Histórico
da emergência e exame
OBJETIVOS
Deixar
o paciente à vontade.
Obter
a informação necessária sobre sua saúde física
e mental de modo a iniciar o controle.
COMO
INICIAR
A
ENTREVISTA
Isto
é muito importante.
A primeira impressão que o paciente tiver de
você é a que freqüentemente ficará.
Tente lembrar que no mínimo os pacientes estarão
se sentindo ansiosos, talvez assustados ou fora de
controle.
Apresente-se
Diga
o seu nome claramente e se dirija ao paciente pelo
nome. Apresente qualquer pessoa que esteja junto com
você, como, por exemplo, estudantes de medicina, enfermeiras,
e solicite a permissão do paciente para que eles permaneçam
na sala.
Conduza o paciente a uma cadeira. Se necessário,
oriente o paciente em tempo e espaço (lembre-se de
que para alguns pacientes isso necessita ser repetido).
Reduzir
a ansiedade
Fazer
o que foi exposto acima ajudará.
Além disso, estes também são pontos importantes:
-
Diga qual o objetivo da entrevista e deixe
o paciente ciente do fato de que você está tentando
ajudá-lo ao máximo.
-
Informe-o do que você já sabe, como por exemplo,
um resumo de dados fornecido por alguém que o tenha
atendido primeiramente (seja cuidadoso com relação
a isso).
-
Alguma declaração que possa demonstrar ao paciente
que você consegue entender os sentimentos dele pode
ajudar. Algo como: "você se sente muito preocupado
por ter que vir aqui?".
Ouvir
Deixe
o paciente falar livremente, pelo menos nos primeiros
minutos.
Mesmo que muito do que foi dito pareça irrelevante,
isso é importante.
Isso demonstra uma disposição para ouvir e
geralmente consegue informações úteis sobre o estado
mental que conduz o restante da entrevista.
Reflexão
Um
estilo reflexivo de entrevista é útil.
No decorrer da
entrevista diga ao paciente o que você percebeu
como sendo seus principais problemas.
Isso permitirá ao paciente esclarecer pontos
fundamentais e confirmar ou refutar o seu entendimento
da situação.
Ficará também demonstrado que você esteve escutando-o
com atenção.
O
QUE
PERGUNTAR
Emergências
psiquiátricas raramente podem ser tratadas com pressa.
Entrevistas e levantamentos adequados e completos
economizam tempo.
Não ceda à pressão de agir rapidamente, não
interessando se esta vem do paciente, de seus parentes
ou mesmo de colegas.
Mantenha a entrevista razoavelmente estruturada.
Desta
forma, há uma possibilidade menor de detalhes
importantes serem omitidos.
O
objetivo é responder algumas questões-chave:
-
Quais são os principais problemas no momento?
-
Existe algum ou alguns mais abruptos?
-
Por que o paciente está vindo agora (e não
na noite / semana passada?).
-
O paciente procurou ajuda em algum outro lugar?
-
Que assistência já foi dada?
-
Qual a expectativa que o paciente tem destas
consultas?
Em
uma emergência o histórico precisa ser claro e as
perguntas acima podem ajudar a consegui-lo.
As informações a seguir podem ser úteis:
-
Histórico psiquiátrico:
.
Esta vinda é similar a outras vindas?
.
Que tratamento funcionou anteriormente?
.
Dados do passado sobre auto-injúria.
-
Histórico clínico:
.
O paciente tem algum problema médico que possa explicar
esta vinda?
.
Existe alguma contra-indicação médica ao tratamento
por você proposto? Por exemplo, histórico de bloqueio
cardíaco é contra-indicação para tratamento com antidepressivos
tricíclicos.
.
Algum efeito colateral ou toxicidade de alguma droga
explicaria esta vinda?
.
Poderia a terapia com remédios utilizada pelo paciente
limitar suas opções de tratamento por possíveis interações
dos princípios ativos?
-
Histórico familiar:
.
Numa vinda inexplicável o histórico da família poderia
fornecer pistas para o diagnóstico?
-
Histórico pessoal:
.
Que
tipo de problemas o paciente teve
no
passado
. Como ele lida com estes problemas?
-
Abuso de álcool e drogas.
-
Situação social:
.
Alguma mudança recente da situação social contribuiu
para o comparecimento?
É
claro que todas essas informações acima não poderão
ser obtidas de todos os pacientes.
Informações obtidas
do paciente devem ser sempre verificadas e
suplementadas entrevistando outras fontes, tais como
clínico geral, parentes se necessário por
telefone.
PONTO
PRÁTICO
Informantes
importantes não devem nunca deixar o hospital sem
antes falar com o médico.
EXAME
DO
ESTADO
MENTAL
A
seguir, uma lista que orienta a avaliação:
-
Aparência e comportamento:
.
Evidência de desleixo.
.
Está vestido de maneira apropriada?
.
Tem
maneiras apropriadas?
.
Qual o nível de atividades motoras?
.
Movimentos anormais?
-
Fala:
.
Observe modo, forma e volume.
.
Ele responde às perguntas de maneira apropriada?
-
Humor:
.
Registre a descrição do humor do paciente.
.
Ansiedade visível, depressão, euforia, exaltação,
raiva.
.
Está de acordo com o assunto e suas expressões faciais?
