagnóstico estabelecido e, se souber
o que o mesmo significa, isto lhe será útil.
Descreveremos,
pois, de modo sucinto, algumas doenças (ou diagnósticos)
mais comuns nos hospitais psiquiátricos, apresentando
uma idéia geral das causas, sintomas, reações
comuns, tratamentos especializados e possibilidades
de cura. Apresentaremos, também, algumas sugestões
sobre a melhor forma de dispensar cuidados aos pacientes,
de acordo com os vários quadros clínicos.
Como a maioria dos conhecimentos, este só terá
valor quando aplicado devidamente - pois é possível
que tal não suceda. Este conhecimento auxilia
a compreender os pacientes e a dispensar-lhes cuidados
adequados. Nunca se deverá permitir que informações
sobre a doença do paciente cheguem aos ouvidos
dele ou de pessoas estranhas ao hospital.
É
muito louvável a tendência moderna da enfermagem
de considerar os pacientes de acordo com o seu tipo
de comportamento (agitado, com mania de suicídio,
desasseado, deprimido, etc), ao invés de se preocupar
tão somente com o diagnóstico. Entretanto,
como o diagnóstico é, freqüentemente,
a única informação escrita de que
dispõe o auxiliar psiquiátrico, este manual
procurará explicar-lhe, de maneira sumária,
o significado dos diagnósticos mais comuns, a
fim de habilitá-lo a melhor compreender os seus
pacientes.
Psicoses ligadas à
Arteriosclerose Cerebral e Psicoses Senis
Descrição
Geral
Estes
dois tipos de doença mental, embora não
sejam os mesmos, podem ser considerados em conjunto
porque ambos ocorrem na velhice e, muitas vezes, apresentam
sintomatologia semelhante.
A
arteriosclerose cerebral, provocando alterações
cerebrais, impede uma perfeita circulação
cerebral. Essa doença leva grande número
de pacientes idosos aos hospitais psiquiátricos.
A
senilidade é um processo normal de desgaste,
mas, quando acarreta alterações mentais
e físicas intensas, sobrevém grave comprometimento
da personalidade e quadros psicóticos, dos quais
os mais comuns são a melancolia involutiva e
a demência senil.
Causas
Na
velhice pode instalar-se a arteriosclerose cerebral,
com alterações nos vasos sanguíneos,
comprometimento do cérebro e dos tecidos nervosos,
devidos à deficiência de irrigação
sanguínea. Doenças infecciosas agudas
também favorecem o aparecimento da arteriosclerose
cerebral. A hereditariedade e a tensão física
e mental prolongada parecem contribuir para que, no
processo normal de envelhecimento, ocorra ou não
uma psicose senil. As psicoses da velhice podem evoluir
gradualmente, tornando-se o indivíduo progressivamente
egocêntrico, sem novos interesses, lento nas reações
e contrário às mudanças. Podem,
também, sobrevir repentinamente, em conseqüência
de um choque súbito, tal como a morte de um ente
amado. Existem quadros graves de senilidade - doença
de Alzheimer e doença de Pick - suscetíveis
de se verificarem mesmo em pessoas de idade madura,
havendo casos descritos que surgiram antes dos 45 anos
de idade.
Sintomas
Embora
os sintomas não sejam inteiramente idênticos
na arteriosclerose cerebral e na psicose senil, são
suficientemente semelhantes para que, neste manual,
os consideremos em conjunto.
| Sintomas
Físicos |
Sintomas
Mentais |
Diminuição
da força muscular. |
Irritabilidade
e obstinação. |
| Andar
trôpego e vacilante. |
Redução
ou ausência de interesses vitais. |
Diminuição
gradual da visão e audição. |
Diminuição
da compreensão. |
| Embotamento
geral da senso-percepção. |
Distúrbios
da memória, que se torna diminuída,
principalmente para acontecimentos recentes. O
velho só consegue lembrar-se de fatos antigos. |
Estado
vertiginoso. |
Perda
do controle emocional. |
| Desorientação. |
Freqüentemente,
idéias delirantes de perseguição,
temor de “ser roubado”, impressão
de que lhe faltam ao respeito, avareza, egoísmo,
desconfiança, etc. |
| Na
arteriosclerose cerebral há maior possibilidade
de “acidente vascular cerebral”. |
Tratamento e cura
Na
maioria das vezes, o tratamento resume-se em proteção
e cuidadas gerais. O tratamento é sintomático,
pois que essas moléstias evoluem progressivamente
até a demência final. Não se conhecem
meios de curar nem uma nem outra dessas doenças.
