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O MODELO BIOMÉDICO
(continuação
da página anterior)
A
doutrina da etiologia específica influenciou muito o
desenvolvimento da medicina, dos dias de Pasteur e Koch até hoje, ao
transferir o foco da pesquisa biomédica do hospedeiro
e do meio ambiente para o estudo dos microrganismos.
A concepção estreita de doença resultante disso representa
uma séria lacuna da medicina moderna, fato que está
se tornando cada vez mais evidente. Por outro lado,
o conhecimento de que os microrganismos, além de afetarem
o desenvolvimento da doença, podem também causar a infecção
de ferimentos cirúrgicos revolucionou a prática da cirurgia.
Levou primeiro ao desenvolvimento do sistema anti-séptico,
no qual os instrumentos e o vestuário cirúrgicos eram
esterilizados; e, subseqüentemente, ao método asséptico,
no qual tudo o que entra em contato com o ferimento
tem que estar completamente livre de bactérias. Juntamente
com a técnica da anestesia geral, esses avanços colocaram
a cirurgia numa base inteiramente nova, criando os principais
elementos do intrincado ritual que se tornou característico
da cirurgia moderna.
Os progressos em biologia
durante o século XIX foram acompanhados pelo avanço da tecnologia médica. Foram inventados
novos instrumentos de diagnóstico, como o estetoscópio
e aparelhos para a tomada da pressão sanguínea; e a
tecnologia cirúrgica tornou-se mais sofisticada. Ao
mesmo tempo, a atenção dos médicos transferiu-se gradualmente
do paciente para a doença. Patologias foram localizadas,
diagnosticadas e rotuladas de acordo com um
sistema definido de classificação, e estudadas
em hospitais transformados, das medievais "casas
de misericórdia", em centros de diagnóstico, terapia
e ensino. Assim começou a tendência para a especialização,
que iria atingir seu auge no século XX.
A ênfase na definição e localização
precisa de patologias também foi aplicada ao estudo
médico de perturbações mentais, para as quais foi criada
a palavra "psiquiatria".
Em vez de tentarem compreender as dimensões psicológicas
da doença mental, os psiquiatras concentraram seus esforços
na descoberta de causas orgânicas — infecções, deficiências
alimentares, lesões cerebrais — para todas as perturbações
mentais. Essa "orientação orgânica" em psiquiatria
foi incentivada pelo fato de que, em numerosos casos,
os pesquisadores puderam, de fato, identificar origens
orgânicas de distúrbios mentais e desenvolver métodos
bem-sucedidos de tratamento. Embora esses êxitos fossem
parciais e isolados, estabeleceram firmemente a psiquiatria
como um ramo da medicina comprometido com o modelo biomédico.
Isso resultou num desenvolvimento um tanto problemático
no século XX. De fato, mesmo no século XIX, o limitado
êxito da abordagem biomédica na área da doença mental
inspirou um movimento alternativo — a abordagem psicológica
— que levou à fundação da psiquiatria dinâmica e da
psicoterapia de Sigmund Freud, situando a psiquiatria
muito mais perto das ciências sociais e da filosofia.
No
século XX, a tendência reducionista persistiu na ciência
biomédica. Houve notáveis realizações, mas alguns desses
triunfos demonstraram os problemas inerentes a seus
métodos, visíveis desde o início do século, mas que
se tornaram então evidentes para um grande número de
pessoas, dentro e fora do campo da medicina. Isso conduziu
a prática da medicina e a organização da assistência
à saúde ao centro do debate público e evidenciou a muitos
que seus problemas estão profundamente interligados
com as outras manifestações da nossa crise cultural
.
A medicina do século XX caracteriza-se pela progressão da biologia até
o nível molecular e pela compreensão de vários fenômenos
biológicos nesse nível. Com esse progresso, como vimos, a biologia
molecular como forma de pensamento impôs-se às ciências
humanas e, por conseguinte, passou a ser a base científica
da medicina. Todos os grandes êxitos da ciência médica
em nosso século basearam-se num conhecimento detalhado
dos mecanismos celular e molecular.
