O MODELO BIOMÉDICO

 

O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente

autor: FRITJOF CAPRA

 

No decorrer de toda a história da ciência ocidental, o desenvolvimento da biologia caminhou de mãos dadas com o da medicina. Por conseguinte, é natural que, uma vez estabelecida firmemente em biologia a concepção mecanicista da vida, ela dominasse também as atitudes dos médicos em relação à saúde e à doença. A influência do paradigma cartesiano sobre o pensamento médico resultou no chamado modelo biomédico[1], que constitui o alicerce conceitual da moderna medicina científica. O corpo humano é considerado uma máquina que pode ser analisada em termos de suas peças; a doença é vista como um mau funcionamento dos mecanismos biológicos, que são estudados do ponto de vista da biologia celular e molecular; o papel dos médicos é intervir, física ou quimicamente, para consertar o defeito no funcionamento de um específico mecanismo enguiçado. Três séculos depois de Descartes, a  medicina  ainda se baseia, como escreveu George Engel, “nas noções do corpo como uma máquina, da doença como conseqüência de uma avaria na máquina, e da tarefa do médico como conserto dessa máquina” .

Ao concentrar-se em partes cada vez menores do corpo, a medicina moderna perde freqüentemente de vista o paciente como ser humano, e, ao reduzir a saúde a um funcionamento mecânico, não pode mais se ocupar como o fenômeno da cura. Essa é talvez a mais séria abordagem biomédica. Embora todo médico praticante saiba que a cura é um aspecto essencial de toda a medicina, o fenômeno é considerado fora do âmbito científico; o termo “curar” é encarado com desconfiança, e os conceitos de saúde e cura não são geralmente discutidos nas escolas de medicina.

O motivo da exclusão do fenômeno da cura da ciência biomédica é evidente. É um fenômeno que não pode ser entendido em termos reducionistas. Isso se aplica à cura de ferimentos e, sobretudo, à cura de doenças, o que geralmente envolve uma complexa interação entre os aspectos físicos, psicológicos, sociais e ambientais da condição humana. Reincorporar a noção de cura à teoria e à prática da medicina, significa que a ciência médica terá que transcender sua estreita concepção de saúde e doença. Isso  não quer dizer que ela tenha de ser menos científica. Pelo contrário, ao ampliar sua base conceitual, pode tornar-se mais corrente com as recentes conquistas da ciência moderna.

A saúde e o fenômeno da cura têm tido significados diferentes conforme a época. O conceito de saúde, tal como o conceito de vida, não pode ser definido com precisão; os dois estão, de fato, intimamente relacionados. O que se entende por saúde depende da concepção que se possua do organismo vivo e de sua relação com o meio ambiente. Como essa concepção muda de uma cultura para outra, e de uma era para outra, as noções de saúde também mudam. O amplo conceito de saúde necessário à nossa transformação cultural – um conceito que inclui dimensões individuais, sociais e ecológicas – exige uma visão sistêmica dos organismos vivos e, correspondentemente, uma visão sistêmica de saúde². Para começar, a definição de saúde dada pela Organização Mundial de Saúde no preâmbulo de seu estatuto poderá ser útil: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doenças ou enfermidades.”

Embora a definição da OMS seja algo irrealista - pois descreve a saúde como estado estático de perfeito bem-estar, em vez de um processo em constante mudança  e evolução -, ela revela, não obstante, a natureza holística da saúde, que terá de ser apreendida se quisermos entender o fenômeno da cura. Ao longo dos tempos, a cura foi praticada por curandeiros populares, guiados pela sabedoria tradicional, que concebia a doença como um distúrbio da pessoa como um todo, envolvendo não só seu corpo como também  sua mente, a imagem que tem de si mesma, sua dependência do meio ambiente físico e social, assim como sua relação com o cosmo e as divindades. Esses curandeiros, que ainda tratam a maioria dos pacientes no mundo inteiro, adotam muitas abordagens diferentes, as quais são holísticas em diferentes graus, e usam uma ampla variedade de técnicas terapêuticas. O que eles têm em comum é que nunca se restringem a fenômenos puramente físicos, como ocorre no modelo biomédico. Através de rituais e cerimônias, tentam influenciar a mente do paciente, aliviando a apreensão, que é sempre um componente significativo da doença, ajudando-o a estimular os poderes curativos naturais que todos os organismos vivos possuem. Essas cerimônias de cura envolvem usualmente uma intensa relação entre o curandeiro e o paciente, e são freqüentemente interpretadas em termos de forças sobrenaturais canalizadas através do primeiro.