No entanto, uma boa enfermagem e cuidados dietéticos
e higiênicos proporcionam a esses doentes bem-estar
e sensação de maior segurança.
Com
o aparecimento das drogas psicotrópicas, atualmente
usadas em clínica psiquiátrica, numerosos
sintomas dessas moléstias podem ser atenuados
e até mesmo superados, como, por exemplo, agitação
psicomotora, insônia, ansiedade, entre outros.
Como
Cuidar de tais Doentes
Esses
pacientes precisam de vida bem regrada, sem muitas modificações
ou novas experiências. Entretanto, é necessário
que neles se desperte o maior interesse possível,
e que se lhes mantenha a atenção ocupada.
Cumpre dispensar-lhes cuidados contínuos, bondosos
e atentos procurando especialmente neles criar bons
hábitos, que favoreçam suas condições
higiênicas e físicas. Deles não
se deve exigir mais que o necessário à
sua adaptação à vida hospitalar.
Faça-lhes as vontades tanto quanto possível;
se, por exemplo, quiserem usar mais roupas que o necessário,
se acharem que vem da janela uma corrente de ar, ou
se manifestarem quaisquer outros caprichos que possam
ser facilmente satisfeitos sem prejuízo para
eles, atenda-os. Faça limpeza nos guardados que
geralmente acumulam, mas faça-o com delicadeza.
Dedique-lhes atenção especial por ocasião
do banho, tendo sempre em mente que correm o risco de
sofrer uma queda. Os banhos de leito ou de banheira
são, por esse motivo, mais aconselháveis
do que o de chuveiro. Deve-se insistir para que vistam
roupas limpas, pois, freqüentemente se apegam a
roupas que não estão mais em condições
de serem usadas.
Pouco
se conseguirá com discussões. Controle
esses pacientes, mas de maneira a fazer-lhes acreditar
que estão fazendo a própria vontade. Não
espere que eles se lembrem das coisas, pois a sua memória
é fraca. Cuide imediatamente dos seus pequenos
ferimentos e arranhões, pois estes, em tais pacientes,
poderão acarretar a morte. Não concorde
com seus delírios ou alucinações;
mas não os censure, nem deles faça zombaria.
Você poderá proporcionar-lhes maior segurança,
asseverando-lhes que se encarregará de tudo -
mas diga-o com sinceridade, para que suas palavras não
se tornem vazias aos próprios sentidos embotados
desses pacientes.
Sífilis
Cerebral e Paralisia Geral
Descrição
Geral
De
todas as infecções que atacam o homem,
a sífilis é a que produz efeitos mais
devastadores quando invade o cérebro. A sífilis
cerebral e a paralisia geral (abreviada por PG e também
designada por demência paralítica) constituem
dois quadros psíquicos comuns provocados pela
sífilis. São transtornos de base orgânica,
nos quais os tecidos nervosos são lesados pela
infecção. Para os fins deste manual, não
existe maior interesse em esclarecer as diferenças
existentes entre os dois quadros mórbidos. São
doenças mais freqüentes entre os homens
do que entre as mulheres, e aparecem geralmente após
os 35 anos de idade. Atualmente, graças à
facilidade de se estabelecer o diagnóstico precoce
da sífilis pelo exame do sangue e graças
à generalização do uso dos antibióticos,
o combate a essa doença se tornou muito mais
eficiente, tornando-se também muito reduzida
a incidência das formas de neurolúes. O
exame do líquido cefalorraquidiano descobre precocemente
a neurolúes, tornando o seu tratamento mais eficiente.
 |
Causas
Embora
a infecção sifilítica seja indiscutivelmente
a causa desses distúrbios, apenas uma pequena
percentagem dos indivíduos que a contraem apresentam
formas de neurolúes. De dois a trinta anos, e
geralmente de dez a vinte anos, após a instalação
da infecção sifilítica podem surgir
as primeiras manifestações da paralisia
geral. Este longo período de incubação
da lúes faz com que freqüentemente nos cause
surpresa a sua eclosão. A paralisia juvenil resulta
da sífilis transmitida congenitamente dos pais
aos filhos, podendo surgir dos cinco aos vinte anos
de idade; é geralmente considerada mais grave
e de pior prognóstico do que a paralisia geral
do adulto.