.
Como o paciente lhe faz sentir?
PONTO
PRÁTICO
Nunca
esqueça de perguntar sobre tendências suicidas.
-
Pensamentos
.
Preocupações
.
Delírios
.
Obsessões
.
Fobias
.
Acontecimentos circunstanciais
.
Respostas fora de contexto
.
Idéias desconexas
.
Fala intermitente
-
Anormalidades de percepção:
.
Alucinações (geralmente auditivas ou visuais, mas
podem ocorrer em qualquer das modalidades sensoriais).
.
Ilusões (comum em casos orgânicos).
.
Perda de vontade e personalidade.
Funções
cognitivas
A
verificação das funções cognitivas em uma emergência
deve levar em conta a idade, a condição física e o
histórico do paciente. Esta verificação deveria ser
mais detalhada num idoso de 75 anos reclamando de
falta de memória do que num jovem de 20 anos com sintomas
de fobia.
Durante
o histórico de qualquer paciente:
-
Verifique o nível de consciência.
-
Esteja alerta para falhas de memória que podem
ser evidenciadas por histórico pobre ou inconsistente.
-
Teste em todos os pacientes:
.
Orientação em tempo e espaço.
.
Capacidade de memória para lembrar um nome e endereço
após 5 minutos.
Testes
cognitivos completos devem ser executados se ocorrer
alguma anormalidade.
-
Teste a capacidade de compreender e transmitir
instruções simples.
-
Teste a memória lógica, por exemplo com uma
sentença de Babcock.
-
Se os dados acima não são concordantes, teste
características localizadas, como, por exemplo, sinais
lobo parietal (veja Department of Psychiatry and Child
Psychiatry:
Institute of Psychiatry and the Maudsley Hospital
London, 1987).
EXAME
FÍSICO
Os
psiquiatras provavelmente erram ao fazer poucos exames
físicos. Só porque o paciente foi encaminhado por
outro médico não significa que o exame físico pode
ser omitido impunemente.
PONTO
PRÁTICO
Nunca
omita o exame físico porque o paciente já foi examinado
por outro médico.
Nós
já tivemos pacientes com hematomas subdurais, ataques
momentâneos de isquemia e mesmo falhas cardíacas mandados
para o nosso serviço como sendo emergências psiquiátricas.
Lembre-se
-
Problemas físicos e psiquiátricos comumente
coexistem.
-
Doenças físicas podem apresentar-se com sintomas
de problemas psiquiátricos (veja tabela 3.1).
-
Doenças físicas podem precipitar doenças psiquiátricas.
| Doença
|
Sintomas
psiquiátricos |
|
Epilepsia
|
Alucinações,
delírios, ataques raivosos, ausências, amnésias,
mudanças de humor, estupor |
|
Problemas cérebro vasculares |
Confusão,
irritabilidade, mudança de personalidade, perda
de memória |
|
Tirotoxicose
|
Ansiedade,
agitação, confusão |
|
Hipotireoidismo
|
Demência,
depressão |
|
Hipoglicemia
|
Ansiedade,
confusão, violência |
|
Síndrome
de Cushing |
Depressão
|
|
Taquiarritmias
|
Ansiedade
|
*
Para uma discussão mais completa das relações entre
problemas físicos e psiquiátricos veja Lishman (1987).
A
tabela 3.1 não é completa e mostra apenas alguns exemplos
de problemas físicos que podem aparecer ao psiquiatra.
Deveria ser suficiente fazer o psiquiatra lembrar
sempre de se perguntar: " preciso fazer
exame
físico neste paciente? ".
Os pacientes dos grupos abaixo devem sempre ser examinados:
-
Os pacientes com sintomas ou sinais de síndromes
orgânicas, por exemplo, desorientação, diminuição
ou flutuação do nível de consciência, perda de memória
ilusões.
PONTO
PRÁTICO .
Nunca
assuma que um paciente sonolento cheirando a álcool
está assim apenas pelo efeito do álcool.
Este tipo de negligência pode levar a desastres.
Pacientes com problemas com álcool podem ter
ferimentos na cabeça, hematomas subdurais, hipoglicemia
e ataques epiléticos.
-
Pacientes vindos pela primeira vez na meia-idade
com psicose.
-
Pacientes com possibilidades relevantes de
problemas físicos - aqui sendo guiado pelo histórico
- como, por exemplo, diabetes, problemas vasculares
ou epilepsia.
-
Qualquer um que necessite de internação deve
passar por exame físico.
-
Pacientes idosos - a associação entre doenças
físicas e mentais é maior com o avanço da idade.
O
QUE NUNCA
PODE
SER OMITIDO
-
Histórico:
.
Lista de problemas anuais com os agravantes;
.
Históricos médicos
e psiquiátricos anteriores;
.
Remédios - prescritos e não prescritos;
.
Álcool;
.
Nome e número do telefone de pessoas-chave para contato,
como, por exemplo, cônjuge, clínico geral.
-
Estado mental:
.
Orientação e nível de consciência;
.
Memória;
.
Sintomas psicóticos;
.
Humor;
.
Disposição e tentativas de suicídio.
-
Social:
.
Para onde irá o paciente se não for internado?
.
Quem estará com ele?
-
Devo fazer um exame físico?