Em termos científicos modernos, poderíamos dizer que o processo de cura representa a resposta coordenada do organismo integrado às influências ambientais causadoras de tensão. Essa concepção de cura envolve um certo número de conceitos que transcendem a divisão cartesiana e que não podem ser formulados de acordo com a estrutura da ciência médica atual. Por isso os pesquisadores biomédicos tendem a desprezar as práticas dos curandeiros populares, relutando em admitir sua eficácia. Tal “cientificismo médico” faz com que se esqueça que a arte de curar é um aspecto essencial de toda a medicina, e que mesmo a nossa medicina científica teve que se apoiar quase exclusivamente nela até algumas décadas atrás pois tinha pouco mais a oferecer em termos de métodos específicos de tratamento.

A medicina ocidental emergiu de um vasto reservatório de curas tradicionais e populares e propagou-se subseqüentemente ao resto do mundo; acabou por transformar-se em vários graus, mas conservou sua abordagem biomédica básica. Com a extensão global do sistema biomédico, vários autores abandonaram os termos “ocidental”, “científica” ou “moderna” e referem-se agora, simplesmente, à “medicina cosmopolita”. Mas o sistema médico “cosmopolita” é apenas um entre muitos. A maioria das sociedades apresenta um pluralismo de sistemas e crenças médicos sem nítidas linhas divisórias entre um sistema e outro. Além da medicina cosmopolita e da medicina popular, ou curandeirismo, muitas culturas desenvolveram sua própria medicina, algumas de elevada tradição. À semelhança da medicina cosmopolita, esses sistemas  - indiano, chinês, persa e outros – baseiam-se numa tradição escrita, usando conhecimentos empíricos, e são praticados por uma elite profissional. Sua abordagem é holística, se não efetivamente na prática, pelo menos na teoria. Além desses sistemas, todas as sociedades desenvolveram um sistema de medicina popular – crenças e práticas usadas no seio de uma família, ou de uma comunidade, que são transmitidas oralmente e não requerem curandeiros profissionais.

A prática da medicina popular tem sido tradicionalmente uma prerrogativa das mulheres, uma vez que a arte de curar, na família, está usualmente associada às tarefas e ao espírito da maternidade. Os curandeiros, por sua vez, são mulheres ou homens, em proporções que variam de cultura para cultura. Não têm  uma profissão  organizada; sua autoridade deriva de seus poderes de cura – freqüentemente interpretados como o acesso deles ao mundo do espírito – e não de um diploma. Com o surgimento da medicina organizada, de longa tradição, entretanto, os padrões patriarcais se impuseram e a medicina passou a ser dominada pelo homem. Isso é verdadeiro tanto para a medicina chinesa ou grega clássica quanto para a medicina européia medieval, ou a moderna medicina cosmopolita.

Na história da medicina ocidental, a conquista do poder por uma elite profissional masculina envolveu uma longa luta que acompanhou o  surgimento da abordagem racional e científica da saúde e da cura. O resultado dessa luta foi o estabelecimento de uma elite médica quase exclusivamente masculina e a intrusão da medicina em setores que eram tradicionalmente atendidos por mulheres, como o parto. Essa tendência está sendo agora invertida pelo movimento das mulheres: elas reconhecem nos aspectos patriarcais da medicina mais uma das manifestações do controle do corpo das mulheres pelos homens, e estabeleceram como  um de seus objetivos centrais a plena participação das mulheres na assistência à sua própria saúde .