Sintomas
Na
sífilis cerebral, há maior probabilidade
de ser preservada a personalidade e os sintomas são
menos pronunciados do que na paralisia geral, que é
uma meningoencefalite crônica à demência
e à morte.
| Sintomas
Físicos |
Sintomas
Mentais |
Cansaço
fácil. |
Falta
de discernimento. |
| Fraqueza
muscular generalizada. |
Perda
de senso-crítico.
Puerilidade. |
Tremor
da língua, dificuldade em articular as
palavras. |
Distúrbios
da memória.
Desorientação. |
| Posteriormente,
linguagem confusa e ininteligível (disartria
e mesmo anartria) |
Freqüentemente,
idéias delirantes de grandeza, de riqueza,
de poder, de força etc. (megalomania). |
Tremores,
dificuldades na escrita. |
Concepções
exageradas em relação à
própria personalidade. |
| Quase
sempre, rigidez pupilar ou perda do reflexo
à luz, e desigualdade pupilar (anisocaria). |
Oscilações
de humor, desde a alegria até a depressão
e a cólera.
Perda dos sentimentos ético-morais. |
Na
fase final, o paciente não pode levantar-se
da cama, descuida-se do asseio e perde o autocontrole. |
Indiferença
e descaso pela família e pelos demais.
Na fase final, completa deterioração
mental (demência paralítica). |
Tratamento e Cura
A
doença, se não for tratada, torna-se cada
vez mais grave e acarreta a morte dentro de dois a cinco
anos. Se for tratada por meios adequados, logo às
primeiras manifestações, pode ser detida
em sua marcha. Com a malarioterapia obtinha-se a remissão
de cerca de metade dos casos tratados. Atualmente, usa-se
a penicilina com grande êxito dando-lhe preferência
em muitos hospitais, que já dispensam o uso da
malarioterapia. Esses tratamentos eliminam o fator causal,
mas não restauram o cérebro e os tecidos
nervosos, onde já tenham sofrido destruição,
por isso quanto mais precocemente forem administrados
melhores serão os resultados obtidos. Embora
muitos desses pacientes fiquem com deficiências
permanentes, o tratamento pode melhorar cerca de dois
terços deles, conseguindo-se que um terço
volte à vida normal.
Como
Cuidar de tais Pacientes
Esses
pacientes são difíceis de serem tratados
devido à sua irritabilidade e ao fato de, freqüentemente,
não aceitarem quaisquer justificativas para sua
internação. Entretanto, são geralmente
sugestionáveis e, com tato, podem ser tratados
mais facilmente. Quando a moléstia estiver muito
adiantada, os cuidados consistem principalmente em:
impedir a formação de escaras, que surgem
com a permanência prolongada no leito (é
o paciente que está mais sujeito a elas); banhá-lo
e fazer-lhe massagens, para evitar a paralisia dos pés
e das mãos; supervisionar-lhe a alimentação,
pois esse paciente engasga com facilidade a não
ser que os alimentos sejam pastosos ou líquidos;
auxiliá-lo nas funções eliminatórias,
levando-o regularmente ao sanitário ou trazendo-lhe
a comadre; evitar que o doente, nessas condições,
se entregue a atividades que possam produzir fraturas
de ossos, que se tornam frágeis. Os paralíticos
gerais muitas vezes morrem durante ou logo após
convulsões e também são sujeitos
a derrames cerebrais, necessitando, portanto, de cuidados
especiais e de certa vigilância. Após o
tratamento médico, cumpre despertar interesses
no paciente e procurar readaptá-lo à vida
normal.