O
primeiro avanço de envergadura, que realmente resultou
de novas aplicações e elaborações de conceitos do século
XIX, foi o desenvolvimento de uma grande série de medicamentos
e vacinas para o combate às doenças infecciosas. Primeiro
foram descobertas vacinas contra doenças bacterianas
— febre tifóide, tétano, difteria e muitas outras —,
depois, contra doenças provocadas por
vírus. Na medicina tropical, o uso combinado
de imunização e inseticidas (para controlar os mosquitos
transmissores de doenças) resultou na vitória contra
três importantes doenças dos trópicos: malária, febre
amarela e lepra. Ao mesmo tempo, muitos anos de experiência
nesses programas ensinaram aos cientistas que o controle
de doenças tropicais envolve muito mais do que vacinações
e pulverização com produtos químicos. Como todos os
inseticidas são tóxicos para os seres humanos, e como
eles se acumulam nas plantas e nos tecidos animais,
devem ser usados muito judiciosamente. Além disso é
necessária uma detalhada pesquisa ecológica para entender
as interdependências dos organismos e ciclos vitais
envolvidos na transmissão e no desenvolvimento de cada
doença. As complexidades são tais que nenhuma dessas
doenças pode ser completamente erradicada; mas elas
podem ser efetivamente controladas pela habilidosa manipulação
das condições ecológicas.
A
descoberta da penicilina em 1928 precipitou a era dos
antibióticos, um dos períodos mais espetaculares da
medicina moderna; ela culminou na década de 50 com a
descoberta de uma profusão de agentes antibacterianos
capazes de enfrentar uma grande variedade de microrganismos.
Outra importante novidade farmacológica, também da década
de 50, foi uma ampla gama de medicamentos psicoativos,
sobretudo tranqüilizantes e antidepressivos. Com esses
novos medicamentos, os psiquiatras estavam aptos a controlar
uma variedade de sintomas e padrões de comportamento
de pacientes psicóticos sem causar-lhes uma profunda
obnubilação da consciência. Isso ocasionou uma importante
transformação na assistência aos doentes mentais. As
técnicas de coerção externa foram substituídas pelos
sutis grilhões internos do moderno arsenal farmacológico,
o que reduziu substancialmente o tempo de hospitalização
e tornou possível tratar muitas pessoas como pacientes
ambulatoriais. O entusiasmo por esses êxitos iniciais
obscureceu por algum tempo o fato de que os medicamentos
psicoativos apresentam uma série de perigosos efeitos
colaterais; e embora controlem sintomas, não têm, sem
dúvida, efeito algum sobre os distúrbios subjacentes.
Os psiquiatras estão cada vez mais conscientes disso,
e opiniões críticas começam a superar as entusiásticas
virtudes terapêuticas tão apregoadas.
Um
importante triunfo da medicina moderna ocorreu na endocrinologia,
o estudo das glândulas endócrinas
e suas secreções, conhecidas como hormônios, os quais
circulam na corrente sanguínea e regulam uma grande
variedade de funções corporais. O evento mais notável
nesses estudos foi a descoberta da insulina.
O isolamento desse hormônio, somado ao reconhecimento
de que a diabetes estava associada à insuficiência insulínica,
tornou possível evitar a morte quase certa de um número
incontável de diabéticos, permitindo-lhes levar uma
vida normal, com o auxílio de injeções regulares de
insulina. Um outro avanço importante no estudo dos hormônios
ocorreu com a descoberta da cortisona, uma substância
isolada do córtex da glândula supra-renal, e que constitui
um potente agente antiinflamatório. Finalmente, a endocrinologia
propiciou maior conhecimento e compreensão dos hormônios
sexuais, culminando no desenvolvimento da pílula anticoncepcional.
Todos
esses exemplos ilustram tanto os êxitos quanto as deficiências
da abordagem biomédica. Em todos os casos, os problemas
médicos são reduzidos a fenômenos moleculares com o
objetivo de se encontrar um mecanismo central para o
problema. Uma vez entendido esse mecanismo, ele é contra-atacado
por um medicamento que, com freqüência, é isolado a
partir de um outro processo orgânico cujo "princípio
ativo" se diz que ele representa. Ao reduzir desse
modo as funções biológicas a mecanismos moleculares
e princípios ativos, os pesquisadores biomédicos ficam
inevitavelmente limitados a aspectos parciais dos fenômenos
que estudam. Por conseguinte, eles só podem obter uma
visão estreita dos distúrbios que investigam e dos remédios
que desenvolvem. Todos os aspectos que vão além dessa
visão limitada são considerados irrelevantes, no que
se refere aos distúrbios, e são enumerados como “efeitos
colaterais", no caso dos remédios. A cortisona,
por exemplo, ficou conhecida por seus muitos e perigosos
efeitos colaterais, e a descoberta da insulina, embora
extremamente útil, concentrou a atenção de clínicos
e pesquisadores nos sintomas da diabetes, impedindo-os
de investigar suas causas subjacentes. Em vista desse
estado de coisas, a descoberta das vitaminas talvez
possa ser considerada o maior êxito da ciência biomédica.