A maior mudança, na história da medicina ocidental, ocorreu com a revolução cartesiana. Antes de Descartes, a maioria dos terapeutas atentava para a interação de corpo e alma, e tratava seus pacientes no contexto de seu meio ambiente social e espiritual. Assim como sua visão de mundo com o correr do tempo, o mesmo aconteceu com suas concepções de doença e seus métodos de tratamento, mas eles costumavam considerar o paciente como um todo. A filosofia de Descartes alterou profundamente essa situação. Sua rigorosa divisão entre corpo e mente levou os médicos a se concentrar na máquina corporal e a negligenciar os aspectos psicológicos, sociais e ambientais da doença. Do século XVII em diante, o progresso na medicina acompanhou de perto o desenvolvimento ocorrido na biologia e nas outras ciências sociais.  Quando a perspectiva da ciência biomédica se transferiu do estudo dos órgãos corporais e suas funções para o das células e, finalmente, para o das moléculas, o estudo do fenômeno da cura foi progressivamente negligenciado, e os médicos passaram a achar  cada vez mais difícil lidar com a interdependência de corpo e mente.

O próprio Descartes, embora introduzisse a separação de corpo e mente, considerou, não obstante, a interação entre ambos um aspecto essencial da natureza humana, e estava perfeitamente ciente de suas implicações na medicina. A união de corpo e alma foi o principal tema de sua correspondência com um de seus mais brilhantes discípulos, a princesa Elisabeth, da Boêmia. Descartes considerava-se professor e amigo íntimo da princesa, além de seu médico; e quando Elizabeth não estava bem de saúde e descrevia seus sintomas físicos a Descartes, este não hesitava em diagnosticar que seu mal era devido, predominantemente, à tensão emocional, ou estresse emocional, como diríamos hoje; receitava-lhe, então, relaxamento e meditação, além dos tratamentos físicos. Assim, Descartes mostrou-se muito menos “cartesiano” do que a maioria dos médicos atuais.

No século XVII, William Harvey explicou o fenômeno da circulação sanguínea em termos puramente mecanicistas, mas outras tentativas de construção de modelos mecanicistas para as funções fisiológicas foram muitíssimo menos felizes. No final do século era evidente que uma aplicação direta da abordagem cartesiana não levaria a novos progressos médicos, e surgiram numerosos contra-movimentos no século XVIII, tendo sido o sistema da homeopatia o mais difundido e mais bem sucedido.

O avanço da moderna medicina científica principiou no século XIX com os grandes progressos feitos em biologia. No começo do século, a estrutura do corpo humano, em seus mínimos detalhes, era quase completamente conhecida. Além disso, um rápido progresso estava sendo feito na compreensão dos fisiológicos, graças, em grande parte, aos cuidadosos experimentos realizados por Claude Bernard. Assim, biólogos e médicos fiéis à abordagem reducionista, voltaram suas atenções para entidades menores. Essa tendência desenvolveu-se em duas direções. Uma foi instigada por Rudolf Virchow, ao postular que todas as doenças envolviam mudanças estruturais ao nível celular, estabelecendo assim a biologia celular como a base da ciência médica. A outra direção da pesquisa teve como pioneiro Louis Pasteur, iniciador do estudo intensivo de microorganismos, que passou a ocupar desde então os pesquisadores biomédicos.

A clara demonstração, por Pasteur, da correlação entre bactéria e doença teve um impacto decisivo. Ao longo de toda a história médica, os médicos vinham debatendo a questão sobre se uma doença específica era causada por um único fator ou era o resultado de uma constelação de fatores agindo simultaneamente. No século XIX, esses dois pontos de vista foram enfatizados, respectivamente, por Pasteur e Bernard concentrou-se em fatores ambientais, externos e internos, e sublinhou a concepção de doença como o resultado de uma perda de equilíbrio interno envolvendo, em geral, a concorrência de uma variedade de fatores. Por seu lado, Pasteur concentrou seus esforços na elucidação do papel das bactérias na eclosão da doença, associando tipos específicos de doença a micróbios específicos.

Pasteur e seus seguidores venceram triunfantemente o debate e, em conseqüência, a teoria microbiana da doença – a doutrina de que doenças específicas são causadas por micróbios  específicos – foi rapidamente aceita pelos médicos. O conceito de etiologia[1] específica foi formulado com precisão pelo medico Robert  Koch, que postulou um conjunto de critérios necessários para provar, de maneira conclusiva, que um certo micróbio é o causador de uma doença específica. Esses critérios, conhecidos como “postulados de Koch”, são ensinados desde então nas escolas de medicina.