Alcoolismo - Psicoses Alcoólicas
Descrição
Geral
Estas
psicoses podem assumir aspectos diversos, dependendo
do tipo de personalidade do paciente e da sua reação
ao álcool. O Delírio Alcoólico
Agudo é o tipo mais comum. A moderna psiquiatria
considera o uso imoderado do álcool, em muitos
casos, como sintoma de outra perturbação
mental, ou distúrbio de personalidade psicopática.
Causas
O
uso excessivo e prolongado do álcool acarreta
perturbações mentais, causadas diretamente
pela ação do álcool sobre o organismo.
Devemos reconhecer, também, que o uso imoderado
do álcool afrouxa a tal ponto o controle do indivíduo
sobre si próprio que as dificuldades básicas,
anteriormente resolvidas com os recursos da sua personalidade,
irrompem como autênticos distúrbios durante
o alcoolismo.
Sintomas
Apresentaremos
os sintomas do Delírio Agudo e indicaremos, também,
as diferenças entre essa perturbação
e outras formas comuns de distúrbios provocados
pelo alcoolismo.
| Sintomas
Físicos: |
Sintomas
Mentais: |
Excitação,
dificuldade de ser mantido no leito. |
Ansiedade,
inquietação, medo, angústia. |
| Tremores,
especialmente na face, língua e dedos. |
Irritabilidade,
insubordinação, agitação
psicomotora. |
Disartria,
língua saburrosa. |
Idéias
delirantes as mais diversas. |
| Perda
do apetite.
Insônia.
Podem surgir convulsões.
|
Alucinações
auditivas e visuais (zoopsias – vê
pequenos animais ou então animais de
grande porte). |
No delírio
alcoólico agudo, as alucinações
são muito intensas, apresentando o paciente o
chamado delírio onírico. Neste delírio
o doente vive como um sonho ou pesadelo, no qual ele
toma parte ativa. É muito comum o chamado "delírio
profissional", no qual o doente age como se estivesse
trabalhando em sua profissão habitual.
Existe
também uma forma chamada psicose de Korsakoff,
que se caracteriza por distúrbios neurológicos
nos membros inferiores (polineurite), distúrbios
da memória e fabulação.
Tratamento
e Cura
A
fase aguda das psicoses alcoólicas geralmente
dura poucos dias. As psicoses alcoólicas quando
tratadas precocemente, em geral evoluem para a cura;
mas, se não lhes for dispensada boa assistência,
podem levar o paciente à morte. Durante o período
de intoxicação aguda, é comum o
aparecimento de graves distúrbios no aparelho
respiratório, que exigem cuidados especializados.
Passada essa fase, o paciente ainda necessita de tratamento
intenso, a fim de se evitar a sua volta ao tóxico.
É, então, recomendável o tratamento
pela psicoterapia, pela hipnose, pelo condicionamento
dos reflexos. Existe também uma série
de medicamentos que provocam reações penosas
no indivíduo, se ele ingerir qualquer quantidade
de álcool. A sua utilização, entretanto,
exige supervisão médica por não
serem destituídos de perigo.
Os
sintomas agudos dos delírios alcoólicos,
sobretudo o delírio onírico, são
rapidamente eliminados, por vezes mesmo até de
modo espetacular no caso de estados confusionais, por
intermédio de drogas psicotrópicas, principalmente
ansiolíticos, sob forma injetável por
via intramuscular.
Curas
permanentes podem ser facilitadas através do
intercâmbio de confiança e estímulo
entre ex-doentes. Como em outras partes do mundo, existem
atualmente no Brasil nas principais capitais, organizações
especializadas, como a Associação Antialcoólica,
"A. A.".
Como
Cuidar desses Pacientes
Durante
o período de agitação, evite qualquer
medida restritiva desnecessária, a fim de impedir
que o paciente se excite ainda mais. Procure tranqüilizá-lo
com relação ao medo que sente e às
suas alucinações, e mantê-lo vestido
e agasalhado (ele é muito suscetível de
apanhar resfriados e pneumonia). Durante a convalescença
alguns desses pacientes sentir-se-ão injustificadamente
detidos no hospital, ao passo que outros se mostrarão
prestativos e cordiais. Não contribua para tornar
sua permanência menos agradável, mas não
lhes dê atenção demasiada, nem acredite
muito em suas promessas de regeneração.
