A entrevista de um paciente em crise é similar a
entrevista convencional, exceto pelo potencial senso
de urgências na avaliação do risco para o paciente
e para outros. Deve-se focalizar a queixa
apresentada e as razões pelas quais a consulta ou
a agitação ocorre neste momento. Se
outras pessoas estiverem presentes uma história
suplementar deve ser obtida.
O
relacionamento
entrevistador/entrevistado (empatia) influencia
fortemente no que o paciente diz ou não diz.
Tanto quanto possível, é importante ser franco,
honesto, apoiador, compreensivo, não expressar irritação,
hostilidade ou ameaças.
Não se deve enfrentar o paciente diretamente
nem tomar atitudes punitivas.
Através de uma atitude calma, firme e segura,
deve-se estabelecer limites claros e transmitir
ao paciente a idéia de que se está no controle e
agirá pronta e decisivamente, caso ele se descontrole,
para proteger e evitar ferimentos a si mesmo e a
terceiros.
A auto-estima do paciente é um ponto importante,
deve-se evitar atitudes paternalistas ou críticas,
deve-se tentar fazer esforço verdadeiro para comunicar
uma atitude de respeito e autêntico envolvimento
na solução do problema. Quando o técnico não sabe o que dizer, o melhor enfoque
é ouvir.
As condições (diagnósticos) psiquiátricas mais freqüentemente
associadas à violência incluem distúrbios psicóticos
como esquizofrenia e mania, principalmente se o
paciente está paranóide ou tendo alucinações de
comando, intoxicação ou abstinência de álcool e
drogas, excitação catatônica, depressão agitada,
distúrbios de personalidade caracterizado por fúria
e fraco controle dos impulsos, distúrbios orgânicos,
especialmente se há envolvimento dos lobos frontal
e temporal.
FATORES
DE RISCO
Os fatores que aumentam
a probabilidade de um ataque de violência incluem:
agitação, intenção declarada, ter um plano específico,
a disponibilidade de meios para violência, sexo
masculino, pouca idade (entre 15 e 24 anos), baixa
situação sócio-econômico, fraco sistema de apoio
social, história de tentativas de suicídio e estressores
recentes. Uma história de comportamento violento
é o melhor previsor de violência.
Algumas ameaças de violência podem ser manipuladoras
e sem verdadeira intenção, mas como esta avaliação
é difícil, pelo menos inicialmente, todas as ameaças
são potencialmente verdadeiras.
É preferível errar sempre pelo excesso de
cuidados, pois alguns pacientes ameaçadores e manipuladores,
ao perceberem que não estão sendo levados a sério,
podem cometer atos violentos para provar que deviam
ter sido levados a sério.
Durante a avaliação, deve se ficar atento para qualquer
sinal de violência iminente.
Alterações abruptas no comportamento, fala
ou afetos podem sinalizar uma perda de controle.
Outros sinais incluem atos de violência recente,
dentes e punhos cerrados, ameaças verbais, portar
armas ou objetivos potencialmente utilizáveis como
armas (talheres, cinzeiros) agitação psicomotora
(que é considerada um importante indicador pois
quase sempre precede atos violentos), intoxicação,
delírios paranóides e alucinações de comando.
MANEJO
A primeira e mais importante
medida a ser tomada frente a um paciente em emergência
é PROTEGER-SE.
Tenha
em mente que a violência é sempre uma possibilidade
e não se deixe surpreender por um ato súbito, nem
se coloque em uma situação na qual possa ser agredido,
por exemplo: entrevistar um paciente potencialmente
violento a sós em um consultório pequeno com a porta
fechada.
Fique dentro do campo de visão de outros
membros da equipe.
Pode ser necessário tirar colares e brincos,
nos quais o paciente poderia agarrar-se ou puxar,
e jamais entreviste um paciente que tenha qualquer
tipo de arma.
Nunca
chegue muito próximo a um paciente paranóide, pois
ele pode sentir-se ameaçado. Mantenha-se a
pelo menos um braço de distância de qualquer paciente
potencialmente violento. Não desafie ou enfrente
um paciente psicótico. Esteja alerta
para os sinais de violência iminente.
Sempre deixe uma via de escape aberta para o caso
de ser atacado, e nunca, jamais lhe vire as costas.
A avaliação diagnóstica definitiva deve incluir
os sinais vitais do paciente, avaliação cuidadosa
de risco de suicídio e um plano de tratamento que
proporcione o manejo da potencial violência subseqüente.
Atenciosamente, pode-se oferecer ao paciente opções
de tratamento, como uma conversa para que ventile
seus problemas, medicações, etc.
MANEJO
FARMACOLÓGICO
Quando for necessário utilizar medicação deve-se
valer do princípio da tranqüilização máxima com
mínima sedação.
Os erros mais comuns são: supermedicação,
que pode impossibilitar a avaliação correta; a submedicação,
que não vai controlar a agitação; e a mudança prematura
na medicação, ou seja, utilizar-se de diferentes
medicações em curto espaço de tempo.