Havia muitas razões para uma tão completa e exclusiva aceitação do ponto de vista de Pasteur. Uma delas foi o grande gênio de Louis Pasteur, que era não só um notável cientista, mas também um habilidoso e vigoroso polemista, com um talento especial para as demonstrações espetaculares. Uma outra razão foi a eclosão de várias epidemias na Europa nessa época, as quais propiciaram modelos ideais para demonstrar o conceito de causação específica. A razão mais importante, entretanto, foi o fato de que a doutrina da causação específica de doenças ajustava-se perfeitamente à estrutura da biologia oitocentista.

               A classificação lineana das formas vivas estava ganhando aceitação geral no começo do século, e parecia natural estendê-la a outros fenômenos biológicos. A identificação de micróbios com doenças forneceu um método para isolar e definir entidades patológicas; foi estabelecida, assim, uma taxonomia de doenças que não diferia muito da taxonomia de plantas e animais. Além disso, a idéia de uma doença ser causada por um único fator estava em perfeita concordância com a concepção cartesiana dos organismos vivos como sendo máquinas cujo desarranjo pode ser imputado ao mau funcionamento de um único mecanismo.

Na medida em que a concepção reducionista de doença se estabeleceu como princípio fundamental da moderna ciência médica, os médicos deram pouca importância ao fato de as opiniões do próprio Pasteur sobre a questão da causação de doenças serem muito mais sutis do que a interpretação simplista dada por seus seguidores. René Dubos demonstrou de maneira convincente, com a ajuda de muitas citações, que a visão de mundo Pasteur era fundamentalmente ecológica.  Ele tinha consciência do efeito dos fatores ambientais sobre o funcionamento dos organismos vivos, embora não dispusesse de tempo para investigá-los experimentalmente. O objetivo primordial de suas pesquisas sobre doenças era o estabelecimento do papel causativo dos micróbios, mas ele também estava intensamente interessado no que chamava o “terreno”, que era como se referia ao meio ambiente interno e externo do organismo. Em seu estudo das doenças do bicho-da-seda, que o levou à teoria microbiana, Pasteur reconheceu que essas doenças resultavam de uma interação complexa entre o hospedeiro, os micróbios e o meio ambiente, e escreveu, ao completar a pesquisa: "Se eu tivesse que empreender novos estudos sobre doenças do bicho-da-seda, dirigiria meus esforços para as condições ambientais que aumentam seu vigor e sua resistência".

Na sua concepção das doenças humanas, Pasteur mostrava a mesma consciência ecológica. Ele tomou por certo que o corpo saudável exibe uma forte resistência a muitos tipos de micróbios. Ele sabia muito bem que todo e qualquer organismo humano atua como hospedeiro para uma multidão de bactérias, e assinalou que estas só podem causar danos quando o corpo está debilitado. Assim, na opinião de Pasteur, a terapia bem-sucedida depende freqüentemente da habilidade do médico para restabelecer as condições fisiológicas favoráveis à resistência natural. Escreveu Pasteur: "Esse é um princípio que deve estar sempre presente na mente do médico ou do cirurgião, porque pode tornar-se, com freqüência, um dos alicerces da arte de curar". Ainda mais corajosa­mente, Pasteur sugeriu que os estados mentais afetam a resistência à infecção: "Muitas vezes ocorre que a condição do paciente — sua debilidade, sua atitude mental... — forma uma barreira insuficiente contra a invasão dos seres infinitamente pequenos". O fundador da microbiologia possuía uma visão de doença suficiente­mente ampla para antever intuitivamente abordagens corpo-mente da terapia que só muito recentemente foram desenvolvidas e ainda é alvo de suspeitas por parte dos círculos institucionais médicos.

 

     [1] O modelo biomédico é, com freqüência, chamado simplesmente de modelo médico. Entretanto, usarei o termo “biomédico” para distingui-lo dos modelos conceituais de outros sistemas médicos, como o chinês. (N. do A.)

[2] Etiologia, do grego “aitia”, “causa”, é um termo médico que significa “causa (ou causas) de doença”. (N. do A.)