Epilepsias
Descrição
Geral
Embora
exista desde os tempos mais remotos, a epilepsia ainda
é fonte de contínuos estudos e pesquisas.
É caracterizada por perturbações
periódicas e súbitas da consciência,
com ou sem convulsões. A tendência moderna
é considerar a epilepsia como sintoma e não
como doença. Quase sempre, não acarreta
o rebaixamento das funções mentais - algumas
das personalidades mais marcantes do mundo sofriam de
epilepsia (Cesar, Alfredo o Grande, Napoleão,
Machado de Assis, o pintor Van Gogh e outros).
Causas
As
causas desse quadro vão aos poucos sendo desvendadas.
A epilepsia não é hereditária;
o que se transmite é a disritmia cerebral, que
constitui fator predisponente. Traumatismos cerebrais,
perturbações orgânicas e choques
emocionais são fatores que podem acarretar a
eclosão da epilepsia, se a pessoa tiver tendência
à mesma.
Sintomas
Embora
não se possa estabelecer um tipo padrão
dentro do qual se enquadram as epilepsias em geral,
o epiléptico hospitalizado é quase sempre
agressivo e egocêntrico, irritável, pouco
merecedor de confiança, egoísta e arrogante.
É viscoso, pegajoso e falador. Os epilépticos
sofrem comumente de ataques e convulsões, outras
vezes apresentam "equivalentes" e "ausências".
São também vítimas de um estado
chamado "crepuscular", precedido ou não
de crise convulsiva, o qual é de grande periculosidade
para o doente e para os que o cercam. São comuns
os atos anti-sociais, violentos ou não, durante
os chamados estados crepusculares.
A
convulsão epiléptica segue geralmente
o seguinte curso:
1
- Fase premonitória (aura), na qual o paciente
poderá sentir náuseas, dores, odores,
zumbidos etc., soltando muitas vezes um grito lancinante;
2
- Contração tônica, na qual todos
os músculos ficam tensos e contraídos;
3
- Período clônico, no qual todo o corpo
parece relaxar-se e contrair-se com movimentos bruscos;
4
- Volta lenta à consciência, durante a
qual o paciente se recupera progressivamente até
chegar à normalidade. As convulsões seguem-se,
às vezes, um período de excitação,
em que o doente, apresentando-se com um estreitamento
no campo da consciência, pode tornar-se agressivo
e perigoso, apresentando-se outras vezes em estado confusional,
dito crepuscular.
Tratamento
e Cura
São
prescritos tratamentos medicamentosos, anticonvulsivantes,
dietéticos, psicológicos e psicocirúrgicos,
os quais pode manter o paciente em boas condições
e permitir-lhe adaptar-se o suficiente para levar vida
normal, a despeito do mal que o aflige.
Como
Cuidar desses Pacientes
Geralmente
é difícil lidar com esses pacientes. É
aconselhável ter-se sempre em mente: que o doente
poderá ter uma crise, a qualquer momento; que
é mais fácil conseguir a sua cooperação
com instruções positivas do que com restrições
ou proibições; que desviar-lhe a atenção
e procurar ocupá-lo em atividades benéficas
é a única maneira de afastá-lo
de tendências mórbidas. Se você conseguir
incutir-lhe sentimento de segurança, se conseguir
convencê-lo de que é estimado e útil,
sem reforçar sua tendência dominadora,
ele poderá ser de grande auxílio na enfermaria.
No
caso de convulsões, os cuidados devem ser os
seguintes: deixe o paciente estirado no chão
ou na cama; não lhe restrinja os movimentos;
desaperte-lhe a roupa; coloque um travesseiro ou toalha
sob sua cabeça e procure evitar que ele se machuque.
Se possível, quando ele abrir a boca, antes da
fase clônica ou do terceiro período, introduza
nela um rolo de borracha, envolto em gaze ou toalha,
colocando-o entre os dentes, a fim de impedir que o
paciente morda a língua. Quando cessarem os movimentos
e o paciente recuperar a consciência, coloque-o
na cama, mude-lhe a roupa e mantenha-o sob observação
até que esteja dormindo profundamente ou recupere
clara consciência. Observe então cuidadosamente
o paciente, porque, após a convulsão,
ele poderá atravessar perigosa fase de excitação.