Uma vez reconhecida a importância desses "fatores
alimentares acessórios”, e estabelecida sua identidade
química, muitas doenças da nutrição causadas por deficiência
vitamínica, como o raquitismo e o escorbuto, puderam
ser curadas com extrema facilidade por mudanças dietéticas
adequadas.
O conhecimento detalhado das funções biológicas em níveis
celulares e moleculares permitiu o desenvolvimento em
larga escala de farmacoterapias e ofereceu enorme contribuição
à cirurgia, possibilitando aos cirurgiões aprimorar
sua arte em níveis de sofisticação além de toda expectativa.
Para começar, foram descobertos os três grupos sanguíneos,
as transfusões de sangue tornaram-se possíveis e desenvolveu-se
uma substância que impede a formação de coágulos sanguíneos.
Esses progressos, juntamente com grandes avanços em
matéria de anestesia, deram aos cirurgiões muito mais
liberdade e tornaram possível que eles se aventurassem
muitíssimo mais. Com o aparecimento dos antibióticos,
a proteção contra infecções tornou-se muito mais eficiente
e possibilitou a substituição de ossos e tecidos danificados
por outros materiais, sobretudo plásticos. Ao mesmo
tempo, os cirurgiões desenvolveram grande habilidade
e destreza no tratamento dos tecidos e no controle das
reações do organismo. A nova tecnologia médica permitiu-lhes
manter processos fisiológicos normais, mesmo durante
prolongadas intervenções cirúrgicas. Na década de 60,
Christiaan Barnard transplantou um coração humano, e
outros transplantes de órgãos se seguiram com graus
variáveis de sucesso. Com essas conquistas, a tecnologia
médica atingiu um grau de sofisticação sem precedentes
e se tornou onipresente a moderna assistência médica.
Ao mesmo tempo, a crescente dependência da medicina
em relação à alta tecnologia suscitou um certo número
de problemas que não são apenas de natureza médica ou
técnica, mas envolvem questões sociais, econômicas e
morais muito mais amplas.
Na longa ascensão da medicina científica, os médicos
tiveram fascinantes insights dos mecanismos íntimos
do corpo humano e desenvolveram tecnologias num impressionante
grau de complexidade e sofisticação. Entretanto, apesar
desses grandes avanços da ciência médica, estamos assistindo
hoje a uma profunda crise da assistência médica na Europa
e na América do Norte. Muitas razões são apontadas para
o descontentamento generalizado com as instituições
médicas — inacessibilidade de serviços, ausência de
simpatia e solicitude, imperícia ou negligência —, mas
o tema central de todas as críticas é a impressionante
desproporção entre o custo e a eficácia da medicina
moderna. Apesar do considerável aumento nos gastos com
saúde nas últimas três décadas, e em meio aos pronunciamentos
dos médicos acerca do valor da ciência e da tecnologia,
a saúde da população não parece ter apresentado uma
melhora significativa.
A relação entre medicina e saúde é difícil de ser avaliada
porque a maioria das estatísticas sobre saúde usa o
limitado conceito biomédico de saúde, definindo-a como
ausência de doença. Uma avaliação significativa envolveria
a saúde do indivíduo e a saúde da sociedade; teria que
incluir doenças mentais e patologias sociais. Tal concepção
abrangente mostraria que, embora a medicina tenha contribuído
para a eliminação de certas doenças, isso não restabeleceu
necessariamente a saúde. Na concepção holística de doença,
a enfermidade física é apenas uma das numerosas manifestações
de um desequilíbrio básico do organismo. Outras manifestações
podem assumir a forma de patologias psicológicas e sociais;
e quando os sintomas de uma enfermidade física são efetivamente
suprimidos por intervenção médica, uma doença pode muito
bem expressar-se de algum outro modo.
Com
efeito, as psicopatias e sociopatias tornaram-se agora
importantes problemas de saúde pública. De acordo com
algumas pesquisas, cerca de 25 por cento da população
norte-americana é psicologicamente perturbada e pode
ser considerada seriamente deficiente e carente de atenção
terapêutica. Ao mesmo tempo, verifica-se um aumento
alarmante do alcoolismo, dos crimes violentos, dos acidentes
e suicídios, todos sintomas de saúde social precária.