Pacientes que já estão em tratamento devem
receber dose adicional da mesma medicação.
Para
pacientes violentos e psicóticos devem ser administrados
antipsicóticos (ATP).
Deve-se evitar ATP de baixa potência, por
exemplo: clorpromazina (Amplictilâ),
que embora mais sedativos, podem trazer maiores
problemas como hipotensão e efeitos colaterais anticolinérgicos.
Antipsicóticos
de alta potência são as drogas habituais de escolha,
que embora causem maiores efeitos colaterais extrapiramidais,
estes são mais facilmente tratáveis com antiparkinsonianos.
A escolha recai sobre o haloperidol (Haldolâ)
5 mg. V.O. ou I.M., que pode ser repetido em 30-60
minutos se não houver melhora.
Não se deve utilizar ATP em pacientes com
febre, porque eles interferem na resolução da febre.
Os benzodiazepínicos (BZD) são indicados se o
paciente não está psicótico,
para evitar o risco dos efeitos colaterais dos ATP.
Também são indicados em caso de intoxicação
ou abstinência de álcool ou drogas por que os ATP
aumentam os riscos de convulsões, por abaixar o
limiar convulsivo.
Os
BZD, por exemplo, Diazepan (Valiumâ)
10 mg, podem ser repetidos em uma hora, a menos
que surjam sinais de intoxicação como ataxia, disartria,
sinais cerebelares e nistagmo.
Eles também podem causar desinibição em alguns
pacientes o que pode ser difícil de diferenciar
de uma piora na agitação.
Nestes casos deve-se suspender os BZD e iniciar
com ATP.
As combinações entre ATP e BZD é seguras e podem
ser mais efetivas que qualquer uma delas isoladamente.
A desvantagem é que é impossível determinar
qual foi realmente efetiva.
SUICÍDIO
DEFINIÇÃO
“Ato consciente de aniquilação auto-induzida, melhor
entendido como uma enfermidade multidimensional
em um indivíduo carente que define uma questão para
a qual o ato é percebido como a melhor solução”
ou simplesmente, a morte intensional auto-infringida.
De forma alguma o suicídio é um ato aleatório
ou sem finalidade, mas representa a saída para um
problema que está causando um intenso sofrimento.
Associados ao sofrimento encontramos
necessidades frustradas ou não satisfeitas, sentimentos
de desesperança, desamparo e impotência, um estresse
insuportável, um estreitamento nas opções percebidas
pelo paciente e um desejo de fuga.
O cenário ideal para o suicídio é composto
de três fatores predisponentes e um gatilho que
desencadeia a ação.
Este gatilho é a idéia de que dor da situação
atual cessa terminando com a própria vida.
Os fatores predisponentes envolvem o ódio
de si mesmo, devido à culpa ou baixa auto-estima;
um estado de agitação, no qual o paciente está tenso
e não consegue pensar com clareza; e a limitação
das forças intelectuais, ou percepção estreitada,
de tal forma que o indivíduo não consegue pensar
mais além da situação imediata.
A maneira de tentar reverter este quadro envolve
reduzir a dor psicológica modificando o ambiente
estressante; construir um apoio realista, reconhecendo
que o paciente pode ter uma queixa legítima; e oferecer
alternativas para o suicídio.
SUICÍDIO
X SAÚDE MENTAL
Entre os pacientes que cometem suicídio, quase 95%
tem uma doença mental diagnosticada, 80% tem um
transtorno de humor, 25% são dependentes de álcool,
15% dos pacientes que tem um destes transtornos
morrem por suicídio.
Apesar de ser uma doença menos comum, a esquizofrenia
responde por 10% dos suicídios.
Pacientes com depressão delirante são quem
apresentam o mais alto risco para suicídio.
O risco de suicídio entre pacientes psiquiátricos
é de 3 a 12 vezes maior que no restante da população.
A idade do suicídio varia em torno dos 30
anos, o que parcialmente deve-se ao início precoce
da esquizofrenia e transtorno de humor.
Durante a primeira semana de internação o risco
é alto, normalizando entre a terceira e quinta semana.
O período após a alta é especialmente perigoso.
O paciente psicótico tende a destruir a rede
de apoio social, e no retorno à comunidade, está
fracamente integrada à sociedade.
O isolamento social, alguma nova adversidade
ou à volta de problemas anteriores pode torná-lo
desencorajado, impotente e desesperançado, estado
de humor ideal para colocar o suicídio em prática.
Após o terceiro mês a taxa de suicídio volta a se
igualar com a população geral.
AVALIAÇÃO
A atitude e os preconceitos morais de quem avalia
um paciente suicida podem influenciar na decisão
do paciente.
Reagir ao paciente de um modo moralista,
crítico, ter reações fortes e negativas sobre a
idéia de alguém tirar sua própria vida aumenta o
risco na mesma proporção das reações negativas.