Tente sempre observar as condições e as
circunstâncias em que se deu o ataque, com o objetivo
de evitar, se possível, novas ocorrências.
O diagnóstico e o tratamento das epilepsias exige
hoje o exame eletrencefalográfico. Pelo traçado
obtido, o médico orientar-se-á com relação
ao diagnóstico e ao tratamento mais indicado.
Atualmente existem numerosas drogas anticonvulsivantes
e anti-epilépticas e, por isso, o tratamento
desses pacientes torna-se cada vez mais satisfatório,
podendo-se mesmo afirmar serem raras as epilepsias que
não podem ser controladas em seus sintomas.
Oligofrenias
Idiotia,
Imbecilidade, Debilidade Mental
As
oligofrenias são enfermidades que se caracterizam
por uma deficiência global de toda atividade psíquica.
Os oligofrênicos são freqüentemente
classificados de acordo com seu nível de desenvolvimento
mental: o idiota (1 a 3 anos), o imbecil (3 a 6 anos),
o débil mental (9 a 12 anos). A deficiência
psíquica pode ser motivada por uma série
de causas que podem ter atuado antes do nascimento (vida
intra-uterina), durante o nascimento (trabalho de parto)
e após o nascimento (vida extra-uterina). As
causas podem ser as mais variadas: hereditariedade,
alcoolismo dos pais, moléstias da mãe
durante a gestação, traumatismos antes
e durante o parto, sífilis congênita e
numerosas doenças, sobretudo moléstias
infecciosas e traumatismos que podem atingir a criança
durante os primeiros meses de vida.
Sintomas
Os
sintomas são variáveis, conforme o grau
da deficiência. O idiota não consegue aprender
a falar. O imbecil já consegue aprender a linguagem
de modo relativamente satisfatório. O débil
pode até ser alfabetizado por métodos
especiais. As deficiências dos idiotas e dos imbecis
profundos são tão grandes que pouco se
pode esperar deles. Franco da Rocha costumava ensinar:
"O idiota não consegue entender um recado,
o imbecil vai levá-lo, mas no meio do caminho
dele se esquece, o débil é capaz de levar
e dar o recado". Ao lado das deficiências
mentais, os oligofrênicos costumam apresentar
também numerosas malformações e
defeitos físicos.
Como
Cuidar desses Pacientes
O
temperamento e as reações variam tanto
entre esses pacientes quanto entre as pessoas normais,
de maneira que você deve conhecê-los bem,
a fim de saber como tratá-los. Os idiotas e os
imbecis profundos freqüentemente necessitam ser
cuidados como se fossem criancinhas, ainda que tenham
atingido pleno desenvolvimento físico. Você
deverá ensinar os imbecis e débeis profundos
a executarem tarefas simples e a cuidarem de si mesmos.
O trabalho manual e o serviço de limpeza exercem
sobre eles especial atração. Os débeis
e mesmo os imbecis em grau leve aprendem muito bem a
executar trabalhos manuais não complicados. Sempre
que lhes der uma instrução, seja simples
e claro, e não espere que eles se lembrem por
muito tempo das recomendações recebidas.
Os atrasados mentais educáveis, isto é,
débeis menos pronunciados podem ser tratados,
por meios psico-pedagógicos especiais, em estabelecimentos
hospitalares e em clínicas especialmente a eles
destinadas.
Os
deficientes mentais apresentam freqüentemente episódios
psicóticos, cujo tratamento é idêntico
ao preconizado para síndromes psicóticas
semelhantes, porém de outra natureza. O episódio
psicótico é curado - a debilidade, no
entanto, persiste.
Esquizofrenias
Descrição
Geral
A
denominação de demência precoce
foi primeiro aplicada a essa doença porque se
pensava que só ocorresse na juventude, acarretando
com o correr dos anos completa deterioração
mental (demência); essa denominação
foi substituída por esquizofrenia, que significa
dissolução da personalidade, "personalidade
cindida".