Analogamente, os sérios problemas de saúde infantil
atuais têm sido vistos como indicadores de doença social,
a par do aumento da criminalidade e do terrorismo político.
Por
outro lado, houve um grande aumento na expectativa de
vida nos países desenvolvidos durante os últimos duzentos
anos, e isso é freqüentemente citado como uma indicação
dos efeitos benéficos da medicina moderna. Contudo,
esse argumento é falacioso. A saúde tem muitas dimensões,
todas decorrentes da complexa interação entre os aspectos
físicos, psicológicos e sociais da natureza humana.
Em suas várias facetas, ela reflete todo o sistema social
e cultural, e nunca pode ser representada por um único
parâmetro, como a taxa de mortalidade ou a duração média
de vida. A expectativa de vida é uma estatística útil
mas não suficiente para medir a saúde de uma sociedade.
Para se obter um quadro mais exato, temos de transferir
nossa atenção da quantidade para a qualidade. O aumento
registrado na expectativa de vida resultou primordialmente
de um declínio da taxa de mortalidade infantil, o que,
por sua vez, está relacionado com o nível de pobreza,
o acesso a uma alimentação adequada e muitos outros
fatores sociais, econômicos e culturais. Sabemos ainda
muito pouco a respeito de como essas múltiplas forças
se combinam para afetar a mortalidade infantil, mas
é evidente que a assistência médica
pouco contribuiu para seu declínio.
Qual
é, pois, a relação entre medicina e saúde? Em que medida
a moderna medicina ocidental foi bem sucedida na cura
de doenças e no alívio da dor e do sofrimento? As opiniões
tendem a variar consideravelmente e levam a um certo
número de afirmações conflitantes. Por exemplo, as seguintes
declarações podem ser encontradas num recente estudo
sobre saúde realizado nos Estados Unidos, patrocinado
pela Fundação Johnson e a Fundação Rockefeller:
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"Desenvolvemos
o mais refinado esforço de pesquisa biomédica
no mundo, e nossa tecnologia médica é insuperável".
John
H. Knowles, presidente,Fundação Rockefeller
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"Na maioria dos casos, somos relativamente ineficientes
na prevenção de doenças ou na preservação
da saúde por intervenção médica."
David
E. Rogers, presidente,Fundação
Robert Wood Johnson |
|
"...o extraordinário, quase inconcebível progresso
que a medicina realizou, de fato, em décadas
recentes..."
Daniel
Callahan, diretor,
Instituto
of Society, Ethics and the Life Sciences,
Hastings-on-Hudson,
Nova York |
| "Estamos, aproximadamente, com a mesma lista
das principais doenças mais comuns com que
o país se defrontou em 1950, e, embora
tenhamos acumulado um notável acervo de informações
acerca de algumas delas neste meio tempo,
tal acumulação ainda é insuficiente para permitir
a prevenção ou a cura completa de qualquer
uma delas."
Lewis
Thomas, presidente,
Memorial
Sloan-Kettering Cancer Center
|
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"As melhores estimativas são de que o sistema
médico (médicos, remédios, hospitais) afeta
cerca de 10 por cento dos índices usuais para
a medição da saúde."
Aaron
Wildavsky, decano,
Graduate
School of Public Policy,
Universidade
da Califórnia, Berkeley
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Estas declarações aparentemente contraditórias tornam-se inteligíveis quando
nos apercebemos de que diferentes pessoas referem-se
a diferentes fenômenos ao falar a respeito do progresso
da medicina. Aqueles que afirmam ter havido progresso
aludem, aos avanços científicos na descoberta de mecanismos
biológicos, associando-os a doenças específicas e ao
desenvolvimento de tecnologias que agirão sobre elas.
Com efeito, a ciência biomédica tem realizado considerável
progresso nesse sentido nas ultimas décadas. Entretanto,
como os mecanismos biológicos só muito raramente são
as causas exclusivas de uma doença, compreendê-los não
significa necessariamente que se fez algum progresso
na assistência à saúde. Logo, aqueles que dizem que
a medicina fez poucos progressos nos últimos vinte anos
também estão certos. Eles estão falando de cura e não
de conhecimento científico. As duas espécies de progresso
não são, é claro, incompatíveis. A pesquisa biomédica
continuará sendo uma parte importante da futura assistência
à saúde, ainda que integrada numa abordagem mais ampla,
holística.
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