O avaliador deve ter em mente que o estado suicida
é freqüentemente passageiro, resulta de uma doença
que tem causas tanto orgânicas quanto psicológicas,
e que se o suicídio puder ser evitado, a doença
subjacente será tratada e futuros estados suicidas
serão evitados.
ETIOLOGIA
A etiologia do suicídio envolve fatores sociais,
como aqueles que ocorrem após a dissolução de um
vínculo (suicídio anômico); aqueles cometidos em
benefício de outros para aliviar a carga de alguém
que tem de cuidá-los, um modo de recuperar a honra
(suicídio altruísta); e o sentimento de não estar
integrado no convívio, não ter lugar na sociedade
(suicídio egoísta).
Fatores biológicos estão claramente definidos.
Pacientes deprimidos com níveis baixos de
ácido 5-hidroxindelacético (derivado da Serotonina)
tem risco aumentado para suicídio.
Altos níveis de 17 hidrocortiscoteróides
urinário também elevam o risco para suicídio.
Entre os fatores psicológicos, pessoa com impulsividade
acentuada, dependência de terceiros para manutenção
de auto-estima, principalmente os dependentes insatisfeitos
e ter expectativas irrealistas, os chamados “perfeccionistas”
também ficam com um risco aumentado para suicídio.
EPIDEMIOLOGIA
As taxas internacionais de suicídio variam
em torno de 10-15 por 100.000.
Em alguns países do leste europeu, Escandinávia,
Japão, as taxas chegam a 25 por 100.000.
Nos Estados Unidos, que colocam-se entre
as taxas internacionais, entre 1970 e 1980, houve
mais de 230.000 suicídios, aproximadamente 1 em
cada 20 minutos.
Atualmente, neste país, o suicídio ocupa
a oitava posição entre as causas gerais de morte,
sendo que no grupo etário entre 15 e 24 anos, ocupa
a segunda posição vindo após os acidentes.
Estes números representam apenas os suicídios completados,
sendo que as tentativas de suicídio são estimadas
em 8 a 10 vezes maiores.
CARACTERÍSTICAS
CLÍNICAS
Os homens comentem suicídio com freqüência três
vezes maior que as mulheres.
No entanto, elas tentam quatro vezes mais
que os homens.
Esta taxa mais alta de êxito entre o sexo masculino
está associada aos métodos usados.
Geralmente o fazem usando arma de fogo, enforcamento
ou pulando de locais elevados, enquanto as mulheres
tendem a fazê-lo tomando dosagens excessivas de
medicamentos ou veneno.
As taxas de suicídio aumentam com a idade.
Entre os homens, o número de suicídios completados
é maior após os 45 anos.
Entre as mulheres, esta taxa aumenta após
os 55 anos.
A maioria dos suicídios ocorre entre 15 e
44 anos.
Entre as raças: homens brancos cometem suicídio
duas vezes mais que não brancos.
Dois em cada três suicídios são de homens
brancos.
O casamento, reforçado pelos filhos, diminui significativamente
o risco de suicídio.
Pessoas solteiras, jamais casadas, cometem
suicídio duas vezes mais que pessoas casadas.
Entretanto, pessoas casadas anteriormente,
têm duas vezes mais chance de suicídio que as jamais
casadas.
Estas taxas atingem um pico entre homens
divorciados, chegando a 69 por 100.000.
História de suicídio na família e isolamento social
aumentam o risco de suicídio.
Entre as profissões, quanto mais alta a posição
social, maior é o risco de suicídio, mas, o trabalho
em geral, protege contra o suicídio, que é maior
entre as pessoas desempregadas que entre as pessoas
empregadas.
A saúde física está diretamente relacionada com
a taxa de suicídio.
Em torno de 30% dos suicidas consultaram
médico nos seis meses que antecederam o ato.
Estudos de necropsia mostraram doenças físicas
presentes em 25 a 75% das vítimas de suicídio.
Fatores associados com doença e suicídio
são a perda da mobilidade, que impossibilita atividade
física ocupacional ou recreacional, desfiguramento
e dor crônica intratável.
Contribuem os efeitos secundários como perturbação
nos relacionamentos e perda da situação profissional.
Quem avalia um paciente deve perguntar direta e
exaustivamente sobre ideação suicida e tentativa
anterior.
De forma alguma falar sobre o suicídio pode
induzir um paciente a praticá-lo.
Além disso, uma tentativa de suicídio anterior
é o melhor indicador que um paciente apresenta risco
aumentado para suicídio.
O risco de um paciente fazer uma segunda
tentativa de suicídio é mais alto dentro de três
meses após a primeira tentativa.
Oito em dez pessoas que se mataram dão alarme de
suas intenções e cinqüenta por cento afirmaram abertamente
que desejam morrer.
Ter um plano mentalizado com acesso a meios
letais é um sinal particularmente perigoso.
Outro sinal perigoso vem do paciente que estava
ameaçando suicidar-se, e tornou-se silencioso e
menos agitado.
Na medida em que ele melhora sente-se mais
energizado e pode ter tomado a decisão secreta
de cometer suicídio.