Esta
é uma das formas mais comuns de doença
mental, compreendendo cerca de um quinto das novas internações
e cerca de quarenta por cento da população
dos hospitais psiquiátricos em qualquer momento
dado.
Causas
Desconhecem-se
ainda, com precisão, as causas que a determinam.
Segundo alguns autores, trata-se de doença orgânica;
segundo outros, ela é de origem psíquica,
divergindo, portanto, as opiniões a respeito.
Os partidários de seu fundo psicógeno
atribuem-na ao desajustamento progressivo do indivíduo
ao ambiente. Os que lhe reconhecem uma causa física
salientam que essa perturbação é
geralmente acompanhada de distúrbios glandulares,
má nutrição das células
cerebrais, distúrbios do metabolismo cerebral
e outras dificuldades orgânicas. É provável
que muitos fatores atuem em conjunto, de modo obscuro,
na etiologia dessa doença. Bleuler, o criador
do termo esquizofrenia, atribui a doença a fatores
orgânicos básicos e fatores psicógenos
secundários. O aspecto biotipológico também
é importante, pois a doença atinge de
preferência os indivíduos leptossomáticos
ou astênicos (de corpo delgado), de temperamento
esquizotímico.
Sintomas
Nenhuma
manifestação física específica
é característica da esquizofrenia. Os
sintomas mentais e emocionais dessa perturbação
são graves e característicos: tendência
ao isolamento e à introversão, mau contato
com a realidade (autismo), incertezas, dúvidas,
dificuldade de escolha (ambivalência), perplexidade,
desarmonia no pensamento, ilogismos (desagregação
do pensamento). Podemos classificar a esquizofrenia
em quatro formas ou tipos, embora estes não sejam
claramente definidos e um paciente qualquer possa apresentar
sintomas pertencentes a mais de um tipo.
Sintomas
de esquizofrenia, forma simples:
O paciente mostra-se apático, descuidado, cansando-se
facilmente.
Descuida-se de sua aparência pessoal, de seus
hábitos de higiene.
Torna-se "incapaz de pensar", de concluir
com clareza uma frase iniciada.
Fala coisas "aéreas" e sem sentido.
Permanece em mutismo habitual.
Alheia-se aos interesses comuns da vida.
A
esquizofrenia, forma hebefrênica, além
de sintomas semelhantes aos do tipo simples, manifesta
mais os seguintes:
Tendência a atitudes e expressões afetadas.
Reações emocionais inadequadas (rir ao
falar de coisas tristes, etc).
Alucinações auditivas e idéias
delirantes.
Por vezes, depressão, tristeza, angústia.
Freqüentes crises de agitação psicomotora.
Julga-se muitas vezes sob controle de forças
externas (tais como poderes sobrenaturais ou magnéticos).
Manifesta tendência para reações
sexuais mórbidas (homens e mulheres entregam-se
a práticas exibicionistas e eróticas).
Os
sintomas da esquizofrenia, forma catatônica, são
os seguintes (além de alguns comuns à
forma simples):
Rigidez muscular, resistência aos movimentos,
negativismo, mutismo.
Tendência a permanecer numa só posição,
como se fora uma estátua.
Tendência a repetir palavras, sons, atitudes,
movimentos, gestos etc (estereotipias).
Apesar da sua inércia, imobilidade, apatia e
abulia, o doente pode apresentar impulsos agressivos
de grande violência e completamente inesperados.
Na
forma paranóide poderemos encontrar alguns dos
sintomas que caracterizam outros tipos de esquizofrenia,
mas geralmente o que mais se evidencia é o transtorno
na interpretação da realidade e dos pensamentos
alheios. Os pacientes desse tipo tem freqüentemente:
Idéias de perseguição (às
vezes, aparentemente lógicas).
Idéias de grandeza (julgam-se talentosos, inventores
de aparelhos fantásticos, escolhidos por Deus,
predestinados a dirigir, a fazer reformas de toda espécie).
Essas idéias são freqüentemente acompanhadas
por alucinações.
Porte arrogante e aspecto orgulhoso, irônico,
zombeteiro.
Tendências agressivas motivadas por interpretações
delirantes (vozes imaginárias, que dão
“ordens”).
Tratamento
e Cura
Com
o progresso da doença, o doente tende a manifestar
maior deterioração da personalidade. Os
delírios e alucinações podem dominá-lo
por completo. Algumas vezes essa doença desaparece
sem tratamento (15% curam-se espontaneamente) ou evolui
por surtos. A convulsoterapia, pelo eletrochoque ou
pelo cardiazol, é valiosa no tratamento dessa
afecção. A insulina é utilizada
com muito êxito, em todos os tipos de esquizofrenia,
sendo mesmo o tratamento de escolha. O tratamento pela
insulina requer hospitalização e é
feito segundo técnica especial proposta por Manfredo
Sakel. Atualmente, as chamadas drogas psicotrópicas
(amplictil, neozine, haloperidol, triperidol, melleril,
anatensol depot, stelazine, navane, entre muitas outras)
estão sendo empregadas com relativo sucesso.
Dieta controlada, hidroterapia, terapêutica ocupacional
e recreativa também muito contribuem para restabelecer,
no paciente, os bons hábitos e o equilíbrio
mental. Após a remissão deve sempre ser
empregada a psicoterapia. Nos vários hospitais,
a percentagem de altas, relativa a pacientes que sofriam
dessa afecção e foram tratados convenientemente,
varia de 30 a 90%, com uma percentagem relativamente
pequena de readmissões. Quanto mais cedo o paciente
for tratado, melhor será o resultado obtido.
Dificilmente
um doente esquizofrênico deixará de beneficiar-se
com as modernas terapêuticas. Há casos,
entretanto, sobretudo quando a doença evolui
por tempo considerável, em que ela permanece
estacionária, apresentando o paciente o chamado
"defeito esquizofrênico", que determina
limitações em sua vida familiar, social
e profissional.
Como
Cuidar desses Pacientes
Neles
despertar um interesse sadio por coisas práticas
e pela vida social (especialmente, capricho em sua aparência
pessoal e interesse pelos outros) é a grande
ajuda que o auxiliar psiquiátrico pode prestar
a esses pacientes. Você poderá auxiliá-los
nesse sentido, especialmente quando estiverem sob tratamento.
Ensinar pelo exemplo é geralmente eficiente com
esses pacientes. A leitura, a música, o rádio,
a conversação, são atividades que
auxiliam desde que não alimentem suas idéias
delirantes. Ouça-os contarem seus delírios,
sem criticá-los, nem aceitá-los. Ofereça
outras interpretações para os mesmos fatos.
O trabalho ou a atividade que você proporcionar
ao paciente deverá sempre ter uma finalidade;
e, especialmente, evite qualquer demonstração
de menosprezo. O paciente poderá manifestar crises
imprevistas, determinadas exclusivamente por estímulos
internos, não podendo, portanto, serem totalmente
evitadas. Você precisa estar vigilante ante a
possibilidade de ocorrerem tais reações
súbitas e impulsivas, e sempre pronto a enfrentar
qualquer situação com serenidade e segurança.
Os pacientes necessitam tomar banho com regularidade
e ser estimulados nos seus hábitos de limpeza.
Os doentes pouco asseados devem ser levados ao sanitário
com regularidade (após cada refeição,
por exemplo) para auxiliar a formação
do hábito. A fim de evitar que o paciente ceda
à sua tendência de isolar-se e ficar ensimesmado,
não se deve permitir que ele permaneça
no seu quarto ou retraído e sozinho, mas fazer
com que ele se reúna aos demais e participe ativamente
da vida comunitária da enfermaria. Deve-se evitar
que ele permaneça na mesma posição,
com a cabeça entre os braços ou isolado
em uma cadeira. Os pacientes em estupor não devem
ser descuidados, convindo que se lhes mude de vez em
quando a posição. Lembre-se de que esses
doentes podem estar alertas, ainda que não dêem
demonstração disso, e que podem apresentar
reações inesperadas, por vezes agressivas.
O paciente paranóide poderá ser muito
importuno e desconfiado, e a única atitude adequada
em relação a ele é a de: interesse
amistoso, tolerância e absoluta sinceridade, que
não possa ser interpretada como astúcia
ou ardil, destinado a enganá-lo.
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